“SONHO POSSÍVEL PARA CRIANÇAS DA FAVELA”, DIZ ALUNA NEGRA DE MEDICINA NO RJ

A carioca Mirna Moreira, 22, lembra-se da reação dos colegas no dia em que obteve nota máxima na disciplina de Anatomia, a mais temida por alunos recém-ingressados no curso de medicina da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

“Eu e uma outra menina? Branca? Gabaritamos a prova dessa matéria. Ninguém se surpreendeu com o desempenho dela, mas comigo foi diferente. Algumas pessoas ficaram surpresas. Ouvi a frase ‘Como assim você conseguiu?'”, recorda.

Negra e cotista, Mirna nasceu e cresceu no Complexo do Lins, conjunto de favelas na zona norte do Rio onde vive até hoje com a família.

“Quero devolver à minha comunidade o que vou aprender no curso de medicina. Quando ponho meu jaleco, prescrevo sonhos”, diz ela sobre a perspectiva de futuro que diz mostrar às crianças da favela.

Recentemente, um post da página Boca de Favela no Facebook sobre Mirna viralizou. Foram quase 79 mil curtidas e mais de 17 mil compartilhamentos. Em depoimento à BBC Brasil, ela falou sobre pobreza, racismo, negritude e empoderamento feminino. Confira:

“Nasci e cresci no Complexo do Lins, conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro. Hoje, aos 22 anos, me sinto uma privilegiada. Por esforço dos meus pais, ele bombeiro, ela telefonista, consegui ter acesso ao estudo e foi por causa deles que hoje faço medicina.

É até engraçado falar em privilégio nas minhas circunstâncias. Mas não são todas as pessoas daqui que têm um sonho e podem concretizá-lo. Sou uma exceção à regra. Fala-se em meritocracia, mas ela é inexistente a partir do momento que nem todo mundo tem as mesmas oportunidades.

Com exceção do primário, sempre estudei em colégio particular. Ganhava bolsas parciais e meus pais se esforçavam para pagar o resto. Quando fiz curso pré-vestibular, a mensalidade era de R$ 2.000. Nunca teria esse dinheiro. Mas conviver com essas duas realidades completamente diferentes me permitiu ter maior senso crítico. Conto nos dedos das mãos, por exemplo, os amigos que frequentavam minha casa durante a escola.

É desafiador ser negro e morar em uma favela no Brasil. Vivo um preconceito duplo. Vez ou outra, sou seguida por seguranças em lojas.

Medicina

E quando decidi cursar medicina, embora sempre tenha tido o apoio dos meus pais, muita gente próxima questionou minha escolha. Me perguntavam: ‘Você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica’.

Entendo em parte esse pensamento. A sociedade diz a nós, negros, que não vamos conseguir. Além disso, continuamos sofrendo com a falta de representatividade. Você entra em um hospital e vê poucos médicos negros. Atores negros ainda são uma minoria nas novelas. E tudo isso apesar de sermos a maioria da população.

Prestei vestibular por três anos até conseguir passar no curso de medicina. Entrei por cotas, mas não estudei menos por isso. Nas vezes que fui reprovada, fiquei muito mal. Sabia que meus pais tinham outras contas para pagar e não poderiam me bancar nessa situação. Mas eles não desistiram do meu sonho. Nem eu.

Escolhi medicina pela arte de cuidar do outro. E pretendo ser médica de família. Não se trata de uma especialização muito divulgada e é até desprezada pelos próprios médicos.

Mas acho que meu envolvimento com essa área diz muito de onde eu venho. Quero devolver à minha comunidade o que me foi dado e atender a quem realmente precisa.

Racismo

Não vou generalizar, mas sempre tem alguém que me olha torto na faculdade. Porque sou negra, moradora de favela e cotista.

No primeiro período, por exemplo, aconteceu um episódio do qual não me esqueço. Eu e uma menina branca fomos as únicas a gabaritar a prova teórica de Anatomia, uma das disciplinas mais temidas pelos alunos. Alguns colegas ficaram surpresos. Disseram que ‘escondi o jogo’ e me perguntaram como eu tinha tirado uma nota daquelas. Por quê? Se as pessoas mal se conheciam, por que tanta surpresa com o meu desempenho e não com o dela?

Recentemente, também fui alvo de um ataque racista na internet. Uma página moderada pelos alunos da Uerj, sem vínculo com a universidade, decidiu fazer um concurso de beleza. Cada curso tinha uma representante –e eu fui escolhida para representar o curso de medicina.

Minha foto recebeu vários comentários racistas. Li coisas do tipo: “Como assim essa preta tá fazendo medicina?” ou “Você vota na negra mas não alimenta macaco no zoológico”.

Decidi registrar uma denúncia na polícia. Mas não houve investigação. Se você não é artista, demora bastante.

Negritude

Acho que essa minha iniciativa foi um reflexo da minha maturidade. Me sinto mais consciente sobre meus direitos. E também resolvi assumir de vez minha negritude, começando pelo meu cabelo.

Desde criança, alisava os fios. Hoje, percebo que fazia isso porque queria me enquadrar. Na escola, minhas amigas eram brancas e tinham cabelo liso.

Mas resolvi parar. Não queria mais ser refém de algo que não me fazia bem. E foi uma ótima surpresa. Meu cabelo é lindo e amo os meus cachos. Antigamente, me embranquecia. Isso acabou. Tenho orgulho de ser negra.

E hoje tenho cada vez mais certeza disso. Há alguns meses, participei de uma ação sobre sexualidade na adolescência para escolas públicas no Morro dos Macacos. Na saída de uma delas, as meninas negras pediram para tirar fotos comigo e elogiaram meu cabelo crespo. Elas me viram como referência.

Isso porque, quando entro na favela de jaleco, não prescrevo apenas remédios, prescrevo sonhos. Mostro para essas meninas que elas podem ter um futuro.

Coincidentemente, porém, no dia dessa ação na escola, voltei no mesmo ônibus que uma aluna. E quando desci no mesmo ponto que ela aqui perto de casa, ela perguntou: ‘o que você tá fazendo aqui’?

Chorei muito. Mas isso só me fez ter mais consciência da minha função social. Com o perdão do trocadilho, quero poder dar uma ‘injeção de ânimo’ nessas pessoas.

Reconheço que aqui os sonhos são muitas vezes limitados pela falta de oportunidades. Mas espero que um dia todos nós tenhamos chances iguais.

Não vai ser fácil, mas sei que é possível.”

Texto de Luis Barrucho, da BBC Brasil, publicado no UOL Educação em 13/07/2016. Para acessá-lo na íntegra: http://educacao.uol.com.br/noticias/bbc/2016/07/13/sonho-possivel-para-criancas-da-favela-diz-aluna-negra-de-medicina-no-rj.htm

***

Tem interesse pelo assunto? Conheça:

40084AFROCIDADANIZAÇÃO
Ações afirmativas e trajetórias de vida no                   Rio de Janeiro
Autor: Reinaldo da Silva Guimarães
SELO NEGRO EDIÇÕES 

Quando Reinaldo da Silva Guimarães propôs pesquisar a trajetória profissional dos bolsistas de ação social formados pela PUC-Rio, ele adotou sua própria história como referência intelectual e emocional para compreender as percepções narradas pelos entrevistados. Estes apontam para um contexto pautado na perseverança e no desejo de superação, mostrando uma realidade pouco conhecida e difícil de ser traduzida, mas repleta de simbolismos: a realidade das relações raciais no Brasil. A trajetória do autor reflete e dá essência e concretude ao conceito de afrocidadanização: nascido em comunidade pobre, Reinaldo conseguiu superar diversos momentos difíceis e ingressar na universidade. Como um dos protagonistas dessa história de “sucesso”, ele aproveita sua narrativa para explicitar o processo de construção de identidade racial. Livro foi produzido em regime de coedição com a PUC-Rio. Prefácio de Elisa Larkin Nascimento.

‘O DIA INTERNACIONAL DA MULHER E O MACHISMO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA’

Embora estudem mais e sejam maioria nas comunidades escolares e educacionais, as mulheres estão sub-representadas nos postos de comando da educação nacional, além de serem vítimas de diversas formas de violências. Em parte isso se deve ao machismo (re)produzido nas escolas e não enfrentado pelas gestões públicas. O Dia Internacional da Mulher é um bom momento para refletir sobre isso.

Hoje é o Dia Internacional da Mulher, um momento de luta, reflexão, reconhecimento e comemoração pelas conquistas obtidas contra as absurdas disparidades entre homens e mulheres.

Poucas áreas são tão majoritariamente femininas quanto a educação. Há muito mais professoras do que professores, funcionárias do que funcionários. E as alunas são mais escolarizadas do que os alunos – o que, obviamente, não deixa de ser um grave problema. Além disso, como mais um dado do machismo, mães participam muito mais do que os pais nas comunidades escolares.

Porém, em que pese esses fatos, o Brasil teve apenas uma Ministra da Educação. Foi a advogada Esther de Figueiredo Ferraz, que ocupou a pasta no governo do general João Figueiredo, de 24 de agosto de 1982 a 15 de março de 1985. Na época, no então Ministério da Educação e Cultura (MEC), ela regulamentou a emenda que estabeleceu percentuais mínimos obrigatórios para a aplicação na educação dos recursos arrecadados em impostos.

Apenas em 2008, uma mulher assumiu a presidência do Conselho Nacional de Educação. Foi a educadora goiana Clélia de Alvarenga Brandão, uma das responsáveis por liderar a elaboração do parecer CNE/CEB 8/2010, que normatiza o Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi), criado pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação. O CAQi é um mecanismo fundamental para mudar a história de subfinanciamento das políticas públicas educacionais no Brasil e deve ser implementado até junho de 2016, segundo o Plano Nacional de Educação.

A grave sub-representação das mulheres nos postos de comando da educação nacional pode ser explicada por um fator estrutural: embora sejam ampla maioria nas comunidades escolares e educacionais, as escolas brasileiras são absurdamente machistas.

Quem acompanhou as discussões sobre a suposta “ideologia de gênero” na formulação dos planos nacional, estaduais, distrital e municipais de educação viu o quanto é difícil enfrentar o sexismo no país. Setores cristãos retrógrados não aceitam medidas para combater, pela educação, o machismo reinante no país. Aliás, além de não considerarem o Brasil um país machista, também creem que a sociedade brasileira não é racista, nem sexista – desconsiderando todas as tristes evidências do cotidiano nacional.

Em relação à questão da paridade de gênero, a Unesco, no relatório sobre o programa “Educação Para Todos 2000-2015”, que estabeleceu metas globais para as políticas educacionais ao redor do mundo, concluiu sobre o Brasil:

“As conquistas obtidas não significam que a situação de opressão das mulheres tenha sido eliminada da vida pública ou privada [brasileira], por isso mesmo são ainda imprescindíveis políticas públicas para mulheres e meninas. Estas são necessárias tanto no sentido de estimular sua participação em áreas de conhecimento e atuação onde sua presença é menor, como de proteger sua integridade física em risco de violência e assédio moral.”

Para enfrentar essa situação, em 9 de setembro de 2015, o Ministério da Educação (MEC) editou portaria que instituiu o Comitê de Gênero. Contudo, dias após, em 21 de setembro, diante da pressão empreendida pela Frente Parlamentar Evangélica (FPE) e pela Frente Parlamentar Católica (FPC), o próprio MEC substituiu o órgão pelo genérico Comitê de Combate às Discriminações. O Comitê de Gênero contava com significativo apoio da comunidade educacional e buscava formular políticas educacionais direcionadas a combater o machismo e o sexismo reinantes.

No tocante às questões de gênero, o Governo Dilma tem cedido desde 2011, quando proibiu a distribuição do kit anti-homofobia para as escolas públicas. Diante do clima político do país, não há esperança de que algo mude nos próximos anos. A não ser que a sociedade brasileira compreenda de uma vez por todas que enfrentar todas as desigualdades que a caracterizam, entre as quais a desigualdade de gênero é uma das principais, é uma questão de justiça social e tarefa fundamental para a verdadeira consagração da cidadania.

Texto de Daniel Cara publicado em seu blog em 08/03/2016. Para lê-lo na íntegra, acesse: http://danielcara.blogosfera.uol.com.br/2016/03/08/o-dia-internacional-da-mulher-e-o-machismo-na-educacao-brasileira/

***

 

Tem interesse pelo tema? Conheça:

40046RACISMO, SEXISMO E DESIGUALDADE NO BRASIL
Autora: Sueli Carneiro
Coleção Consciência em Debate
SELO NEGRO EDIÇÕES

Entre 2001 e 2010, a ativista e feminista negra Sueli Carneiro produziu inúmeros artigos publicados na imprensa brasileira. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil reúne, pela primeira vez, os melhores textos desse período. Neles, a autora nos convida a refletir criticamente a sociedade brasileira, explicitando de forma contundente como o racismo e o sexismo têm estruturado as relações sociais, políticas e de gênero.

 

“CRIANÇA NEGRA SOFRE RACISMO TODO DIA NA ESCOLA”, DIZ MC SOFFIA, 11

Desde pequena, a menina de nome extenso e pernas compridas vai a passeatas, palestras e eventos contra o racismo. Criada em uma família formada por mulheres negras e militantes, ela aprendeu a ter orgulho da cabeleira “que não é dura, é crespa”. Prestes a completar 12 anos, Soffia Gomes da Rocha Gregório Corrêa, a MC Soffia, declama sobre a beleza da negritude, as brincadeiras da infância, e, sobretudo, se aceitar do jeito que se é.

Ao UOL, na casa da avó materna no centro de São Paulo, no começo de fevereiro, a revelação do hip hop paulistano afirma que sofre e fica indignada quando lê sobre casos de pessoas famosas agredidas por comentários racistas na internet, a exemplo da jornalista Maria Júlia Coutinho e da atriz Taís Araújo. Porém ela lembra que o racismo é uma presença persistente no cotidiano das pessoas comuns:

“Tem criança negra que sofre racismo todo dia na escola, e isso a televisão não mostra. Tem criança que fica com trauma, trancada em casa, não quer sair na rua”, afirma.

As situações vividas por ela mesma é um norte para MC Soffia, ao escrever as letras de suas músicas, em parceria com a mãe, a produtora de eventos Kamilah Pimentel, 29, e a avó, a pedagoga e bonequeira, Lúcia da Rocha, 54. A consciência racial da garota é resultado da educação proporcionada pelas duas mulheres.

Quando eu era menor já falaram do meu cabelo, já falaram da minha cor. Eu não gosto de ficar lembrando. Eu sempre digo que meu cabelo não é duro, e sim o preconceito das pessoas.”

MC Soffia diz cantar para que as crianças negras não se tranquem mais em casa. E conta a história de uma nova amiga, que conheceu após uma de suas apresentações. A menina foi alvo de brincadeiras racistas dos colegas e depois obrigada pela professora a pedir desculpas aos agressores porque quis denunciá-los. “A gente nem sabia o que conversar, mas ela ficou muito feliz quando ouviu minhas músicas”.

“A primeira coisa que falam para uma criança negra é sobre o cabelo dela. Existe uma pressão muito grande na sociedade que valoriza apenas uma estética, a do cabelo liso, e isso se mexe muito com psicológico das crianças e, principalmente, das mulheres”, afirma Kamilah, que foi mãe aos 18. Dois anos depois, ela mesma deixou de alisar o cabelo para servir de referência à filha. “Os pais precisam criar filhos fortes para que saibam enfrentar o preconceito. Não adianta esconder a realidade”.

Pedagoga aposentada, a avó materna Lúcia da Rocha diz que a família “sempre teve consciência racial”, mas ela própria só passou a exercer a militância, nos últimos 15 anos. “O racismo está impregnado na sociedade e algumas atitudes são naturalizadas, por isso muita gente acha normal esta ‘obrigação’ de se alisar o cabelo crespo, por exemplo”.

Bonecas Negras

Além do laço no cabelo black power, outra marca registrada de MC Soffia em seus shows é a presença das bonecas Makena, uma criação de sua avó. Um dia, Lúcia tomou um “choque” ao ver a capa de uma revista que ensinava a fazer bonecas. A que ilustrava a capa era negra. “Eu só tive bonecas brancas na minha infância”, diz. Comprou a revista e resolveu confeccionar a Makena, que significa “A Feliz”, na língua kikuyu, falada pelo maior grupo étnico do Quênia.

MC Soffia estuda no Projeto Âncora, uma ONG que se transformou em escola na cidade de Cotia. O local fica a dois quilômetros da casa da mãe, na Cohab Raposo Tavares, zona oeste de São Paulo. “Lá a gente discute racismo, tem aula de música, pintura, horta. Eu passo o dia todo lá”, explica MC Soffia.

Em seus dois quartos, um na casa do pai e outro na da mãe, MC Soffia coleciona mais de 100 bonecas, quase todas negras. É capaz de citar numa mesma frase, em andamento acelerado ídolos como a figura histórica Dandara dos Palmares, o militante Malcom X, a cantora Beyoncé e criticar o personagem “bobo” Cirilo, da novela Carrossel.

MC Soffia é considerada uma revelação no cenário musical paulistano, desde sua primeira apresentação solo, na Viradinha Cultural em 2015, e já ganhou elogios de músicos como Criolo e Karol Conka. Ela começou a cantar quando participou do coletivo Hip Hop do Futuro. Suas letras mostram um trabalho consciente, de estilo simples e tom positivo. A exemplos dos versos de “Flortaleza”: Somos mulheres, sim/Com certeza/Somos lindas e fortes/Flortaleza.

“A gente sempre mantém um controle. Chegam muitos convites, mas ela só se apresenta nos finais de semana, em eventos culturais. As prioridades dela são os estudos e viver a infância como uma criança normal”, diz a mãe Kamilah.

MC Soffia começou a gravar o primeiro disco, mas também tem outros planos para o futuro. “Eu quero ser médica cardiologista, e eu também vou ser jogadora de futebol, jogadora de basquete, jogadora de vôlei, atriz, modelo, cineasta…” E a lista não para.

Reportagem de Flávio Costa, publicada originalmente no UOL, em 12/02/2016. Acesse a matéria na íntegra e assista aos vídeos em http://bit.ly/20szM5B

***

Se você tem interesse pelo assunto, conheça algumas obras da Selo Negro Edições que abordam o tema:

 

40014RACISMO E ANTI-RACISMO NA EDUCAÇÃO
Repensando nossa escola
Autora: Eliane Cavalleiro

Diversos olhares sobre o ambiente da sala de aula procuram captar os racismos presentes nesse cotidiano. Alguns dos assuntos que nos alertam para uma educação anti-racista são a revista especializada em educação, o livro infantil, o tratamento dado à África e outros.

………….

40027TRAMAS DA COR
Enfrentando o preconceito no dia-a-dia escolar
Autora: Rachel de Oliveira

Com sensibilidade e singeleza, a autora utiliza um relato ficcional dos problemas enfrentados por uma menina negra em sua escola para abordar as questões básicas do racismo por parte de crianças e adultos em nossos estabelecimentos de ensino. Sugere posturas saudáveis para enfrentar os problemas mediante o incremento da auto-estima e o conhecimento de figuras ilustres da história negra.

………….
………….
40023O SORTILÉGIO DA COR
Identidade, raça e gênero no Brasil
Autora: Elisa Larkin Nascimento

Livro que se insere na nova corrente de reflexões sobre o negro brasileiro. Colocando o problema da identidade no centro de sua análise, a autora mostra que a identidade não é apenas um conceito teórico, mas se manifesta concretamente na realidade social. O livro descreve a recusa dos afrodescendentes em ver sua identidade diluída em uma homogeneidade cultural ditada pela branquitude e pelo universalismo europeu.

 

‘AS CRIANÇAS NEGRAS SÃO MAIS PUNIDAS DO QUE AS BRANCAS’, DIZ PEDAGOGA

Existe racismo na sala de aula, e ele começa na educação infantil. Isso é o que afirma Ellen de Lima Souza, mestre e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e diretora do Itesa (Instituto de Tecnologia, Especialização e Aprimoramento Profissional).

Segundo a pedagoga, a escola normalmente é um ambiente inóspito para as crianças negras. Ellen estudou como elas são vistas por professoras de educação infantil e constatou duas visões distintas: o negro que gera nas docentes piedade (uma postura paternalista) ou expectativa (que deve necessariamente assumir uma postura ativista). Para mudar essa realidade, ela propõe que os professores assumam uma postura de protagonismo em sala de aula, de geradores de conhecimento, para trabalhar a autonomia e a independência nas crianças.

UOL Educação – Crianças também podem ser racistas?

Ellen de Lima Souza – Sim, podem. E são. As pessoas não esperam que elas reproduzam atitudes racistas. Depois da família, o primeiro ambiente de socialização é a escola, onde a criança é mais exposta ao racismo.

UOL – De que forma o preconceito se apresenta em sala de aula?

Souza – Quando você tem criança que se recusa a se sentar ao lado de outra negra, que diz que tem nojo de negro, que vê o negro sempre em papéis de subalternidade; quando crianças negras não são selecionadas a participar ou não têm protagonismo em atividades culturais, festas. Isso faz com que as crianças naturalizem a desigualdade e reproduzam ofensas, como quando dizem que o negro é feio, burro, cheira mal e outras coisas bastante pesadas.

UOL – Como os professores costumam tratar o tema na educação infantil?

Souza – Na minha dissertação [de mestrado], fui buscar professoras premiadas pelas práticas que já exerciam, de uma educação para a igualdade, e percebi que elas são atingidas por duas percepções básicas em relação aos negros: um sentimento forte de paternalismo, ela tem pena da criança negra, entende que ela vai necessariamente sofrer o racismo, e tem um sentimento de piedade; a outra percepção é a que gera nas professoras uma expectativa de que a criança negra tem que ser ativista. Por outro lado, existem as professoras que não têm essa consciência de uma educação para a igualdade. Essas acreditam que o Brasil vive uma democracia racial, trata o negro com indiferença e pune a criança negra com muita frequência. Aliás, desde bebês, as crianças negras são mais punidas do que as crianças brancas, recebem apelidos depreciativos e, nas situações de conflito, são as preteridas ou as culpadas.

UOL – Então como o tema deve ser tratado em sala de aula?

Souza – Na dissertação, a primeira coisa que eu proponho é que o professor crie metodologias e didáticas, ele é o protagonista em sala de aula, tem um papel social, é alguém que garante direitos, que deve ver o sujeito como autor e não reprodutor do conhecimento. Depois, eu trabalho com três conceitos básicos, baseados na mitologia iorubá: as perspectivas da ancestralidade, da corporalidade e da oralidade. Esses conceitos ajudam a criança, seja negra ou não negra, a desenvolver sua identidade, suas relações, desenvolver a emoção, física e intelectualmente, das várias formas possíveis. O professor precisa lidar com as crianças para potencializar e valorizar a condição de ser negro, já que a criança aprendeu sempre que é algo ruim. Essas perspectivas fazem com que as crianças sejam cada vez mais independentes, autônomas, aprendam a respeitar, dão a ideia de pertencimento étnico, de que a criança não está sozinha.

UOL – E o que fazer quando os pais não querem que os filhos participem dessas atividades?

Souza – Eu acho que é preciso procurar o Ministério Público, a Justiça. Ensinar história e cultura afro-brasileira é primordial. Se esse pai ou essa mãe não quer o filho estude cultura africana e afro-brasileira, ele deve pagar uma escola confessional. A escola pública é de todos, é da criança negra, da não negra, da boliviana, e se você não quer que o seu filho aprenda esses valores, tira do serviço público. A escola pública brasileira que tem que ser laica. A gente aprendeu os valores cristãos, por que as crianças não podem aprender parte da filosofia africana?

UOL – Quais são os impactos de discutir racismo na educação infantil?

Souza – A criança que tem condição de trabalhar a partir de uma educação igualitária vai além do que está posto, tem novas perspectivas de valores, uma nova cosmologia de mundo. Ela recebe essa gama de informações e fica com pensamento mais abrangente. Indiretamente, faz com que ela saiba lidar com questões de gênero, de orientação sexual, diferenças entre empobrecidos e não empobrecidos.

Reportagem de Marcelle Souza, publicada originalmente no UOL Educação, em 12/01/2016. Para lê-la na íntegra, acesse: http://educacao.uol.com.br/noticias/2016/01/12/as-criancas-negras-sao-mais-punidas-do-que-as-brancas-diz-pedagoga.htm

***

Se você tem interesse pelo assunto, conheça os livros abaixo, da Selo Negro Edições:

40014RACISMO E ANTI-RACISMO NA EDUCAÇÃO
Repensando nossa escola
Autora: Eliane Cavalleiro

Diversos olhares sobre o ambiente da sala de aula procuram captar os racismos presentes nesse cotidiano. Alguns dos assuntos que nos alertam para uma educação anti-racista são a revista especializada em educação, o livro infantil, o tratamento dado à África e outros.
 

40027TRAMAS DA COR
Enfrentando o preconceito no dia-a-dia escolar
Autora: Rachel de Oliveira

Com sensibilidade e singeleza, a autora utiliza um relato ficcional dos problemas enfrentados por uma menina negra em sua escola para abordar as questões básicas do racismo por parte de crianças e adultos em nossos estabelecimentos de ensino. Sugere posturas saudáveis para enfrentar os problemas mediante o incremento da auto-estima e o conhecimento de figuras ilustres da história negra.


40018AÇÕES AFIRMATIVAS EM EDUCAÇÃO
Experiências brasileiras
Organizadora: Cidinha da Silva

Este livro busca aprofundar o debate sobre as ações afirmativas, ampliando-o para além das cotas. São apresentados programas que visam garantir o acesso, a permanência e o sucesso de negros/as na universidade, possibilitando a realização do sonho de jovens que vivenciam processos estruturais de exclusão; são discutidas as metodologias de seleção de pessoas negras nesses projetos; são abordadas a África e a Afro-Ascendência na perspectiva da cultura construída pela matriz banto. Finalmente, são considerados os principais aspectos da discussão sobre as cotas para negros/as, especialmente o falso dilema – quem é negro/a no Brasil? – uma vez que, quando se trata de garantir direitos, a pessoa negra se desvanece na decantada miscigenação racial brasileira.

OAB CONCEDE TÍTUTO DE ADVOGADO A LUIZ GAMA

A homenagem ao abolicionista que morreu em 1882 tendo libertado, nos tribunais, mais de 500 negros mesmo sem ter cursado formalmente o curso de direito é mais do que merecida. Em sua biografia, o professor Luiz Carlos Santos revela a trajetória de uma das personalidades mais importantes do século XIX no Brasil imperial e escravista, destacando sua atuação pioneira como abolicionista e intelectual.

Um dos mais importantes abolicionistas da história, que exerceu a profissão de advogado mesmo sem nunca ter sido reconhecido como um, recebeu nesta terça-feira, dia 3 de novembro, uma homenagem póstuma. Em cerimônia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Luiz Gama ganhou da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), 133 anos após a sua morte, o título de advogado. Uma homenagem mais do que merecida no mês em que comemoramos a importância da Consciência Negra.

Luiz Gonzaga Pinto da Gama tornou-se o arauto da libertação dos negros e da luta contra a opressão. Jornalista, poeta, membro da maçonaria e fundador do Partido Republicano Paulista, Gama morreu em 1882 tendo libertado, nos tribunais, mais de 500 negros.

No livro Luiz Gama, biografia da coleção Retratos do Brasil Negro, da Selo Negro Edições, o professor Luiz Carlos Santos revela a trajetória de uma das personalidades mais importantes do século XIX no Brasil imperial e escravista, 40043destacando sua atuação pioneira como abolicionista e intelectual. “Trata-se de uma biografia singular que articula luta com inteligência”, revela o autor. Para ele, Gama foi o pai da negritude brasileira e manteve firme o princípio que norteou toda a sua vida.

A biografia traça o perfil de um jovem negro, autodidata, profundo conhecedor das letras e das leis, radical na luta pela liberdade e pelos ideais republicanos em um império escravocrata. Incansável agitador das causas negras, Gama foi perseguido e ameaçado de morte. Para o autor, seu espírito de superação fortaleceu a atuação abolicionista. “Sua vida é uma forte referência para a nossa história e permite uma releitura da história do Brasil”, complementa. E deverá ser, diz ele, uma das grandes contribuições à luta pela equidade.

Dividido em três capítulos e um anexo, o livro aborda a vida do abolicionista desde a infância, passando pela escravidão e luta pela liberdade, que adotou como projeto de vida, com atuação intensa nos tribunais, na imprensa, na literatura e na política. A biografia mostra o menino negro que nasceu livre, em Salvador, na Bahia, foi vendido como escravo aos 10 anos pelo próprio pai e, na juventude, aprendeu a ler e tomou ciência de sua condição de homem livre. “A vida de Gama sugere, sem dúvida, um filme de enredo original e capaz de romper os paradigmas do cinema nacional da favela trágica”, afirma o autor.

Para redesenhar o perfil de Luiz Gama, o professor percorreu caminhos sutis e cheios de atalhos. Negro alfabetizado aos 17 anos e livre aos 18, por conquista própria, Gama transformou-se em um símbolo da luta abolicionista e republicana. Resultado de extensa pesquisa, incluindo a carta autobiográfica escrita para o amigo Lucio de Mendonça, que tem sido objeto de estudos e interpretações diversas, a obra mostra que Gama também fez da literatura espaço de militância.

Gama foi um dos maiores articuladores políticos que o Império conheceu. A biografia aborda seus grandes feitos na luta pelo fim da escravatura, destacando sua atuação, em São Paulo, como advogado, na libertação dos negros; suas denúncias, na imprensa, dos acordos para a manutenção do trabalho escravo; e seus poemas ácidos, que satirizavam e, ao mesmo tempo, expunham as mazelas do poder imperial e dos senhores de escravos.

Enxergando além de seu tempo, Gama não separou o social do racial e combateu tanto a escravidão quanto a monarquia. A obra mostra que ele vislumbrou na República o nascimento da igualdade e da liberdade numa perspectiva cidadã. “Pensando assim, participou dos setores mais progressistas de sua época”, complementa o autor.

Além da condecoração póstuma, o evento Luiz Gama: Ideias e Legado do Líder Abolicionista prevê dois dias de palestras e debates no Mackenzie. Após o título simbólico de advogado, o Instituto Luiz Gama pretende solicitar que a seccional paulista da OAB confeccione uma carteirinha de afiliado em nome de Gama – e que esta fique exposta no Museu Afro Brasil.

O autor da biografia, Luiz Carlos Santosé mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Autor de O negro em versos Antologia da poesia negra brasileira, é militante do movimento negro, fez parte da direção da Sociedade de Intercâmbio Brasil África (Sinba) e foi coordenador do Núcleo de Consciência Negra na USP. Atualmente, é consultor de História do Museu Afro Brasil e docente em cursos de formação de professores, nos quais ministra palestras sobre as Leis nº 10.639 e 11.645, que estabeleceram as disciplinas História da África e da Cultura Afro-Brasileira e Indígena no currículo das escolas brasileiras.

“NÓS, MULHERES NEGRAS, SOMOS TRIPLAMENTE DISCRIMINADAS”, DIZ PROFESSORA

Há 23 anos, em 25 de julho de 1992, acontecia pela primeira vez um encontro de mulheres negras latino-americanas e caribenhas nas terras de Santo Domingo, na República Dominicana. Foi quando instituiu-se um dia em memória a todas elas e suas lutas.

Para a professora mineira Luana Tolentino, 25 de julho é um dia para comemorar as conquistas das mulheres negras, assim como também é um momento de reflexão, de luta por mais direitos e de denunciar a situação de opressão e de desvantagem em que vivem as mulheres negras, não só no Brasil, mas em toda a América Latina e no Caribe.

Na última década, é perceptível o aumento significativo de políticas públicas em benefício de jovens, mulheres e homens negros, como a criação da Secretaria da Igualdade Racial e o sistema de cotas. “Ainda temos um caminho longo e tortuoso para percorrer, mas os avanços e as mudanças ocorridas nos últimos anos me deixam bastante esperançosa de que podemos, sim, construir um país melhor para todos nós”, aponta ela.

Mesmo com a humildade e o otimismo de quem aguarda dias mais justos, Luana pensa que a sociedade brasileira ainda precisa passar por um processo de reeducação: “Uma educação antirracista e antissexista, ou como nas palavras da médica e feminista Fátima Oliveira ‘o nosso país precisa passar por uma faxina moral’”.

É necessário assumir que o Brasil é um país extremamente racista, o que ocasiona a exclusão e a marginalização de mais da metade da população. É inaceitável que ainda hoje as negras tenham menor escolaridade, recebam menores salários e apresentem índices maiores de mortalidade materna, quando comparadas a mulheres brancas.

Luana conta que é por meio das ações que ela e outras ativistas buscam educar e denunciar a situação de desigualdade em que se encontram, não somente as mulheres, mas toda a população negra.

Sua história se assemelha a de muitas outras mulheres negras do Brasil. Entre os 13 e 18 anos, ela trabalhou como babá, faxineira e doméstica, quando experimentou diversas formas de humilhações. “Essas profissões continuam sendo ocupadas majoritariamente pelas afrodescendentes, mas fico extremamente feliz que esse quadro esteja mudando”, compara.

Há sete anos ela é professora de História do ensino fundamental e médio e, apesar de todas as dificuldades que envolvem a profissão, dar aula, ensinar e aprender são as atividades que ela mais gosta na vida. Luana também é historiadora, bolsista do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) pela UFMG, pesquisa sobre a imprensa feminina e feminista, e também cronista.

“Nós, mulheres negras, somos triplamente discriminadas, em função do gênero, da raça e também de classe, já que a grande maioria das afro-brasileiras pertence às classes mais pobres. Mesmo que ascendamos socialmente, não ficamos imunes ao preconceito e às humilhações.”

Há cerca de dois anos, ao chegar numa escola particular para dar uma palestra, o porteiro perguntou se ela estava procurando vaga para o cargo de serviços gerais. A atitude reflete na concepção de boa parte da sociedade, que acredita que os negros devem estar sempre em ocupações de menor prestígio social e econômico. “Espera-se que não tenhamos voz, que estejamos prontas para servir os outros, numa eterna perpetuação do regime escravagista”, critica.

Matéria de Amanda Garcia , publicada originalmente no iG, em 25/07/2015. Para Lê-la na íntegra, acesse: http://delas.ig.com.br/comportamento/2015-07-25/nos-mulheres-negras-somos-triplamente-discriminadas-diz-professora.html

***

Se você tem interesse pelo tema, conheça alguns livros da Selo Negro Edições:


40046RACISMO, SEXISMO E DESIGUALDADE NO BRASIL
Consciência em Debate
Autora: Sueli Carneiro

Entre 2001 e 2010, a ativista e feminista negra Sueli Carneiro produziu inúmeros artigos publicados na imprensa brasileira. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil reúne, pela primeira vez, os melhores textos desse período. Neles, a autora nos convida a refletir criticamente a sociedade brasileira, explicitando de forma contundente como o racismo e o sexismo têm estruturado as relações sociais, políticas e de gênero.

… 

40070MULHERES NEGRAS NO BRASIL ESCRAVISTA E DO PÓS-EMANCIPAÇÃO
Organizadores:
Juliana Barreto Farias, Giovana Xavier, Flávio Gomes

Como foi a participação das mulheres cativas na sociedade escravista e nas primeiras décadas da pós-emancipação? Como protestaram mirando a escravidão e contrariando a ideia de que aceitaram com passividade a opressão imposta? Os ensaios desta coletânea, que abrange os séculos 18 a 20, constituem um quadro amplo e fascinante das experiências das mulheres africanas, crioulas, cativas e forras.

……

40007
OUTROS TIPOS DE SONHOS

Organizações de mulheres negras e políticas de transformação
Autora: Julia Sudbury

Este livro busca repensar e transformar os conceitos do feminismo. Entrevistando uma série de ativistas, a autora traça um quadro histórico das organizações de mulheres negras. As entrevistadas descrevem e teorizam o próprio trabalho, recuperando a imagem da sua ação coletiva para o pensamento atual.

HÁ 135 ANOS, NASCIA “O MESTRE SALA DOS MARES”

A Censura no governo militar

A abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888, ocorreu sem inclusão social, restando aos libertos a pobreza, o subemprego e o estigma de séculos de escravidão. Este quadro excludente, o historiador e jornalista gaúcho, Décio Freitas (1922-2004), que foi dirigente do Partido Comunista Brasileiro, conceituou de “Brasil inconcluso”, título de um de seus livros.

No mês de junho de 1880, há 135 anos, nasceu João Cândido e nada mais justo que nos lembremos do samba que evoca a sua figura e o exemplo de resistência contra a opressão. Essa composição, imortalizada na voz de Elis Regina (1945-1982), poderia, também, ser batizada com o título de “Mestre-Sala da Liberdade”, devido à sua luta contra a injustiça e o desrespeito à dignidade humana. Na escola de samba, o mestre-sala corteja e protege a porta-bandeira. No caso do Almirante Negro, ele defendeu a porta-bandeira da liberdade no bailar das águas.

“O Mestre-Sala dos Mares” nasceu em Encruzilhada, no Rio Grande do Sul, em 24/6/1880. Filho dos ex-escravos João Felisberto e Inácia Cândido Felisberto. João Cândido, com apenas 13 anos, lutou a serviço do governo na Revolução Federalista do Rio Grande do Sul (1893-1895). Aos 14 anos se alistou no Arsenal de Guerra do Exército e com 15 anos ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros de Porto Alegre. Passados cinco anos foi promovido a marinheiro de primeira classe. Ao completar 21 anos, em 1903, foi promovido a cabo-de-esquadra, embora tenha sido rebaixado a marinheiro de primeira classe, por introduzir no navio um baralho para jogar. Serviu na Marinha do Brasil por 15 anos, tempo em que viajou pelo Brasil e outros países.

A Revolta da Chibata /1910

À noite, em 22 de novembro de 1910, eclodiu, no Rio de Janeiro, a “Revolta da Chibata”, devido aos castigos corporais sofridos pelos marujos, que eram punidos com chibatadas como à época da escravidão. Após Marcelino Menezes ter recebido, como castigo, 250 chibatadas, no encouraçado Minas Gerais, a marujada, composta por 90% de negros pobres, rebelou-se. O movimento tramado por marinheiros, como Francisco Dias Martins, o “Mão Negra” e os cabos Gregório e Avelino, teve como porta-voz o timoneiro João Cândido.

O “Mestre Sala dos Mares” era prestigiado pelos colegas, sendo com frequên-

cia designado para exercer liderança a bordo, inclusive, em suas viagens por outros países da Europa. Na Marinha, João Cândido devido a seu bom comportamento nunca sofrera castigos físicos. Em 1910, foi enviado à Inglaterra, para conduzir o encouraçado Minas Gerais ao Brasil.

Durante a viagem inaugural do Minas Gerais, João Cândido e companheiros ficam sabendo do movimento em prol da melhoria das condições de trabalho que exerciam os marinheiros britânicos entre 1903 e 1906. Tomaram conhecimento, também, da insurreição dos russos embarcados no encouraçado Potemkin, em 1905, que se tornaria tema de filme em 1925.

No calor da luta, quando eclodiu a revolta, três oficiais e o comandante do encouraçado Minas Gerais, João Batista das Neves, foram mortos, o que trouxe consequências trágicas para os envolvidos. O motim se estendeu a outros navios, sendo seus comandantes destituídos. Além do Minas Gerais, os marujos tomaram os navios Bahia, São Paulo, Deodoro, Timbira e Tamoio, hasteando bandeiras vermelhas e um pavilhão: “Ordem e Liberdade”.

Cerca de 2.300 homens comandaram os navios de guerra, direcionando mais de 80 canhões para o Palácio do Catete (RJ). Além da anistia, os marujos exigiam o fim dos castigos, aumento do soldo e redução da carga horária. Em 25/11/1910, o presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) lhes deu anistia, porém, três dias depois, decretou as expulsões da Marinha e prisões. Os marujos, após devolverem os navios aos oficiais, foram surpreendidos: haviam sido traídos. Na imprensa, neste ínterim, alguns periódicos começaram a criticar a fragilidade do Governo e da Marinha ao concederem a Anistia aos revoltosos. Alguns membros da Marinha, inclusive, de alta patente faziam declarações públicas no mesmo sentido. Os jornais da época registram que a população local teve o reflexo de buscar abrigo fora do centro da cidade e das regiões litorâneas, temendo os canhões dos poderosos navios que estavam apontados para o Palácio do Catete. Embora o receio, uma parte da imprensa manifestou simpatia pelas reivindicações dos marujos.

Texto de Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite via Guest Post, publicado originalmente no Portal Geledés. Para ler a matéria completa, acesse: http://www.geledes.org.br/ha-135-anos-nascia-o-mestre-sala-dos-mares/#ixzz3e0FJdxH1

***

Para saber mais sobre o Almirante Negro, conheça o livro:

40045JOÃO CÂNDIDO
Autor: Fernando Granato
SELO NEGRO EDIÇÕES

Conhecido como “Almirante negro”, João Cândido Felisberto foi o líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910. Figura importante na luta por melhores condições na Marinha, esse herói brasileiro só teve sua anistia concedida em 2008, 39 anos após sua morte. Fruto de ampla pesquisa, esta biografia mostra o lado humano de João Cândido, cuja vida foi marcada por tragédias, perseguições e miséria.
……….
Esta obra faz parte da coleção Retratos do Brasil Negro, coordenada por Vera Lúcia Benedito, mestre e doutora em Sociologia/Estudos Urbanos pela Michigan State University (EUA) e pesquisadora e consultora da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. O objetivo da Coleção é abordar a vida e a obra de figuras fundamentais da cultura, da política e da militância negra. Para conhecer a coleção completa, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/colecao/Retratos%20do%20Brasil%20Negro

SELO NEGRO COMEMORA 15 ANOS

logo_selo_negroA coluna Babel, publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo no sábado, 29 de novembro, deu destaque para a Selo Negro Edições. A coluna informa que o selo do Grupo Editorial Summus, que está fazendo 15 anos, programa para 2015 o lançamento da edição revista e ampliada do livro Dicionário escolar afro-brasileiro, de Nei Lopes. Acesse o link para ver a nota: http://goo.gl/mMMim7

Partindo do pressuposto de que a igualdade social pode ser alcançada especialmente pela educação, Nei apresenta aos jovens o Dicionário escolar afro-brasileiro. 40029Em linguagem clara e acessível, na forma de verbetes, ele apresenta ao estudante brasileiro informações e dados sobre o universo dos afrodescendentes.

Militante de longa data e profundo conhecedor da cultura afro-brasileira, Nei conseguiu a proeza de unir sua erudição ao didatismo. “É um trabalho diferente em forma e conteúdo, pois traz informações mais pertinentes ao universo e à área de interesse do estudante, dando ênfase à luta contra o racismo no Brasil”, diz.

O maior objetivo da obra, segundo Nei, é elevar a autoestima do jovem afrodescendente, dando visibilidade às personalidades negras que tanto fizeram pelo país mas que foram esquecidas no conteúdo escolar. “Na minha infância, não havia referência ao negro brasileiro, não havia exemplos positivos. Eles existem e o repertório é grande. O jovem precisa saber disso”, afirma, lembrando que o momento atual, de reforma de currículos escolares, é propício para oferecer opções de literatura.

Para saber mais sobre o livro, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/9788587478290

Para conhecer todos os livros publicados pela Selo Negro, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/selonegro/?editora=selonegro

CAPOEIRA É RECONHECIDA COMO PATRIMÔNIO CULTURAL DA HUMANIDADE

A Roda de Capoeira ganhou o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) nesta quarta-feira (26/11). O reconhecimento é dado a expressões e tradições culturais que são passadas de geração pelo mundo e foi concedido depois de uma votação na sede da Unesco, em Paris.

Em 2013, as pesquisadoras Elisabeth Vidor e Letícia Vidor de Sousa Reis lançaram o livro Capoeira – Uma herança cultural afro-brasileira, pela Selo Negro Edições40093 Com ilustrações e fotografias, a obra revela como o movimento corporal contribuiu para ampliar o espaço político e social do negro.

Reconhecida hoje como um dos símbolos da cultura brasileira, a capoeira nem sempre teve esse status. Os adeptos foram perseguidos durante muitos anos, especialmente na passagem do Império para a República. Associada à vadiagem e à violência, a capoeira só deixou de ser considerada crime há pouco mais de 80 anos.

No livro, as autoras retratam as origens sociais e culturais do movimento e mostram como a capoeira contribuiu para que os negros conquistassem e ampliassem seu espaço político e social no Brasil.

“A capoeira é ambígua, ao mesmo tempo jogo, dança e luta. Seus movimentos corporais privilegiam os pés e os quadris e, ao inverterem a hierarquia corporal dominante, colocam o mundo literal e metaforicamente de pernas para o ar”, explicam as autoras. Segundo elas, para entender o significado social e simbólico dessa inversão utiliza-se a linguagem do corpo como fonte principal de informação para enunciar as regras da gramática gestual da capoeira.

A partir de uma abordagem inovadora, é possível entender a capoeira também como uma forma de resistência do negro, desde o tempo da escravidão até os dias atuais. Entre as várias culturas de resistência negra desenvolvidas no país, a capoeira é uma das mais significativas, constituída com base em culturas provenientes da África. Dividido em três capítulos, o livro traz, com detalhes, a história da capoeira carioca no século 19. As autoras fazem uma interpretação antropológica dos movimentos corporais da capoeira para a compreensão da especificidade da relação entre negros e brancos no Brasil.

Para saber mais sobre o livro, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/livro/1355/Capoeira