“OS HOMENS ANDAM PERDIDOS E ANGUSTIADOS”

Ao fim de anos a ouvir mulheres agredidas e maridos agressores, a psicanalista brasileira concluiu que o problema é que elas conquistaram direitos e mudaram as suas práticas, mas eles não se aperceberam.

Há meio século os homens dominavam as mulheres e tinham até o direito de lhes bater. Os tempos mudaram. Elas hoje já não são dependentes dos maridos e bater passou a ser considerado crime. Eles estão desorientados com as mudanças e não sabem como exercer a sua masculinidade perante uma mulher que já não se deixa dominar. A paulistana Malvina Muszkat, de 75 anos, que falou ao telefone com a SÁBADO, explica este fenómeno no seu livro, O Homem Subjugado – o Dilema das Masculinidades no Mundo Contemporâneo, recentemente lançado no Brasil.

Como chegou à conclusão de que os homens estão subjugados?
Durante muitos anos ouvi mulheres agredidas pelos maridos e percebi que era insuficiente ouvir só o ponto de vista delas para poder trabalhar com esse fenómeno complexo. Comecei a falar também com os homens e foi ficando claro que eles também sofriam o impacto das exigências que a sociedade tinha também com eles. Ser forte, produtivo, vigoroso, ser capaz de controlar a mulher e os filhos não era tarefa fácil. Se falhassem chamavam-lhes “mulherzinha” e “frouxo”, seriam questionados na sua masculinidade. Hoje as mulheres conquistaram os seus direitos, entraram no mercado de trabalho, mudaram as suas práticas e até conseguiram aprovar leis a seu favor e ficou ainda mais difícil. Muitos ainda não perceberam que tinham de rever as suas posições e continuaram a querer responder às exigências que a sociedade patriarcal lhes impôs – e não estão a dar conta.

Foram apanhados de surpresa?
Costumo dizer que elas fizeram tudo isso e eles não se aperceberam. É como se tivessem sido apanhados de surpresa: como é, agora já não temos a autoridade absoluta? Como vamos exercer a nossa masculinidade? O modelo patriarcal baseava-se na relação dominador-dominado, que era apoiado pelo Direito e pela Ciência.  E agora como se sentir homem diante de uma mulher que já não se deixa dominar?

Qual era a principal razão para os homens baterem nas mulheres?
Temos de voltar atrás 50 anos, em que era permitido aos homens matar uma mulher em nome da honra, então bater nas mulheres era a coisa mais normal, tanto quanto bater numa criança.

Isso acontecia porque as mulheres eram dependentes.
Sim, elas dependiam dos homens não só financeiramente como do ponto de vista moral. Homens e mulheres sempre foram subjugados pela cultura. Desde a luta pelo direito ao voto, no fim do século XIX, elas têm questionado essa cultura, rompendo vagarosamente com aquela submissão consensual que tínhamos no passado.

E eles ainda estão confusos?
Sim porque as mulheres já não têm medo de se separar deles, podem trabalhar, evitar a gravidez, ou seja, ter vida própria. Bater passou a ser agressão, ou seja, saímos de um binómio dominador-dominado para um binómio novo: vítima- -agressor. Aquilo que era consensual, que toda a gente aceitava, tornou-se crime. É aqui que começa a confusão na masculinidade. A legislação acompanhou isso, porque as mulheres exigiram leis que as protegessem.

Porque é que critica as leis aplicadas aos agressores?
Não digo que eles não devem ser punidos, jamais direi isso. Mas não basta pô-los na prisão para mudarem de comportamento. A minha tese é que as mulheres fizeram todo esse trabalho de ressignificação dos valores, impuseram grandes transformações na sociedade, então há que rever as leis de punição de acordo com as novas perspectivas culturais. Temos de ajudar os homens a ressignificar esses conceitos que ainda conservam, que são tradicionais. Foi com base nisto que os trouxemos para a instituição.

O que é preciso para eles entenderem?
Em primeiro lugar é preciso uma evolução das próprias famílias. Eles não têm de ser educados para controlar as suas emoções ou para responder com força e poder. Será que ele precisa disso tudo para se sentir homem? É isso que questionamos com eles. A masculinidade do patriarcado assenta em bases muito frágeis, ou seja, tudo o que não é masculino é visto como feminino. Se um menino é mais sensível, se brinca com bonecas, chora mais e está mais ligado à mãe, vai ser rotulado de “bichinha”. Então, desde muito cedo eles sentem-se obrigados a ser duros. São esses preceitos que temos de desconstruir.

E isso não está a ser fácil para os homens…
Não é nada fácil ser homem na nossa cultura. Acho que nunca foi porque, por exemplo, eles eram obrigados a ir para a guerra. Por isso sempre tiveram que ser viris com medo da homofobia, que ainda é o grande fantasma da nossa cultura. Então, para não serem “mariquinhas” têm de ser fortes, bravos e saber usar a força. Isso sempre representou um sacrifício para os homens, só que eles nunca se deram conta porque nem se questionavam.

É por isso que diz que os homens se sentem desorientados?
Exactamente. Para ser homem era preciso duas coisas: ser diferente da mulher e dominá-la. Mas hoje eles já não podem dominá-las e nem sempre querem ser diferentes – preferem ser pais amorosos, maridos ternos e não querem entrar em todas as lutas. É muito angustiante para alguns homens mudar de modelo.

Porque é que acha que as mulheres estão ferozes com eles?
Nos encontros que tenho com jovens vejo que as mulheres estão muito agressivas com os homens, muito mais do que as gerações antigas, e eles estão muito perdidos. Hoje, as famílias educam as filhas mulheres para serem corajosas para competir no mercado de trabalho, mas não têm coragem de educar os filhos homens para serem ternos, com medo da homofobia.

Qual é o seu método de trabalho com os agressores?
Fazemos grupos operativos em que questionamos os valores de domínio e o direito de agredir física ou psicologicamente. Trabalhamos com esses homens no sentido de eles repensarem os seus próprios mitos. Será que para ser homem, eu tenho que usar sempre a força? O homem continua subjugado à cultura patriarcal, ele não percebeu que houve grandes mudanças. Esta agressividade, que foi estimulada durante séculos, é uma causa de risco para eles. Os homens morrem mais, mais cedo, praticam mais homicídios e suicídios e ficam mais deprimidos.

Eles são vítimas da sua própria educação?
Sim. Aqui no Brasil, a mortalidade nos homens entre os 18 e os 25 anos, é muito elevada por causas violentas. Morrem no trânsito porque conduzem exaltados, morrem no tráfico de droga, etc. O tal modelo de ter de ser forte para ser homem coloca-os em alto risco. Colocamos essa discussão na mesa e é muito curioso porque como eles nunca falam dos seus medos com ninguém, por ser vergonhoso, quando falam entre si as coisas começam a mudar.

É como tirar uma máscara?
Isso! Quando eles agridem, achando que é um sinal de poder, nós mostramos- lhes que é um sinal de fraqueza, só bate quem não tem argumentos, quem não sabe dialogar. Por isso é que nas classes menos educadas há mais violência do que nas classes onde é maior o capital intelectual.

Entende que essa mudança das mulheres era inevitável?
Foi uma revolução social importantíssima, a par do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, e estas mudanças eram inevitáveis. O que manteve as mulheres domináveis durante séculos foi a Igreja e a Ciência, que são as instituições que ditam os movimentos sociais. Os Estados poderiam colaborar mais com políticas públicas que facilitassem para que os homens participem mais na vida familiar, na criação dos seus filhos. Até há poucos anos, os pais nunca iam à escola saber dos seus filhos, era sempre as mães. Não era assunto de homens.

Os homens ainda vão demorar a adaptar-se?
Acho que podíamos apressar o processo se introduzíssemos este tema nas escolas, se preparássemos as famílias para isso e se trabalhássemos com os agressores no sentido de eles entenderem e não resolver o assunto, mandando-os para a cadeia.

O que antes era visto como cavalheirismo, como pagar a conta do restaurante, agora pode ser considerado machista?
É e os homens não sabem lidar com isso. Na hora de pagar a conta do restaurante o melhor é falar disso abertamente, mas é muito difícil saber como se comportar. Agora como tudo é abuso, começa a ser complicado para os homens aproximarem-se das mulheres. O que no meu tempo era charmoso, como assobiar ou dizer uma palavra para uma moça bonita, hoje é interpretado como abuso e isso acaba por levar a cultura para trás e não para a frente. A liberdade e a espontaneidade vão desaparecendo.

Acha que elas exageram?
Elas não admitem nem uma brincadeira. Nalgumas universidades daqui as mulheres criaram autênticos tribunais para julgar se os homens se portam bem ou mal e acho que isso é muito prejudicial para os relacionamentos. Precisamos de dialogar, não é só julgar. Claro que aquele homem grosseiro que se encostou a mim no Metro tem de ser visto de forma diferente do meu colega de turma, que pode cometer uma falha ao dizer uma piada machista, sem ter tido a intenção de ofender. Elas estão muito intransigentes.

Com tanto feminismo, acha que as mulheres ainda criam filhos para serem homens, no sentido machista?
É verdade, depois elas vão criar os filhos no mesmo padrão. Ainda é muito difícil para as famílias criarem filhos homens que sejam ternos, que choram, que gostam de ficar no colo da mãe. Há uns até que gostam de pintar as unhas e as mães morrem de medo da homofobia – esse é um problema que perdura na nossa cultura. Estive recentemente nos Estados Unidos e lá há um grupo de jovens casais que estão a criar os filhos como se eles não tivessem sexo. Não lhes dão nome feminino nem masculino e vestem-nos com roupas unissexo para que as crianças possam ser livres para escolher o seu género.

E isso é pedagógico?
Não sei se é pedagógico, eu acho é que é inevitável porque cada vez mais existem várias modalidades de sexo, acabou essa coisa de ser só homem e mulher. É um caminho que não tem retorno. Eu não julgo, eu constato.

Texto de Sónia Bento, revista SÁBADO, Portugal.


Para saber mais sobre o livro, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/livro/1483/Homem+subjugado,+O


‘QUASE 10 MILHÕES DE PESSOAS AINDA NÃO SE VACINARAM CONTRA A GRIPE’

Matéria publicada no iG, Saúde em 19/06/2018.

Crianças menores de cinco anos compõem o grupo com menos adesão do público-alvo para a campanha de imunização, com 4,4 milhões sem vacina

O Ministério da Saúde informou que 9,5 milhões de pessoas que fazem parte do público-alvo ainda não se vacinaram contra gripe. O balanço foi divulgado nesta quarta-feira (19), a apenas três dias para o fim da campanha nacional de vacinação, que termina nesta sexta-feira (22).

Deste total, 4,4 milhões são crianças menores de cinco anos. Por causa da baixa cobertura vacinal contra gripe , o governo já havia prorrogado a campanha por mais uma semana. A meta do governo é atingir 90% do público prioritário, que totaliza 54,4 milhões de pessoas, mas o índice de cobertura alcançado até agora foi 80,7%, o equivalente a 44,8 milhões de pessoas.

As crianças de seis meses a cinco anos de idade e as gestantes, um dos grupos prioritários mais vulneráveis à gripe, registram o menor índice de vacinação contra a gripe, com cobertura de apenas 65% e 68,9%, respectivamente. Já o público com maior cobertura da vacina contra a gripe é o de professores, com 95,1%, seguido pelas puérperas – mulheres que deram à luz em até 45 dias -, com 94,1%. Os idosos, cujo índice de cobertura é de 88,7% e a população indígena, com 88,5% de vacinação, aparecem em seguida entre os públicos imunizados. Entre os trabalhadores de saúde, a cobertura de vacinação está em 86,8%.

A escolha dos grupos prioritários para a vacinação contra a gripe segue recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS). Essa definição também é respaldada por estudos epidemiológicos e pela observação do comportamento das infecções respiratórias, que têm como principal agente os vírus da gripe. São priorizados os grupos mais suscetíveis ao agravamento de doenças respiratórias.

Por região

A região Sudeste é a que tem menor cobertura vacinal contra a gripe até o momento, com 74,62% do público-alvo imunizado. Em seguida estão as regiões Norte (74,67%), Sul (83,4%), Nordeste (86,8%) e Centro-Oeste, com a melhor cobertura até agora: de 95,4%. Entre os estados, Goiás, Amapá, Distrito Federal, Ceará, Espírito Santo e Alagoas possuem cobertura vacinal contra a gripe acima de 90%. Os estados com as taxas mais baixas de vacinação contra a gripe são Roraima, com 56% e Rio de Janeiro, com 61,1%, informou o ministério.

Disponibilidade

Após o fim da campanha, caso haja disponibilidade de vacinas nos estados e municípios, a vacinação contra a gripe poderá ser ampliada para crianças de 5 a 9 anos de idade e adultos de 50 a 59 anos. Em nota, o Ministério da Saúde reforçou a importância dos estados e municípios continuarem a vacinar contra a gripe os grupos prioritários, em especial crianças, gestantes, idosos e pessoas com comorbidades, público com maior risco de complicações para a doença.

A região Sudeste é a que tem menor cobertura vacinal contra a gripe até o momento, com 74,62%. Em seguida estão as regiões Norte (74,67%), Sul (83,4%), Nordeste (86,8%) e Centro-Oeste, com a melhor cobertura: 95,4%. Entre os estados, Goiás, Amapá, Distrito Federal, Ceará, Espírito Santo e Alagoas possuem cobertura vacinal contra a gripe acima de 90%. Os estados com as taxas mais baixas de vacinação contra a gripe são Roraima, com 56% e Rio de Janeiro, com 61,1%.

Dados

O último boletim de influenza do Ministério da Saúde aponta que, até 9 de junho, foram registrados 2.715 casos em todo o país, com 446 óbitos. Do total, 1.619 casos e 284 óbitos foram por H1N1. Em relação ao vírus H3N2, foram registrados 563 casos e 87 óbitos. Além disso, foram 259 registros de influenza B, com 30 óbitos e os outros 274 de influenza A não subtipado, com 45 óbitos. No mesmo período do ano passado, foram 1.227 casos e 204 óbitos por complicações relacionadas à gripe.

Entre as mortes em decorrência dos vírus da influenza, a média de idade foi 52 anos. A taxa de mortalidade por influenza no Brasil está em 0,18% para cada 100 mil habitantes, segundo dados do ministério. Dos 374 indivíduos que foram a óbito por influenza, 267 (71,4%) apresentaram pelo menos um fator de risco para complicação, com destaque para adultos maiores de 60 anos: cardiopatas, diabetes mellitus e pneumopatas. Esse público é considerado de risco para a doença, por isso a vacina contra a gripe é garantida gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS).

Para ler a matéria na íntegra, acesse: http://saude.ig.com.br/2018-06-19/gripe-vacinacao-campanha.html

 

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Tem dúvidas sobre vacinação? Conheça:
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VACINAR, SIM OU NÃO?
Um guia fundamental
Autores: Monica LeviGuido Carlos LeviGabriel Oselka
MG EDITORES

Desde o surgimento da primeira vacina, no fim do século XVIII, centenas de milhares de mortes foram evitadas e dezenas de moléstias, combatidas. Estima-se que, nos últimos dois séculos, as vacinas proporcionaram um aumento de cerca de 30 anos em nossa expectativa de vida.

Porém, nos últimos anos, um grande movimento internacional contra as vacinas tem chamado a atenção de pais, profissionais de saúde e educadores. Partindo de informações contraditórias e de dados sem comprovação científica, seus membros alegam ter o direito de escolher vacinar ou não os filhos. No entanto, essa decisão, que de início parece individual, tem consequências coletivas, fazendo por vezes ressurgir epidemias que se consideravam erradicadas.

Escrito por dois pediatras e um infectologista, todos com vasta experiência em imunização, este livro apresenta:

  • um histórico do surgimento e da consolidação das vacinas;
  • os benefícios da imunização para a saúde individual e coletiva;
  • os mitos – pseudocientíficos e religiosos – associados a elas, como o de que a vacina tríplice viral provoca autismo;
  • as respostas da ciência a esses mitos;
  • as consequências da não vacinação para os indivíduos e a comunidade;
  • as reações adversas esperadas e como agir caso isso aconteça;
  • as implicações éticas e legais da vacinação compulsória.

ROSA CUKIER LANÇA “VIDA E CLÍNICA DE UMA PSICOTERAPEUTA” NA LIVRARIA DA VILA, NA VILA MADALENA

A Editora Ágora e a Livraria da Vila (Vila Madalena – SP) promovem no dia 19 de junho, terça-feira, das 18h30 às 21h30, a noite de autógrafos do livro Vida e clínica de uma psicoterapeuta, da psicodramatista Rosa Cukier. A autora receberá amigos e convidados no piso superior da livraria, que fica na Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena, São Paulo.

A obra reúne os frutos dos estudos da autora nos últimos dez anos. De forma clara e didática, ela aborda, entre outros temas, a importância do psicodrama e da dramatização como mecanismo de reparação, as adições, a codependência, a inveja e o estresse pós-traumático, tanto do paciente quanto do terapeuta. Para tanto, toma como base sua prática clínica e as ideias de grandes pensadores, como Jacob Levy Moreno, Joseph LeDoux, Peter Levine, Alice Miller e Melody Beattie.

Fundamental para psicodramatistas, assim como para estudantes que estão iniciando nesse caminho, o livro se baseia em grande parte na trajetória de Rosa, tanto no campo pessoal quanto no profissional. “Meu objetivo é que a obra os fertilize de ideias e, sobretudo, que os mobilize a levar em conta seu momento pessoal ao enveredar por alguma pesquisa científica. Para mim, essa é a chave que provoca minha curiosidade e me dá fôlego para ler tudo que leio e estudo”, afirma Rosa.

Dividida em oito capítulos, a obra é baseada em artigos escritos e publicados em revistas especializadas. “Sempre me senti mobilizada a estudar as questões ligadas à primeira infância, sobretudo o abuso infantil e as marcas indeléveis que este deixa no psiquismo. Violência doméstica, distúrbios narcísicos, borderlines, funcionamento cerebral – tenho a impressão de que sempre estudei a mesma coisa, de pontos de vistas diferentes, e sempre quis usar e ensinar a aplicar o psicodrama no tratamento dos quadros decorrentes”, diz Rosa.

Para saber mais sobre o livro, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/livro/1493/9788571832060

‘MULTIPLICAÇÃO DE FRAGMENTOS, UMA RODA DE CONVERSA’

“Cada vez mais os leitores aceitam identificar-se com a experiência do homem sem fama, do homem comum que por acaso capta e relata a própria historicidade (matéria que não se ensina na escola). De certa forma, muitos de nós voltamos ser contadores de histórias.” (Anna Veronica Mautner)

Daisy Perelmutter e Regina Favre desejam reunir pessoas para a experiência de ler e conversar sobre o livro Fragmentos de uma vida, de Anna Veronica Mautner. O fragmento alheio tem o poder de disparar nossa memória afetiva impulsionando o esforço oral e corporal de revelação de si por meio de detalhes sensíveis, em direção à construção narrativa de mais fragmentos que por sua vez, continuarão a se multiplicar, ecoando em outras narrativas, em outras redes. Não é imprescindível a leitura prévia. O livro se encontrará à venda no local do encontro.

Quem é Anna Veronica

Nasceu em Budapeste, imigrou aos 3 anos para o Brasil no limite do inicio da Segunda Guerra, criou-se em São Paulo, estudou Ciências Sociais na USP-Maria Antonia, conviveu com toda a geração dos sociólogos e filósofos que marcaram a esquerda paulista, foi jornalista no Última Hora e nos Diários Associados, foi professora da USP e da GV, conviveu com J.A.Gaiarsa, fundou o curso de psicoterapia reichiana no Instituto Sedes Sapientiæ, formou-se psicanalista na Sociedade Brasileira de Psicanálise, clinica há quase 50 anos.

Quem é Regina Favre

Filósofa (PUC/SP), psicoterapeuta em consultório há mais de 40 anos, professora e pesquisadora independente do corpo subjetivo. Vem desenvolvendo com grupos nos últimos 20 anos no Laboratório do Processo Formativo, estratégias de captação audiovisual, estudo e experiência desse corpo, sua anatomia, sua oralidade, sua performatividade, suas dramaturgias e narrativas, sua historicidade, suas políticas de corporificação e visualidade.

Quem é Daisy Perelmutter

Historiadora e socióloga com especialização em História Oral. Doutora em História Social e Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP. Trabalha há mais de 30 anos na interface entre narrativas de histórias de vida, memória social e processos de produção de subjetividade. Engajada com vários projetos de história institucional, história de famílias, história de bairros, história de comunidades, pesquisa para instituições museológicas e documentárias.

Serviço:

Data: 30 de junho
Horário: das 10h às 14h
Local: Laboratório do Processo Formativo – Rua Apinajés, 1100, cj 507 – Perdizes –São Paulo – SP
Valor: R$ 50 (inscrição simbólica)
Inscrições: regina.favre@gmail.com
Vagas: 20
Mais informações: Blog da Anna Veronica – Fragmentos de Uma Vida

‘EM PAÍS QUE VALORIZA A VELHICE, IDOSOS VIVEM COM MAIS SAÚDE’

Pesquisas apontam menor depressão e risco de demência, além de recuperação física mais rápida

Jim Rendon e Olufemi Terry, WASHINGTON. Reproduzido na Folha de S. Paulo de 13/06/32018.

Aos 85 anos, Claude Copin, uma soldadora francesa aposentada, parece ter descoberto o segredo para viver uma vida longa e saudável. Ela se mantém ativa jogando petanca com amigos em Paris.

E ela os atormenta para apresentá-la a seus filhos, muitos deles adolescentes. Esses adolescentes a levam a festas e filmes, às vezes esquecendo da idade que ela tem.

“Faço minha vida ser bonita. Ainda sou saudável porque tenho minhas atividades e conheço gente”, diz Claude.

Ela está certa. Um número crescente de pesquisas e dados globais coletados e analisados pela Orb Media mostram forte conexão entre a forma como vemos a velhice e a nossa qualidade de vida.

Pessoas com visões positivas da velhice tendem a viver mais e com melhor saúde mental e física do que aquelas com visões negativas.

Os mais velhos em países com baixos níveis de respeito pelos idosos também tendem a apresentar níveis mais altos de pobreza.

Como a taxa de envelhecimento da população está subindo rapidamente em muitos países, uma mudança de atitude poderia trazer benefícios.

Se as tendências populacionais continuarem, em 2050 uma em cada cinco pessoas no mundo terá mais de 65 anos, e quase meio bilhão terá mais de 80 anos.

Surpreendentemente, em um mundo repleto de pessoas mais velhas, as visões negativas da velhice são comuns.

Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde descobriu que 60% das pessoas em 57 países tinham opiniões negativas sobre a velhice.

As pessoas mais velhas são frequentemente vistas como menos competentes e menos capazes do que as mais jovens e consideradas um fardo para a sociedade e as famílias, em vez de valorizadas por sua sabedoria e experiência.

A Orb Media compilou dados de 150 mil pessoas em 101 países para aprender sobre seus níveis de respeito pelos idosos. O Paquistão ficou entre os países que obtiveram as maiores pontuações.

O respeito pelos idosos é uma tradição de longa data no Paquistão, diz Faiza Mushtaq, professora de sociologia no Instituto de Administração de Empresas em Karachi.

Mas, à medida que mais gente se muda para as cidades, estruturas familiares tradicionais tem se rompido. Sem uma rede de apoio do governo, muitos caem na pobreza extrema, diz a professora.

No entanto, ela afirma que há benefícios tangíveis para o respeito à velhice. “É uma maneira muito mais saudável de assumir o processo de envelhecimento, em vez de ter todas as suas noções de bem-estar, beleza e valor próprio ligados à juventude”, diz Faiza.

Com a expectativa de vida mais longa do mundo e baixas taxas de natalidade, o Japão está à frente dessa mudança demográfica global.

A Orb encontrou baixos níveis de respeito pelos idosos no país. Kozo Ishitobi, um médico de 82 anos que trabalha em um lar de idosos, diz que os idosos eram tradicionalmente vistos como um fardo.

“Os japoneses estão começando a perceber que idosos precisam de apoio. Todos nós passamos por isso, então devemos apoiar uns aos outros.”

A atitude de uma pessoa em relação ao envelhecimento tem implicações amplas. Becca Levy, professora de epidemiologia na Faculdade de Saúde Pública da Universidade Yale (EUA), é fascinada pelo poder dos estereótipos sobre idade há décadas.

Ela começou seu trabalho nos anos 90 com um palpite: se os idosos são respeitados na sociedade, talvez isso melhore sua autoimagem. “Isso pode, por sua vez, influenciar sua fisiologia e influenciar sua saúde”, diz Becca.

Nas últimas duas décadas e meia, a professora e pesquisadores que estudaram o assunto descobriram exatamente isso: pessoas com visões positivas sobre a velhice vivem mais e envelhecem melhor.

São menos propensas a ficar deprimidas ou ansiosas; demonstram maior bem-estar e se recuperam mais rapidamente de doenças. São menos propensas a desenvolver demência e características da doença de Alzheimer.

Em um estudo, Becca descobriu que americanos com visões mais positivas sobre o envelhecimento, que foram acompanhados ao longo de décadas, viveram 7,5 anos a mais do que os com visões negativas.

Estudos na Alemanha e na Austrália encontraram resultados semelhantes.

A pesquisa e análise da Orb revelaram que esses efeitos também podem ser vistos entre culturas diferentes. As pessoas mais velhas em países com altos níveis de respeito aos idosos relatam melhor bem-estar mental e físico, de acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, das Nações Unidas e outros.

Esses países também possuem menores taxas de pobreza entre a população com mais de 50 anos em comparação com jovens do mesmo país.

Parece simples demais: como uma atitude melhor em relação à velhice ajuda alguém a viver mais? Becca descobriu que pessoas com estereótipos negativos sobre idade têm níveis mais altos de estresse, que prejudica a saúde. Aqueles que esperam uma vida melhor na velhice também são mais propensos a se exercitar, comer bem e ir ao médico, diz Becca.

Esse é o caso de Marta Nazaré Balbine Prates, de 57 anos, cuja família se mudou para a casa dos avós em São Paulo, no Brasil, há uma década.

Ela deixou seu trabalho como nutricionista em um hospital para cuidar dos pais (seu pai morreu no início do ano). Foi difícil financeiramente e emocionalmente, mas ela diz que a experiência a fez pensar sobre o tipo de vida que quer para sua velhice. “Procuro cuidar da alimentação, faço atividade física na medida do possível. Quero chegar à velhice em boa condição física.”

Deveríamos estar gratos por nos preocuparmos em envelhecer, diz Marília Viana Berzins. Ela trabalha com idosos no Brasil há 20 anos e fundou a organização não governamental Observatório da Longevidade e Envelhecimento Humano. “A velhice é a maior conquista da humanidade no século passado”, diz ela.

Segundo Marília, “quando a velhice for vista apenas como uma fase da vida, vamos melhorar, e os idosos serão tratados com mais respeito”.

Mudar os estereótipos não é simples. As pessoas criam suas concepções sobre o envelhecimento quando são crianças, diz Corinna Loeckenhoff, professora de gerontologia da Faculdade de Medicina Weill Cornell (EUA), que estuda estereótipos entre culturas.

Infelizmente, as crenças negativas são frequentemente construídas a partir de impressões inexatas.

À medida que as pessoas envelhecem, sua saúde geralmente permanece estável até cerca de cinco anos antes de morrerem, diz Corinna. Só então a maioria das pessoas sofrerá o declínio mental e físico mais associado à velhice.

“As pessoas continuam confundindo envelhecimento com morte”, diz Corinna.

Alguns pesquisadores dizem que o aumento do contato significativo entre jovens e idosos pode derrubar estereótipos negativos.

Nos últimos cinco anos, a Résidence des Orchidées, uma casa de repouso na França, vem tentando fazer isso. Toda semana crianças de uma creche vizinha visitam os moradores. Pierre Vieren, um empresário aposentado de 92 anos, adora ver as crianças.

“Todos acenam para mim para dizer oi. Isso é meu raio de sol pela manhã.”

A diretora da casa de repouso, Dorothee Poignant, diz que a experiência normaliza a velhice para as crianças. “Recria um espírito de família com alegria, crianças rindo, mais velhos rindo”, diz ela. “Não temos apenas idosos: temos crianças, idosos, deficientes. É inclusivo.”

Todo mundo pode sair ganhando com ideias mais positivas sobre a velhice, afirma Corinna. “Você será a vítima ou beneficiário do seu próprio estereótipo à medida que envelhece.”

A Orb Media é uma organização jornalística sem fins lucrativos sediada em Washington, nos EUA. A reportagem original completa pode ser lida no site da organização.

MAIS VELHOS SÃO OS MAIS PREPARADOS, DIZEM BRASILEIROS

Em comparação com os mais novos, são os mais velhos os mais responsáveis, honestos, éticos e dedicados, mostra pesquisa Datafolha que detalhou valores e comportamentos de diferentes faixas etárias.

A cada 4 pessoas, 3 consideram que são os mais velhos que possuem mais essas qualidades. Para 56% dos brasileiros, os mais velhos são também os mais preparados para o trabalho.

Apesar da visão positiva, 90% disseram acreditar que há preconceito contra os idosos no país.

A pesquisa mostrou ainda que 56% dos com 60 anos ou mais estão satisfeitos com seu estado de saúde.

Para ler a reprodução na íntegra, acesse: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/06/em-pais-que-valoriza-a-velhice-idosos-vivem-com-mais-saude.shtml

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Se você tem interesse pelo tema, conheça:

VELHICE
Uma nova paisagem
Autora: Maria Celia de Abreu
EDITORA ÁGORA

Todos nós estamos ou muito em breve estaremos envolvidos com velhos: por sermos idosos, por termos alta probabilidade envelhecer ou porque nossos produtos tendem a ser consumidos por esse público. Por que, então, a velhice permanece um estigma em nossa sociedade?

A fim de mudar essa visão, a psicóloga Maria Celia de Abreu propõe neste livro transformar visões e ideias preconcebidas a respeito do velho. Partindo de estudos teóricos sobre a psicologia do envelhecimento e de vivências colhidas em grupos de estudos, ela propõe que a vida passe a ser encarada como uma estrada que percorre diversas paisagens diferentes – nem melhores nem piores que as outras.

Com exercícios de conscientização e exemplos práticos, a autora discorre sobre inúmeros assuntos pertinentes à velhice, como corpo, sexualidade, memória, perdas, luto e depressão. Fundamental para idosos, seus familiares, cuidadores, pesquisadores.

Prefácio de Mario Sergio Cortella.