“A INDISCIPLINA NA ESCOLA É UM PROBLEMA DE TODOS NÓS”, POR SILVIA GASPARIAN COLELLO

A indisciplina nas escolas brasileiras é um fato. Alastrando-se em diferentes instituições e segmentos do ensino, a falta de limites, o desrespeito e as ocorrências de violência e vandalismo são queixas que se multiplicam entre pais, professores e gestores. Mas, afinal, de quem é o problema e como lidar com ele?

Quando a indisciplina é encarada como um monólito, ou seja, como um bloco de ocorrências uniforme e incompreensível, resta apenas o perverso jogo de culpabilização: as escolas criticam os pais “que não educam os filhos”; os professores incriminam os alunos “carentes e desequilibrados” e as famílias culpam o “ensino de baixa qualidade”. Muitos apontam para a “a crise de valores, um mal do nosso tempo”.

Nesses casos, pouco pode ser feito, exceto defender-se das acusações, conformar-se com o “inevitável” e remediar a situação em âmbitos específicos: o professor tenta controlar a classe, o aluno suporta o bullying dos colegas, os pais repreendem o filho rebelde. Cada um lidando solitariamente com a situação, como se o problema fosse pessoal. Pior que isso, nem sempre sabem o que fazer.

Se, por outro lado, a indisciplina fosse compreendida na sua complexidade, entendendo-se, em cada caso, a conjugação de fatores sociais, institucionais, pedagógicos, afetivos e relacionais, o desafio poderia ser enfrentado na parceria responsável entre famílias, escolas e poder público. Um enfrentamento capaz de lidar com a gênese do problema (e não só com seus efeitos), articulando o projeto educativo à formação ética dos alunos.

Assim, a disciplina deixaria de ser um requisito para a eficiência escolar, passando à meta do projeto pedagógico, tão legítima quanto ensinar conteúdos.

Enfrentar a indisciplina requer medidas conjugadas em diferentes planos de intervenção. Na esfera sociopolítica, cabe o investimento na valorização da vida, do trabalho, da educação e da escola.

No que tange a cultura, importa promover a democratização dos bens culturais, fomentando iniciativas de lazer, esporte e inserção social da juventude. No âmbito escolar, é preciso não só cuidar da formação dos professores, como também fortalecer o projeto pedagógico a partir de sólidas diretrizes para a formação humana.

A cooperação entre pais e educadores é, igualmente, indispensável para a reconfiguração da vida estudantil, pois a negociação de metas e linhas de conduta favorece a educação em valores e a conquista da postura crítica entre os alunos.

Sob essa ótica, talvez, a questão possa ser respondida de modo mais efetivo: a indisciplina na escola é um problema de todos nós.

Silvia Gasparian Colello é professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Alfabetização e Letramento.

Texto especial para a Folha de S.Paulo, publicado originalmente na revista em 29/1/2013. Para conferir, acesse: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1221627-opiniao-a-indisciplina-nas-escolas-brasileiras-e-um-problema-de-todos-nos.shtml

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Conheça os títulos da autora, todos publicados pela Summus Editorial:

A escola que (não) ensina a escrever
Autora: Silvia M. Gasparian Colello
A fim de repensar as concepções acerca da língua, do ensino, da aprendizagem e das práticas pedagógicas, este livro levanta diversos questionamentos sobre a alfabetização como é praticada hoje nas escolas. Depois de analisar diversas falhas didáticas e tendências pedagógicas viciadas, a autora oferece alternativas que subsidiem a construção de uma escola que efetivamente ensine a escrever.

Textos em contextos – Reflexões sobre o ensino da língua escrita
Organizadora: Silvia M. Gasparian Colello
Autores: 
Teresa Cristina Fernandes TeixeiraÉrica de Faria DutraGláuci Helena Mora DiasMaria Aparecida Vedovelo SarrafMaria de Lurdes ValinoMartha Sirlene da SilvaMárcia Martins CastaldoNilma Guimarães Silvia M. Gasparian ColelloAndréa Luize
Com o objetivo de discutir a alfabetização em sua complexidade, esta obra usa o referencial socioconstrutivista para relacionar teoria e prática em diferentes abordagens: as concepções de ensino e de escrita, as trajetórias escolares na alfabetização de crianças e adultos, os processos cognitivos na aprendizagem da escrita, a produção textual na infância e adolescência, os desafios da transposição didática e a formação de professores alfabetizadores.

Alfabetização e letramento: pontos e contrapontos
Organizadora: Valéria Amorim Arantes
Autores: Valéria Amorim ArantesSilvia M. Gasparian ColelloSérgio Antônio da Silva Leite
É possível alfabetizar sem retornar à cultura cartilhesca? Qual o papel da afetividade na alfabetização? Como sistematizar o trabalho pedagógico em sala de aula? Que paradigmas devem ser revistos no caso da aprendizagem escrita? Essas e outras perguntas são respondidas e debatidas nesta obra fundamental ao professor.

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