CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Em 21 de março de 1960, no bairro de Shaperville, na cidade de Joanesburgo, na África do Sul, uma multidão de negros, em sua maioria homens e mulheres jovens, protestava de forma pacifica contra a lei do passe, que os obrigava, em pleno regime de segregação racial, a portar cartões de identificação, especificando os locais onde eles podiam circular. Numa ação que ficou conhecida como o  Massacre de Shaperville, forças militares a serviço desse regime de triste lembrança, o Apartheid, atiraram de forma indiscriminada contra os manifestantes, matando 69 pessoas e ferindo outras 186. Para marcar essa tragédia a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 21, como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.

A legislação brasileira instituiu os primeiros conceitos de racismo em 1951 com a Lei Afonso Arinos que classificava a prática como contravenção penal. Somente na Constituição Federal de 1988, o racismo passou a ser considerado crime inafiançável, sujeitando o criminoso à pena de reclusão. De lá para cá, o Brasil somou importantes avanços, principalmente com ações afirmativas, mas há ainda um longo caminho a ser trilhado para corrigir e eliminar as desigualdades históricas.

Um trabalho realizado pelo Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (Dieese) de 2010 sobre a inserção do negro no mercado de trabalho mostra que a população negra predomina na população brasileira, é mais jovem, tem mais filhos, é mais pobre e está mais exposta à mortalidade por causas externas, especialmente homicídios. Nos últimos anos, com as políticas compensatórias, houve ascensão social. De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (PNAD), são negros 80% dos mais de 40 milhões de brasileiros que subiram à classe C. Nas universidades, eles são 921 mil entre 3,5 milhões de estudantes. Uma porcentagem pequena se comparada ao total de universitários, mas já grande o suficiente para fazer diferença no mercado de trabalho.

O livro Afrocidadanização, recém lançado pela Selo Negro Edições, retrata um pouco desse universo. O autor, professor Reinaldo da Silva Guimarães, partiu da própria história para compreender a trajetória profissional de bolsistas de ação social formados pela PUC-Rio. Pautados na perseverança e no desejo de superação, eles revelam uma realidade difícil de ser traduzida, mas repleta de simbolismos: a realidade das relações raciais no Brasil.

Afrocidadanização é o processo pelo qual os indivíduos negros, historicamente subalternizados na sociedade brasileira, conquistam efetivamente a cidadania plena. No livro, produzido em coedição com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Guimarães aborda essa ascensão por meio do ingresso na universidade. Ele apresenta a trajetória de vida dos universitários provenientes dos pré-vestibulares comunitários e populares em rede, que foram beneficiados com as ações afirmativas da PUC-Rio depois de sua graduação. O autor dá visibilidade ao peso do racismo no mercado de trabalho, uma vez superada a histórica barreira da formação acadêmica pelos negros brasileiros.

Para pesquisar a trajetória profissional dos bolsistas, Guimarães adotou sua própria história como referência intelectual e emocional para compreender as percepções narradas pelos entrevistados. Eles apontam para um contexto pautado na perseverança e no desejo de superação, mostrando uma realidade pouco conhecida e difícil de ser traduzida, mas repleta de simbolismos.

A trajetória do autor reflete e dá essência e concretude ao conceito de afrocidadanização. Nascido em comunidade pobre, ele conseguiu superar diversos momentos difíceis e ingressar na universidade. Como um dos protagonistas dessa história de sucesso, aproveita sua narrativa para explicitar o processo de construção de identidade racial. “O livro marca um momento positivo na vida brasileira”, diz Elisa Larkin Nascimento, do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), que assina o prefácio da obra.

Para saber mais sobre o livro Afrocidadanização, acesse: http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/livro/1331/AFROCIDADANIZA%C3%87%C3%83O

E para saber mais sobre o tema, leia:

Políticas públicas e ações afirmativas
Dagoberto José Fonseca 

 

Racismo, sexismo e desigualdade racial
Sueli Carneiro 

Relações raciais e desigualdade no Brasil
Gevanilda Santos

 

Experiências da emancipação
Petrônio DominguesFlávio Gomes

 

 

Ações afirmativas em educação
Cidinha da Silva (org.) 

Racismo e anti-racismo na educação
Eliane Cavalleiro 

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