‘A DITADURA DA IMAGEM’

Psiquiatra da Cruz Azul aborda os transtornos alimentares ligados à busca desenfreada pelo corpo ideal

Aparecer em uma mídia social sorrindo, exibindo um corpo com relevo de músculos moldados por exercícios tenazes e dietas mirabolantes, repleto de tatuagens que exaltem os volumes e contornos bem delineados, complementados de adornos como piercings que provoquem a imaginação sensual no Facebook e no Instagram, no final das contas, pode ter um alto preço.

Enquanto se aparece como belo ícone é “tudo de bom”, “é nóis na fita”, “linda, lindo, kkk”… A imagem vale mais do que mil palavras no nosso cotidiano da exibição da alegria. Desconfia-se que esta seja pouco verdadeira, mas o instantâneo da fama compensa o “discurso, o papo cabeça, a filosofia”.

A construção de um resultado final com esta alegoria a exibir é fruto de um árduo trabalho, que profissionais da área de saúde mental tipificam como: impulso, compulsão, baixa autoestima, narcisismo ferido, obsessividade, distorção da imagem corporal, purgação, funcionamento autopunitivo, perversão, esvaziamento psíquico e desamparo, ou seja, designações que revelam o inverso do que o sorriso e a força muscular tentam disfarçar: dor psíquica, insegurança e sentimento de fraqueza.

Quando se coloca a questão sobre: “o que veio a se chamar transtorno alimentar?”, é indissociável a conjunção entre imagem corporal/autoimagem, procedimentos compulsivos relacionados à dieta e atividade/inatividade física com comportamentos estereotipados e moldados por ideias obsessivas relacionadas à aparência.

Pode-se colocar no mesmo tacho, na mesma panela de pressão: anorexia, bulimia, vigorexia, obesidade, alcoolismo de um lado e, de outro, o “como me vejo” e “como devo me modificar”, seja pela dieta ou ausência dela, pelo excedente a ser expelido via vômito ou atividade física excessiva e ainda pela inação e autoabandono.

Os sentimentos de desamparo, fraqueza, tristeza, abandono e vazio são “tratados” na arena ou no teatro do corpo, o qual deve ser belo a todo custo, envolvendo comportamentos aditivos (comer muito e expelir, comer muito ou beber muito e se narcotizar pela saciedade como uma droga, buscar purgar/punir pela adição de exercícios para ter o tônus e a endorfina) ou restritivos (não comer, isolar-se porque se sente gordo mesmo estando esquelético, enfim, punindo-se).

O que os psicanalistas chamam de “oralidade”, que é o prazer pela boca ou mesmo evitá-lo, conduz tudo. Na raiz, a noção de que, como seres no início de nossas vidas, o prazer oral teria sido o primeiro deleite, aquele que se mantém vivo como um sentido, com mais vigor do que o sexo, posto que se precisa lidar com isso constantemente, várias vezes ao dia. A sexualidade genital pode esperar, mas, a fome, não. Esta é primordial, renovável a cada pequeno período de tempo, que se faz sentir de modo impositivo a ponto de que, quando se está faminto, não se pode pensar em outra coisa que não seja alimentar-se, um fato inadiável.

Portanto, as carências, insuficiências e instabilidades ganham tradução nisto que mais se sente, representando no que as pessoas cedem nesta busca por saciar/bloquear em prol da estética. Por exemplo, as pessoas vão às academias e conversam sobre o que comeram no final de semana passado e precisam descontar nos exercícios ou citam aquilo que vão poder comer depois dos treinos.

Tudo isso que foi dito sinaliza que os transtornos alimentares graves, como anorexia ou bulimia, denotam uma continuidade em grau maior das preocupações com a aparência, o apelo às dietas e a obstinação pela qual o indivíduo tende a não pensar sobre suas angústias fundamentais quanto a estar vivo, assim como ter responsabilidade sobre si e sua própria vida, deslocando tudo sobre o espelho do corpo e não o retrato da alma, neste nosso mundo que se esquiva das palavras buscando a imposição pela ditadura da imagem do belo corpo.

Por Dr. Carlos Neumann – Psiquiatra da Cruz Azul, Doutor em Psicologia Clínica e Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise –, publicado originalmente no Portal Cruz Azul, em 03/01/2018. Para acessar na íntegra: Para lê-lo na íntegra, acesse: http://www.cruzazulsp.com.br/a-ditadura-da-imagem/

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