MORRE ALBERTO DINES

Foto de Jaqueline Machado

Lamentamos informar que faleceu nesta terça-feira, 22 de maio de 2018, aos 86 anos, o jornalista Alberto Dines, devido a problemas respiratórios. Segundo Norma Couri, sua esposa, ele estava internado no hospital Albert Einstein há 10 dias por causa de uma forte gripe, que acabou evoluindo para uma pneumonia. Um dos mais conhecidos e respeitados jornalistas brasileiros, Dines foi autor de livros de ficção, reportagem, história e biografias. Pela Summus Editorial, lançou em 2009 a nona edição do livro “O papel do jornal e a profissão do jornalista”, obra clássica na área da comunicação, lançada há quase 45 anos.

Jornalista desde 1952, Dines foi repórter das revistas Visão e Manchete, editor da Última Hora e do Diário da Noite e criador de Fatos e Fotos. No Jornal do Brasil, ao longo de quase doze anos, deu sequência a uma reforma editorial que marcou o jornalismo brasileiro. Nesse período, editou os “Cadernos de Jornalismo e Comunicação” (1965-1973), experiência pioneira de reflexão sobre mídia. Precursor da função de ombudsman com a coluna “Jornal dos Jornais” (Folha de S.Paulo, 1975-1977), na Folha também foi diretor da sucursal do Rio de Janeiro e colunista político.

Dines foi professor de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), professor-visitante na Universidade de Columbia (Nova York) e um dos criadores, na Unicamp, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) – onde em 1996 foi desenvolvido o projeto do “Observatório da Imprensa”, que teve edições na TV e no rádio.

Organizou a edição fac-similar da coleção do Correio Braziliense, primeiro periódico a circular no Brasil. Foi diretor editorial do Grupo Abril em Portugal, onde viveu entre 1988 e 1995, trabalhando e realizando pesquisas para Vínculos do fogo – Antônio José da Silva, o Judeu, e outras história da Inquisição em Portugal e no Brasil, Tomo I.

Em “O papel do jornal e a profissão de jornalista”, Dines discorre sobre um dos seus temas prediletos: o papel da imprensa no desenvolvimento do país. Na obra, revista, ampliada e atualizada, ele retoma o debate sobre a polêmica questão da necessidade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão e revigora aspectos fundamentais para o exercício da profissão, como transparência, consciência profissional e interesse público.

Ele deixou quatro filhos, de seu primeiro casamento, com Ester Rosali.

‘ALBERTO DINES E OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA RECEBERÃO PRÊMIO ABRAJI DE CONTRIBUIÇÃO AO JORNALISMO DE 2016’

O Prêmio Abraji de Contribuição ao Jornalismo, que destaca pessoas e instituições cujo trabalho presta auxílio relevante ao jornalismo brasileiro, será entregue a Alberto Dines pelos 20 anos à frente do Observatório da Imprensa. A sessão solene está marcada para às 16 horas do dia 23 de junho de 2016, durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Dines tem mais de 60 anos de carreira no jornalismo e é o editor-chefe do site Observatório da Imprensa, que completa 20 anos em abril de 2016. O programa de TV homônimo, apresentado por Dines, completará 18 anos em maio.

Dines começou a trabalhar como jornalista em 1952, como crítico de cinema na revista A Cena Muda. Passou a escrever reportagens políticas para a revista Visão e depois escreveu para a revista Manchete. Em 1959, foi convidado a trabalhar no Última Hora por Samuel Wainer, no segundo caderno do jornal; depois disso, em 1960, trabalhou no Diário da Noite, de Assis Chateaubriand. Em 1963 criou e ocupou a cadeira de jornalismo comparado na Faculdade de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em 1965, na mesma universidade, criou a cadeira de teoria da imprensa, onde lecionou até 1966.

Aos 30 anos de idade, em 1962, começou no Jornal do Brasil com o cargo de editor-chefe, onde permaneceu por 12 anos. Em 1970 recebeu o Prêmio Maria Moors Cabot da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

Em 1973, Dines articulou uma estratégia para burlar a censura imposta pelo regime militar, que vetara manchetes sobre o golpe de 11 de setembro no Chile e a morte de Salvador Allende. O jornalista conseguiu que o jornal fosse impresso com a notícia, mas sem manchetes. Dines terminou demitido e preso. Fernando Molica, diretor da Abraji, acredita que esse trabalho de Dines “é um exemplo de criatividade e coragem”.

Depois da demissão tornou-se professor visitante da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, em Nova York, no ano de 1974. Em 1975, a convite de Cláudio Abramo, diretor de redação da Folha de S.Paulo, tornou-se diretor da sucursal carioca do jornal, onde ficou por  5 anos. Dirigiu o Grupo Abril em Portugal entre 1988 e 1995, onde lançou a revista Exame. Dines escreveu e organizou mais de 15 livros, entre eles “O Papel do Jornal e a Profissão de Jornalista”, “A Imprensa em Questão” e “Morte no Paraíso: A Tragédia de Stefan Zweig”.

Segundo Fernando Molica “ao premiar Alberto Dines, a Abraji reconhece a grande contribuição que, por mais de cinco décadas, ele presta à imprensa brasileira. (…) Aos 84 anos, Dines continua ativo e, graças ao seu trabalho, permite que renovemos nossa leitura diária dos jornais.”

O Observatório da Imprensa foi uma das criações do LABJOR, Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp, que também foi criado com o apoio de Dines. Tanto o site, que começou quando a internet comercial engatinhava, quanto o programa de TV discutem e questionam a cobertura de temas relevantes, o que contribui para o aprimoramento do jornalismo praticado no Brasil.

“Há 20 anos Dines conduz um fórum permanente de debate sobre a mídia brasileira, iniciativa rara e bem vinda em qualquer democracia.”, explica o presidente da Abraji, Thiago Herdy.  “Você pode concordar com o que diz um articulista, discordar de outros. O que não dá pra negar é a importância da reflexão e do debate constante para o amadurecimento do jornalismo no país”.

Hoje, Dines também está envolvido em outras iniciativas que prestam auxílio à imprensa brasileira, como o Pequena Grande Imprensa, um projeto pioneiro que visa o fortalecimento do jornalismo regional no país, através de apoio técnico gratuito a pequenos jornais locais nas áreas de gestão, publicidade, redação e tecnologia da informação. A iniciativa, nas palavras de seu idealizador Alberto Dines, vai “contribuir para a desconcentração da mídia brasileira através do fortalecimento dos pequenos e médios jornais.”

O Pequena Grande Imprensa é implementado pelo Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, uma organização sem fins lucrativos que realiza atividades de formação, treinamento, reciclagem e consultoria nos campos profissional e empresarial, que nasceu a partir do Observatório da Imprensa e que hoje é seu mantenedor.

O Prêmio Abraji de Contribuição ao Jornalismo foi entregue pela primeira vez em 2014 ao economista Gil Castelo Branco, pelo trabalho à frente da Associação Contas Abertas. Em 2015, o então diretor-executivo da Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo foi o homenageado.

Publicado no site da Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Para ler na íntegra, acesse: http://www.abraji.org.br/?id=90&id_noticia=3425

***

Conheça o livro de Alberto Dines, publicado pela Summus Editorial:

10653O PAPEL DO JORNAL E A PROFISSÃO DE JORNALISTA
Edição revista, atualizada e ampliada
Autor: Alberto Dines

Alberto Dines é um dos mais respeitados jornalistas brasileiros e discute há décadas o papel da imprensa nos rumos políticos do país. Esta nona edição de O papel do jornal comemora os 35 anos de publicação do livro. Embora o contexto original fosse bem diferente do atual, os assuntos base da primeira edição permanecem: ética, exercício da profissão de jornalista, interesse público. Dines retoma um assunto que ele ressaltou em 1985: a necessidade do diploma de jornalismo para que se exerça a atividade.