‘MEC ALIVIA REGRAS PARA OFERTA DE ENSINO A DISTÂNCIA: ISSO É BOM OU RUIM?’

Uma série de mudanças na regulamentação do EAD (Ensino a Distância) para ensino superior, realizada pelo MEC (Ministério da Educação) no último dia 21, acendeu o debate: até que ponto pode se falar em democratização no acesso ao ensino ou em exagero na flexibilização do EAD?

Entre suas modificações, a portaria publicada pelo MEC possibilita que instituições de ensino superior passem a oferecer cursos EAD mesmo sem possuir credenciamento para cursos presenciais.

Também não será mais necessária a aprovação prévia do MEC para a abertura de polos EAD. A restrição será, nesse caso, feita com base no CI (conceito institucional), indicador de qualidade calculado anualmente após a visita de técnicos do ministério às instalações da instituição de ensino. Junto a isso, essas visitas para efeito de avaliação, que antes eram feitas nas sedes das instituições e também em seus polos, passarão a ser realizadas apenas nas sedes.

A escala de notas do CI varia de 1 a 5. Com a nova regulamentação, instituições de ensino superior que possuírem CI 3 poderão criar até 50 polos por ano, enquanto as com CI 4 poderão criar 150 e as com CI 5 poderão abrir até 250 novos polos EAD por ano.

Já as instituições públicas de ensino estarão automaticamente credenciadas para a oferta de cursos a distância. A exigência do MEC, nesse caso, é que elas passem por um processo de recredenciamento em até cinco anos após a oferta do primeiro curso EAD.

Avanço ou retrocesso?

Para Ronaldo Mota, reitor da Universidade Estácio de Sá e ex-secretário nacional de educação a distância e de educação superior do MEC, na gestão Haddad, as mudanças são positivas e poderiam ter sido “até maiores”, permitindo, por exemplo, que instituições que chegam a notas como 4 ou 5 possam ofertar 40% de seus cursos a distância ao invés dos atuais 20%.

Se não há um elemento vinculante que restrinja pela qualidade, não tem por que você ficar reprimindo o crescimento ou as alternativas que se tem de oferecer oportunidades para o educando”, defende.

“A autonomia dada às instituições de ensino, baseada em aferição de qualidade, não desfavorece a qualidade, ela na verdade fortalece. Hoje nós fazemos o Enade [Exame Nacional de Desempenho de Estudantes] anualmente, e em pouco tempo a instituição de ensino que não tiver uma qualidade de conceito será penalizada. Sabemos que o crescimento de forma desordenada afetará a própria qualidade do ensino que você está ofertando”, explica Mota.

osé Carlos Rothen, professor da Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), pensa o contrário. Para ele, as mudanças podem ser vistas como um mecanismo para a “massificação da educação”.

“Na minha avaliação, representa um retrocesso. Um processo de democratização pressupõe que se compartilhe cursos de qualidade”, avalia o professor, que defende que “nem toda flexibilização é boa”. Ele afirma que é perigoso dar uma autonomia “de universidade” para instituições de ensino menores, como faculdades e centros universitários.

“Como você vai ter essa autonomia inicial, você pode ter alguns aventureiros que vão demorar para serem avaliados pelo CI. Com CI 3 você pode ter 50 polos, e é um CI ruim. Você pode estar proliferando já de cara instituições com muitos polos de baixa qualidade”, defende.

Para ele, a nova forma de fiscalização permitirá, ainda, que se tenha “muitos polos fantasia”. “Muitas instituições não vão passar por um processo de fiscalização efetiva”, afirma o professor.

PNE

O objetivo da ampliação na oferta de cursos a distância, segundo o MEC, é ajudar o Brasil a atingir a meta 12 do PNE (Plano Nacional de Educação). Ela determina uma elevação da taxa bruta de matrícula na educação superior –que mede o acesso de todas as faixas etárias à graduação– para 50% e a taxa líquida –que mede o acesso da população de 18 a 24 anos, faixa etária prevista para estar no ensino superior– para 33%.

Dados de 2015, os mais recentes do acompanhamento feito pelo Simec (Sistema Integrado de Monitoramento, Execução e Controle do Ministério da Educação), mostram números ainda bastante abaixo da meta: 32,6% na taxa bruta e 21,3% na taxa líquida.

Para Mota, é difícil dizer se as mudanças no ensino farão com que o país atinja a meta do PNE. “O que posso dizer é que esses índices hoje são fracos e seriam ainda mais se não tivéssemos EAD. O Brasil só não está indo para trás nesse índice porque o crescimento que existe é no EAD”, defende.

Já Rothen afirma: “No sentido de atingir a meta, pode ser que atinja, sim, porque se está aumentando a oferta. Mas aí a gente vai ter um problema de expansão inadequada.

Para ele, a questão a se pensar é: vamos ter, no futuro, profissionais capazes de atender a demanda do mercado?

“Com uma expansão desordenada, com grupos educacionais que visam apenas o lucro, pode ser que a gente chegue daqui a 20 anos com menos profissionais formados de maneira adequada do que temos hoje”, pontua.

O EAD é uma modalidade de ensino que vem crescendo muito no Brasil nos últimos anos, como mostram dados do Censo da Educação Superior, realizado pelo Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

Em 2009, existiam no país cerca de 677 mil alunos matriculados em cursos de graduação a distância. Quatro anos depois, em 2013, o número mais que dobrou: eram cerca de 1,5 milhões de alunos fazendo um curso EAD de graduação. Na modalidade presencial, o aumento foi de cerca de 7 milhões, em 2009, para aproximadamente 12 milhões de alunos, em 2013.
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Texto de Ana Carla Bermúdez, publicado no UOL, em 28/06/2017. Para ler a reportagem na íntegra, acesse: https://educacao.uol.com.br/noticias/2017/06/28/mec-alivia-regras-para-oferta-de-ensino-a-distancia-isso-e-bom-ou-ruim.htm

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‘ENSINO A DISTÂNCIA SUPERA PRECONCEITO, MAS CURSOS AINDA PODEM MELHORAR’

A opção de estudar em casa ou em outro lugar qualquer, mas longe das tradicionais salas de aula tem atraído mais brasileiros jovens.

O avanço da educação a distância é documentado pelo Ministério da Educação: no dado mais atual, de 2013, o número de universitários em cursos virtuais subiu 16,2% em relação a 2011, com 1,1 milhão de matriculados, quase o dobro do crescimento registrado na graduação tradicional (8,4%) no período. A alta no número de inscritos em vestibulares nesses cursos foi ainda mais significativa: 80% em dois anos.

Luana Carvalho, 29, de São Paulo, é aluna de um dos 1.200 cursos a distância do país. Faz geografia pela Anhanguera via computador. Mas também segue todos os dias para o campus da UniÍtalo, onde estuda pedagogia. Ela explica a maior diferença entre os dois mundos.

“No curso a distância, você pode escolher quando quer ver a aula, e o quanto dela você quer ver, o que não acontece nos presenciais. Também precisa ser mais dedicado e seguir uma linha própria de estudo no primeiro caso”, diz.

Para o MEC, é o “amadurecimento da modalidade” que tem atraído mais adeptos. “O preconceito com esses cursos está sendo diluído em função da entrada das universidades públicas”, afirma Nara Maria Pimentel, diretora da Universidade de Brasília, que tem oito licenciaturas nesse formato.

No país, 97 instituições públicas oferecem graduação a distância. Mas as faculdades privadas detêm a maior parcela de cursos: 60%. Mesmo virtual, o curso exige do aluno ao menos um encontro presencial mensal no polo de ensino, para estreitar laços com professores. Há instituições com modelo híbrido, com matérias presenciais e a distância.

A PUC-RJ precisou fechar seu curso de história nesse modelo por “não dar conta de atender a todos os interessados”, segundo a coordenadora Gilda de Campos. Já o Mackenzie está indo na direção contrária. A universidade aguarda autorização para abrir ao menos três cursos virtuais de graduação ainda este ano, segundo adianta o reitor da faculdade, Benedito Aguiar Neto.

Para uma escola criar um curso a distância precisa ao mesmo tempo investir em infraestrutura tecnológica e na orientação de professores.

“É quase como pensar em uma nova universidade, focando em revisões curriculares a todo o tempo. É uma adaptação a um estudante que não é mais aquele do século 19 “, diz Pimentel.

Segundo especialistas ouvidos pela Folha, a modalidade a distância amplia o acesso ao ensino superior, mas a qualidade dos cursos ainda precisa melhorar. “As turmas são maiores que as presenciais, e o conteúdo é mais leve. Essa é uma postura perigosa porque compromete a formação dos alunos”, completa Pimentel.

Mas, para Luana, que além de duas faculdades se empenha na tarefa de mãe, o ensino a distância foi a saída. “Hoje, não tem como ficar sem estudar.”

Matéria de Camila de Lira, publicado originalmente na Folha de S.Paulo, em 18/05/2015. Para lê-la na íntegra, acesse: http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/05/1630244-ensino-a-distancia-supera-preconceito-mas-cursos-ainda-podem-melhorar.shtml

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CRESCE NÚMERO DE ALUNOS DE EAD NO PAÍS; CURSOS LIVRES SÃO MAIORIA.

Aumentou o número de alunos que aderiram ao sistema de ensino a distância (EAD) no Brasil, o grupo soma mais de 3,5 milhões de estudantes. Os dados são do Censo EAD.BR 2011, divulgado no 18° Congresso Internacional de Educação a Distância, que vai até o dia 26 em São Luís (Maranhão).

A maioria dos cursos ministrados a distância (56%) são livres, não precisam de autorização do MEC (Ministério da Educação) para funcionarem. São cursos de  atualização ou aperfeiçoamento pessoal ou de aprimoramento profissional. Neles estavam matriculados, em 2011, 2,7 milhões de estudantes (77,2%).

Nos livres, as áreas de conhecimento mais procuradas são Administração e Gestão, Educação e Ciências da Computação.

Entre os 3.971 cursos autorizados pelo MEC, a maior parte dos matriculados estão no ensino superior (75%). A pós-graduação responde por 17,5% dos estudantes – inclusos aí mestrados, MBA e outros lato-sensu.

O restante dos matriculados, 7,5%, estão divididos entre cursos de ensino fundamental, médio e técnico.

Perfil

O censo indica que as mulheres são a maioria dos estudantes a distância. A única modalidade com público majoritariamente masculino é a de cursos corporativos – oferecidos por empregadores a seus funcionários.

Os alunos de EAD se concentram na região Sudeste: 2,1 milhão de matrículas. O Sul aparece em segundo lugar, com 625.184 estudantes. No Centro-Oeste são 595.098 estudantes e no Nordeste, 256.084. O Norte fica em último, com 14.184 matriculados.

A evasão de alunos, um dos principais obstáculos para o desenvolvimento das ações em EAD, teve uma média de 20%. O maior índice é proveniente de cursos livres, com 23,6%.

Pesquisa

O Censo EAD.BR, realizado pela Abed (Associação Brasileira de Ensino a Distância), reúne informações de 181 instituições que oferecem cursos de aprimoramento pessoal e profissional EAD – o que representa 13% das 1.424 instituições de ensino a distância listadas pela Abed. Os dados captados são de 2011.

Texto de Cláudia Emi Izumi, publicado originalmente no UOL, no dia 29/9/2012. Confira aqui: http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/09/26/cresce-numero-de-alunos-de-ead-no-pais-cursos-livres-sao-maioria.htm

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Para saber mais sobre o assunto, conheça:

Educação a distância: pontos e contrapontos” (Summus), dos autores José Manuel Moran e José Armando Valente, e organizado por Valéria Amorim Arantes.
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