‘BULLYING E VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS AINDA SÃO TEMAS SEM DIAGNÓSTICO NO PAÍS’

O Brasil não tem um mapeamento claro sobre a dimensão da violência dentro das escolas. Não há estudos abrangentes sobre a temática, o que, segundo especialistas, dificulta não só um diagnóstico do problema, mas também uma intervenção mais adequada.

Na sexta-feira, um estudante de 14 anos atirou contra colegas de sala em uma escola particular de Goiânia. Dois morreram e outros quatro ficaram feridos.

O próprio autor dos disparos disse à polícia que era vítima de bullying. Colegas relataram que o estudante, tímido e retraído, era vítima de gozações contínuas e era xingado de “fedorento”.

Pesquisadora sobre violência nas escolas, Miriam Abramovay afirma que não é possível saber, por exemplo, quais são os fatores de risco aos quais os estudantes estão envolvidos, nem tampouco possíveis estratégias de proteção -essa realidade é foco, inclusive, de estudo que ela coordena atualmente em dois Estados.

“Não temos diagnósticos. Estados e municípios não querem ver expostos dados negativos em geral, muito menos sobre a violência nas escolas”, diz ela, ligada à Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais). “No sistema privado talvez seja ainda mais difícil.”

Em parceria com o MEC (Ministério da Educação) e OEI (Organização dos Estados Ibero-Americanos), a Flacso realizou uma pesquisa em 2015 com 6.700 estudantes das sete capitais mais violentas do país. Divulgado no ano passado, é o último levantamento de maior fôlego feito no país.

Mesmo que parcial, os dados indicam um cenário preocupante da escola como reprodutora da violência social, mas também produtora de uma violência particular.

Quatro em cada dez estudantes (do 6º ano do ensino fundamental ao 3º do médio) afirmaram já terem sofrido violência física ou verbal dentro da escola no último ano.

Em 65% dos casos, o agressor foi um colega –15% assumem já ter cometido alguma violência. Um quarto das agressões relatadas ocorreram dentro da sala de aula.

Sem uma sistematização dos desafios, as escolas têm dificuldade de lidar com desafios de violência e bullying -uma sequência contínua de ataques. “A escola está muito ligada no ensino e aprendizagem e não olha corretamente para isso. Não consegue detectar inclusive casos extremos como esse”.

Em Goiânia, o estudante, que é do 8º ano, relatou ter planejado o ataque por três meses. O pai disse que o filho havia passado por tratamento psicológico. Ele deu 11 onze tiros, mas uma das vítimas era seu alvo principal.

A psicopedagoga Quézia Bombonatto afirma que a problemática envolve alunos, escolas e famílias. “As escolas precisam sempre conversar com o grupo, é um trabalho que precisa ser feito permanentemente, sem esperar que algo aconteça”, diz ela, conselheira vitalícia da Associação Brasileira de Psicopedagogia. “E as famílias devem ficar muito atentas”.

Mudanças de comportamento, queda de rendimento e desinteresse em ir à escola, por exemplo, podem ser sinais de que algo pode estar errado. “Tanto a vítima de ataques quanto o algoz precisam de atendimento.”

A falta do diagnóstico mais confiável não significa que as escolas não tem feito nada. Embora, pela falta de informações, é difícil mensurar a efetividade de ações no nível nacional.

Nas escolas públicas de ensino fundamental, 74% dos diretores dizem que têm projetos nas escolas com a temática da violência e 83%, sobre bullying. Os dados são do questionário aplicado na realização da Prova Brasil de 2015. Naquele mesmo ano, 17% dos gestores relataram terem identificado alunos com armas como faca e 3%, com revólver.

Pesquisas nacionais e internacionais mostram que o clima escolar –em que a identificação e combate a conflitos é parte fundamental– contribui para melhores resultados da escola, como de aprendizado e de redução das desigualdades. Abramovay, da Flacso, vai além. “Essa violência prejudica não só o alunos e a escola, mas tem consequências sociais e econômicas”, diz. “Ninguém sai incólume”.

A Folha questionou o MEC sobre a existência de dados, bem como acerca da atuação federal na temática, mas não obteve resposta. A pasta lamentou o episódio e, em nota, disse reafirmar “o compromisso com a busca de uma sociedade mais justa e solidária, pautada no respeito à diversidade, à convivência harmônica e à tolerância entre crianças, adolescentes e jovens”.

 

Matéria de Paulo Saldaña, publicada originalmente na Folha de S. Paulo, em 22/10/2017. Para acessá-la na íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/10/1929183-bullying-e-violencia-nas-escolas-ainda-sao-temas-sem-diagnostico-no-pais.shtml

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Tem interesse pelo tema? Conheça:

A SOCIEDADE DA INSEGURANÇA E A VIOLÊNCIA NA ESCOLA
Autora:
Flávia Schilling
SUMMUS EDITORIAL

Entre os discursos da violência como uma epidemia e o silêncio por ela provocado, há discursos inauditos e imprevistos que apontam para uma compreensão ampliada das questões que nos preocupam. Este livro discute a violência que está na escola, apresentando as várias dimensões que cercam o problema e apontando algumas ações possíveis que estão ao alcance de todos nós.

 

A VIOLÊNCIA NA ESCOLA
Autores: M. PerdriaultG. MangelC. Colombier
SUMMUS EDITORIAL

O tema da violência escolar é uma presença cada vez mais constante em todos os veículos de imprensa. Ele encontra um enfoque atualizado e detalhado neste livro, do ponto de vista da pedagogia institucional. São quatro monografias que abordam a violência na escola, com descrições do ambiente opressivo que circunda os adolescentes, a agressividade entre professores e alunos entre si. É o relato de uma experiência visando meios de trabalhar com uma classe especialmente violenta. A violência selvagem e a violência simbólica aqui analisadas tornam esse livro um instrumento esclarecedor e necessário. Um texto forte e realista, de leitura imprescindível.

‘VIOLÊNCIA NO BRASIL É OBSTÁCULO PARA ENSINO, DIZ PESQUISADOR’

Para o professor Brian Perkins, 46, diretor do programa de Liderança em Educação Urbana da Universidade de Columbia, nos EUA, o Brasil tem um grave obstáculo para melhorar a educação: a questão da segurança.

Há quatro anos, ele acompanha escolas públicas de favelas cariocas. Ele diz que a violência é o principal fator que diferencia o Brasil dos outros países que ele estuda -China, África do Sul e Índia.

“A ciência mostra que o processo de aprendizagem é afetado negativamente por situações de medo”, explica. “É preciso resolver a violência para que haja um ambiente favorável ao estudo.”

Em entrevista à Folha, Perkins afirma que as escolas estão atrasadas em relação à forma de ensino. Ele defende mudanças como a incorporação da tecnologia na sala de aula e novos métodos para avaliar os estudantes.

“Não devemos medir quem tem ou não a informação, mas quem sabe usar a informação da melhor forma possível”, afirma. Leia a seguir.

Folha – Nas favelas cariocas, não é raro escolas ficarem dias sem aula por causa de conflitos entre traficantes e policiais. Qual é o impacto disso para a educação?

Brian Perkins – Essa é a maior diferença entre o Brasil e outros países que estudo [China, África do Sul e Índia]: há muitos lugares muito violentos. A violência é prejudicial ao processo de aprendizagem. Estudos com crianças em zonas de conflito –e é o que são as favelas do Rio- mostram que o aprendizado é afetado negativamente por situações de medo.

Há impactos fisiológicos. Quando a adrenalina entra no sistema, faz o córtex cerebral se desligar. É a parte mais primitiva do cérebro que passa a receber a maior parte das ondas cerebrais. Não é possível processar informações com essa parte.

A linguagem, as habilidades processuais e analíticas todas ocorrem no córtex cerebral. Se a mente da criança está ligada ao medo e à sobrevivência ao longo do dia, ela não está pensando.

Isso pode ser mais determinante para o aprendizado do que a qualidade do professor, por exemplo?

Tudo é interligado. O governo tem que controlar a violência para que haja um clima que permita o ensino. Não dá para ter um sem o outro. Se a criança está com medo e sofrendo, seu desempenho não irá muito longe.

O mesmo acontece no Bronx [bairro de Nova York]. Aqui os alunos dizem que têm medo de andar até a escola. Lá, reclamam da mesma coisa, têm medo dos traficantes, de serem roubados no caminho. Quando chegam lá, demoram, fisiologicamente, para entrar num estado em que possam aprender. Não é possível fazer nada se não nos sentimos seguros, fisicamente e psicologicamente.

Além da violência, qual foi sua impressão das escolas do Rio?

Há problemas na infraestrutura, sem falar na ausência de tecnologia. O treinamento dos professores está atrasado em relação ao que os alunos trazem para a sala de aula. As crianças de hoje não conhecem um mundo sem Facebook, um mundo onde não se vê sexo e violência na TV.

Os professores ainda são vistos como os donos da informação, mas os alunos acham que podem aprender em qualquer lugar.

Falta liderança. Conheci diretores que são considerados ótimos líderes, mas que nem lembram quando foi a última vez que entraram numa sala de aula.

O que podemos fazer, objetivamente, para melhorar?

É preciso focar o desenvolvimento do professor. Estudos mostram que a qualidade do professor é decisiva para o desempenho dos alunos. É o principal fator.

A nova função da educação é desenvolver uma sociedade de pessoas que pensem de forma crítica, no sentido de solucionar problemas, e que sejam independentes. Mas não é assim que treinamos nossos professores.

Há um movimento nos Estados Unidos que diz que os alunos deveriam poder usar seus celulares na sala de aula. Testes não devem ser por escrito, individuais. O mundo é feito de equipes. Os alunos devem ser testados em equipe também.

Não devemos medir quem tem ou não a informação, mas quem sabe usar a informação da melhor forma.
Reportagem de Luiza Franco, publicada originalmente na Folha de S. Paulo, em 12/04/2015. Para lê-la na íntegra, acesse:
http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/04/1615537-violencia-no-pais-e-obstaculo-para-ensino-diz-pesquisador.shtml

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Quer saber mais sobre o assunto? Conheça os livros da Summus:

10952A SOCIEDADE DA INSEGURANÇA E A VIOLÊNCIA NA ESCOLA
Autora: Flávia Schilling

Entre os discursos da violência como uma epidemia e o silêncio por ela provocado, há discursos inauditos e imprevistos que apontam para uma compreensão ampliada das questões que nos preocupam. Este livro discute a violência que está na escola, apresentando as várias dimensões que cercam o problema e apontando algumas ações possíveis que estão ao alcance de todos nós.
10344A VIOLÊNCIA NA ESCOLA
Autores: M. Perdriault, G. Mangel, C. Colombier

O tema da violência escolar é uma presença cada vez mais constante em todos os veículos de imprensa. Ele encontra um enfoque atualizado e detalhado neste livro, do ponto de vista da pedagogia institucional. São quatro monografias que abordam a violência na escola, com descrições do ambiente opressivo que circunda os adolescentes, a agressividade entre professores e alunos entre si. É o relato de uma experiência visando meios de trabalhar com uma classe especialmente violenta. A violência selvagem e a violência simbólica aqui analisadas tornam esse livro um instrumento esclarecedor e necessário. Um texto forte e realista, de leitura imprescindível.

ESCOLA EM SP USA AULAS DE RESPEITO E HONESTIDADE PARA COMBATER VIOLÊNCIA

“Professora, o Victor disse que vai matar o Pedro e a Ana quando ele crescer”, denuncia Marina* à professora da sala da segunda série de uma escola localizada no meio de uma comunidade em Pirituba, zona oeste de São Paulo. A “ameaça de morte” pode até assustar de bate-pronto, mas é uma provocação comum de ser ouvida por ali. “Eu tava zoando”, defende-se o garoto de 8 anos.

Até três anos atrás, os gritos de “Vou te matar” eram, em geral, seguidos por brigas violentas, em que alunos saíam dando chutes, socos e pontapés uns nos outros. Às vezes, sobrava também para os professores – alguns deles relatam terem levado “unhada” dos estudantes, outros foram agredidos com chutes em momentos de irritação das crianças.

Mas desde que um grupo de psicólogas começou a trabalhar as emoções dos alunos, inserindo na grade curricular a matéria de “inteligência emocional” – que incluem aulas de respeito e até honestidade -, a realidade da rotina na escola mudou bastante, conforme relatam os próprios professores.

O tema da violência contra professores foi destacado por internautas em consultas nas redes sociais promovidas pelo #salasocial, o projeto da BBC Brasil que usa as redes para obter conteúdo original e promover uma maior interação com o público.

Leitores disseram que a educação deveria merecer mais atenção por parte dos candidatos a cargos públicos e educadores compartilharam denúncias de agressões que sofreram tanto em nossas páginas de Facebook, como Google+ e Twitter.

Reflexo de conflitos

Localizada em uma comunidade com altos índices de violência, a escola da zona oeste sofria o reflexo dos conflitos do lado de fora que iam parar dentro das salas de aula, com alunos agressivos e “sem limites”, conforme definiram os próprios professores à BBC Brasil.

“É uma realidade fora do que você possa imaginar vivendo na classe média. O comportamento das crianças me assustou bastante, a agitação que eles tinham, a falta de concentração”, relatou uma das professoras, que já teve turmas do ginásio e do primário na escola de Pirituba.

“A gente via muito desrespeito, falta de tolerância, o aluno não consegue enxergar os erros dele, mas aí aponta no outro tudo o que tem de ruim e isso gera muitas brigas, agressões verbais, físicas, tudo isso aqui era muito constante”, constatou.

Para combater essa “agressividade” dos alunos, as psicólogas que fazem parte do grupo Inteligência Emocional na Escola implementaram um projeto no colégio dando outro caminho – que não a violência – para os alunos extravasarem suas emoções.

“Esses alunos têm problemas assustadores, alguns sofrem abuso sexual do pai, outros apanham, eles vivem a violência dentro e fora de casa e eles precisam falar isso, é um jeito de extravasar. Mas isso normalmente acaba sendo pela violência. Se você dá outro caminho para eles extravasarem isso, eles entendem e param com a violência”, explicou Andreia Carelli, uma das psicólogas que fazem parte do projeto implementado na escola municipal de Pirituba.

O trabalho dela e das outras duas psicólogas que atualmente estão no projeto se dá em três tipos de ações: o ensino da inteligência emocional dentro da sala de aula, por meio de uma apostila que trata temas como respeito, honestidade, cidadania, diferenças, etc, conforme a faixa etária; o uso de dinâmicas (brincadeiras) que têm como objetivo trabalhar as emoções dos alunos e o autocontrole; e o atendimento individual para os casos mais graves, de alunos muito agressivos ou que passam por problemas pessoais mais complicados (abuso sexual, violência doméstica, drogas, etc).

Aulas

Pelos abraços e o calor demonstrado pelos alunos já no caminho para a sala, a reportagem constatou que o projeto parece ter boa receptividade. “Qual vai ser a atividade de hoje, tia?”, “O que a gente vai fazer hoje, prô?” – a agitação era inegável, mas os alunos da 4ª série pareciam empolgados para a ‘lição emocional’ do dia que a professora-psicóloga iria passar.

Andreia começa a aula questionando os alunos: “O que tem que estar sempre presente quando a gente está em grupo?”. Eles citam educação, amizade, respeito. “Respeito. E quando a gente perde o respeito é fácil de recuperar?” – um grandioso “não” ecoa pela sala. E a professora segue a explicação da brincadeira. “Hoje vocês vão ser cuidadores do respeito. Nós vamos deixar o respeito aqui na lousa e nós temos que cuidar para ele não ir embora.”

A tarefa do dia era ouvir quatro histórias que a professora contaria e identificar, por meio de “carinhas” desenhadas em um papel (feliz, triste, assustado e com raiva) qual emoção cada uma delas despertava. Tudo isso sem perder os cuidados pelo “respeito” guardado na lousa.

Não demorou muito para os alunos se agitarem e começarem a falar ao mesmo tempo. A professora relembra: “Olha o respeito indo embora!”, e a aluna da primeira carteira endossa o pedido apontando para o colega: “É, Kauã, respeita, cala a..” e ela mesma percebe sua ‘quase’ falta de respeito, colocando a mão na boca antes de completar a frase.

No meio da brincadeira e de algumas provocações direcionadas, outro incidente chamou a atenção da turma. Victor*, um garoto sentado no fundo da sala, levanta de repente e pega a cadeira na mão. Com um olhar transbordando de raiva, ele anda em direção ao colega em tom de ameaça. “Ele tá doido, ele quer matar ele” (sic), avisa um dos meninos à professora, que vai até Victor, abraça o garoto e, em tom sereno, faz as perguntas que eles já se acostumaram a ouvir nos últimos anos.

“Por que você queria jogar a cadeira nele? Você acha que ele ia ficar feliz se você fizesse isso? Você ia ficar feliz? Resolveria sua raiva? Lembra que quando a gente perde o respeito, a gente não ganha o respeito dos outros” – aos poucos, o Victor vai se acalmando e volta a sentar no seu lugar.

Ao fim da aula, quando a professora pergunta se a classe “cuidou bem do respeito”, o próprio Victor admite: “Vixe, o respeito quase foi embora”.

Andreia Carelli faz parte do projeto há um ano e meio e explica que o grande mérito dele é mudar a visão de mundo dos alunos. “Quando eles chegam aqui, a única referência deles de mundo é a violência, mas a gente conseguiu dar pra eles outra referência, como conversar. Se você não gosta de apanhar, por que você vai bater? E com o tempo eles vão mudando essas atitudes.”

Professores

As aulas de inteligência emocional são ministradas semanalmente de 1ª à 5ª série em quatro escolas do país, duas em São Paulo (uma municipal e a outra estadual) e duas em Manaus (as duas estaduais). O sucesso do projeto é percebido facilmente pelos professores.

“Ao longo desses dois anos é nítida a mudança, a convivência entre os alunos mudou demais. E a gente sabe que mudou o comportamento aqui dentro da escola, porque essa não é a realidade deles lá fora”, contou uma das professoras.

Os professores, inclusive, também passaram por um treinamento com as psicólogas para poderem aprimorar a relação que tinham com os alunos na escola. “No início, eles (professores) tinham bastante resistência, achavam que estávamos ali para criticar o trabalho que eles estavam fazendo e tal. Depois eles foram aceitando e sentindo o resultado das aulas”, explica Taíssa Lukjanenko, outra psicóloga que está no projeto desde o início.

Em geral vistos como vítimas, os professores muitas vezes também são ‘agentes da violência’ pelo modo como tratam os alunos, conforme pontuou Taíssa. “Aquela violência nunca é só do aluno. Ela vem do meio que ele vive, da forma como o professor o aborda, mas nunca é só dele.”

Ela diz que o autoritarismo de alguns professores assim como a adoção de medidas extremas como a expulsão de sala em casos pequenos de indisciplina – um assovio durante a aula, por exemplo – podem contribuir para um ambiente violento na escola, além de prejudicar a relação professor-aluno. “Essa relação é muito importante, o respeito vem daí”.

De acordo com os números do grupo Inteligência Emocional na Escola, 86% dos professores que dão aula nas escolas que participam do projeto consideram que a disciplina dos alunos melhorou e 89% acreditam que a relação com os alunos também deu um salto após a aplicação das aulas.

Além do projeto com as psicólogas, a escola em Pirituba também aposta em programas extra-curriculares – banda escolar, mostra cultural, etc. – e na integração com a comunidade – a escola é aberta no fim de semana para atividades da comunidade de Pirituba – para combater a violência.

Texto de Renata Mendonça para BBC Brasil, publicado em 26/08/2014. Para lê-lo na íntegra, acesse: http://educacao.uol.com.br/noticias/bbc/2014/08/26/escola-usa-aulas-de-respeito-e-honestidade-para-combater-violencia.htm

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10791Se você tem interesse pelo tema, conheça o livro Alfabetização em valores humanos – Um método para o ensino de habilidades sociais (Summus), de Edna Maria Marturano e Dâmaris Simon Camelo Borges. Fruto de um intenso trabalho de pesquisa dentro de sala de aula, esta obra mostra que valores humanos como ética, solidariedade e respeito podem ser aprendidos. Depois de aplicar um método de resolução de conflitos e transmissão de valores a uma classe de primeira série do ensino fundamental, as autoras contam os recursos pedagógicos que utilizaram e como as crianças incorporaram tais valores em seu caráter.

 

PROFESSOR ULISSES F. ARAÚJO FAZ PALESTRA E SESSÃO DE AUTÓGRAFOS DA COLEÇÃO NOVAS ARQUITETURAS PEDAGÓGICAS

A Summus Editorial convida para o lançamento dos dois primeiros volumes da coleção Novas Arquiteturas Pedagógicas: A sociedade da insegurança e a violência na escola, da professora Flávia Schilling, e Temas transversais, pedagogia e projetos de mudanças na educação, do professor Ulisses F. Araújo, no dia 21 de agosto, quinta-feira, às 18h30. O evento, que acontece no auditório da Fundap – Fundação para o Desenvolvimento Administrativo (Av. Alves Guimarães, 429 – 4ª andar – Pinheiros – São Paulo), terá início com a cerimônia de entrega de certificados de conclusão aos alunos do curso de especialização Ética, Valores e Cidadania na Escola, oferecido pela USP e pela UNIVESP. Em seguida, o prof. Araújo fará uma palestra sobre o tema da coleção e, por fim, a sessão de autógrafos das obras.

Coordenada pelo professor Araújo, a coleção Novas Arquiteturas Pedagógicas tem como ponto de partida atender às demandas e necessidades de uma sociedade democrática, multicultural e inclusiva, permeada pelas diferenças e pautada no conhecimento inter, multi e transdisciplinar. Para tanto, publica livros que ajudem os profissionais da educação a construir ambientes educativos inovadores, atentos a formas diferentes de organização dos tempos, espaços e relações na educação. O objetivo é auxiliá-los a incorporar novas linguagens e tecnologias na sua prática docente, bem como aplicar a ética nas relações humanas dentro e fora da escola.

10952No livro A sociedade da insegurança e a violência na escola, a professora Flávia discute a violência presente nas redes de ensino em todas as suas dimensões – econômicas, sociais, políticas e simbólicas –, propondo que o espaço escolar seja visto como lugar de inclusão, aprendizado e exercício pleno dos direitos democráticos. “Pela primeira vez em nossa história, lidamos, no Brasil, com nossa face violenta — esse tema permeia a fala das pessoas no cotidiano, aparece de modo espetacular na mídia, perpassa os discursos políticos, provoca ações de políticas públicas, além de produzir pesquisas e debates. A sensação é de que a violência tomou conta do mundo”, afirma a autora.

10958Já a obra Temas transversais, pedagogia e projetos de mudanças na educação, de autoria do professor Araújo, discute como os chamados temas transversais, articulados com a pedagogia de projetos e os princípios de interdisciplinaridade, podem apontar caminhos inovadores para a educação formal e uma ressignificação da prática docente. Tomando o construtivismo como corrente teórica ideal, o autor traz ainda o exemplo concreto de um projeto, desenvolvido em sala de aula do ensino fundamental, que empregou a metáfora da “rede” de conhecimentos como referência, a fim de materializar na prática docente a concepção de transversalidade. “Esses novos caminhos já se encontram em pleno desenvolvimento nas escolas de nosso país”, complementa.

Para saber mais sobre os livros, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/busca/novas+arquiteturas+pedag%C3%B3gicas/all/0

Colecao_Novas_arquiteturas_pedagogicas

 

 

 

 

 

 

CULTURA DA VIOLÊNCIA: ESCOLA É O QUARTO LUGAR ONDE HÁ MAIS ATOS VIOLENTOS CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Uma cultura da violência que permeia os ambientes públicos e privados das relações sociais pode explicar por que atos de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão contra crianças e adolescentes continuam frequentes, mesmo após a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990. Em todas as faixas etárias, as ocorrências são mais preponderantes nas residências das vítimas, mas também ocorrem onde as crianças deveriam estar protegidas: na escola.

Segundo dados do Mapa da Violência 2012: Crianças e Adolescentes do Brasil, elaborado por Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos sobre Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais no Brasil (FLACSO Brasil), a escola é o quarto local onde há mais ocorrências de violência contra crianças e adolescentes entre zero e 19 anos. Na faixa etária dos 10 aos 14 anos o número de ocorrências no ambiente escolar aumenta, representando 7,8% dos atendimentos, enquanto a partir dos dez anos as agressões em casa diminuem. O levantamento foi realizado junto aos atendimentos por violência no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Existe uma espécie de cultura da violência que impera em diversos âmbitos de nossas vidas, como em casa, na escola, nas ruas”, argumenta Jacobo. O sociólogo considera que a escola deve criar mecanismos de mediação de conflito com o objetivo de estimular a tolerância e o convívio com as diferenças. A medida é urgente se for considerado que o maior número de agressões acontece entre os próprios colegas de escola.

Dos 5 aos 9 anos as ocorrências de violência na escola por amigos ou conhecidos representam 49,7% dos casos. Dos 10 aos 14 anos, 60,16%, e dos 15 aos 19, 52%. Na categoria “desconhecidos”, esse número cai para 8,5% dos 5 aos 9 anos, 7,1% dos 10 aos 14 e 16,6% dos 15 aos 19. Em último lugar verifica-se a violência por parte de pessoas da própria instituição com 7,9% na faixa dos 5 aos 9 anos, 5,8% dos 10 aos 14 e 5,5% dos 15 aos 19 anos.

De acordo com a pesquisa, em todas as faixas etárias a violência acontece de forma preponderante na residência das vítimas, totalizando 63,1% dos casos. Em segundo lugar aparecem as vias públicas, em terceiro outros ambientes e, por fim, em quinto, estão os bares.

Para chegar a esses números foram utilizados os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. Em 2009, a notificação “violência doméstica, sexual e/ou outras violências” foi implantada no Sinan e deve ser realizada pelo gestor 1de saúde do SUS, por meio de uma ficha de notificação específica, diante de qualquer suspeita de ocorrência de violência. Essas informações, no entanto, são apenas uma parte do que realmente acontece. Paralelamente aos atendimentos declarados como decorrentes da violência, existe um enorme número de vítimas que não revelam o motivo de ir parar nos hospitais e, por isso, nunca chegam aos olhos públicos.

Texto de Deborah Ouchana, publicado originalmente na revista Educação, em 10/2012. Para conferir, acesse:

http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/186/cultura-da-violencia-271532-1.asp

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