‘OPÇÃO PELO TIPO DE ALFABETIZAÇÃO VAI ALÉM DA TEORIA’

Educadores e governo divergem sobre qual método deve ser utilizado no país

Reportagem de Ana Luiza Tieghi, publicada originalmente na
Folha de S. Paulo, em 07/09/2019.

Educadores brasileiros travam uma batalha há décadas para definir qual é o melhor método de alfabetização e se é preciso adotar um sistema único no país.

A discussão ganhou novo gás neste ano com o governo Bolsonaro. O ministro da educação, Abraham Weintraub, e seu secretário de alfabetização, Carlos Francisco de Paula Nadalim, creditaram os maus resultados brasileiros em indicadores às ideias de Paulo Freire (1921-1997), educador que desenvolveu um método de alfabetização para adultos baseado na vivência do aluno.

Segundo a mais recente Avaliação Nacional da Alfabetização, 54,7% dos estudantes no terceiro ano do ensino fundamental têm desempenho insuficiente em leitura —não conseguem identificar a finalidade de um texto e localizar uma informação explícita.

Em entrevista à Folha, em novembro de 2018, o escritor Olavo de Carvalho, conselheiro do atual governo e professor de Nadalim, afirmou que o “método sócio-construtivista só forma analfabetos”. Segundo ele, era necessário voltar ao sistema fônico, o “beabá, como era nos anos 1960, 1970”.

A metodologia mais comum nas escolas públicas do país é uma mistura de construtivismo com sistemas tradicionais, entre eles o uso de silabários, segundo Claudemir Belintane, professor da Faculdade de Educação da USP.

Em 15 de agosto, o MEC lançou sua nova Política Nacional de Alfabetização. Embora o ministério afirme que “não obriga a escolha prioritária de nenhum método”, educadores ouvidos pela reportagem apontam que há no documento uma preferência pelo modelo fônico.

A didática é aplicada por Nadalim em sua escola privada em Londrina (PR) e faz parte da mesma família do sistema adotado por cartilhas como a “Caminho Suave”, com as quais boa parte dos adultos de hoje foram alfabetizados.

Essas metodologias não são mais usadas em larga escala no Brasil por serem consideradas ultrapassadas pelos educadores. São didáticas que se baseiam na memorização das letras e sílabas. A criança aprende primeiro o que é a letra “b” e a letra “e”, depois que pode juntá-las na sílaba “be” e então formar a palavra “bebê”.

Para Belintane, esse sistema não é indicado porque trata os alunos de forma homogênea, sem respeitar o conhecimento que cada um já carrega.

Para Telma Weisz, coordenadora da pós-graduação em alfabetização do Instituto Vera Cruz, não é com uma nova forma de alfabetizar que o país vai melhorar seus indicadores. “Quem faz a escola é o professor. Os governos que querem que a escola vá bem investem nele.”

O método fônico é bem diferente da teoria construtivista, que se popularizou no país depois dos anos 1980.

Essa linha de pensamento consiste em assumir que a criança cria hipóteses sobre como se escreve antes de começar a alfabetização formal. As escolas usam essas suposições para ensinar. Por exemplo, é comum que a criança associe cada sílaba de uma palavra a uma letra. O professor atua a partir dessa ideia da criança.

A escola Anglo 21, no Alto da Boa Vista (zona sul de São Paulo), é uma das que apostam na teoria construtivista. “Não ensinamos letras e sílabas”, afirma Cíntia Simão, coordenadora de educação infantil do colégio.

Ela explica que há fases em que a criança pode escrever “caza” em vez de “casa”, e não há problema nisso, porque é algo provisório. Exercícios de ortografia são utilizados apenas quando ela já sabe ler e escrever com independência.

“Esperamos formar leitores e escritores melhores, que não conheçam só ortografia, mas que saibam redigir bons textos”, afirma Simão.

A mesma linha é adotada pela Escola Viva, na Vila Olímpia (zona sul da capital).

Daniela Munerato, coordenadora de educação infantil, acredita que esse tipo de trabalho forma alunos para lidar com diferentes tipos de texto, mas exige mais preparo do professor. “É mais fácil ter uma cartilha e mandar todo mundo abrir na mesma lição.”

No colégio Santa Maria, no Jardim Taquaral (zona sul), os professores usam uma mistura de métodos.

Para Sueli Gomes, orientadora pedagógica da escola, a teoria construtivista não funciona com todos.

“Nem toda criança vai aprender sozinha. Se você pede para ela escrever do jeito que ela pensa que é, muitas ficam desamparadas”, afirma.

A escola usa inclusive o sistema fônico, dependendo da necessidade da criança. “É um dos passos da alfabetização, mas o processo vai além disso.”

Com ensino bilíngue, a escola Brasil-Canadá, em Perdizes (zona oeste de São Paulo), aplica um método semelhante ao fônico para alfabetizar em inglês, mas prefere a linha sócio-interacionista para ensinar em português, explica Bruna Elias, diretora pedagógica da instituição.

Essa linha parte de textos para ensinar os sons e as formas das letras e sílabas, mas isso é feito em rodas de conversa e trabalhos em grupo.

Independentemente da metodologia adotada pela escola, os pais podem ajudar na alfabetização apresentando a leitura e a escrita para os filhos.

Na hora de escolher o colégio, Gomes diz que é bom os pais saberem que existem diferentes formas de alfabetizar, mas que “é mais importante descobrir se os professores estão interessados em ensinar o aluno da maneira que ele pode aprender”.

Como atualmente se usam metodologias diferentes daquelas que os pais vivenciaram quando crianças, pode causar estranhamento ver o filho escrevendo com letras trocadas. Ainda assim, não é indicado tentar ensinar a criança por conta própria.

“A primeira coisa que os pais devem fazer é legitimar a escola que eles escolheram”, diz Cíntia Simão, coordenadora de educação infantil do colégio Anglo 21. “Se nós damos espaços para as hipóteses da criança sobre a escrita, os pais têm que suportar isso.”

É melhor prestar atenção se a criança se mostra descontente por estar com o desenvolvimento atrasado em relação aos colegas, o que, segundo Gomes, poderia indicar uma falha na alfabetização.

Para ler na íntegra, acesse (assinantes Folha de S.Paulo e UOL): https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/09/opcao-pelo-tipo-de-alfabetizacao-vai-alem-da-teoria.shtml

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Tem interesse pelo assunto? Conheça alguns livros da Summus que falam sobre o tema:

ALFABETIZAçãO E LETRAMENTO: PONTOS E CONTRAPONTOS
Organizadora: Valéria Amorim Arantes
Autores: Silvia M. Gasparian ColelloSérgio Antônio da Silva Leite

Neste livro, dois especialistas da Unicamp e da USP ampliam a compreensão do ensino da língua escrita. É possível alfabetizar sem retornar à cultura cartilhesca? Qual o papel da afetividade na alfabetização? Como sistematizar o trabalho pedagógico em sala de aula? Que paradigmas devem ser revistos no caso da aprendizagem escrita? Essas e outras perguntas são respondidas e debatidas nesta obra fundamental ao professor.

A ESCOLA QUE (NãO) ENSINA A ESCREVER
Autora: Silvia M. Gasparian Colello


A fim de repensar as concepções acerca da língua, do ensino, da aprendizagem e das práticas pedagógicas, este livro levanta diversos questionamentos sobre a alfabetização como é praticada hoje nas escolas. Depois de analisar diversas falhas didáticas e tendências pedagógicas viciadas, a autora oferece alternativas que subsidiem a construção de uma escola que efetivamente ensine a escrever.

A ESCOLA E A PRODUÇÃO TEXTUAL
Práticas interativas e tecnológicas
Autora: Silvia M. Gasparian Colello

Como as crianças entendem o papel da escola? Como o vínculo que estabelecem com ela afeta a aprendizagem? Por que os alunos têm tanta dificuldade de se alfabetizar? Como compreender o ensino da escrita no mundo tecnológico? Em um momento de tantas inovações, de que forma lidar com os desafios do ensino e renovar as práticas pedagógicas?
Na busca de um projeto educativo compatível com as demandas de nosso tempo e o perfil de nossos alunos, Silvia Colello discute aqui como as condições de trabalho na escola podem interferir na produção textual, favorecendo a aprendizagem da língua. Para tanto, lança mão da escrita como resolução de problemas em práticas tecnológicas e interativas. Conhecer as muitas variáveis desse processo é, indiscutivelmente, um importante aval para a construção de uma escola renovada. Afinal, é possível transformar a leitura e a escrita em uma aventura intelectual?

‘SETEMBRO AMARELO: AÇÕES CHAMAM A ATENÇÃO PARA O TRATAMENTO DA DEPRESSÃO’

Matéria de Flávia Albuquerque, da Agência Brasil, Publicada no UOL VivaBem em 02/09/2019.

Todas as manhãs o girassol parte em busca do sol, seguindo a luminosidade insistentemente, porque precisa dela para crescer e florescer. Mesmo quando o sol está escondido entre as nuvens, a flor gira persistente, apesar da dificuldade, em direção à luz. Em alusão a esse comportamento da natureza, o girassol foi escolhido como símbolo da campanha “Na Direção da Vida – Depressão sem Tabu”, iniciativa do movimento mundial Setembro Amarelo, que tem o objetivo de abrir o diálogo e alertar a sociedade sobre o tema.

A campanha conduzida pela Upjohn, uma das divisões de um laboratório farmacêutico focada em doenças crônicas não transmissíveis, em parceria com a Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) e participação do CVV (Centro de Valorização à Vida), trará ações digitais e de rua para combater os estigmas da depressão. O trabalho tem ainda o apoio de músicos, esportistas e influenciadores digitais que já passaram ou passam pelo problema, dividindo suas experiências.

Os usuários de redes sociais serão convidados a postar o ícone do girassol para mostrar que estão dispostos a falar sobre o assunto #depressaosemtabu. Eles também poderão conhecer o site do projeto, que traz informações sobre o tema e orientações sobre a identificação de comportamentos de risco em pessoas próximas.

“Queremos levar informação às pessoas. Quem visitar o local será convidado a deixar uma mensagem de coragem e apoio aos pacientes. Ao final, essas flores serão recolhidas e doadas para uma organização não governamental, que as transformará em buquês para serem distribuídos a pessoas que estão em tratamento”, explicou a neurologista da Upjohn, Elizabeth Bilevicius.

Depressão e suicídio

Segundo Bilevicius, para tratar a depressão e evitar o suicídio, o primeiro passo é ver a doença como um problema que precisa ser tratado. “Precisamos criar uma atmosfera de confiança para o paciente se sentir à vontade para dizer que tem a doença e legitimar o que ele sente. Essa é uma forma de encorajar a busca por ajuda adequada, criando um ambiente social mais empático e melhor informado para ajudar essa pessoa”, disse.

De acordo com as informações da Upjohn, mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais e transtornos do humor. A depressão é o diagnóstico mais frequente, aparecendo em 36% das vítimas. O aumento dos casos entre os mais novos e com prevalência entre os homens faz da depressão a quarta maior causa de suicídio entre jovens no país. Outras doenças que podem ser tratadas, como o alcoolismo, a esquizofrenia e transtornos de personalidade, também afetam esses pacientes e por isso afirma-se que o suicídio pode ser evitado na maioria das vezes.

De acordo com as informações da Upjohn, mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais e transtornos do humor. A depressão é o diagnóstico mais frequente, aparecendo em 36% das vítimas. O aumento dos casos entre os mais novos e com prevalência entre os homens faz da depressão a quarta maior causa de suicídio entre jovens no país. Outras doenças que podem ser tratadas, como o alcoolismo, a esquizofrenia e transtornos de personalidade, também afetam esses pacientes e por isso afirma-se que o suicídio pode ser evitado na maioria das vezes.

Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) mostram que o Brasil é o país com maior percentual de depressão na América Latina, chegando a 5,8% da população, o que corresponde a 12 milhões de brasileiros. A taxa é maior do que o valor global, que é de 4,4%. Igualmente maior do que em outros países, a taxa de suicídio entre adolescentes de 10 a 19 anos aumentou 24% de 2006 a 2015. A cada 46 minutos alguém tira a própria vida no Brasil.

O psiquiatra Teng Chei Tung, coordenador dos Serviços de Pronto-Socorro e Interconsultas do IPq (Instituto de Psiquiatria) do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e vice-coordenador da Comissão de Emergência Psiquiátrica da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), explicou que a alta incidência entre os jovens está ligada à grande expectativa externa e interna de que eles se comportem como adultos, mesmo sem ter ainda as habilidades de um adulto, e à pressão de que o adolescente seja pleno, potente, competente e reconhecido.

“Então ele faz as coisas, erra e se frustra. Nessas frustrações os jovens podem entrar na depressão. Os preconceitos são os mesmos e são agravados pela desinformação. Para o jovem existe a influência do pensamento de que a saúde mental é só uma questão social, existencial e psicológica”, afirmou.

Teng disse que sentir tristeza é normal e que a frustração sempre traz alguma tristeza passageira, mas é preciso que as pessoas próximas fiquem atentas para perceber quando esse estado já se tornou uma depressão. Segundo ele, a tristeza é algo que gera introspecção, provoca reflexão e crescimento, mas o deprimido fica introspectivo por vários dias e semanas.

“Um dos parâmetros é quando há sofrimento excessivo e quando começa a causar real prejuízo. Afeta as relações interpessoais, produtividade no trabalho, ou sofrimento individual, ou seja, a pessoa está sofrendo mais do que que precisaria naquela situação. Não é que não pode ter tristeza e emoção, mas isso não pode prejudicar a pessoa a ponto de afetá-la fisicamente”, destacou.

Para Teng, a melhor forma de falar sobre a depressão é deixar claro que ela é uma doença que apresenta alterações biológicas e fisiológicas, envolvendo fatores genéticos e estruturais, o que significa que a pessoa nasce com a tendência de desenvolver o quadro depressivo. O tratamento inclui, principalmente, melhorar o estilo de vida. “Quem tem depressão precisa se equilibrar e cuidar da saúde, para não ter de novo a doença”, disse o médico.

Para ler a matéria na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2019/09/02/setembro-amarelo-acoes-chamam-a-atencao-para-o-tratamento-da-depressao.htm

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O psiquiatra Teng Chei Tung é autor da MG Editores. Conheça seu livro:

ENIGMA BIPOLAR
Conseqüências, diagnóstico e tratamento do transtorno bipolar
Autor:  Teng Chei Tung
MG EDITORES

O transtorno bipolar é uma patologia cada vez mais comum – e, infelizmente, ainda mal compreendida. Este livro, escrito por um psiquiatra, esclarece e desmistifica os sintomas da doença, suas fases, os sintomas, as estratégias de tratamento mais modernas e os tipos de medicamento disponíveis. Fala, ainda, da importância do apoio do médico e da família no bem-estar do paciente.

SUICÍDIO: ‘O GRANDE VILÃO DE TODA HISTÓRIA É O SOFRIMENTO’

O Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, foi o tema de ontem no Estúdio CBN. A psicóloga e suicidologista Karina Okajima Fukumitsu, pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP e autora de Sobreviventes enlutados por suicídio e Vida, morte e luto, ambos da Summus Editorial, participou da conversa.

Ouça em http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/273277/suicidio-o-grande-vilao-de-toda-historia-e-o-sofri.htm

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Conheça os livros da psicóloga Karina Fukumitsu, mencionados acima:

SOBREVIVENTES ENLUTADOS POR SUICÍDIO
Cuidados e intervenções

Segundo a Organização das Nações Unidas, a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no planeta. São quase 800 mil casos de morte autoinfligida por ano. Esses dados alarmantes têm chamado a atenção de profissionais de saúde, educadores e responsáveis pela elaboração de políticas públicas. Porém, além de prevenir esse tipo de ocorrência, é preciso cuidar daqueles que enfrentam o suicídio de um ente querido: os sobreviventes.

Maior especialista brasileira no tema, Karina Okajima Fukumitsu reúne neste livro anos de pesquisa e de trabalho de campo com mães, pais, irmãos e amigos de pessoas que se suicidaram, desvendando o processo de choque, dor, agonia e tristeza pelo qual passam. Denominando posvenção o cuidado específico com esse público, a autora aborda os impactos do suicídio, detalha as dificuldades emocionais enfrentadas pelos sobreviventes, aponta caminhos para ressignificar a dor, apresenta propostas de prevenção e propõe políticas públicas para transformar a impotência individual em potência coletiva.

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

Para conhecer todos os livros da autora publicados pela Summus, acesse: https://www.gruposummus.com.br/gruposummus/autor//Karina+Okajima+Fukumitsu

SEU FILHO É O CENTRO DO SEU RELACIONAMENTO? ENTENDA POR QUE ISSO É TÃO RUIM



Matéria de Heloísa Noronha, publicada originalmente 
no Universa│UOL , em 27/08/2019.

Em seu livro “Mulheres Querem Sexo, Homens Sempre têm Dor de cabeça: Destruindo os Mitos Sobre Sexo e Relacionamentos Amorosos” (Ed. Cultrix), o terapeuta de casal alemão Christian Thiel afirma que as relações chamadas de child-centered (em tradução livre, centradas no filho) são um dos principais motivos para o afastamento de vários casais. De tão concentrados no filho, não só na fase de bebê, muitos se transformam em “sócios” na administração da casa e da vida em família e acabam se distanciando emocional e sexualmente. Nem sempre o desfecho é a separação: em alguns casos, a situação fica no piloto automático e as pessoas passam anos a fio convivendo nessas circunstâncias cômodas, mas infelizes. A boa notícia é que dá, sim, para reverter essa condição, mas primeiro é preciso compreender como os dois chegaram a esse ponto.

Ter um filho é, obviamente, uma experiência transformadora. E é lógico que nos primeiros meses pós-nascimento, por causa da nova rotina e dos cuidados essenciais, como a amamentação, a atenção dos pais fique 100% voltada ao bebê. Depois de um tempo é natural que o casal volte a se concentrar também na relação, mas isso depende de vários fatores que vão desde a possibilidade de contar com uma rede de apoio até o fato de o modelo familiar ser mais ou menos ansioso.

Na opinião da terapeuta de relacionamentos Rosangela Matos, que atua com atendimento online, após os primeiros seis meses de vida da criança os pais podem começar a dar pequenas “fugidinhas” para namorar. “Os familiares são importantes para dar um suporte. Aceitar ajuda é bom para todos: para o casal, que precisa fortalecer o vínculo homem-mulher; para a família, que se sente fazendo parte desse momento tão especial, e para o filho, que vai ter pais felizes ao seu lado”, comenta. “Porém, é importante que, antes disso, o casal separe alguns minutos para estar junto para falar do seu dia, trocar um abraço, um chamego e um sentir que o outro está ali”, completa Rosangela.

Já Triana Portal, psicóloga clínica e terapeuta de casal, de São Paulo (SP), observa que o casal consegue voltar ao “normal” por volta dos 3 anos de idade do filho, idade na qual já houve o desfralde, os pais não sofrem tanto com a privação de sono e a criança apresenta uma certa autonomia. “É uma fase em que o par realmente consegue ter mais intimidade e liberdade para passear e fazer pequenas viagens. Isso pode variar muito dependendo das características de cada família, mas os três primeiros anos costumam ser os mais desafiadores para qualquer casal. É, inclusive, uma fase em são registrados muitos divórcios”, fala.

Para Rosangela, um filho pode tanto unir quanto afastar um casal e um fator é determinante para isso: o alinhamento. “Muitos pais, especialmente os de primeira viagem, se preparam para a chegada do pequeno, assistem a filmes e documentários, fazem cursos, compram livros… Poucos, no entanto, procuram ajuda para se prepararem emocionalmente para a mudança na relação amorosa. O foco passa a ser o pequeno, os assuntos mudam. Dormir até tarde no fim de semana, passar uma tarde vendo filme agarradinho no sofá ou sair para se divertir nem sempre são possíveis. As mudanças são muitas e pegam o mais unido dos casais”, afirma.

Problema também para a criança

À medida que a criança cresce, o excesso de trabalho, o cansaço e a culpa por não dar tudo o que o filho precisa – principalmente tempo – acaba levando o casal a concentrar todas as suas energias na criança e a se descuidar dos papéis de homem e mulher. Com filhos, praticamente qualquer decisão deve levá-los em conta: do cardápio do jantar até a forma de gastar o dinheiro e o que a família vai fazer no fim de semana. No entanto, alguns pais e mães acabam superestimando essas resoluções, atribuindo poder à criança e desequilibrando a relação. “É o que chamo de ‘filiarcado’, ou seja, permitir que a criança decida tudo”, diz Elizabeth Monteiro, psicóloga e psicopedagoga, autora dos livros “Criando Filhos em Tempos Difíceis” e “Criando Adolescentes em Tempos Difíceis” (Summus Editorial).

Para Elizabeth, às vezes as pessoas simplesmente se entregam ao tipo de relação child-centered por puro desânimo. “Está todo mundo cansado demais. É mais fácil abrir mão de autoridade e, por comodismo, deixar a situação como está. Porém, essa não é a solução ideal para ninguém”, afirma. Um dos riscos é a criança se transformar num adulto mimado, já que sempre teve suas vontades atendidas. Vai comer o pão que o diabo amassou, claro, porque dificilmente alguém vai atender suas demandas como papai e mamãe faziam. Para o casal, uma das consequências é, quando o filho crescer e for embora de casa, enfrentar a chamada “síndrome do ninho vazio”. Como o filho possivelmente era o único elo forte que os unia, o que restará? Isso sem contar que, após tantos anos de afastamento, é possível que um sequer reconheça o outro como pessoa.

Segundo a psicóloga Renata de Azevedo, especialista em terapia de casal pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), alguns casais já estavam afastados antes mesmo de terem filhos. “Alguns, inclusive, acreditavam que o bebê salvaria a relação. Com o nascimento, os casais que estavam mal ficam pior ainda, pois o afastamento, o stress e alguns atritos são comuns nessa fase de adaptação. Outros casais colocam todo o seu afeto e a carência em cima do filho e não sobra tempo, espaço e energia para mais ninguém, inclusive o seu cônjuge. Dessa forma, a distância aumenta e passam a ser apenas pais”, observa. O filho passa a ser o centro e o único elo entre o casal durante anos.

Separar os papéis é fundamental

Um filho toma toma tempo, espaço, energia, pesa no orçamento, limita a intimidade. Resgatar ou manter a mesma relação de amor anterior à sua chegada é bem difícil. Com alguns ajustes no dia a dia e na forma de configurar as tarefas domésticas e as atividades em família, dá para o casal encontrar um equilíbrio saudável para lidar com tudo. “É possível reverter, mas a mudança precisa fazer sentido. Ambos devem estar cientes que a reversão de um padrão de comportamento ou rotina é um processo, leva tempo e exige paciência para adaptação do novo formato”, avisa Triana.

Uma conversa franca sobre o que mudou para cada um depois da chegada do filho, o que mais faz falta e o que pode ser feito diferente é o primeiro e mais importante passo, segundo Rosangela. Se o casal está vivendo essa situação é importante sentar e conversar sobre isso para que possam ir mudando seus comportamentos aos poucos.

Uma criança precisa que suas necessidades emocionais e físicas sejam supridas, mas também necessita que os pais estimulem sua segurança e autonomia. “Grande parte dos problemas da vida adulta são resultado da primeira infância, na melhor das intenções os pais vão se anulando e não percebem o quanto isso impacta nos filhos. Os pequenos devem ter limites e também aprender a conviver com a família e outras pessoas além dos pais. E precisam saber que os pais são um casal e que eles priorizam também essa relação”, diz a terapeuta.

Para Triana, os casais child-centered precisam se conscientizar de várias verdades. A primeira é que construir um “reinado” para o filho não é a melhor forma de educar. “E, em seguida, devem entender que se não estiverem inteiros nem felizes não conseguirão cuidar bem do filho. A relação conjugal precisa de constante manutenção, algo que dá trabalho e demanda atenção. Valorizar a intimidade, o sexo e os momentos de lazer sem os filhos, não os torna pais negligentes ou maus”, declara. Para isso, também é fundamental que cada um cuide bem de sua autoestima, assim ficam menos inseguros, têm mais clareza de pensamento e objetivos e levam a vida de forma mais assertiva.

“As pessoas também precisam compreender que têm o direito de ser homem e mulher, não precisam ser apenas pai e mãe pelo resto da vida. Dá para vivenciar todos os papéis sem negligenciar nenhum. Além disso, os filhos gostam de saber que os pais namoram, se curtem, saem, apreciam ficar juntos. Isso é benéfico para o desenvolvimento da criança, que cresce aprendendo um modelo saudável de relacionamento”, pontua a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casal pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Para ler na íntegra o texto publicado no UOL Universa, acesse: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/08/27/relacionamento-child-centered-voce-esta-vivendo-um.htm

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Conheça abaixo alguns livros das autoras Elizabeth Monteiro e Marina Vasconcellos. Outros podem ser encontrados no site do Grupo Editorial Summus.

CRIANDO FILHOS EM TEMPOS DIFÍCEIS
Atitudes e brincadeiras para uma infância feliz
Autora: Elizabeth Monteiro
SUMMUS EDITORIAL

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.

 

CRIANDO ADOLESCENTES EM TEMPOS DIFÍCEIS
Autora: Elizabeth Monteiro
SUMMUS EDITORIAL

O amor parental não é estático: ele muda com o tempo e com os filhos. Por isso, os pais precisam atualizar seu modo de sentir e amar. Com uma linguagem direta e delicada, Elizabeth Monteiro fala sobre a necessidade de proteger os adolescentes de ameaças como as drogas e, ao mesmo tempo, de incentivar a autonomia deles. Sem fórmulas mágicas, a autora estabelece com pais e educadores um diálogo amplo e profícuo.

QUANDO A PSICOTERAPIA TRAVA
Como superar dificuldades
Organizadora: Marina da Costa Manso Vasconcellos
SUMMUS EDITORIAL

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.



‘TDAH: TRANSTORNO APARECE NA INFÂNCIA E ACOMPANHA A PESSOA POR TODA A VIDA’

Matéria de Luíza Tiné, publicada originalmente
no Blog da Saúde│UOL VivaBem, em 14/08/2019.


Nem sempre os pais levam a sério quando escutam que o filho não se concentra na sala de aula. Mas você sabia que isso pode ser TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade)? Esse transtorno é neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a vida e se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade.

Segundo a ABDA (Associação Brasileira de Déficit de Atenção), o distúrbio afeta de 3% a 5% das crianças em idade escolar e sua prevalência é maior entre os meninos. Uma das características mais fortes da síndrome é a dificuldade para manter o foco nas atividades e a agitação motora, o que podem prejudicar o aproveitamento escolar.

Na prática, isso significa “questões relacionadas à leitura e escrita, queixas escolares, dificuldades no reconhecimento de algumas palavras, em alguns casos, atraso de fala na compreensão e na decodificação das palavras. O desempenho acadêmico, por exemplo, não é equivalente a uma criança de sua idade e isso implica no seu desenvolvimento”, explica a fonoaudióloga Luiza Aline Monteiro, da Meic (Maternidade Escola Januário Cicco), vinculada à UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e à Rede Ebserh. “Dependendo do apoio que a criança ou adolescente recebe, eles terão mais, ou menos, problemas”, completa.

Se o TDAH for entendido como um transtorno do neurodesenvolvimento, é possível compreender que existem diferenças entre o cérebro de uma criança com TDAH e outra que não tem. “A incapacidade de resposta ao estímulo tem uma relação com circuitos neuronais, que é associado com o córtex pré-frontal, ou seja, muitas vezes a pessoa pode ter o quadro comportamental nítido, mas tem também esse impacto neurológico nesse transtorno”, afirma Rachel Schlindwein-Zanini, neuropsicóloga do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina e vinculado à Rede Ebserh.

O córtex pré-frontal localizado em nosso cérebro tem maior impacto em crianças com TDAH. Essa é uma parte importante, que tem a função de autorregulação comportamental. É por meio dele que se desenvolve a concentração, controle de impulsos, memória operacional, planejamento, flexibilidade cognitiva, autorregularão emocional, tomada de decisão e conscientização. “Uma parte normal importante para o crescimento”, complementa a neuropsicóloga.

Para Monteiro, compreender o desenvolvimento do córtex pré-frontal contribui para o progresso das funções. A criança e o adolescente com esse distúrbio têm dificuldade de compreender as coisas, por isso, é preciso reforços de profissionais. “Quando a gente faz uma leitura, automaticamente a gente faz construção de imagem. Já a criança com TDHA tem essa dificuldade, por conta disso, uma consequência óbvia é que ela terá comprometimento de leitura e escrita” explica.

Diagnóstico

A neuropsicóloga conta que muitas pessoas não se atentam ao diagnóstico de TDHA por falta de informação. “De modo geral, o diagnóstico é multidisciplinar, a criança deve ser atendida por um neuropsicólogo, neurologista, psiquiatra ou psicólogo clínico, fonoaudiólogo e pode também ter uma colaboração outros profissionais”, explica.

Para efeito de diagnóstico, é preciso observar os sintomas que se manifestam ainda na infância, antes dos sete anos e em pelo menos em dois ambientes diferentes (casa, escola, lazer), durante, no mínimo, seis meses. Normalmente o problema fica claro nos primeiros anos de escola, apesar de estar presente desde o nascimento.

Tratamento

A intervenção nesses casos prevê uma atuação que envolva familiares, escola e criança. A multidisciplinariedade é prevista em casos de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, com o envolvimento de profissionais como psicólogo, médico, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional. Quando orientado, o tratamento deve ser medicamentoso, além de contar com a equipe da USF (Unidade de Saúde da Família), que poderá garantir melhores progressos no tratamento do paciente.

Schlindwein-Zanini explica que, quando se tem um atendimento multidisciplinar, os resultados surgem rapidamente. “Quando esse trabalho é feito, a comunicação melhora, a criança amplia seu vocabulário, suas possibilidades, além disso, melhora a organização de pensamento e da compreensão do transtorno”, conta.

Outro destaque é para a realização das atividades que devem ser feitas em um período curto. “É preciso promover jogos e atividades lúdicas, com atividades que gerem prazer para criança e não podem ser muito longas, justamente pela dificuldade de atenção à criança. Ela precisa compreender o seu transtorno”, reforça a especialista. Segundo ela, as essas atividades curtas ajudam as crianças a se organizar no tempo dela. “A organização também precisa ser trabalhada e as crianças respondem muito bem a isso com estímulo, é importante elogiar e mostrar que elas estão evoluindo”, finaliza.

Para ler na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2019/08/14/tdah-transtorno-aparece-na-infancia-e-acompanha-a-pessoa-por-toda-a-vida.htm

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Tem interesse pelo assunto? Conheça:

TDAH E MEDICALIZAÇÃO
Implicações neurolinguísticas e educacionais do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade
Autoras: Rita SignorAna Paula Santana
PLEXUS EDITORA


Esta obra representa uma significativa contribuição a um debate que tem mobilizado pais, educadores, estudantes e profissionais de saúde: o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e a medicalização da educação. Medicalizar significa transformar aspectos de ordem social, pedagógica, cultural e afetiva em doença (transtorno, distúrbio). Partindo dessa realidade inquietante, Rita Signor e Ana Paula Santana mostram os problemas de deixar de lado o contexto social e a história de cada criança ao avaliá-la, apontando o papel da formação dos profissionais (de educação e saúde) na produção do chamado TDAH. Seguindo esse entendimento, as autoras questionam a qualidade do ensino no Brasil, o excesso de diagnósticos voltados ao campo educacional, os testes padronizados da área da saúde, o crescente consumo de medicamentos e as políticas públicas, entre outros fatores que legitimam o fenômeno da medicalização. Amparadas na perspectiva sócio-histórica, refletem sobre essas e outras questões neste livro corajoso e pioneiro, que conta também com dois estudos de caso que comprovam que a afetividade do educador e o trabalho interdisciplinar na escola podem mudar o futuro de muitos adolescentes e crianças.

‘A CIÊNCIA POR TRÁS DA TIMIDEZ’

Texto de Sarah Keating, da BBC, publicado no UOL em 13/08/2019.

A ideia de se enturmar em uma festa te tira a vontade de sair de casa? Ou só de pensar em fazer uma apresentação para uma sala cheia de pessoas te faz ficar angustiado dias antes deste evento de fato acontecer?

Se sim, então você não está sozinho.

Akindele Michael era um garoto tímido. Crescendo na Nigéria, ele passou muito tempo no interior da casa de seus pais. Estes, aliás, não são tímidos. Michael acredita que sua criação dentro de casa explica sua timidez. Ele está certo?

Está em parte, responde Thalia Eley, professora de genética do desenvolvimento e do comportamento no King’s College London.

“Pensamos na timidez como um traço de temperamento, e temperamento é uma espécie de precursor da personalidade”, explica. “Quando crianças muito pequenas começam a se envolver com outras pessoas, você percebe uma variação no conforto que sentem ao falar com um adulto desconhecido.”

Eley diz que apenas cerca de 30% da timidez como característica se deve à genética; o resto vem como uma resposta ao entorno.

A maior parte do que sabemos sobre a genética da timidez vem de estudos que compararam esta característica em gêmeos idênticos – cópias genéticas perfeitas um do outro – com gêmeos não-idênticos – que compartilham apenas metade dos mesmos genes.

Na última década, cientistas como Eley começaram a examinar o DNA em si para tentar encontrar variantes genéticas que possam afetar a personalidade e a saúde mental.

Cada variante genética individual tem um efeito minúsculo, mas quando você considera as milhares de combinações possíveis, o impacto começa a ser mais perceptível. Mesmo assim, a influência dos genes na timidez não pode ser tomada isoladamente.

“Não haverá um, dez ou cem genes envolvidos. Haverá milhares”, diz Eley. “Então, se você pensar em todo o genoma de ambos os pais [de uma criança], existem centenas de milhares de variantes genéticas relevantes”.

Assim, o ambiente é quase mais importante para desenvolver esses tipos de características, ela diz. E uma das coisas interessantes sobre genética é que isso nos leva a nos conectar com aspectos do ambiente que correspondem às nossas predisposições reais.

Por exemplo, uma criança tímida pode ser mais propensa a se isolar em um playground e assistir aos outros em vez de se envolver. Isso faz com que crianças assim se sintam mais confortáveis ??estando sozinhas, porque isso se torna sua experiência recorrente.

“Não é que seja um ou outro: são ambos [genética e ambiente] trabalhando juntos “, diz a pesquisadora. “É um sistema dinâmico. E por causa disso, é sempre possível mudá-lo através de terapias psicológicas.”

A timidez é necessariamente uma coisa ruim?

Chloe Foster, psicóloga clínica do Centro de Transtornos de Ansiedade e Trauma em Londres, diz que a timidez em si é bastante comum, normal e não causa problemas – a menos que se transforme em uma ansiedade social maior.

Foster diz que as pessoas que trata buscam ajuda quando “estão começando a evitar coisas que precisam fazer”, como falar com outras no trabalho, socializar ou estar em uma situação em que acham que serão julgadas.

Eley acredita que pode haver razões evolucionárias para as pessoas desenvolverem traços de personalidade tímidos.

“Era útil ter pessoas do grupo lá fora, explorando e participando de novas comunidades; mas também era útil ter pessoas mais avessas ao risco, conscientes das ameaças. Estas faziam um trabalho melhor protegendo os filhotes jovens, por exemplo”, diz Eley.

A pesquisadora avalia que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a mais eficaz para pessoas com timidez e ansiedade social. Essa terapia, baseada em evidências, funciona tentando mudar padrões de pensamento e comportamento.

A TCC ajuda, por exemplo, a identificar pensamentos negativos ou comportamentos que acreditamos nos ajudar, mas na verdade podem estar gerando mais ansiedade social – como ensaiar com antecedência uma fala ou evitar o contato visual.

Às vezes, o problema é que pessoas tímidas que sofrem com situações como falar em público muitas vezes estabelecem padrões muito elevados para como essas situações devem se desenrolar, explica Foster.

“Elas podem achar que não podem tropeçar nas palavras… ou que têm que ser tão interessantes que todos devem ficar totalmente fascinados no que estão dizendo o tempo todo.”

Se estas pessoas forem capazes de aliviar um pouco da pressão sobre si mesmos, de fazer curtas pausas para respirar, a ansiedade pode ser um pouco aliviada.

Outra coisa que pode ajudar é se concentrar externamente no que está acontecendo ao redor, em vez de internamente em como a ansiedade está fazendo você se sentir fisicamente. Concentrar-se no público, em vez de em si mesmo, pode contribuir.

Desafiar-se a estar mais aberto a novas situações também pode ajudar: “Quanto mais você puder se envolver em situações sociais, mais confiante ficará. Mas lembre-se de abordar estas situações sociais de uma maneira nova também”.

Ou seja: é importante mudar o script (roteiro). Pergunte a si mesmo o que mais teme sobre situações sociais. Você está preocupado em parecer chato? Ou ficar sem coisas para dizer? Quanto mais você conhecer sua ansiedade, mais poderá começar a desafiá-la.

Qual é a diferença entre timidez e introversão?

Jessie Sun, doutoranda na Universidade da Califórnia em Davis que pesquisa a psicologia por trás da personalidade, destaca que a timidez e a introversão não são a mesma coisa.

Enquanto para muitas pessoas a introversão tem a ver com o interesse em explorar pensamentos, para os psicólogos ela faz parte de uma dimensão diferente da personalidade: a abertura a experiências.

Pessoas tímidas são comumente introvertidas, mas elas também podem ser extrovertidos cuja ansiedade atrapalhou a sociabilidade. E os introvertidos não-tímidos podem ser socialmente hábeis, mas que preferem a própria companhia.

Sun diz que “a personalidade é consistentemente um dos mais fortes indicadores da felicidade, e a extroversão tem associações especialmente consistentes com o bem-estar”.

“As pessoas que são extrovertidas tendem a experimentar mais sentimentos de entusiasmo e alegria, enquanto as introvertidas tendem a sentir essas coisas com menos frequência”, explica.

Mas os introvertidos poderiam absorver um pouco dessa alegria e entusiasmo simplesmente agindo de forma extrovertida?

Sun e seus colegas fizeram um experimento. Eles pediram para as pessoas agirem com extroversão por uma semana inteira – um tempo demorado para quem é tímido.

“Pedimos a elas que agissem de forma ousada, falante, ativa e assertiva o máximo possível”, lembra.

A equipe descobriu que, para pessoas normalmente extrovertidas, agir consistentemente desse jeito ao longo de uma semana significou que elas experimentaram mais emoções positivas e se sentiram mais “autênticas”.

Mas as mais introvertidas não experimentaram essa “injeção” de emoções positivas. Aquelas extremamente introvertidas chegaram a se sentir cansadas e experimentaram mais emoções negativas.

“Eu acho que a principal lição é: provavelmente é demais pedir a pessoas introvertidas ou muito tímidas que ajam de forma extrovertida por uma semana inteira. Mas elas podem considerar ‘atuar’ extrovertidamente em algumas poucas ocasiões”, diz Sun.

E a cultura?

Vimos como o ambiente desempenha um papel importante no fato de sermos tímidos ou não. Mas a cultura também pode influenciar?

Diz-se que os Estados Unidos valorizam o comportamento confiante e extrovertido em detrimento da introversão, enquanto estudos descobriram que em partes da Ásia, como no Japão e na China, é mais desejável ser quieto e reservado.

Atitudes em relação ao contato visual também variam enormemente de país para país.

Kris Rugsaken, professor aposentado de estudos asiáticos na Ball State University, diz que “enquanto um bom contato visual é esperado e valorizado no Ocidente, é visto como sinal de desrespeito e desafio em outras culturas, incluindo asiáticas e africanas”.

“Quanto menos contato visual esses grupos tiverem com um indivíduo, mais respeito eles demonstram.”

Apesar dessas diferenças culturais, Sun diz que a pesquisa parece mostrar que os extrovertidos tendem a ser mais felizes mesmo nos países onde a introversão é mais respeitada, mas o grau de felicidade é menos acentuado nesses lugares.

Assim, embora a pesquisa sugira que os extrovertidos acabam sendo mais felizes onde quer que estejam no mundo, ser introvertido não é necessariamente negativo – assim como ser extrovertido nem sempre é positivo.

“Não pense na introversão como algo a ser curado”, escreve Susan Cain em seu livro O poder dos quietos. “Há uma correlação zero entre ser o mais falante e ter as melhores ideias”.

Este artigo foi adaptado de “Why am I shy?”, um episódio do programa radiofônico CrowdScience, do serviço mundial da BBC, apresentado por Datshiane Navanayagam e produzido por Cathy Edwards. Para ouvir mais episódios do CrowdScience (em inglês), clique aqui.

Para ler na íntegra o texto publicado no UOL, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/bbc/2019/08/13/a-ciencia-por-tras-da-timidez.htm

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Tem interesse no tema “timidez”? Conheça:

MORRENDO DE VERGONHA
Um guia para tímidos e ansiosos
Autores: Teresa Flynn, Cheryl N. Carmin, C. Alec Pollard, Barbara G. Markway
SUMMUS EDITORIAL

Pessoas que sofrem de fobia ou ansiedade em situações sociais não conseguem comer diante de outras pessoas, não utilizam banheiro público, fracassam em tentar expressar opiniões, apavoram-se diante de testes ou exames etc. Neste livro um grupo de psicólogos estuda o problema e apresenta um programa para vencê-lo. Analisando situações específicas, oferecem meios de auto-avaliação e recursos para dominar as fobias sociais.

TIMIDEZ
Esclarecendo suas dúvidas
Autores: Lynne Crawford, Linda Taylor
EDITORA ÁGORA

A timidez excessiva interfere na vida profissional, social e emocional das pessoas. Este livro mostra como identificar o problema e como quebrar os padrões de comportamento autodestrutivos da timidez. Apresenta conselhos e técnicas simples e poderosas para enfrentar as mais diversas situações.

‘ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL NA ESCOLA: O SEGREDO COMEÇA EM CASA’

Texto de Dr. Sylvio Renan, autor da MG Editores, publicado originalmente no Blog do Pediatra, em 11/08/2019

Mais um retorno às aulas e com elas a rotina da lancheira e a missão dos pais para torna-las atrativas e saudáveis. E nem sempre é uma tarefa fácil, uma vez que a tentação da bolacha recheada, o refrigerante, o salgadinho ou a batatinha frita da cantina ou de coleguinhas estão sempre presentes, não é mesmo?

Mas para tornar a resistência a essas tentações mais fáceis, é importante saber que ela se fortalece a partir dos hábitos bem estabelecidos na rotina da casa da criança.  Ou seja, se a família tem por hábito uma alimentação regrada, equilibrada, nutritiva, a criança naturalmente terá gosto por este tipo de alimentação e aceitará tanto uma lancheira mais saudável, quanto saberá selecionar elas mesmo os alimentos mais apropriados na cantina.

Mas e se os pais não cultivam o hábito da alimentação saudável em casa? Bom, nunca é tarde para começar, pela saúde da criança e de toda a família. E pode ser mais fácil do que muitos pensam desde que se respeite o tempo de cada um. Para os mais resistentes, pode-se começar aos poucos, com substituições que vão aumentando gradativamente até que toda a adaptação seja concluída.

Para todos os casos, o importante é não radicalizar, podendo-se estabelecer uma ‘folga’ para a criança e estipulando um dia em um período em que ela teria a lancheira ou a cantina com um alimento que foge da sua rotina equilibrada.

Além disso, é fundamental mostrar para seu filho que o lanche saudável não sinônimo de aparência ou gosto “ruim”, mas pelo contrário, pode ser muito atraente e gostoso, se feito com criatividade e os ingredientes certos.

Por aqui, algumas dicas para uma lancheira nutritiva

– Frutas: o ideal é não cortar, sob o risco de algumas ficarem escuras e tirarem o atrativo do sabor, e também inferir na perda de nutrientes até o a hora do recreio. Assim, prefira frutas pequenas que possam ser mordidas inteiras ou que possam ser descascadas na hora, tais como uva, morango, mini maça, banana.

– No lugar dos sucos artificiais, prefira os de fruta natural ou água de coco que, embora calóricos, são funcionais
– Derivados de leite sem corantes
– Pão ou biscoito integral, sem recheio
– Lanches naturais, com queijo branco no lugar dos processados (amarelo)

Para ler na íntegra, acesse:  https://blogdopediatra.blogosfera.uol.com.br/2019/08/11/alimentacao-saudavel-na-escola-o-segredo-comeca-em-casa/

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Conheça os livros do dr. Sylvio Renan, publicados pela MG Editores:

PEDIATRIA HOJE
Orientações fundamentais para mães, pais e cuidadores


Nesta obra, Sylvio Renan Monteiro de Barros selecionou os principais textos publicados em seu site, o Blog do Pediatra, e no portal Minha Vida. Seu olhar cuidadoso e sensato, permeado pelos ensinamentos de D. W. Winnicott e também pelas mais recentes atualizações da medicina, constitui um farol no caminho de pais, mães, cuidadores, educadores e profissionais de saúde.

SEU BEBÊ EM PERGUNTAS E RESPOSTAS
Do nascimento aos 12 meses


Obra que reúne informações imprescindíveis para mães e pais de primeira viagem. Mas não se trata de um compêndio técnico sobre o “bebê-padrão”, e sim de um livro que aborda casos específicos atendidos pelo autor ao longo de três décadas de pediatria. Dividido em meses, traz perguntas e respostas sobre desenvolvimento físico e psicológico, alimentação, sono, comportamento, estímulos e cuidados com o bebê.


Quer saber mais sobre o assunto? Conheça também os livros na nutricionista Cláudia Lobo pela MG Editores:

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL NA INFÂNCIA
Conceitos, dicas e truques fundamentais


Todo dia surgem informações de como oferecer uma alimentação saudável aos filhos. Produtos que parecem ricos em nutrientes fazem sucesso, mas logo suas desvantagens são desmascaradas. Pensando nisso, a nutricionista Cláudia Lobo criou um guia para ajudar os pais a oferecer uma alimentação saudável às crianças. Mudança de hábitos, organização e perseverança são alguns dos ingredientes apontados por ela. Imperdível.

COMIDA DE CRIANÇA
Ajude seu filho a se alimentar bem sempre


Mostrando de maneira objetiva como montar um cardápio adequado à realidade de cada família, este livro ensina quais alimentos escolher na hora de comprar e por que fazê-lo; como economizar tempo e dinheiro; e como preparar refeições rápidas e nutritivas. Também sugere formas de transformar a própria criança em aliada no processo de educação alimentar e traz mais de 50 receitas nutritivas, ricamente ilustradas.

‘EXERCÍCIO, DIETA, NÃO FUMAR, SORTE: O QUE REALMENTE PROTEGE VOCÊ DO CÂNCER?’

Matéria de Luisa Picanço, publicada no UOL VivaBem,
em 08/08/2019.

Câncer: está aí um tema que ainda assusta muita gente. Não é por menos. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), essa é a segunda doença que mais provoca morte no mundo. No Brasil, a estimativa é que surjam 600 mil novos casos do problema por ano.

Por esse motivo, é comum pessoas questionarem o que funciona de verdade para evitar tumores, e se isso é realmente algo possível. A resposta é sim, pelo menos em algumas situações, e vamos mostrar a seguir o que realmente é capaz de inibir a doença.

Drible os fatores de risco Para começo de conversa, é importante saber que, mesmo que faça “tudo certo” –ou seja, leve uma vida só com bons hábitos –, qualquer pessoa pode ter câncer um dia. “Isso porque a idade é o principal fator de risco isolado da doença”, explica Ademar Lopes, cirurgião oncológico e vice-presidente do A.C. Camargo Cancer Center.

Porém, de acordo com uma pesquisa realizada por cientistas da USP (Universidade de São Paulo) em parceria com a Universidade Harvard (EUA), cerca de 114 mil casos de câncer no Brasil seriam inibidos com mudanças no estilo de vida que combatem os principais fatores de risco da doença, entre elas estão:

  • Não fumar;
  • Não se expor excessivamente ao sol;
  • Não exagerar no consumo de bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados;
  • Manter-se no peso adequado e evitar a obesidade;
  • Ingerir ao menos cinco porções de frutas, legumes e verduras por dia;
  • Praticar exercícios regularmente (ao menos 150 minutos por semana).

Segundo Mônica de Assis, médica sanitarista do Inca (Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva), com essas atitudes é possível evitar, por exemplo, o câncer de pele, o câncer de pulmão, o câncer de boca, o câncer de cólon e reto, o câncer de mama e câncer de colo de útero, que são doenças passíveis de prevenção primária –ou seja, que o combate está associado ao estilo de vida.

Exames que ajudam a evitar a doença

Segundo o Inca, a prevenção secundária do câncer consiste em detectar a doença previamente e tratá-la no início ou até antes mesmo de se tornar um tumor –o que na maioria dos casos é determinante para o sucesso do tratamento.

Para isso, os médicos recomendam que exames periódicos sejam feitos na população de maneira geral, como no caso de mulheres entre 25 e 64 anos, que devem realizar o papanicolau anualmente nos dois primeiros exames e, se ambos tiverem resultado negativo, passar a fazer o teste a cada três anos. Essa é a principal forma de identificar lesões no colo do útero causadas pelo HPV (papiloma vírus humano), que podem virar um tumor.

Já o câncer de cólon e reto (no intestino) pode ter sua incidência reduzida com exames para identificação precoce e tratamento dos pólipos, lesões que podem progredir para um câncer.

Sem falar dos já conhecidos exames de PSA e toque retal, que devem ser realizados regularmente pelos homens a partir dos 50 anos para a detecção do câncer de próstata; e a mamografia, que o Inca recomenda que seja feita anualmente pelas mulheres também após os 50 anos, para prevenção do câncer de mama.

Vacinas que previnem tumores

Sim, existe ainda a possibilidade de inibir a doença com imunizações. É o caso do câncer do colo do útero e do câncer de fígado. Para o primeiro, existe no SUS (Sistema Único de Saúde) a vacina contra HPV, que deve ser dada para meninos e meninas com idade entre 9 a 14 anos.

Já o câncer de fígado está associado à infecção pelo vírus da hepatite B, e a vacina é um importante meio de evitar o problema.

E a questão genética?

Segundo o Inca, são raros os casos de cânceres que ocorrem exclusivamente devido a questões hereditárias. No entanto, existem fatores genéticos que podem tornar algumas pessoas mais sensíveis à ação de agentes ambientais (cigarro, obesidade, álcool etc.) que causam câncer.

“Quando há história de câncer na família é possível fazer um aconselhamento genético”, recomenda Lopes. Isso significa ir a uma ou mais consultas com um geneticista ou oncogeneticista para identificar o possível risco de desenvolver tumores. Assim, se necessário, a pessoa pode iniciar um tratamento precoce para evitar a doença ou atenuar consequências mais graves.

Se existe o risco hereditário também é recomendado que os exames de detecção precoce sejam realizados muito mais cedo do que para o restante da população.

Vale ressaltar que, para boa parte dos cânceres, somente 5% a 15% dos casos são hereditários e, geralmente, as mutações no DNA das células que levam ao surgimento de tumores são adquiridas ao longo dos anos, devido a um estilo de vida inadequado.

Câncer é uma questão de falta de sorte?

Há alguns anos, um trabalho científico realizado por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins (EUA) levantou uma discussão se o câncer não seria apenas uma questão de falta de sorte.

No estudo, falou-se sobre a probabilidade de ocorrência de algum erro no momento da divisão celular –fenômeno que ocorre normalmente no nosso organismo ao longo de toda a vida –, gerando uma nova célula defeituosa.

Normalmente, nosso corpo é programado para reconhecer esses erros e destruí-los, mas, se esse mecanismo falhar, podemos ter a replicação dessa célula e a formação de um tumor. Há pessoas que nunca vão desenvolver alguns tipos de câncer apenas por seus bons hábitos, mas há pessoas que vão mesmo com um estilo de vida adequado. Na dúvida, para não contar só com a sorte, a recomendação é evitar se expor aos possíveis causadores.

“Sabemos que alguns vírus e hábitos elevam o risco da doença, mas o fato é que o conhecimento científico não consegue ainda explicar porque a presença de fatores ambientais e mesmo hereditários podem resultar em um câncer em alguns indivíduos e em outros, não” explica Almeida.

Portanto, é fundamental para a prevenção de tumores seguir a máxima de fazer exercícios regularmente, manter-se no peso ideal, realizar um check-up médico periódico, ter uma alimentação saudável, evitar o cigarro ou produtos ligados ao tabaco, maneirar no consumo de álcool e de alimentos ultraprocessados e proteger-se do sol.

Fontes: Mônica de Assis, médica sanitarista da Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede do Inca (Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva); Liz Almeida, médica epidemiologista e chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca; e Ademar Lopes, cirurgião oncológico e vice-presidente do A.C. Camargo Cancer Center.

Para ler na íntegra, acesse:
https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2019/08/08/treino-dieta-vacina-sorte-o-que-voce-realmente-ajuda-a-evitar-o-cancer.htm

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Quer saber mais sobre o assunto?  Conheça o livro:

CÂNCER E PREVENÇÃO
Organizadores: Ricardo CaponeroArtur Malzyner
MG EDITORES



Voltado para leigos, este livro, escrito por uma equipe multidisciplinar, explica o que é câncer e como preveni-lo; aborda a prevenção primária por meio de cirurgias, medicamentos, alimentação adequada e hábitos saudáveis; esclarece sobre a importância do diagnóstico precoce; e fala sobre os principais tipos de tratamento existentes. Fundamental para pacientes, familiares, psicólogos, enfermeiros etc.

‘ELE MATOU A MULHER PORQUE QUERIA VER O CELULAR DELA. CIÚME É LEGAL?’

Texto de Nina Lemos, publicado em sua coluna no UOL Universa,
em 07/08/2019.

“O que você está escrevendo nesse celular?”, “Está falando com quem?”, “Me dá essa senha aí, libera, me deixa ver o que você está escrevendo.”

 Talvez você já tenha passado por isso. Quem sabe o seu namorado ou marido seja do tipo “controlador” e ciumento. Talvez você até ache que isso é “bonitinho”, uma fofura. Pois eu tenho uma história triste e apavorante para contar.

A dona de casa Sandra Nobre dos Santos foi assassinada no interior do Paraná na segunda-feira e o principal suspeito é seu marido (mais uma vez um marido que mata a mulher). Motivo: ele estava com “ciúmes” de uma conversa no celular. Ele chegou em casa e pegou o celular da esposa para ver com quem ela falava e pediu a senha.

Sandra, que carregava o filho mais novo do casal no colo (um bebê de um ano), errou o número. O marido empunhou uma arma. Atirou duas vezes e a matou. Quem contou a história foi uma irmã de Sandra, que ouviu o relato do filho de 11 anos do casal, que viu tudo e está em estado de choque.

Sandra tinha 35 anos e quatro filhos. O suspeito, até a tarde de terça-feira, ainda estava foragido. Ela é mais uma vítima de uma epidemia que cresce no Brasil, a do feminicídio (em alguns estados, como São Paulo, o crime cresceu 76% no primeiro trimestre do ano). Sandra se encaixa em algumas tristes estatísticas:

  • Os parceiros são suspeitos de 71% dos casos de feminicídio no Brasil.
  • O lugar onde uma mulher mais corre perigo é em casa.
  • 30% dos crimes são motivados, segundo pesquisadores, por “ciúme.” “Ciúme”.

Bem, que ciúme é esse, que faz com que alguém mate uma mulher friamente na frente dos filhos?

Não, eu não sou daquelas que acham que todo homem é um assassino ou estuprador em potencial. Agora, vamos encarar a realidade: um cara possessivo, que controla seus passos, que briga por ciúme, que tenta te controlar, saber com que você anda, que reclama das roupas que você veste pode, sim, ser perigoso. Se ele não te matar com um tiro, pode, no mínimo, te deixar infeliz por anos.

Então homens possessivos são, sim, uma ameaça à integridade física e mental das mulheres. Se seu namorado ou marido tiver reações exageradas de ciúme, ligue o alerta. Se ele ficar agressivo quando ciumento, pense que você provavelmente não está em uma relação boa e pode se machucar. Procure ajuda. Fale com uma amiga. Tente escapar. É sério. Nossas vidas estão em jogo. 

Ciúme é saudável?

Há muito tempo, desde que me lembro por gente, ouço as frases: “ah, mas um pouco de ciúme é saudável”; “ah, ciúme apimenta a relação”; “ah, quem ama tem ciúme.”

O que acho, depois de muita experiência na vida e de ler sobre casos como o da Sandra (prestem atenção, eles acontecem todos os dias!) é que ciúme não é bom, não é saudável e muito menos prova de amor. Esse sentimento, assim como controle e posse, são apenas provas de insegurança e babaquice mesmo.

Se um cara a trata como propriedade dele, desculpe: não faz isso porque te ama, mas porque acha que você é propriedade dele. Se alguém te controla, isso não é prova de amor, mas de necessidade de controle, de medir seus passos. Não é romântico. Em doses leves, ciúme é chato. Em doses violentas, é perigoso.

Se não dá a senha do celular

E não, ninguém tem obrigação de contar para quem telefonou, ou tem o direito de invadir o celular de outra pessoa. “Ah, mas quem não deve não teme”, dizem muitos. Discordo fortemente. Celulares e computadores são aparelhos pessoais. As suas conversas com amigas e amigos são só suas. Ninguém tem o direito de invadir a sua privacidade. E, claro, você também não pode invadir a privacidade de ninguém. Deixe o celular do seu namorado em paz!

Nem todos concordam. Em 2015, a dupla sertaneja Henrique e Diego lançou a música “Senha do Celular”, que faz sucesso até hoje. Eles cantam: “Se não deixa pegar o celular/É porque tá traindo/E tá mentindo/Alguma coisa tem/Se não deixa pegar o celular/É porque tá devendo/Me enganando de papo com outro alguém.”

Bem, que imagem é essa que esses homens têm das mulheres? Que estamos por aí, “aprontando”. Bem, mesmo se fosse o caso, não seria motivo para agressão, muito menos morte (é óbvio). Mas não, queridos, existe uma coisa simples chamada individualidade, independência, direito de falar com quem quiser. Acordem!

Ah, mas as mulheres também não são ciumentas? Claro que são. E também são chatas quando enciumadas e também precisam aprender a se controlar. Agora, os dados mostram, por “ciúmes”, alguns homens MATAM. E não, não é por amor.  

Como dizia um slogan antigo de quando eu era criança: “quem ama não mata”. Vou além. Quem ama até sente ciúme. Mas se controla. Por sinal, a capacidade de se controlar, de não sair fazendo tudo o que passa pela cabeça é o que nos difere de crianças e de assassinos. Por isso, se seu parceiro “ficar louco de ciúme”, se assuste. Como diria a dupla sertaneja, se um cara age assim, é porque “alguma coisa tem.”

Para ler na íntegra, cesse:
https://ninalemos.blogosfera.uol.com.br/2019/08/07/ele-matou-a-mulher-porque-queria-ver-o-celular-dela-ciume-e-legal/

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Tem interesse no assunto? Conheça o livro:

CIÚME
O lado amargo do amor
Autor: Eduardo Ferreira-Santos
EDITORA ÁGORA

O autor, psiquiatra, mergulha no tema do ciúme, mostrando as causas de seu surgimento e suas conseqüências para as relações afetivas – como dependência, perda de auto-estima e até distúrbios psicológicos graves. Ele também aponta saídas para situações neuróticas. Afinal, o ciúme acaba transformando o amor, sentimento altruísta por natureza, no mais exacerbado egoísmo.

“MEU EX-PARCEIRO É GAY. HOJE, EU, ELE E NOSSOS MARIDOS ATÉ SAÍMOS JUNTOS”

Matéria de Jacqueline Elise, publicada originalmente no UOL Universa,
em 25/07/2019.

Milena Telles descobriu que o marido era gay quando eles já tinham uma filha

No episódio da novela “A Dona do Pedaço” que foi ao ar na última quarta (24), Lyris (Deborah Evelyn) foi à construtora de seu marido Agno (Malvino Salvador) para contar a todos o segredo dele e o motivo da separação do casal: Agno, na verdade, é gay.

A reação de Lyris é semelhante a que acontece na vida real, segundo a psicóloga e psicoterapeuta Vera Moris, coautora do livro “Coragem de ser: relatos de homens, pais e homossexuais” (Edições GLS). A maioria dos relacionamentos desfeitos quando um dos pares descobre que o cônjuge é gay acaba com uma briga feia e eles não costumam manter uma amizade depois disso.

Mas há pontos fora da curva. A gerontóloga Milena Telles Longhi, de São Paulo (SP), conta que descobriu, depois de quatro anos casada, que seu marido era gay. Eles conseguiram reconstruir a relação como amigos e costumam sair juntos, em casais: Milena, seu ex, e os companheiros de ambos. A história de Milena e de seu ex-marido fez parte do livro de Moris. Leia o relato:

“Eu e o João nos conhecemos em meados de 2011, num estande de venda de apartamentos. A gente trabalhava com educação infantil para uma amiga de minha mãe. Ela sempre dizia que ele era uma pessoa incrível, então ficamos amigos. Em julho daquele ano, eu estava solteira e fomos a uma festa juntos. Foi quando ficamos pela primeira vez.

Ele me pediu em namoro no Sesc Pompeia. A gente se dava tão bem, ele era muito engraçado e brincalhão. Conversávamos muito sobre sexualidade, até porque sou uma pessoa bem aberta para falar sobre isso. Eu mesma sou bissexual, e acho que esse foi um ponto muito importante da nossa história, para nos entendermos melhor.

Muitas pessoas me disseram que ‘já imaginavam’ que ele fosse gay, porque ele era mais delicado. Mas, na minha cabeça, isso não era um problema. Perguntei várias vezes se ele também era bi, se ele tinha interesse em homens, se já tinha ficado com algum, mas ele negava. Nunca tive dúvida de que ele me amava, porque sempre demonstrou isso. Ele me pediu em casamento em um avião, durante uma viagem nossa. Quando nossa filha Giovanna nasceu, em 2013, ele ficou muito emocionado. Ficamos juntos por quatro anos.

Não tinha nada estranho no nosso relacionamento. Mas sempre teve uma coisa da parte dele que me deixava com a pulga atrás da orelha. Sempre fui uma pessoa muito livre, nunca gostei de pertencer a alguém e nem acho que alguém tem de ser ‘meu’. E, justamente por ser assim, achava que não precisava mentir, que ele poderia me avisar se fosse sair com alguém. Mas ele sempre dizia que ‘estava trabalhando’, avisava tudo em cima da hora, me enrolava e às vezes não voltava para casa. Quando voltava, estava bêbado. Eu ficava puta. Ele não fazia isso todos os dias, mas eu ficava preocupada, porque ele tinha um irmão alcoólatra. Em relação à sexualidade, ele nunca tinha apresentado qualquer questão.

Eu estava em uma situação precária; nossa filha era muito pequena, morávamos em uma casa muito simples, em cima de um bar. Brigamos muito nessa época, tentei conversar várias vezes com ele, até que disse para ele fazer terapia logo, porque seria minha última tentativa de fazer aquilo dar certo. Foi quando ele começou a se abrir.

Uma vez, enquanto víamos TV, assistimos à propaganda de uma boneca. Ele comentou que a boneca era legal e eu comentei, de brincadeira: ‘Você não é gay, mas tem alvará, né?’. E aí ele abriu o jogo: ‘Meu terapeuta falou que eu precisava te contar isso. Já fiquei com homens’. Achei bom que ele já tivesse experimentado, de verdade, e fiquei mais feliz ainda por ele estar se abrindo. Até pedi detalhes, porque achei que isso tinha sido antes de nós ficarmos juntos.

Só que, algumas horas depois, minha ficha caiu. E eu perguntei se, quando ele saía e não voltava para casa, ele estava ficando com outros homens. Ele confessou que sim. Na hora não consegui demonstrar sentimento. Sofri calada, porque me machucou demais por dentro. Aquilo foi o começo do nosso fim como marido e mulher.

Não brigamos nem nada, apesar de ter doído demais. Lembro de ter passado por momentos no trabalho em que eu olhava para o nada, sem saber o que fazer. Eu amava aquele homem, mas sabia que eu não podia mais ficar com ele. Lidei com isso saindo com outras pessoas, meio que para ‘machucar’ meus sentimentos pelo João. No começo foi horrível, mas aos poucos foi ficando mais fácil. Nos separamos depois de quatro anos juntos e ‘nos reinventamos’ como amigos.

As pessoas diziam que eu estava sendo traída, mas não consigo enxergar como uma traição. Aquela era a forma de conseguir viver aquilo. Eu sabia que, se não fosse pela questão de ele ser homossexual, ele não faria isso comigo. Ele precisava viver essa questão interna. Tanto que hoje ele se casou com outro homem, eu também me casei com outra pessoa, e sei que ele não trai o novo marido dele.

Vejo que agora estamos muito melhor. Estaremos para sempre na vida um do outro, e acho que isso é muito bonito. Já nos ofendemos e brigamos, mas sempre voltamos ao normal porque nos amamos demais, agora como irmãos. Ele se casou com outro cara, e eu me casei com outra pessoa, o Neto, e tive outra filha.

Costumam me perguntar como é para Neto aceitar essa nossa dinâmica, mas desde que nos conhecemos eu fui muito honesta: ‘Prazer, sou a Milena, tenho uma filha pequena e meu ex-marido, pai dela, é gay. Amo o João, mas de outra forma’. Então, se ele me quisesse, teria que ser desse jeito.

Eles têm uma convivência ótima. Às vezes, o João vai lá em casa cuidar das meninas para que eu e meu marido possamos trabalhar e fazer outras coisas. Todo mundo se ajuda aqui, acho muito saudável e dá leveza para todos os lados. Tem dias que eu chego em casa tarde do trabalho e estão lá meu marido e João bebendo cerveja, batendo papo e comendo pizza.

Pra Giovanna foi mais complicado. Até pouco tempo atrás ela dizia que deixou de ser bebê quando a gente se divorciou. A princípio, quando nos separamos, morávamos perto e tínhamos guarda compartilhada. Mas ela chorava muito, foi bem difícil. Ela falava que queria nos ver juntos de novo. Agora, ela amadureceu, entendeu melhor a situação, fez terapia e ganhou uma irmã mais nova também, filha do Neto.

O sonho dela é que a gente tenha uma casa enorme para que possamos morar todos juntos: eu, Neto, a irmãzinha dela, o João, o marido dele e as filhas deles! Nós sempre saímos para jantar com eles, minhas filhas e as meninas do João têm uma relação ótima, frequentamos os aniversários uns dos outros. Estamos combinando de viajarmos juntos em breve. Foi um processo, mas hoje vejo que compensa demais”.

Para ler a matéria na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/07/25/minha-historia-eu-meu-ex-marido-e-o-marido-dele.htm

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Conheça o livro “Coragem de ser”, mencionado na matéria:

CORAGEM DE SER
Relatos de homens, pais e homossexuais
Autores: Vera MorisFábio Paranhos
EDIÇÕES GLS

Contrariando o senso comum, estudo recente realizado na Universidade de Toronto, no Canadá, estimou que mais da metade dos pais homossexuais era composta por pais biológicos e não adotivos. De início, essa informação gera questionamentos do tipo: por que se casou e teve filhos se sabia ser gay? Por que escondeu o fato da família? Trata-se de um ato de covardia?

Este livro mostra que esse raciocínio, mais que incorreto, é preconceituoso. Esses homens se casaram com parceiras por quem estavam apaixonados e com elas tiveram filhos. Viveram, entre o namoro e o casamento, uma vida satisfatória. Para alguns, encontrar a mulher amada depois de uma infância e de uma adolescência problemáticas representava a possibilidade de constituir família. Porém, mais tarde, eles constataram aquilo que não conseguiam mais esconder: a inevitável atração – tanto sexual quanto afetiva – por pessoas do mesmo sexo.

Como agir diante de tal constatação? Que fazer quando se percebe que não se pode mais enganar a si mesmo? Como não machucar as pessoas que ama – pais, amigos, parentes próximos e, sobretudo, a esposa e os filhos?

Neste livro, Vera Moris e Fabio Paranhos apresentam 15 depoimentos de homens que assumiram a homossexualidade depois de ter formado uma família. A vergonha, a dor e a culpa aparecem nos relatos, assim como a esperança, a capacidade de superação e o amor incondicional pelos filhos.