“TELENOVELA ‘A MORTA SEM ESPELHO’, ESCRITA POR NELSON RODRIGUES, ESTÁ PERDIDA”

Autor foi descoberto pelo cinema, com adaptações de ‘Boca de Ouro’ e ‘Bonitinha, mas Ordinária’, mas também foi parar na televisão

Matéria de Nelson de Sá, publicada na Folha de S.Paulo,
em 06/09/2019.

Nelson Rodrigues, no momento em que foi descoberto pelo cinema, com as adaptações de “Boca de Ouro” e “Bonitinha, mas Ordinária”, sucessos de bilheteria às vésperas do golpe de 1964, também foi parar na televisão.

Walter Clark, então na TV Rio, emissora que dividia programação com a paulista Record, da mesma família, encomendou o que seria a primeira telenovela produzida na cidade, em 1963 —dois anos antes de surgir a Globo.

Era para ser a “novela das oito”, mas o juizado de menores ordenou 22h30. Segundo Clark, na autobiografia “O Campeão de Audiência” (Summus), “como não existia essa faixa de novelas e não havia o hábito do público, tivemos de cancelá-la” após dois meses.

“Terminou, afinal, ‘A Morta Sem Espelho’, um dramalhão fúnebre, um enredo deletério, de neuróticos e assassinos”, publicou o Correio da Manhã em 9 de novembro, acrescentando, porém, elogios “à linguagem ousada, solta e inesperada” do autor.

Uma cena ficou célebre, aquela em que o personagem do ator Ítalo Rossi desperta sua mulher com uma arma, dizendo: “Acorda para morrer”. Mas o texto da “primeira novela brasileira de todos os tempos”, como descreve Ruy Castro na biografia “O Anjo Pornográfico” (Companhia das Letras, 1992), se perdeu, assim como as gravações.

Procurados, a atriz Fernanda Montenegro e o pesquisador e editor Caco Coelho disseram não ter pistas nem desta nem de outras duas novelas que Nelson Rodrigues escreveu no ano seguinte, “Sonho de Amor” e “O Desconhecido”.

Coelho chegou a ir aos arquivos da censura, mas “tinham destruído”, e a várias pessoas do elenco, sem sucesso. Restam fotos, resumos e depoimentos, inclusive sobre a divergência entre Clark e o autor, quanto ao gênero.

O objetivo do primeiro era uma atração “naquele espírito de combate à Excelsior”, emissora então em ascensão, “com uma programação mais sofisticada”. Já o dramaturgo queria o folhetim.

“Novela é um gênero de concessão”, dizia, mas que “pode ser bonito, pode ser a obra mais hierática”, sagrada.

“Eu queria fazer folhetim no duro, bem cabeludo. Nunca me deixaram. O pessoal queria intelectualizar o negócio. Se você quiser elevar o folhetim, fica ridículo, atroz.” Na síntese de Nelson Rodrigues, que nunca mais escreveria telenovela, “o bom folhetim é isso: coisas tremendas, adúlteras fugindo em carruagens”.

Para ler na íntegra, acesse: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/telenovela-escrita-por-nelson-rodrigues-esta-perdida.shtml

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Conheça o livro de Walter Clark, mencionado na matéria:

O CAMPEÃO DE AUDIÊNCIA
Uma autobiografia
Autores:  Walter ClarkGabriel Priolli
SUMMUS EDITORIAL

Walter Clark foi um dos mais importantes profissionais da televisão brasileira. Nesta autobiografia, escrita com o jornalista Gabriel Priolli, ele conta sua trajetória pessoal – marcada por grandes paixões, inúmeras mulheres e muito luxo – e profissional – sobretudo na TV Rio e, mais tarde, na Globo. Trata‑se de leitura indispensável para entender a implantação e a consolidação da TV no Brasil – até hoje o veículo de comunicação mais poderoso do país.

‘AOS 45 ANOS, EDUCAÇÃO DE ADULTOS EM COLÉGIO DE SP RESISTE A ENCOLHIMENTO DO SETOR’

Professor viajou com alunos migrantes do Santa Cruz para conhecê-los melhor; ‘perdi a vergonha de falar’, diz aluna

Reportagem de Angela Pinho, publicada originalmente
no jornal Folha de S.Paulo, em 26/09/2019.

Á medida que o dia escurece, as salas e corredores do tradicional Colégio Santa Cruz, em São Paulo, ganham novos rostos, sons e cores.

Crianças e adolescentes de uniforme amarelo dão lugar a jovens e adultos, muitos com a roupa do trabalho. Em vez de carro, a maioria chega de transporte público. Alguns, inclusive, são motoristas e empregados domésticos das famílias dos estudantes que frequentam o local durante o dia.

Criada há 45 anos, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz resiste ao encolhimento da modalidade. Tradicionalmente marginalizada pelas políticas educacionais, ela foi ainda mais deixada de lado nos últimos anos.

No dia 2 de janeiro, a Secadi, secretaria responsável por essa e outras áreas no Ministério da Educação, foi extinta pelo governo Jair Bolsonaro. O único programa de alfabetização de adultos, que já tinha índices baixos de eficiência e havia sido encolhido, não recebeu nenhum repasse.

A EJA também não tem política federal de formação de professores, e há alguns anos suas matrículas têm caído. De 2010 a 2018, a queda foi de 17%, chegando a um total de 3,5 milhões.

O público em potencial é muito maior. O país tem 11 milhões de pessoas de 15 anos ou mais que não sabem ler um bilhete simples.

A dificuldade de jovens e adultos que trabalham o dia todo estudarem é um dos motivos; outro é o baixo investimento no setor.

Atrair esse público à escola e garantir sua permanência demanda políticas que vão além da sala de aula, afirma Fernando Frochtengarten, diretor de cursos noturnos do Santa Cruz.

Por isso, além de subsidiar integralmente a mensalidade dos 450 alunos da EJA, o colégio também banca o transporte deles, além de um lanche na escola, e tem parcerias com advogados e psicanalistas para os estudantes que precisam. Não à toa, as matrículas ali têm aumentado, na contramão do que ocorre no país.

O auxílio para o transporte é importante porque, ao longo dos ano, a escola teve uma importante mudança no perfil dos alunos do antigo supletivo.

Se antes a maioria vivia em bairros próximos à escola, que fica em Alto de Pinheiros (zona oeste), atualmente a maior parte vem de bairros mais distantes ou de cidades da Grande São Paulo, o que fez o colégio antecipar o fim das aulas em 20 minutos.

Fernando atribui a mudança à expansão imobiliária, que esvaziou as áreas mais pobres perto do colégio, e à redução do número de empregados domésticos que dorme na casa dos patrões.

Uma característica do alunado, porém, se mantém. Eles são, na maioria, migrantes.

Gente como Onésima Bispo dos Santos, 43. Nascida na zona rural de Itaberaba, interior da Bahia, ela chegou a São Paulo para trabalhar como empregada doméstica sem saber ler nem escrever.

Pegar ônibus era uma dificuldade, assim como anotar recados. Até que o filho de sua patroa, que também estudou no Santa Cruz, falou da EJA, e ela começou a frequentar as aulas.

Incluir os estudos na rotina não foi fácil. Onésima chega da escola pouco antes da meia-noite e às 5h já tem que estar de pé para levar seus netos na escola.

Mas vale a pena. Mais do que aprender a ler e escrever, ela diz que recuperou sua voz. Explica: “Há uns anos, eu estaria embaixo da mesa de tanta vergonha de falar. Mordia os lábios, em qualquer lugar queria entrar muda e sair calada”. O motivo era o medo de cometer erros.

A desenvoltura atual não se deve apenas ao aprendizado da norma culta da língua. “A gente aprende aqui que ter sotaque e falar de um jeito ou de outro não é ofensa”, afirma.

De fato, a oralidade também é bastante trabalhada no projeto pedagógico, em atividades como rodas de conversa.

Para conhecer melhor a realidade de seus alunos migrantes, Fernando viajou com alguns deles para a região do sul da Bahia de onde muitos vieram. Também foi para o norte de Minas conversar com familiares de outros estudantes.

Mas embora ainda seja predominante, a participação dos alunos de fora da capital paulista vem caindo no EJA do Santa Cruz, que começa a receber os filhos dos migrantes.

Não foi a única mudança. Desde que foi criado o curso noturno do colégio, três anos depois da primeira regulamentação dos cursos supletivos, muita coisa se transformou na EJA em todo o país.

Em primeiro lugar, a modalidade ganhou esse nome. Em segundo, deixou de ser uma mera transposição do ensino regular de crianças para considerar o contexto de alunos de uma faixa etária mais avançada, que chegam à escola com outra bagagem e demandam, portanto, abordagem diferente.

Em terceiro lugar, a EJA passou a receber cada vez mais um público mais jovem. Atualmente, quase dois terços dos alunos da modalidade têm até 30 anos.

No Santa Cruz, o perfil predominante ainda é de estudantes mais velhos, mas, no ensino médio, 23% têm até 25 anos.

Um deles é Lucas Neumann, 23, que parou de estudar há dez anos e agora está prestes a concluir o ensino médio.

Atender a um público heterogêneo, de faixas etárias e origens diferentes, é um desafio. Uma das saídas encontradas é oferecer um leque opções de áreas em que o aluno pode se aprofundar.

Algo de que a escola não abre mão, diz Fernando, é o ensino presencial, no momento em que a modalidade a distância ganha espaço —a maior parte da carga horária da EJA pode ser oferecida remotamente.

“Os alunos, muitas vezes, são pessoas solitárias, carentes de conversa e escuta, participam de relações muito hierárquicas”, afirmam. “Nesse sentido, a escola é um espaço não só de formação acadêmica, mas também de vida social.”

Para ler na íntegra (assinantes da Folha de S.Paulo ou UOL), acesse: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/09/aos-45-anos-educacao-de-adultos-em-colegio-de-sp-resiste-a-encolhimento-do-setor.shtml

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Fernando Frochtengarten é autor do livro Caminhando sobre fronteiras, publicado pela Summus. Conheça a obra:

CAMINHANDO SOBRE FRONTEIRAS
O papel da educação na vida de adultos migrantes
Autor: Fernando Frochtengarten
SUMMUS EDITORIAL

Esta belíssima obra examina a experiência de retomada da vida escolar por adultos trabalhadores migrantes. Partindo de sua experiência como Educador de Jovens e Adultos em São Paulo, o autor reflete sobre os papéis da escola na participação de migrantes pouco letrados na sociedade urbana. Ao mesmo tempo, analisa os impactos gerados pela condição de educador em seu olhar sobre o mundo familiar.

‘COMO TRATAR O TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE’

Psicoterapia deve ser usada junto ao tratamento com remédios

Matéria publicada originalmente no jornal Folha de S. Paulo,
em 20/09/2019.

Com tantas fontes de informação e distração, especialmente no celular, com diversos aplicativos e mensagens pipocando no WhatsApp, como manter a atenção e o foco?

Essa dificuldade, porém, não pode ser equiparada ao TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), caracterizado por desatenção (sintoma mais comum em meninas) e hiperatividade/impulsividade (mais comum em meninos).

Mesmo com esses sintomas definidos, o diagnóstico do TDAH não é simples e é feito clinicamente. Não há exames que possam auxiliar na identificação do problema, diz Rodrigo Martins Leite, do Instituto de Psiquiatria da USP.

Ele afirma que alguns pontos são evidentes desde o começa da vida, como fracassos escolares, problemas disciplinares, atraso escolar e, com o passar do tempo, dificuldade para entrar na universidade e dificuldades no trabalho.

São esses impactos que ajudam a diferenciar uma desatenção comum de um transtorno, que atinge de 3% a 5% das crianças. Sua causa não está totalmente clara, mas sabe-se que há fatores genéticos e ambientais envolvidos.

Segundo Leite, dinâmicas familiares em que a família tem dificuldade de colocar certos limites às crianças somadas à predisposição genética favorecem o quadro.

É importante ressaltar que deve-se estar atento à adesão ao tratamento, ou seja, seguir as orientações e manter tanto a terapia medicamentosa quanto a psicoterapia.

Ele consiste em medicação —como ritalina— aliada à psicoterapia, que é fundamental, segundo Leite. Em alguns casos também pode ser indicada terapia familiar. “Se você não cuida do sistema inteiro, não está fazendo um bom trabalho. Se você não pensa em estratégias além da medicação, está oferecendo um tratamento de qualidade questionável.”

Segundo o psiquiatra, é comum haver baixa adesão ao tratamento e, por isso, dificuldades por toda a vida.

Para ler na íntegra, acesse https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2019/09/como-tratar-o-transtorno-do-deficit-de-atencao-e-hiperatividade.shtml

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Quer saber mais sobre o assunto? Conheça:

TDAH E MEDICALIZAÇÃO
Implicações neurolinguísticas e educacionais do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade
Autoras: Rita SignorAna Paula Santana
PLEXUS EDITORA

Esta obra representa uma significativa contribuição a um debate que tem mobilizado pais, educadores, estudantes e profissionais de saúde: o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e a medicalização da educação. Medicalizar significa transformar aspectos de ordem social, pedagógica, cultural e afetiva em doença (transtorno, distúrbio). Partindo dessa realidade inquietante, Rita Signor e Ana Paula Santana mostram os problemas de deixar de lado o contexto social e a história de cada criança ao avaliá-la, apontando o papel da formação dos profissionais (de educação e saúde) na produção do chamado TDAH. Seguindo esse entendimento, as autoras questionam a qualidade do ensino no Brasil, o excesso de diagnósticos voltados ao campo educacional, os testes padronizados da área da saúde, o crescente consumo de medicamentos e as políticas públicas, entre outros fatores que legitimam o fenômeno da medicalização. Amparadas na perspectiva sócio-histórica, refletem sobre essas e outras questões neste livro corajoso e pioneiro, que conta também com dois estudos de caso que comprovam que a afetividade do educador e o trabalho interdisciplinar na escola podem mudar o futuro de muitos adolescentes e crianças.

HIPERATIVIDADE
Como ajudar seu filho
Autora:  Maggie Jones
PLEXUS EDITORA

Livro precioso para pais de crianças que sofrem desse aflitivo distúrbio. A autora fornece informação essencial sobre tratamentos convencionais, tratamentos alternativos, alimentação e dietas adequadas, cuidados específicos para as diversas idades. Mostra os passos práticos que os pais podem dar para compreender, apoiar e cuidar da criança, possibilitando à família inteira progredir de forma positiva.

‘PASSO A PASSO PARA SUPERAR A TIMIDEZ’

Artigo publicado no portal A Mente É Maravilhosa,
em 28/08/2019.

A timidez é, em muitas ocasiões, aquela barreira que nos separa dos nossos objetivos e nos impede de apreciar os momentos da vida. Um obstáculo que temos que aprender a enfrentar para podermos nos mostrar da forma como somos.

Superar a timidez é um desafio para muitas pessoas. Não se trata de uma doença ou um distúrbio, mas de uma condição emocional na qual a vergonha prevalece a nível emocional e a dissimulação a nível comportamental.

O tímido não rejeita os outros nem evita o contato em sentido estrito. Muitas vezes até mesmo gosta da companhia dos outros. Também não teme os outros em termos globais. O que ele teme é ser exposto aos outros, ser objeto de atenção dos outros.

Para superar a timidez, é importante que tenhamos certeza do que é esta característica. Especificamente, não devemos confundi-la com a introversão. O introvertido pode ser tímido ou não, já que as duas características nem sempre coincidem.

Vamos ver tudo isso em mais detalhes a seguir.

O que é a timidez?

Existem, basicamente, três abordagens para entender a timidez. A primeira é a organicista. De acordo com ela, esse traço provavelmente tem uma origem genética. Tem a ver com certas anormalidades nas glândulas de secreção, particularmente nas glândulas pituitária e adrenal.

A abordagem comportamental, por sua vez, indica que a timidez é um comportamento aprendido. Geralmente tem sua origem na infância; às vezes pelos modelos parentais, às vezes porque a criança não é suficientemente reconhecida e valorizada pelos adultos ao seu redor.

Além disso, também pode surgir diante de alguma forma de abuso.

A psicanálise, por outro lado, aponta que a timidez é uma manifestação de um conflito do indivíduo consigo mesmo ou com uma parte de si mesmo. Isso está associado à repressão inconsciente de um ou vários instintos.

O tímido, quando exposto, sente que incorreu em uma ação incorreta ou imprópria. Sente que foi descoberto e não pode se defender. Também pode sentir que foi marcado pelo julgamento e a desaprovação dos outros.

Os primeiros passos para superar a timidez

Pelo menos 50% das pessoas se definem como tímidas em um ou mais aspectos. Então, este é um problema bastante comum.

Superar a timidez só se torna um objetivo importante se você achar que essa característica o limita significativamente. Especialmente se você acha que ela lhe causa sofrimento.

Nesses casos, vale a pena se dedicar para superar a timidez. Não é tão difícil. Os primeiros passos a dar são os seguintes:

Identifique seu tipo de timidez. Basicamente, existe uma timidez global e uma outra ocasional. A primeira está constantemente presente. A segunda aparece apenas diante de certas pessoas ou circunstâncias. Por isso, a primeira coisa a fazer é identificar a que tipo você corresponde.

Identifique os gatilhos. Tente se lembrar dos momentos em que você se sentiu mais envergonhado. O que essas situações têm em comum? Quais são os fatores que mais influenciaram para que você se sentisse tão envergonhado? Quais presenças tiveram um efeito especial em você?

Um passo a passo prático

Se você sente que as limitações provocadas pela timidez são relevantes na sua vida, a psicoterapia pode ajudá-lo. Atualmente, existem conhecimentos e meios para superar essas limitações.

Por outro lado, se a timidez não o condiciona tanto, você pode tentar seguir em frente usando alguma das estratégias que apresentaremos a seguir. Siga estas etapas:

Aceite que você é tímido. Você não está cometendo um crime, você simplesmente tem um traço de personalidade que, inclusive, muitos acham atraente. Sim, você é tímido e ponto.

Defina 10 situações de “risco”. Faça uma lista das dez situações sociais mais temidas. Não importa o quão improváveis ou absurdas elas possam parecer. Tente ser muito realista e específico. Por exemplo: “Contar uma piada e ninguém rir”.

Organize os dados. Classifique sua lista da situação mais simples à mais complexa. Por simples entendemos aquela que não lhe causa tanto medo. Por complexa, a que mais o incomoda, paralisa ou incapacita.

Domine o inventário. Depois de definir essas situações estressantes, comece a trabalhar uma por uma. Tente se expor a circunstâncias que o levem a enfrentar cada medo.

Ative seu detector. Quando você começar a se sentir envergonhado, pare por um minuto. Tome nota de seus pensamentos e emoções. Não faça nada antes de entender o que está acontecendo com você.

Anime-se. Mantenha uma postura corporal que o encoraje a continuar e valorize cada progresso que fizer. Evite comparações e destaque as características que melhor o definem de forma positiva. Pense em tudo que você contribui para os outros.

A timidez, por si só, não é um problema. O problema surge quando ela provoca emoções desagradáveis em nós, ​​ou nos afasta dos objetivos que desejamos alcançar.

Para ler na íntegra, acesse: https://amenteemaravilhosa.com.br/superar-a-timidez/

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Quer saber mais sobre timidez? Conheça:

MORRENDO DE VERGONHA
Um guia para tímidos e ansiosos
Autores: Teresa Flynn, Cheryl N. Carmin, C. Alec Pollard, Barbara G. Markway
SUMMUS EDITORIAL

Pessoas que sofrem de fobia ou ansiedade em situações sociais não conseguem comer diante de outras pessoas, não utilizam banheiro público, fracassam em tentar expressar opiniões, apavoram-se diante de testes ou exames etc. Neste livro um grupo de psicólogos estuda o problema e apresenta um programa para vencê-lo. Analisando situações específicas, oferecem meios de auto-avaliação e recursos para dominar as fobias sociais.

TIMIDEZ
Esclarecendo suas dúvidas
Autores: Lynne Crawford, Linda Taylor
EDITORA ÁGORA

A timidez excessiva interfere na vida profissional, social e emocional das pessoas. Este livro mostra como identificar o problema e como quebrar os padrões de comportamento autodestrutivos da timidez. Apresenta conselhos e técnicas simples e poderosas para enfrentar as mais diversas situações.

‘OPÇÃO PELO TIPO DE ALFABETIZAÇÃO VAI ALÉM DA TEORIA’

Educadores e governo divergem sobre qual método deve ser utilizado no país

Reportagem de Ana Luiza Tieghi, publicada originalmente na
Folha de S. Paulo, em 07/09/2019.

Educadores brasileiros travam uma batalha há décadas para definir qual é o melhor método de alfabetização e se é preciso adotar um sistema único no país.

A discussão ganhou novo gás neste ano com o governo Bolsonaro. O ministro da educação, Abraham Weintraub, e seu secretário de alfabetização, Carlos Francisco de Paula Nadalim, creditaram os maus resultados brasileiros em indicadores às ideias de Paulo Freire (1921-1997), educador que desenvolveu um método de alfabetização para adultos baseado na vivência do aluno.

Segundo a mais recente Avaliação Nacional da Alfabetização, 54,7% dos estudantes no terceiro ano do ensino fundamental têm desempenho insuficiente em leitura —não conseguem identificar a finalidade de um texto e localizar uma informação explícita.

Em entrevista à Folha, em novembro de 2018, o escritor Olavo de Carvalho, conselheiro do atual governo e professor de Nadalim, afirmou que o “método sócio-construtivista só forma analfabetos”. Segundo ele, era necessário voltar ao sistema fônico, o “beabá, como era nos anos 1960, 1970”.

A metodologia mais comum nas escolas públicas do país é uma mistura de construtivismo com sistemas tradicionais, entre eles o uso de silabários, segundo Claudemir Belintane, professor da Faculdade de Educação da USP.

Em 15 de agosto, o MEC lançou sua nova Política Nacional de Alfabetização. Embora o ministério afirme que “não obriga a escolha prioritária de nenhum método”, educadores ouvidos pela reportagem apontam que há no documento uma preferência pelo modelo fônico.

A didática é aplicada por Nadalim em sua escola privada em Londrina (PR) e faz parte da mesma família do sistema adotado por cartilhas como a “Caminho Suave”, com as quais boa parte dos adultos de hoje foram alfabetizados.

Essas metodologias não são mais usadas em larga escala no Brasil por serem consideradas ultrapassadas pelos educadores. São didáticas que se baseiam na memorização das letras e sílabas. A criança aprende primeiro o que é a letra “b” e a letra “e”, depois que pode juntá-las na sílaba “be” e então formar a palavra “bebê”.

Para Belintane, esse sistema não é indicado porque trata os alunos de forma homogênea, sem respeitar o conhecimento que cada um já carrega.

Para Telma Weisz, coordenadora da pós-graduação em alfabetização do Instituto Vera Cruz, não é com uma nova forma de alfabetizar que o país vai melhorar seus indicadores. “Quem faz a escola é o professor. Os governos que querem que a escola vá bem investem nele.”

O método fônico é bem diferente da teoria construtivista, que se popularizou no país depois dos anos 1980.

Essa linha de pensamento consiste em assumir que a criança cria hipóteses sobre como se escreve antes de começar a alfabetização formal. As escolas usam essas suposições para ensinar. Por exemplo, é comum que a criança associe cada sílaba de uma palavra a uma letra. O professor atua a partir dessa ideia da criança.

A escola Anglo 21, no Alto da Boa Vista (zona sul de São Paulo), é uma das que apostam na teoria construtivista. “Não ensinamos letras e sílabas”, afirma Cíntia Simão, coordenadora de educação infantil do colégio.

Ela explica que há fases em que a criança pode escrever “caza” em vez de “casa”, e não há problema nisso, porque é algo provisório. Exercícios de ortografia são utilizados apenas quando ela já sabe ler e escrever com independência.

“Esperamos formar leitores e escritores melhores, que não conheçam só ortografia, mas que saibam redigir bons textos”, afirma Simão.

A mesma linha é adotada pela Escola Viva, na Vila Olímpia (zona sul da capital).

Daniela Munerato, coordenadora de educação infantil, acredita que esse tipo de trabalho forma alunos para lidar com diferentes tipos de texto, mas exige mais preparo do professor. “É mais fácil ter uma cartilha e mandar todo mundo abrir na mesma lição.”

No colégio Santa Maria, no Jardim Taquaral (zona sul), os professores usam uma mistura de métodos.

Para Sueli Gomes, orientadora pedagógica da escola, a teoria construtivista não funciona com todos.

“Nem toda criança vai aprender sozinha. Se você pede para ela escrever do jeito que ela pensa que é, muitas ficam desamparadas”, afirma.

A escola usa inclusive o sistema fônico, dependendo da necessidade da criança. “É um dos passos da alfabetização, mas o processo vai além disso.”

Com ensino bilíngue, a escola Brasil-Canadá, em Perdizes (zona oeste de São Paulo), aplica um método semelhante ao fônico para alfabetizar em inglês, mas prefere a linha sócio-interacionista para ensinar em português, explica Bruna Elias, diretora pedagógica da instituição.

Essa linha parte de textos para ensinar os sons e as formas das letras e sílabas, mas isso é feito em rodas de conversa e trabalhos em grupo.

Independentemente da metodologia adotada pela escola, os pais podem ajudar na alfabetização apresentando a leitura e a escrita para os filhos.

Na hora de escolher o colégio, Gomes diz que é bom os pais saberem que existem diferentes formas de alfabetizar, mas que “é mais importante descobrir se os professores estão interessados em ensinar o aluno da maneira que ele pode aprender”.

Como atualmente se usam metodologias diferentes daquelas que os pais vivenciaram quando crianças, pode causar estranhamento ver o filho escrevendo com letras trocadas. Ainda assim, não é indicado tentar ensinar a criança por conta própria.

“A primeira coisa que os pais devem fazer é legitimar a escola que eles escolheram”, diz Cíntia Simão, coordenadora de educação infantil do colégio Anglo 21. “Se nós damos espaços para as hipóteses da criança sobre a escrita, os pais têm que suportar isso.”

É melhor prestar atenção se a criança se mostra descontente por estar com o desenvolvimento atrasado em relação aos colegas, o que, segundo Gomes, poderia indicar uma falha na alfabetização.

Para ler na íntegra, acesse (assinantes Folha de S.Paulo e UOL): https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/09/opcao-pelo-tipo-de-alfabetizacao-vai-alem-da-teoria.shtml

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Tem interesse pelo assunto? Conheça alguns livros da Summus que falam sobre o tema:

ALFABETIZAçãO E LETRAMENTO: PONTOS E CONTRAPONTOS
Organizadora: Valéria Amorim Arantes
Autores: Silvia M. Gasparian ColelloSérgio Antônio da Silva Leite

Neste livro, dois especialistas da Unicamp e da USP ampliam a compreensão do ensino da língua escrita. É possível alfabetizar sem retornar à cultura cartilhesca? Qual o papel da afetividade na alfabetização? Como sistematizar o trabalho pedagógico em sala de aula? Que paradigmas devem ser revistos no caso da aprendizagem escrita? Essas e outras perguntas são respondidas e debatidas nesta obra fundamental ao professor.

A ESCOLA QUE (NãO) ENSINA A ESCREVER
Autora: Silvia M. Gasparian Colello


A fim de repensar as concepções acerca da língua, do ensino, da aprendizagem e das práticas pedagógicas, este livro levanta diversos questionamentos sobre a alfabetização como é praticada hoje nas escolas. Depois de analisar diversas falhas didáticas e tendências pedagógicas viciadas, a autora oferece alternativas que subsidiem a construção de uma escola que efetivamente ensine a escrever.

A ESCOLA E A PRODUÇÃO TEXTUAL
Práticas interativas e tecnológicas
Autora: Silvia M. Gasparian Colello

Como as crianças entendem o papel da escola? Como o vínculo que estabelecem com ela afeta a aprendizagem? Por que os alunos têm tanta dificuldade de se alfabetizar? Como compreender o ensino da escrita no mundo tecnológico? Em um momento de tantas inovações, de que forma lidar com os desafios do ensino e renovar as práticas pedagógicas?
Na busca de um projeto educativo compatível com as demandas de nosso tempo e o perfil de nossos alunos, Silvia Colello discute aqui como as condições de trabalho na escola podem interferir na produção textual, favorecendo a aprendizagem da língua. Para tanto, lança mão da escrita como resolução de problemas em práticas tecnológicas e interativas. Conhecer as muitas variáveis desse processo é, indiscutivelmente, um importante aval para a construção de uma escola renovada. Afinal, é possível transformar a leitura e a escrita em uma aventura intelectual?

‘SETEMBRO AMARELO: AÇÕES CHAMAM A ATENÇÃO PARA O TRATAMENTO DA DEPRESSÃO’

Matéria de Flávia Albuquerque, da Agência Brasil, Publicada no UOL VivaBem em 02/09/2019.

Todas as manhãs o girassol parte em busca do sol, seguindo a luminosidade insistentemente, porque precisa dela para crescer e florescer. Mesmo quando o sol está escondido entre as nuvens, a flor gira persistente, apesar da dificuldade, em direção à luz. Em alusão a esse comportamento da natureza, o girassol foi escolhido como símbolo da campanha “Na Direção da Vida – Depressão sem Tabu”, iniciativa do movimento mundial Setembro Amarelo, que tem o objetivo de abrir o diálogo e alertar a sociedade sobre o tema.

A campanha conduzida pela Upjohn, uma das divisões de um laboratório farmacêutico focada em doenças crônicas não transmissíveis, em parceria com a Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) e participação do CVV (Centro de Valorização à Vida), trará ações digitais e de rua para combater os estigmas da depressão. O trabalho tem ainda o apoio de músicos, esportistas e influenciadores digitais que já passaram ou passam pelo problema, dividindo suas experiências.

Os usuários de redes sociais serão convidados a postar o ícone do girassol para mostrar que estão dispostos a falar sobre o assunto #depressaosemtabu. Eles também poderão conhecer o site do projeto, que traz informações sobre o tema e orientações sobre a identificação de comportamentos de risco em pessoas próximas.

“Queremos levar informação às pessoas. Quem visitar o local será convidado a deixar uma mensagem de coragem e apoio aos pacientes. Ao final, essas flores serão recolhidas e doadas para uma organização não governamental, que as transformará em buquês para serem distribuídos a pessoas que estão em tratamento”, explicou a neurologista da Upjohn, Elizabeth Bilevicius.

Depressão e suicídio

Segundo Bilevicius, para tratar a depressão e evitar o suicídio, o primeiro passo é ver a doença como um problema que precisa ser tratado. “Precisamos criar uma atmosfera de confiança para o paciente se sentir à vontade para dizer que tem a doença e legitimar o que ele sente. Essa é uma forma de encorajar a busca por ajuda adequada, criando um ambiente social mais empático e melhor informado para ajudar essa pessoa”, disse.

De acordo com as informações da Upjohn, mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais e transtornos do humor. A depressão é o diagnóstico mais frequente, aparecendo em 36% das vítimas. O aumento dos casos entre os mais novos e com prevalência entre os homens faz da depressão a quarta maior causa de suicídio entre jovens no país. Outras doenças que podem ser tratadas, como o alcoolismo, a esquizofrenia e transtornos de personalidade, também afetam esses pacientes e por isso afirma-se que o suicídio pode ser evitado na maioria das vezes.

De acordo com as informações da Upjohn, mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais e transtornos do humor. A depressão é o diagnóstico mais frequente, aparecendo em 36% das vítimas. O aumento dos casos entre os mais novos e com prevalência entre os homens faz da depressão a quarta maior causa de suicídio entre jovens no país. Outras doenças que podem ser tratadas, como o alcoolismo, a esquizofrenia e transtornos de personalidade, também afetam esses pacientes e por isso afirma-se que o suicídio pode ser evitado na maioria das vezes.

Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) mostram que o Brasil é o país com maior percentual de depressão na América Latina, chegando a 5,8% da população, o que corresponde a 12 milhões de brasileiros. A taxa é maior do que o valor global, que é de 4,4%. Igualmente maior do que em outros países, a taxa de suicídio entre adolescentes de 10 a 19 anos aumentou 24% de 2006 a 2015. A cada 46 minutos alguém tira a própria vida no Brasil.

O psiquiatra Teng Chei Tung, coordenador dos Serviços de Pronto-Socorro e Interconsultas do IPq (Instituto de Psiquiatria) do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e vice-coordenador da Comissão de Emergência Psiquiátrica da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), explicou que a alta incidência entre os jovens está ligada à grande expectativa externa e interna de que eles se comportem como adultos, mesmo sem ter ainda as habilidades de um adulto, e à pressão de que o adolescente seja pleno, potente, competente e reconhecido.

“Então ele faz as coisas, erra e se frustra. Nessas frustrações os jovens podem entrar na depressão. Os preconceitos são os mesmos e são agravados pela desinformação. Para o jovem existe a influência do pensamento de que a saúde mental é só uma questão social, existencial e psicológica”, afirmou.

Teng disse que sentir tristeza é normal e que a frustração sempre traz alguma tristeza passageira, mas é preciso que as pessoas próximas fiquem atentas para perceber quando esse estado já se tornou uma depressão. Segundo ele, a tristeza é algo que gera introspecção, provoca reflexão e crescimento, mas o deprimido fica introspectivo por vários dias e semanas.

“Um dos parâmetros é quando há sofrimento excessivo e quando começa a causar real prejuízo. Afeta as relações interpessoais, produtividade no trabalho, ou sofrimento individual, ou seja, a pessoa está sofrendo mais do que que precisaria naquela situação. Não é que não pode ter tristeza e emoção, mas isso não pode prejudicar a pessoa a ponto de afetá-la fisicamente”, destacou.

Para Teng, a melhor forma de falar sobre a depressão é deixar claro que ela é uma doença que apresenta alterações biológicas e fisiológicas, envolvendo fatores genéticos e estruturais, o que significa que a pessoa nasce com a tendência de desenvolver o quadro depressivo. O tratamento inclui, principalmente, melhorar o estilo de vida. “Quem tem depressão precisa se equilibrar e cuidar da saúde, para não ter de novo a doença”, disse o médico.

Para ler a matéria na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2019/09/02/setembro-amarelo-acoes-chamam-a-atencao-para-o-tratamento-da-depressao.htm

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O psiquiatra Teng Chei Tung é autor da MG Editores. Conheça seu livro:

ENIGMA BIPOLAR
Conseqüências, diagnóstico e tratamento do transtorno bipolar
Autor:  Teng Chei Tung
MG EDITORES

O transtorno bipolar é uma patologia cada vez mais comum – e, infelizmente, ainda mal compreendida. Este livro, escrito por um psiquiatra, esclarece e desmistifica os sintomas da doença, suas fases, os sintomas, as estratégias de tratamento mais modernas e os tipos de medicamento disponíveis. Fala, ainda, da importância do apoio do médico e da família no bem-estar do paciente.

SUICÍDIO: ‘O GRANDE VILÃO DE TODA HISTÓRIA É O SOFRIMENTO’

O Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, foi o tema de ontem no Estúdio CBN. A psicóloga e suicidologista Karina Okajima Fukumitsu, pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP e autora de Sobreviventes enlutados por suicídio e Vida, morte e luto, ambos da Summus Editorial, participou da conversa.

Ouça em http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/273277/suicidio-o-grande-vilao-de-toda-historia-e-o-sofri.htm

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Conheça os livros da psicóloga Karina Fukumitsu, mencionados acima:

SOBREVIVENTES ENLUTADOS POR SUICÍDIO
Cuidados e intervenções

Segundo a Organização das Nações Unidas, a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no planeta. São quase 800 mil casos de morte autoinfligida por ano. Esses dados alarmantes têm chamado a atenção de profissionais de saúde, educadores e responsáveis pela elaboração de políticas públicas. Porém, além de prevenir esse tipo de ocorrência, é preciso cuidar daqueles que enfrentam o suicídio de um ente querido: os sobreviventes.

Maior especialista brasileira no tema, Karina Okajima Fukumitsu reúne neste livro anos de pesquisa e de trabalho de campo com mães, pais, irmãos e amigos de pessoas que se suicidaram, desvendando o processo de choque, dor, agonia e tristeza pelo qual passam. Denominando posvenção o cuidado específico com esse público, a autora aborda os impactos do suicídio, detalha as dificuldades emocionais enfrentadas pelos sobreviventes, aponta caminhos para ressignificar a dor, apresenta propostas de prevenção e propõe políticas públicas para transformar a impotência individual em potência coletiva.

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

Para conhecer todos os livros da autora publicados pela Summus, acesse: https://www.gruposummus.com.br/gruposummus/autor//Karina+Okajima+Fukumitsu

SEU FILHO É O CENTRO DO SEU RELACIONAMENTO? ENTENDA POR QUE ISSO É TÃO RUIM



Matéria de Heloísa Noronha, publicada originalmente 
no Universa│UOL , em 27/08/2019.

Em seu livro “Mulheres Querem Sexo, Homens Sempre têm Dor de cabeça: Destruindo os Mitos Sobre Sexo e Relacionamentos Amorosos” (Ed. Cultrix), o terapeuta de casal alemão Christian Thiel afirma que as relações chamadas de child-centered (em tradução livre, centradas no filho) são um dos principais motivos para o afastamento de vários casais. De tão concentrados no filho, não só na fase de bebê, muitos se transformam em “sócios” na administração da casa e da vida em família e acabam se distanciando emocional e sexualmente. Nem sempre o desfecho é a separação: em alguns casos, a situação fica no piloto automático e as pessoas passam anos a fio convivendo nessas circunstâncias cômodas, mas infelizes. A boa notícia é que dá, sim, para reverter essa condição, mas primeiro é preciso compreender como os dois chegaram a esse ponto.

Ter um filho é, obviamente, uma experiência transformadora. E é lógico que nos primeiros meses pós-nascimento, por causa da nova rotina e dos cuidados essenciais, como a amamentação, a atenção dos pais fique 100% voltada ao bebê. Depois de um tempo é natural que o casal volte a se concentrar também na relação, mas isso depende de vários fatores que vão desde a possibilidade de contar com uma rede de apoio até o fato de o modelo familiar ser mais ou menos ansioso.

Na opinião da terapeuta de relacionamentos Rosangela Matos, que atua com atendimento online, após os primeiros seis meses de vida da criança os pais podem começar a dar pequenas “fugidinhas” para namorar. “Os familiares são importantes para dar um suporte. Aceitar ajuda é bom para todos: para o casal, que precisa fortalecer o vínculo homem-mulher; para a família, que se sente fazendo parte desse momento tão especial, e para o filho, que vai ter pais felizes ao seu lado”, comenta. “Porém, é importante que, antes disso, o casal separe alguns minutos para estar junto para falar do seu dia, trocar um abraço, um chamego e um sentir que o outro está ali”, completa Rosangela.

Já Triana Portal, psicóloga clínica e terapeuta de casal, de São Paulo (SP), observa que o casal consegue voltar ao “normal” por volta dos 3 anos de idade do filho, idade na qual já houve o desfralde, os pais não sofrem tanto com a privação de sono e a criança apresenta uma certa autonomia. “É uma fase em que o par realmente consegue ter mais intimidade e liberdade para passear e fazer pequenas viagens. Isso pode variar muito dependendo das características de cada família, mas os três primeiros anos costumam ser os mais desafiadores para qualquer casal. É, inclusive, uma fase em são registrados muitos divórcios”, fala.

Para Rosangela, um filho pode tanto unir quanto afastar um casal e um fator é determinante para isso: o alinhamento. “Muitos pais, especialmente os de primeira viagem, se preparam para a chegada do pequeno, assistem a filmes e documentários, fazem cursos, compram livros… Poucos, no entanto, procuram ajuda para se prepararem emocionalmente para a mudança na relação amorosa. O foco passa a ser o pequeno, os assuntos mudam. Dormir até tarde no fim de semana, passar uma tarde vendo filme agarradinho no sofá ou sair para se divertir nem sempre são possíveis. As mudanças são muitas e pegam o mais unido dos casais”, afirma.

Problema também para a criança

À medida que a criança cresce, o excesso de trabalho, o cansaço e a culpa por não dar tudo o que o filho precisa – principalmente tempo – acaba levando o casal a concentrar todas as suas energias na criança e a se descuidar dos papéis de homem e mulher. Com filhos, praticamente qualquer decisão deve levá-los em conta: do cardápio do jantar até a forma de gastar o dinheiro e o que a família vai fazer no fim de semana. No entanto, alguns pais e mães acabam superestimando essas resoluções, atribuindo poder à criança e desequilibrando a relação. “É o que chamo de ‘filiarcado’, ou seja, permitir que a criança decida tudo”, diz Elizabeth Monteiro, psicóloga e psicopedagoga, autora dos livros “Criando Filhos em Tempos Difíceis” e “Criando Adolescentes em Tempos Difíceis” (Summus Editorial).

Para Elizabeth, às vezes as pessoas simplesmente se entregam ao tipo de relação child-centered por puro desânimo. “Está todo mundo cansado demais. É mais fácil abrir mão de autoridade e, por comodismo, deixar a situação como está. Porém, essa não é a solução ideal para ninguém”, afirma. Um dos riscos é a criança se transformar num adulto mimado, já que sempre teve suas vontades atendidas. Vai comer o pão que o diabo amassou, claro, porque dificilmente alguém vai atender suas demandas como papai e mamãe faziam. Para o casal, uma das consequências é, quando o filho crescer e for embora de casa, enfrentar a chamada “síndrome do ninho vazio”. Como o filho possivelmente era o único elo forte que os unia, o que restará? Isso sem contar que, após tantos anos de afastamento, é possível que um sequer reconheça o outro como pessoa.

Segundo a psicóloga Renata de Azevedo, especialista em terapia de casal pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), alguns casais já estavam afastados antes mesmo de terem filhos. “Alguns, inclusive, acreditavam que o bebê salvaria a relação. Com o nascimento, os casais que estavam mal ficam pior ainda, pois o afastamento, o stress e alguns atritos são comuns nessa fase de adaptação. Outros casais colocam todo o seu afeto e a carência em cima do filho e não sobra tempo, espaço e energia para mais ninguém, inclusive o seu cônjuge. Dessa forma, a distância aumenta e passam a ser apenas pais”, observa. O filho passa a ser o centro e o único elo entre o casal durante anos.

Separar os papéis é fundamental

Um filho toma toma tempo, espaço, energia, pesa no orçamento, limita a intimidade. Resgatar ou manter a mesma relação de amor anterior à sua chegada é bem difícil. Com alguns ajustes no dia a dia e na forma de configurar as tarefas domésticas e as atividades em família, dá para o casal encontrar um equilíbrio saudável para lidar com tudo. “É possível reverter, mas a mudança precisa fazer sentido. Ambos devem estar cientes que a reversão de um padrão de comportamento ou rotina é um processo, leva tempo e exige paciência para adaptação do novo formato”, avisa Triana.

Uma conversa franca sobre o que mudou para cada um depois da chegada do filho, o que mais faz falta e o que pode ser feito diferente é o primeiro e mais importante passo, segundo Rosangela. Se o casal está vivendo essa situação é importante sentar e conversar sobre isso para que possam ir mudando seus comportamentos aos poucos.

Uma criança precisa que suas necessidades emocionais e físicas sejam supridas, mas também necessita que os pais estimulem sua segurança e autonomia. “Grande parte dos problemas da vida adulta são resultado da primeira infância, na melhor das intenções os pais vão se anulando e não percebem o quanto isso impacta nos filhos. Os pequenos devem ter limites e também aprender a conviver com a família e outras pessoas além dos pais. E precisam saber que os pais são um casal e que eles priorizam também essa relação”, diz a terapeuta.

Para Triana, os casais child-centered precisam se conscientizar de várias verdades. A primeira é que construir um “reinado” para o filho não é a melhor forma de educar. “E, em seguida, devem entender que se não estiverem inteiros nem felizes não conseguirão cuidar bem do filho. A relação conjugal precisa de constante manutenção, algo que dá trabalho e demanda atenção. Valorizar a intimidade, o sexo e os momentos de lazer sem os filhos, não os torna pais negligentes ou maus”, declara. Para isso, também é fundamental que cada um cuide bem de sua autoestima, assim ficam menos inseguros, têm mais clareza de pensamento e objetivos e levam a vida de forma mais assertiva.

“As pessoas também precisam compreender que têm o direito de ser homem e mulher, não precisam ser apenas pai e mãe pelo resto da vida. Dá para vivenciar todos os papéis sem negligenciar nenhum. Além disso, os filhos gostam de saber que os pais namoram, se curtem, saem, apreciam ficar juntos. Isso é benéfico para o desenvolvimento da criança, que cresce aprendendo um modelo saudável de relacionamento”, pontua a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casal pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Para ler na íntegra o texto publicado no UOL Universa, acesse: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/08/27/relacionamento-child-centered-voce-esta-vivendo-um.htm

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Conheça abaixo alguns livros das autoras Elizabeth Monteiro e Marina Vasconcellos. Outros podem ser encontrados no site do Grupo Editorial Summus.

CRIANDO FILHOS EM TEMPOS DIFÍCEIS
Atitudes e brincadeiras para uma infância feliz
Autora: Elizabeth Monteiro
SUMMUS EDITORIAL

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.

 

CRIANDO ADOLESCENTES EM TEMPOS DIFÍCEIS
Autora: Elizabeth Monteiro
SUMMUS EDITORIAL

O amor parental não é estático: ele muda com o tempo e com os filhos. Por isso, os pais precisam atualizar seu modo de sentir e amar. Com uma linguagem direta e delicada, Elizabeth Monteiro fala sobre a necessidade de proteger os adolescentes de ameaças como as drogas e, ao mesmo tempo, de incentivar a autonomia deles. Sem fórmulas mágicas, a autora estabelece com pais e educadores um diálogo amplo e profícuo.

QUANDO A PSICOTERAPIA TRAVA
Como superar dificuldades
Organizadora: Marina da Costa Manso Vasconcellos
SUMMUS EDITORIAL

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.



‘TDAH: TRANSTORNO APARECE NA INFÂNCIA E ACOMPANHA A PESSOA POR TODA A VIDA’

Matéria de Luíza Tiné, publicada originalmente
no Blog da Saúde│UOL VivaBem, em 14/08/2019.


Nem sempre os pais levam a sério quando escutam que o filho não se concentra na sala de aula. Mas você sabia que isso pode ser TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade)? Esse transtorno é neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a vida e se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade.

Segundo a ABDA (Associação Brasileira de Déficit de Atenção), o distúrbio afeta de 3% a 5% das crianças em idade escolar e sua prevalência é maior entre os meninos. Uma das características mais fortes da síndrome é a dificuldade para manter o foco nas atividades e a agitação motora, o que podem prejudicar o aproveitamento escolar.

Na prática, isso significa “questões relacionadas à leitura e escrita, queixas escolares, dificuldades no reconhecimento de algumas palavras, em alguns casos, atraso de fala na compreensão e na decodificação das palavras. O desempenho acadêmico, por exemplo, não é equivalente a uma criança de sua idade e isso implica no seu desenvolvimento”, explica a fonoaudióloga Luiza Aline Monteiro, da Meic (Maternidade Escola Januário Cicco), vinculada à UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e à Rede Ebserh. “Dependendo do apoio que a criança ou adolescente recebe, eles terão mais, ou menos, problemas”, completa.

Se o TDAH for entendido como um transtorno do neurodesenvolvimento, é possível compreender que existem diferenças entre o cérebro de uma criança com TDAH e outra que não tem. “A incapacidade de resposta ao estímulo tem uma relação com circuitos neuronais, que é associado com o córtex pré-frontal, ou seja, muitas vezes a pessoa pode ter o quadro comportamental nítido, mas tem também esse impacto neurológico nesse transtorno”, afirma Rachel Schlindwein-Zanini, neuropsicóloga do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina e vinculado à Rede Ebserh.

O córtex pré-frontal localizado em nosso cérebro tem maior impacto em crianças com TDAH. Essa é uma parte importante, que tem a função de autorregulação comportamental. É por meio dele que se desenvolve a concentração, controle de impulsos, memória operacional, planejamento, flexibilidade cognitiva, autorregularão emocional, tomada de decisão e conscientização. “Uma parte normal importante para o crescimento”, complementa a neuropsicóloga.

Para Monteiro, compreender o desenvolvimento do córtex pré-frontal contribui para o progresso das funções. A criança e o adolescente com esse distúrbio têm dificuldade de compreender as coisas, por isso, é preciso reforços de profissionais. “Quando a gente faz uma leitura, automaticamente a gente faz construção de imagem. Já a criança com TDHA tem essa dificuldade, por conta disso, uma consequência óbvia é que ela terá comprometimento de leitura e escrita” explica.

Diagnóstico

A neuropsicóloga conta que muitas pessoas não se atentam ao diagnóstico de TDHA por falta de informação. “De modo geral, o diagnóstico é multidisciplinar, a criança deve ser atendida por um neuropsicólogo, neurologista, psiquiatra ou psicólogo clínico, fonoaudiólogo e pode também ter uma colaboração outros profissionais”, explica.

Para efeito de diagnóstico, é preciso observar os sintomas que se manifestam ainda na infância, antes dos sete anos e em pelo menos em dois ambientes diferentes (casa, escola, lazer), durante, no mínimo, seis meses. Normalmente o problema fica claro nos primeiros anos de escola, apesar de estar presente desde o nascimento.

Tratamento

A intervenção nesses casos prevê uma atuação que envolva familiares, escola e criança. A multidisciplinariedade é prevista em casos de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, com o envolvimento de profissionais como psicólogo, médico, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional. Quando orientado, o tratamento deve ser medicamentoso, além de contar com a equipe da USF (Unidade de Saúde da Família), que poderá garantir melhores progressos no tratamento do paciente.

Schlindwein-Zanini explica que, quando se tem um atendimento multidisciplinar, os resultados surgem rapidamente. “Quando esse trabalho é feito, a comunicação melhora, a criança amplia seu vocabulário, suas possibilidades, além disso, melhora a organização de pensamento e da compreensão do transtorno”, conta.

Outro destaque é para a realização das atividades que devem ser feitas em um período curto. “É preciso promover jogos e atividades lúdicas, com atividades que gerem prazer para criança e não podem ser muito longas, justamente pela dificuldade de atenção à criança. Ela precisa compreender o seu transtorno”, reforça a especialista. Segundo ela, as essas atividades curtas ajudam as crianças a se organizar no tempo dela. “A organização também precisa ser trabalhada e as crianças respondem muito bem a isso com estímulo, é importante elogiar e mostrar que elas estão evoluindo”, finaliza.

Para ler na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2019/08/14/tdah-transtorno-aparece-na-infancia-e-acompanha-a-pessoa-por-toda-a-vida.htm

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Tem interesse pelo assunto? Conheça:

TDAH E MEDICALIZAÇÃO
Implicações neurolinguísticas e educacionais do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade
Autoras: Rita SignorAna Paula Santana
PLEXUS EDITORA


Esta obra representa uma significativa contribuição a um debate que tem mobilizado pais, educadores, estudantes e profissionais de saúde: o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e a medicalização da educação. Medicalizar significa transformar aspectos de ordem social, pedagógica, cultural e afetiva em doença (transtorno, distúrbio). Partindo dessa realidade inquietante, Rita Signor e Ana Paula Santana mostram os problemas de deixar de lado o contexto social e a história de cada criança ao avaliá-la, apontando o papel da formação dos profissionais (de educação e saúde) na produção do chamado TDAH. Seguindo esse entendimento, as autoras questionam a qualidade do ensino no Brasil, o excesso de diagnósticos voltados ao campo educacional, os testes padronizados da área da saúde, o crescente consumo de medicamentos e as políticas públicas, entre outros fatores que legitimam o fenômeno da medicalização. Amparadas na perspectiva sócio-histórica, refletem sobre essas e outras questões neste livro corajoso e pioneiro, que conta também com dois estudos de caso que comprovam que a afetividade do educador e o trabalho interdisciplinar na escola podem mudar o futuro de muitos adolescentes e crianças.

‘A CIÊNCIA POR TRÁS DA TIMIDEZ’

Texto de Sarah Keating, da BBC, publicado no UOL em 13/08/2019.

A ideia de se enturmar em uma festa te tira a vontade de sair de casa? Ou só de pensar em fazer uma apresentação para uma sala cheia de pessoas te faz ficar angustiado dias antes deste evento de fato acontecer?

Se sim, então você não está sozinho.

Akindele Michael era um garoto tímido. Crescendo na Nigéria, ele passou muito tempo no interior da casa de seus pais. Estes, aliás, não são tímidos. Michael acredita que sua criação dentro de casa explica sua timidez. Ele está certo?

Está em parte, responde Thalia Eley, professora de genética do desenvolvimento e do comportamento no King’s College London.

“Pensamos na timidez como um traço de temperamento, e temperamento é uma espécie de precursor da personalidade”, explica. “Quando crianças muito pequenas começam a se envolver com outras pessoas, você percebe uma variação no conforto que sentem ao falar com um adulto desconhecido.”

Eley diz que apenas cerca de 30% da timidez como característica se deve à genética; o resto vem como uma resposta ao entorno.

A maior parte do que sabemos sobre a genética da timidez vem de estudos que compararam esta característica em gêmeos idênticos – cópias genéticas perfeitas um do outro – com gêmeos não-idênticos – que compartilham apenas metade dos mesmos genes.

Na última década, cientistas como Eley começaram a examinar o DNA em si para tentar encontrar variantes genéticas que possam afetar a personalidade e a saúde mental.

Cada variante genética individual tem um efeito minúsculo, mas quando você considera as milhares de combinações possíveis, o impacto começa a ser mais perceptível. Mesmo assim, a influência dos genes na timidez não pode ser tomada isoladamente.

“Não haverá um, dez ou cem genes envolvidos. Haverá milhares”, diz Eley. “Então, se você pensar em todo o genoma de ambos os pais [de uma criança], existem centenas de milhares de variantes genéticas relevantes”.

Assim, o ambiente é quase mais importante para desenvolver esses tipos de características, ela diz. E uma das coisas interessantes sobre genética é que isso nos leva a nos conectar com aspectos do ambiente que correspondem às nossas predisposições reais.

Por exemplo, uma criança tímida pode ser mais propensa a se isolar em um playground e assistir aos outros em vez de se envolver. Isso faz com que crianças assim se sintam mais confortáveis ??estando sozinhas, porque isso se torna sua experiência recorrente.

“Não é que seja um ou outro: são ambos [genética e ambiente] trabalhando juntos “, diz a pesquisadora. “É um sistema dinâmico. E por causa disso, é sempre possível mudá-lo através de terapias psicológicas.”

A timidez é necessariamente uma coisa ruim?

Chloe Foster, psicóloga clínica do Centro de Transtornos de Ansiedade e Trauma em Londres, diz que a timidez em si é bastante comum, normal e não causa problemas – a menos que se transforme em uma ansiedade social maior.

Foster diz que as pessoas que trata buscam ajuda quando “estão começando a evitar coisas que precisam fazer”, como falar com outras no trabalho, socializar ou estar em uma situação em que acham que serão julgadas.

Eley acredita que pode haver razões evolucionárias para as pessoas desenvolverem traços de personalidade tímidos.

“Era útil ter pessoas do grupo lá fora, explorando e participando de novas comunidades; mas também era útil ter pessoas mais avessas ao risco, conscientes das ameaças. Estas faziam um trabalho melhor protegendo os filhotes jovens, por exemplo”, diz Eley.

A pesquisadora avalia que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a mais eficaz para pessoas com timidez e ansiedade social. Essa terapia, baseada em evidências, funciona tentando mudar padrões de pensamento e comportamento.

A TCC ajuda, por exemplo, a identificar pensamentos negativos ou comportamentos que acreditamos nos ajudar, mas na verdade podem estar gerando mais ansiedade social – como ensaiar com antecedência uma fala ou evitar o contato visual.

Às vezes, o problema é que pessoas tímidas que sofrem com situações como falar em público muitas vezes estabelecem padrões muito elevados para como essas situações devem se desenrolar, explica Foster.

“Elas podem achar que não podem tropeçar nas palavras… ou que têm que ser tão interessantes que todos devem ficar totalmente fascinados no que estão dizendo o tempo todo.”

Se estas pessoas forem capazes de aliviar um pouco da pressão sobre si mesmos, de fazer curtas pausas para respirar, a ansiedade pode ser um pouco aliviada.

Outra coisa que pode ajudar é se concentrar externamente no que está acontecendo ao redor, em vez de internamente em como a ansiedade está fazendo você se sentir fisicamente. Concentrar-se no público, em vez de em si mesmo, pode contribuir.

Desafiar-se a estar mais aberto a novas situações também pode ajudar: “Quanto mais você puder se envolver em situações sociais, mais confiante ficará. Mas lembre-se de abordar estas situações sociais de uma maneira nova também”.

Ou seja: é importante mudar o script (roteiro). Pergunte a si mesmo o que mais teme sobre situações sociais. Você está preocupado em parecer chato? Ou ficar sem coisas para dizer? Quanto mais você conhecer sua ansiedade, mais poderá começar a desafiá-la.

Qual é a diferença entre timidez e introversão?

Jessie Sun, doutoranda na Universidade da Califórnia em Davis que pesquisa a psicologia por trás da personalidade, destaca que a timidez e a introversão não são a mesma coisa.

Enquanto para muitas pessoas a introversão tem a ver com o interesse em explorar pensamentos, para os psicólogos ela faz parte de uma dimensão diferente da personalidade: a abertura a experiências.

Pessoas tímidas são comumente introvertidas, mas elas também podem ser extrovertidos cuja ansiedade atrapalhou a sociabilidade. E os introvertidos não-tímidos podem ser socialmente hábeis, mas que preferem a própria companhia.

Sun diz que “a personalidade é consistentemente um dos mais fortes indicadores da felicidade, e a extroversão tem associações especialmente consistentes com o bem-estar”.

“As pessoas que são extrovertidas tendem a experimentar mais sentimentos de entusiasmo e alegria, enquanto as introvertidas tendem a sentir essas coisas com menos frequência”, explica.

Mas os introvertidos poderiam absorver um pouco dessa alegria e entusiasmo simplesmente agindo de forma extrovertida?

Sun e seus colegas fizeram um experimento. Eles pediram para as pessoas agirem com extroversão por uma semana inteira – um tempo demorado para quem é tímido.

“Pedimos a elas que agissem de forma ousada, falante, ativa e assertiva o máximo possível”, lembra.

A equipe descobriu que, para pessoas normalmente extrovertidas, agir consistentemente desse jeito ao longo de uma semana significou que elas experimentaram mais emoções positivas e se sentiram mais “autênticas”.

Mas as mais introvertidas não experimentaram essa “injeção” de emoções positivas. Aquelas extremamente introvertidas chegaram a se sentir cansadas e experimentaram mais emoções negativas.

“Eu acho que a principal lição é: provavelmente é demais pedir a pessoas introvertidas ou muito tímidas que ajam de forma extrovertida por uma semana inteira. Mas elas podem considerar ‘atuar’ extrovertidamente em algumas poucas ocasiões”, diz Sun.

E a cultura?

Vimos como o ambiente desempenha um papel importante no fato de sermos tímidos ou não. Mas a cultura também pode influenciar?

Diz-se que os Estados Unidos valorizam o comportamento confiante e extrovertido em detrimento da introversão, enquanto estudos descobriram que em partes da Ásia, como no Japão e na China, é mais desejável ser quieto e reservado.

Atitudes em relação ao contato visual também variam enormemente de país para país.

Kris Rugsaken, professor aposentado de estudos asiáticos na Ball State University, diz que “enquanto um bom contato visual é esperado e valorizado no Ocidente, é visto como sinal de desrespeito e desafio em outras culturas, incluindo asiáticas e africanas”.

“Quanto menos contato visual esses grupos tiverem com um indivíduo, mais respeito eles demonstram.”

Apesar dessas diferenças culturais, Sun diz que a pesquisa parece mostrar que os extrovertidos tendem a ser mais felizes mesmo nos países onde a introversão é mais respeitada, mas o grau de felicidade é menos acentuado nesses lugares.

Assim, embora a pesquisa sugira que os extrovertidos acabam sendo mais felizes onde quer que estejam no mundo, ser introvertido não é necessariamente negativo – assim como ser extrovertido nem sempre é positivo.

“Não pense na introversão como algo a ser curado”, escreve Susan Cain em seu livro O poder dos quietos. “Há uma correlação zero entre ser o mais falante e ter as melhores ideias”.

Este artigo foi adaptado de “Why am I shy?”, um episódio do programa radiofônico CrowdScience, do serviço mundial da BBC, apresentado por Datshiane Navanayagam e produzido por Cathy Edwards. Para ouvir mais episódios do CrowdScience (em inglês), clique aqui.

Para ler na íntegra o texto publicado no UOL, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/bbc/2019/08/13/a-ciencia-por-tras-da-timidez.htm

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Tem interesse no tema “timidez”? Conheça:

MORRENDO DE VERGONHA
Um guia para tímidos e ansiosos
Autores: Teresa Flynn, Cheryl N. Carmin, C. Alec Pollard, Barbara G. Markway
SUMMUS EDITORIAL

Pessoas que sofrem de fobia ou ansiedade em situações sociais não conseguem comer diante de outras pessoas, não utilizam banheiro público, fracassam em tentar expressar opiniões, apavoram-se diante de testes ou exames etc. Neste livro um grupo de psicólogos estuda o problema e apresenta um programa para vencê-lo. Analisando situações específicas, oferecem meios de auto-avaliação e recursos para dominar as fobias sociais.

TIMIDEZ
Esclarecendo suas dúvidas
Autores: Lynne Crawford, Linda Taylor
EDITORA ÁGORA

A timidez excessiva interfere na vida profissional, social e emocional das pessoas. Este livro mostra como identificar o problema e como quebrar os padrões de comportamento autodestrutivos da timidez. Apresenta conselhos e técnicas simples e poderosas para enfrentar as mais diversas situações.