‘MACHISMO É DOENÇA, DIZ ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSICOLOGIA’

O assunto foi um dos temas de ontem do Em Pauta, da GloboNews. Assista em http://g1.globo.com/globo-news/globo-news-em-pauta/videos/t/todos-os-videos/v/machismo-e-doenca-diz-associacao-americana-de-psicologia/7299352/

Conheça o livro da psicanalista Malvina Muszkat, mencionado no programa:


O HOMEM SUBJUGADO

O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo
Autora: Malvina E. Muszkat
SUMMUS EDITORIAL

Neste livro, a autora Malvina Muszkat, propõe que se repense o fenômeno da violência sob a perspectiva da subjetividade masculina na dinâmica dos relacionamentos, de forma a buscar maneiras mais eficientes de se promover o dialogo e evitar o confronto. Transitando por áreas como antropologia, sociologia, mitologia e psicanálise, Malvina mostra como a imagem da masculinidade foi construída ao longo dos séculos e de que forma os homens foram proibidos de demonstrar seus medos e fraquezas.

‘LUTO: PRESSÃO PARA BUSCAR A FELICIDADE ATRAPALHA A SUPERAÇÃO DE UMA MORTE’

Matéria de Simone Cunha e Veridiana Mercatelli, publicada no Universa,
do UOL, em 02/12/2018.

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“Após o enterro do meu pai, senti uma dor inexplicável, chorei por semanas. Ele era tudo para mim”, conta Priscila Janaína Pereira, 40 anos, auxiliar administrativo, que perdeu o pai em decorrência de um câncer, há 11 anos. Ela conta que, durante esse período, teve muitos momentos de revolta, pois o pai era seu alicerce. Mas precisou amadurecer na marra: “Tive uma gestação de risco, meu filho nasceu com insuficiência respiratória, sopro e hipoglicemia. Tive hemorragia e depois depressão pós-parto. Há três anos, passei por um outro problema e fui percebendo que uma dor supera a outra. Não esqueci o meu pai, mas saí do luto”.

De acordo com a psicóloga Sarah Vieira Carneiro, que estuda o luto há mais de dez anos, a dificuldade em lidar com a perda está ligada à rejeição a situações adversas. A ideia de que é preciso buscar a felicidade o tempo todo, tão comum na cultura ocidental, contribui para isso. “O enlutado é aquele a quem devemos evitar, não só porque não sabemos o que dizer a ele, mas porque ele nos remete às nossas mais profundas fragilidades”, avalia a especialista. Segundo Sarah, vivemos em uma sociedade incapaz de digerir pequenas frustrações: “É por isso que ficamos pasmados diante da morte e do luto e realizamos todas as manobras para mantê-los à distância”.

Há várias formas de vivenciar

Apesar de ser doloroso, é importante lembrar que o luto não é um obstáculo a ser superado. Para Maria Helena Pereira Franco, coordenadora do Laboratório de Luto (LELu) da PUC-SP, essa é uma vivência muito importante. “O luto precisa ser vivido, é uma experiência dolorosa, mas que possibilita uma construção de identidade e de significados importante”, explica.

A intensidade do sofrimento que a situação provoca depende de vários fatores, como a qualidade da relação mantida com a pessoa que se foi. “Além da dor, da falta, pode haver outras questões que não ficaram bem resolvidas, como arrependimentos”, comenta.

Um ponto bastante relevante é a condição em que se deu a separação: se houve uma morte violenta ou súbita, por exemplo, a superação pode ser mais difícil.

Para Andréa Copcinksi, 46 anos, chef confeiteira, a morte repentina do pai, há 21 anos, foi um trauma terrível. “Se não fosse minha mãe, acho que estaríamos perdidos. Ela juntou nosso medo de viver sem meu pai e transformou em força”, conta. Na época, Andréa não pensou em buscar ajuda para superar a perda, mas acredita que o processo poderia ter sido menos doloroso se houvesse agido de forma diferente: “Creio que um profissional teria nos auxiliado a viver os anos seguintes com menos ansiedade. Mas descobri que a gente aprende a conviver com a saudade, com a ausência, mas guarda no coração esse monte de amor que não pode mais dar”.

É preciso cuidado para não adoecer

Um luto que ocasiona muito sofrimento ou se prolonga pode levar à depressão em pessoas com predisposição à doença. A literatura acerca do tema sugere que o luto pode durar até dois anos. Porém, Sarah defende que, em um mundo com experiências tão diversas, pode ser um desrespeito ao enlutado impor-lhe um prazo para voltar a sorrir: “Não podemos acreditar que pessoas reajam às perdas de modo universal. Cada perda é única, com características e tempo próprios”.

De qualquer forma, quando o luto se torna um peso, impedindo que aquele que fica retome a própria vida, é essencial buscar ajuda. “Em princípio, a pessoa deveria ser avaliada por quem entende de luto. Algumas manifestações do luto são semelhantes às da depressão e o diagnóstico pode ser equivocado. Nem sempre o luto precisa ser medicado. Precisa ser entendido, avaliado, para se pensar a melhor conduta”, alerta a especialista da PUC.

Sandra Paton, 48, secretária executiva, perdeu o marido subitamente, com um infarto fulminante, há dois anos. “Tudo ficou escuro, perdeu o brilho e o sabor. Fiquei alguns dias em estado de choque. Muitos amigos por perto, mas não via nem ouvia direito”, fala. Reviver o assunto ainda causa muita dor, mas, para enfrentar a perda, ela decidiu buscar ajuda em um grupo religioso: “Encontrei a paz e o entendimento da morte. Percebi que estava superando o luto quando consegui contar a minha história sem chorar”.

Segundo a psicóloga, cercar-se de pessoas que entendem seu sentimento e respeitem o seu tempo e as suas reações é essencial. Poder falar é importante para transgredir a perda: “Quando a morte vem, desestabiliza tudo: não sabemos mais em quem acreditar, questionamos nossas relações, nossa fé, nossas crenças”. Ela diz que, nesse processo de ver tudo de ponta cabeça, podemos descobrir coisas únicas sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre nós mesmos. “O crescimento não é uma regra, mas existe uma certa sabedoria no luto, aquele conhecimento que só tem quem colocou tudo em xeque, passou tudo a limpo e pode escolher ser diferente”, avalia Sarah.

Processo de aceitação também é singular

Falar sobre o luto com um pouco mais de naturalidade pode auxiliar no processo de aceitação. “Há coisas que não podemos controlar, estão fora da nossa linha de ação: a morte é a maior delas”, diz Sarah. Por isso, a ausência de sofrimento não significa falta de sentimento pela perda. “Perdi meu irmão em um assalto, com um tiro na cabeça. Não chorei, fiquei meio em choque. Sou de Manaus, mas estou em São Paulo há 15 anos e sempre imaginei que teria de fazer uma viagem para enterrar alguém, porém, jamais imaginei que pudesse ser meu irmão”, fala Adriana Chaves, 40 anos, editora de livros.

Ao retornar, ela mergulhou no trabalho. Como não convivia com o irmão há algum tempo, a ficha demorou a cair. Em São Paulo, a vida continuava na mesma rotina. “Certo dia, ouvi uma música que me lembrava muito ele, e me atentei que já fazia um ano que meu irmão havia partido. Fui para o banheiro e chorei sem parar. No dia seguinte, fiquei bem e acredito que foi o fim do meu luto”.

Maurício Serafim explica que o luto só termina, de fato, quando se aceita a perda. “No momento em que você volta a se amar, a cuidar de si, volta a viver”, garante. O cuidado com as outras pessoas que ficaram também é um sinal de superação. Mãe de gêmeas, a jornalista Marley Galvão, 47 anos, perdeu uma das filhas em 2011. “A Letícia apresentou uma grave infecção e não resistiu. A Isabela perdeu 80% do encéfalo e, hoje, faço de tudo para mantê-la bem. Creio que nunca me dei o direito ao luto pelo fato de a minha outra filha ter ficado com muitas sequelas. Tenho que seguir em frente, pois não consigo pensar em perdê-la também”, afirma.

Para ler na íntegra, acesse: https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/12/02/luto-e-processo-doloroso-mas-tambem-transformador.htm

 

Conheça os livros publicados pela Summus que têm a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, uma das fontes da matéria, entre os autores:

 

FORMAÇÃO E ROMPIMENTO DE VÍNCULOS
O dilema das perdas na atualidade
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Maria Cristina Lopes de Almeida AmazonasAirle Miranda de SouzaDanielle do Socorro Castro MouraDurval Luiz de FariaElizabeth QueirozGabriela GolinGeórgia Sibele Nogueira da SilvaJanari da Silva PedrosoJosé Ricardo de Carvalho Mesquita AyresMaíra R. de Oliveira NegromonteVera Regina R. RamiresMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Lucia C. de Mello e SilvaMaria Thereza de Alencar LimaRoberta Albuquerque FerreiraRosane Mantilla de SouzaSilvia Pereira da Cruz BenettiSoraia SchwanTereza Cristina C. Ferreira de Araújo

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.

A INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA EM EMERGÊNCIAS
Fundamentos para a prática
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Cristina Foloni Delduque da CostaKarina Kunieda PolidoJulia Schmidt MasoJosé Paulo da FonsecaIsabela Garcia Rosa HispagnolIara Boccato AlvesGabriela CasellatoEster Passos AffiniEleonora JaburLilian Godau dos Anjos Pereira BiasotoCristiane Corsini PrizanteliClaudia Gregio CukiermanCibele Martins de Oliveira MarrasAriana OliveiraAna Lucia ToledoAdriana Silveira CogoAdriana Vilela Leite CésarViviane Cristina TorlaiLuciana MazorraLuiz Antonio ManzochiMarcelo M. S. GianiniMaria Angélica Ferreira DiasMaria Helena Pereira FrancoMaria Inês Fernandez RodriguezMariangela de AlmeidaPriscila Diodato TorolhoRachel Roso RighiniReginandréa Gomes VicenteRégis Siqueira RamosSamara KlugSandra Regina Borges dos SantosSandra Rodrigues de OliveiraSuzana Padovan

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.

O RESGATE DA EMPATIA
Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Valéria TinocoSandra Rodrigues de OliveiraRosane Mantilla de SouzaRegina Szylit BoussoPlínio de Almeida Maciel JrMaria Helena Pereira FrancoGabriela CasellatoDéria de OliveiraDaniela Reis e SilvaCristiane Ferraz PradeAna Cristina Costa Figueiredo

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como aborto espontâneo, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.


VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Leo PessiniAna Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresKarina Okajima FukumitsuTeresa Vera GouveaMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja Heishin Nely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da Luz

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘APÓS EXPERIÊNCIAS FAMILIARES, PSICÓLOGA VIRA ‘SUICIDOLOGISTA’ PARA PREVENIR CASOS’

…………………………………..Matéria de Marcella Franco, publicada na Folha de S. Paulo (versão online em 29/09/2018 e versão impressa em 30/09/2018)

Karina Fukumitsu, 47, atende familiares e alunos de escolas onde ocorreram suicídios

A primeira providência que Karina Fukumitsu, 47, toma antes de começar um atendimento é tirar os sapatos. Seja em consultas particulares ou em palestras, a psicóloga está sempre descalça e trajando roupas claras, como uma maneira, ela explica, de celebrar sua conexão com a vida. Fukumitsu é especialista em suicídios, e, atualmente, presta serviço a cinco colégios paulistanos com programas de prevenção e posvenção, em uma espécie de gestão de crise após a morte de um aluno.

Sua relação com o tema vai além da teoria. Quando criança, presenciou diversas tentativas de suicídio da mãe, a quem acudia com visitas desesperadas ao pronto-socorro. Nelas, chegou a ouvir médicos plantonistas sugerirem que a família colocasse mais afinco nas investidas, para que finalmente alguma resultasse exitosa.

Da constatação de que era preciso que a sociedade conversasse melhor sobre o tema, Fukumitsu tornou-se “suicidologista”. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP), ela coordena o Programa R.A.I.S.E (Ressignificações e Acolhimento Integrativo do Sofrimento Existencial), no qual dedica-se a amparar parentes e amigos de pessoas que tiraram a própria vida. Ela conversou com a Folha em seu consultório, em São Paulo.

Por que as pessoas se interessam muito mais em esmiuçar detalhes de um suicídio do que, por exemplo, de um homicídio? De onde vem essa curiosidade?

Entre homicídio e suicídio há uma grande diferença. No homicídio, é o outro que agride e aniquila, enquanto no suicídio há o controle e a escolha da pessoa. Por isso temos algumas normas ditadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) que recomendam, por exemplo, não mostrar o método letal, não fazer a notificação de forma sensacionalista nem publicar fotos e notas de suicídio.

Quais são as consequências quando se desrespeita essas regras?

Você alimenta a elucubração. O suicídio já é uma morte que já vai causar uma necessidade intensa de explicações. E, quando a gente oferece apenas uma para um suicídio, a gente está se tornando reducionista, sendo que o suicídio precisa ser compreendido por um viés multifatorial. Apresentar explicações de causa e efeito é uma invasão à pessoa que se matou. Não se pode confundir o ato com uma história de vida. Se a gente não explica a nossa vida de uma maneira única, por que vai explicar a morte?

O suicídio tem culpados?

De jeito nenhum. Culpa é um arrependimento das ações que você não fez, uma utopia de que seria possível mudar o desfecho da situação. Se você soubesse que alguém ia se matar, você não faria tudo diferente? O suicídio é uma morte que causa muita culpa, e o que o sobrevivente enlutado menos precisa é ser acusado pela morte de alguém.

O que você recomenda quando um chega ao seu consultório, por exemplo, a mãe de uma pessoa que cometeu suicídio e que sente culpa?

A primeira coisa é que não adianta eu falar “não sinta culpa”, porque isso é não legitimar a dor e o sofrimento. A primeira conduta é legitimar essa dor, perguntando inclusive do que você se culpa. Digo que é como estar em uma montanha russa, na qual em alguns momentos você vai pensar direto nessa pessoa, e, em outros, você vai lembrar que ainda continua vivo apesar desse sofrimento.

Qual é o aspecto mais doloroso do suicídio?

O “nunca mais”.

Como funciona na prática o trabalho quando é chamada por uma escola?

Quem me contata geralmente é o diretor, contando que houve uma morte por suicídio. É preciso, então, alinhar com a família se vamos poder dizer que foi uma morte por suicídio. A primeira coisa é preservar a imagem da pessoa e dos familiares.

E caso a família diga não?

Daí tento que se permita ao menos contar para as pessoas da escola. O que não podemos é omitir nem mentir que a situação aconteceu. Publicamente, não falamos nem o nome nem o ano escolar do aluno, mas é importante falar com os colegas dessa pessoa porque a notícia já está correndo. Sugiro também que parem as acusações, porque isso é o que mais rola em conversas de WhatsApp. Alinho que, quando perguntarem como foi, não vamos falar nada além de “foi por suicídio”. As pessoas têm a morbidade de perguntar se a pessoa se enforcou, se tomou remédios, se se atirou, e isso é só alimentar sensacionalismo.

Seu trabalho tem uma duração específica ou depende de cada caso?

Depois de uma palestra inicial para os gestores e professores, falo com os pais dos outros alunos, e depois com os alunos. No meu trabalho, eu preciso ser prescindível. Sou aquela que ninguém quer ver de novo. A morte de alguém faz lembrar a nossa própria finitude, então ela vai provocar uma percepção de que você também é finito. E, toda vez que um suicídio assim acontece, nós, pais, começamos a pensar que pode acontecer com o nosso filho.

​A demanda pelo seu trabalho aumentou recentemente?

Sim, a partir do posicionamento de um colégio neste ano. Isso porque antes ninguém conhecia o trabalho de prevenção e posvenção, e porque entendemos a necessidade de se pensar sobre o suicídio.

A senhora fala que não há uma única razão para um suicídio, mas o uso de redes sociais, o cyberbullying e jogos como Baleia Azul, aplicativos como Momo e séries como “13 Reasons Why” podem influenciar os jovens? Como os pais podem lidar com isso?

Estes jogos que dão tarefas como a de cometer suicídio vêm sendo investigados há tempos. Qualquer um que apareça deve ser conversado na família. Devemos recomendar que nossos filhos não entrem nos aplicativos, porque sabemos que há dificuldade para sair. Se um pai descobre que um filho já instalou algo assim, deve sugerir estratégias em conjunto com o filho, e mencionar a gravidade dessa última tarefa do suicídio.

Como se faz prevenção em uma escola sem assustar os pais?

Juntamos os funcionários e os pais para a palestra, e apresento programas de enfrentamento de adversidades, acolhimento de sentimentos, valorização da vida. Na posvenção eu olho para a dor, e na prevenção eu acolho o que provoca a dor.

E qual a receptividade?

Muito grande, porque ela não acontece na dor, diferentemente da posvenção, quando estou lidando com pessoas assustadas e impactadas. Ali é caos, é lidar com a crise e minimizar o impacto do tsunami.

Qual o protocolo que a senhora sugere às escolas na posvenção?

Se o suicídio aconteceu no mesmo dia, recomendo luto de um dia. As atividades são suspensas naquele momento, e, no dia seguinte, acontece o luto. E recomendo que este um dia de luto aconteça não só em casos de suicídio, que isso seja mantido quando morrer algum outro aluno, por outra causa. Assim reforçamos que não há privilégio à pessoa que se mata, para que o jovem não pense que “vale mais a pena” morrer por suicídio. Depois, no segundo dia, não há conteúdo programático, mas, sim, uma conversa. Sugiro que os professores levem lenços de papel e deixem estrategicamente colocados na sala de aula.

O suicídio é a segunda causa de morte no mundo entre jovens de 15 a 29 anos de acordo com a OMS. O que estamos fazendo de errado?

O suicídio sempre aconteceu, mas, atualmente, estamos vivendo uma época em que precisamos prestar mais atenção aos nossos jovens, dar nosso tempo a eles. E não é qualquer tipo de tempo, é tempo de qualidade. Se possível, procure se aproximar de quem você ama, porque aí, sim, você consegue fazer alguma coisa.

SINAIS DE ALERTA GERAIS

  • Falar sobre querer morrer, não ter propósito, ser um peso para os outros ou estar se sentindo preso ou sob dor insuportável
  • Procurar formas de se matar
  • Usar mais álcool ou drogas
  • Agir de modo ansioso, agitado ou irresponsável
  • Dormir muito ou pouco
  • Se sentir isolado
  • Demonstrar raiva ou falar sobre vingança
  • Ter alterações de humor extremas

PARA DEPRESSÃO EM ADOLESCENTES

  • Mudanças marcantes na personalidade ou nos hábitos
  • Piora do desempenho na escola ou em outras atividades
  • Afastamento da família e de amigos
  • Perda de interesse em atividades de que gostava
  • Descuido com a aparência
  • Perda ou ganho inusitado de peso
  • Comentários autodepreciativos persistentes
  • Pessimismo em relação ao futuro, desesperança
  • Comentários sobre morte, sobre pessoas falecidas e interesse por essa temática
  • Doação de pertences que valorizava

ALGUNS MITOS SOBRE O SUICÍDIO

“Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir uma pessoa a isso”

Questionar de modo sensato e franco fortalece o vínculo com a pessoa, que se sente acolhida e respeitada

“Ele está ameaçando o suicídio apenas para manipular os outros”

Muitas pessoas que se matam dão sinais verbais ou não verbais de sua intenção para amigos, familiares ou médicos. Não se pode deixar de considerar a existência desse risco

“Quem quer se matar se mata mesmo”

Essa ideia pode conduzir ao imobilismo. As pessoas que pensam em suicídio frequentemente estão ambivalentes entre viver ou morrer. Prevenção é impedir os casos que são evitáveis

“Uma vez suicida, sempre suicida”

A elevação do risco de suicídio costuma ser passageira e relacionada a algumas condições de vida. A ideação suicida não é permanente. Pessoas que já tentaram suicídio podem viver, e bem, uma longa vida

O QUE FAZER

  • Não deixe a pessoa sozinha
  • Tire de perto armas de fogo, álcool, drogas ou objetos cortantes
  • Leve a pessoa para uma assistência especializada
  • Ligue para canais de ajuda

188 ou 141
são os telefones do Centro de Valorização da Vida (CVV). Também é possível receber apoio emocional via internet (www.cvv.org.br), email, chat e Skype 24 horas por dia

90%
das pessoas que se suicidam possuíam transtornos mentais; elas poderiam ter sido tratadas

Para ler a matéria na íntegra, acesse:
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/10/apos-experiencias-familiares-psicologa-vira-suicidologista-para-prevenir-casos.shtml

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Karina O. Fukumtisu é organizadora e coautora do livro “Vida, morte e luto”, recém-lançado pela Summus. Conheça-o:

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Ana Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresLeo Pessini, Karina Okajima FukumitsuMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja HeishinNely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da LuzTeresa Vera Gouvea
SUMMUS EDITORIAL

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘ESCOLA DEVE SER AMBIENTE DESAFIADOR E, AO MESMO TEMPO, ACOLHEDOR E AMOROSO’

As educadoras e escritoras Tania Campos Rezende e Vitoria Regis Gabay de Sá conversaram com Petria Chaves, da rádio CBN, sobre o tema da educação infantil que ganhou destaque na mídia e na universidade nos últimos tempos. Ouça:

 

Conheça o livro das educadoras, recém-lançado pela Summus:

 

INFÂNCIA, LIBERDADE E ACOLHIMENTO
Experiências na educação infantil
Autoras: Vitória Regis Gabay de Sá Tânia Campos Rezende

Nos últimos anos, o tema da educação infantil ganhou destaque na mídia e na universidade. Cada vez mais se defende que a criança cresça num ambiente desafiador e, ao mesmo tempo, acolhedor e amoroso. Respaldadas por sua experiência de mais de 30 anos como educadoras, Tânia Rezende e Vitória Gabay de Sá apresentam neste livro a experiência vívida de uma escola baseada nesses princípios.
Em linguagem leve e acessível, as autoras conjugam teoria e prática utilizando uma ampla bibliografia, as leis nacionais mais atuais e relatos de casos.
Destinada a estudantes de Pedagogia, professores da educação infantil, pais e profissionais que lidam com a infância, a obra aborda temas fundamentais da área, como:
• a medicalização indiscriminada das crianças pequenas;
• a imposição cada vez maior de conteúdos em detrimento do tempo de brincadeira;
• a dificuldade de lidar com alunos considerados difíceis;
• os conflitos inerentes à relação entre pais e educadores;
• os conceitos errôneos a respeito da inclusão de alunos com distúrbios físicos e/ou psíquicos.

‘ATRITOS EM TEMPO DE ELEIÇÃO ABREM ROMBOS NAS RELAÇÕES FAMILIARES’

……………………………………………Coluna de Cláudia Collucci, publicada em 09/10/2018, no jornal A Folha de S. Paulo.

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Segundo psicóloga, está difícil entender que pensar diferente não é ser adversário

Essas eleições tóxicas continuam provocando efeitos adversos na saúde física e mental das pessoas. Não só pela insensatez de todas ordens e do clima de insegurança, mas também pelos conflitos familiares que têm surgido.

Nos últimos dias, vários amigos relataram profunda tristeza ao descobrir, por exemplo, que pais, irmãos ou parentes próximos são eleitores do candidato Jair Bolsonaro (PSL).

“Preciso de ajuda para enfrentar esse segundo turno. Meu pai fazendo campanha para o coiso já está demais”, disse uma amiga.

“Descobri que meus pais vão votar nele. E o pior: estão mentindo para mim. Meu pai disse que votaria no Álvaro Dias, e mamãe iria anular o voto. Minha sobrinha os desmascarou hoje. Estou arrasado”, comentou outro amigo.

“Estou me sentindo órfã”, desabafou outra.

Não faltam na trajetória do candidato à Presidência pelo PSL declarações machistas, racistas e de ódio às minorias. Em entrevista à TV Record, ele negou ter falado essas asneiras, ainda que exista farto material gravado e publicado a respeito disso.

A questão aqui não é o candidato, mas o endosso a essas ideias por meio do voto. Quando se trata de alguém não muito próximo, é mais fácil ignorar, excluir, bloquear ou colocar a pessoa no modo soneca. Mas e quando esse alguém é seu pai, sua mãe ou seu irmão?

Como um gay pode lidar com o sofrimento de ver o pai ou a mãe votando em alguém que já disse: “Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”?

Para falar sobre isso, entrevistei a psicóloga Maria Helena Franco, professora titular da PUC e uma das maiores especialistas brasileiras em situações de perdas e lutos. Veja o depoimento dela:

“Tenho ouvido muito de pessoas que estão vivendo um choque, uma decepção. Votar em Bolsonaro é muito mais do que escolher para um candidato à Presidência. É tudo o que vem nesse pacote e que está abrindo fissuras, rombos nas relações entre as pessoas.

A fala dele, o discurso contra gays, acabou virando porta-voz de algumas condições que já existiam nas famílias, mas que ficam meio camufladas, não autorizadas de serem expressas. Gosto de pensar no ventríloquo. A voz parece que sai do boneco, mas quem fala é o ventríloquo. Bolsonaro faz o papel desse boneco para sair a voz que as famílias não tinham coragem de trazer. E isso é uma ferida grande.

Existe todo um discurso de aceitação, de que somos bons, uma família que se ama, mas, de repente, aparece um boneco trazendo a voz da pessoa que não teve coragem de falar o que pensa.

Estou vendo muito tristeza nas famílias. Hoje [segunda, 8] foi um dia de consultório em que esse foi o tema principal. As pessoas estão tristes, preocupadas pela possibilidade de terem agido democraticamente e estarem num beco sem saída. A polarização fez muito mal, e isso se manifesta nas famílias.

Está muito difícil as pessoas conseguirem conversar e entender que pensar diferente não é ser adversário, que não se trata de enfrentamento. A intimidade da família permite que a gente converse com segurança. Mas, com os ânimos exaltados, isso está ameaçado. Ficou uma história de ‘nós contra eles’ —quem pensa diferente de mim é um adversário.

Acho isso grave. Família tem que nos dar uma base segura até para divergir, para falar “não dá mais para conversar, fui”. Mas tem que ter uma base segura, senão a gente se desarticula demais.

O Estado também é um representante de base segura para a gente se colocar de maneiras diversas, argumentar, divergir e ter liberdade para se expressar.

Luto significa rompimento de uma relação, de um vínculo significativo. Pode ser com uma pessoa, mas pode ser também com uma ideia. Essa abstração do luto é muito importante de pensar nesse momento.

Será que estamos falando de ideologias? De  projeto? O que se rompeu, o que não foi o desejado, o esperado? Espera-se que pessoas com mais de 16 anos já consigam lidar com frustração. Você tem um candidato de sua escolha, um partido, um projeto de governo que corresponde ao que você entenda como bom, certo, necessário, plausível. Mas se aquele fulano não é eleito, a gente se frusta. Será que a gente não consegue lidar com frustração? Será que a diferença ideológica precisa virar um cabo de guerra? Uma queda de braço?

O que acontece é que o nosso povo escavou trincheiras e ficou entrincheirado. Se a gente se coloca nessa posição de entrincheirado, é um luto que vai pedir que eu refaça significados. Significados de um projeto de país e de governo.

Esse luto por uma abstração fica difícil de se percebido, vem com cara de frustração. E as pessoas estão lidando muito mal com frustrações.” 

Para ler a coluna na íntegra (para assinantes ou cadastrados), acesse:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/2018/10/atritos-em-tempo-de-eleicao-abrem-rombos-nas-relacoes-familiares.shtml?loggedpaywall

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Maria Helena Pereira Franco é autora da Summus. Conheça seus livros sobre luto:

FORMAÇÃO E ROMPIMENTO DE VÍNCULOS
O dilema das perdas na atualidade
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Maria Cristina Lopes de Almeida AmazonasAirle Miranda de SouzaDanielle do Socorro Castro MouraDurval Luiz de FariaElizabeth QueirozGabriela GolinGeórgia Sibele Nogueira da SilvaJanari da Silva PedrosoJosé Ricardo de Carvalho Mesquita AyresMaíra R. de Oliveira NegromonteVera Regina R. RamiresMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Lucia C. de Mello e SilvaMaria Thereza de Alencar LimaRoberta Albuquerque FerreiraRosane Mantilla de SouzaSilvia Pereira da Cruz BenettiSoraia SchwanTereza Cristina C. Ferreira de Araújo

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.
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A INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA EM EMERGÊNCIAS
Fundamentos para a prática
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Cristina Foloni Delduque da CostaKarina Kunieda PolidoJulia Schmidt MasoJosé Paulo da FonsecaIsabela Garcia Rosa HispagnolIara Boccato AlvesGabriela CasellatoEster Passos AffiniEleonora JaburLilian Godau dos Anjos Pereira BiasotoCristiane Corsini PrizanteliClaudia Gregio CukiermanCibele Martins de Oliveira MarrasAriana OliveiraAna Lucia ToledoAdriana Silveira CogoAdriana Vilela Leite CésarViviane Cristina TorlaiLuciana MazorraLuiz Antonio ManzochiMarcelo M. S. GianiniMaria Angélica Ferreira DiasMaria Helena Pereira FrancoMaria Inês Fernandez RodriguezMariangela de AlmeidaPriscila Diodato TorolhoRachel Roso RighiniReginandréa Gomes VicenteRégis Siqueira RamosSamara KlugSandra Regina Borges dos SantosSandra Rodrigues de OliveiraSuzana Padovan

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.
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O RESGATE DA EMPATIA
Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Valéria TinocoSandra Rodrigues de OliveiraRosane Mantilla de SouzaRegina Szylit BoussoPlínio de Almeida Maciel JrMaria Helena Pereira FrancoGabriela CasellatoDéria de OliveiraDaniela Reis e SilvaCristiane Ferraz PradeAna Cristina Costa Figueiredo

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como aborto espontâneo, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.

 

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Leo PessiniAna Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresKarina Okajima FukumitsuTeresa Vera GouveaMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen RoshiMonja Heishin Nely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da Luz

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘SABE O QUE É INCESTO EMOCIONAL? VEJA SE VOCÊ FOI VÍTIMA E MUDE ESSE PADRÃO’

……………………………………..Matéria de Heloísa Noronha, publicada originalmente no portal Universa, do UOL, em 04/10/2018

 

O incesto emocional não tem a ver com sexo. Porém, é um tipo de interação que confunde os limites entre o adulto e a criança de uma maneira psicologicamente inadequada e que tem consequências tão devastadoras quanto um abuso físico. Nem sempre é algo intencional. “Muitos pais e mães sequer se dão conta do que estão fazendo”, diz a psicóloga e psicopedagoga Elizabeth Monteiro, autora do livro “A Culpa É da Mãe – Reflexões e Confissões Acerca da Maternidade” (Ed. Summus). Trata-se de um processo inconsciente. Para entender melhor do que se trata, vale conhecer quais são as situações mais recorrentes:

Situação 1: a criança é colocada no papel de confidente

Em casais onde o diálogo é complicado ou quando a relação entre os dois não anda bem, o incesto emocional ocorre quando um dos dois passa a tratar o filho como ouvinte de reclamações e desabafos. “Quando um casal enfrenta problemas, os filhos podem não ter maturidade para entender o que está acontecendo. E, com frequência, saber detalhes da situação mais machuca do que ajuda”, fala a psicóloga Dora Lorch, autora de “Como Educar Sem Violência” (Ed. Summus). “Vou dar o exemplo do pai que trai a mãe: ele foi infiel à mulher, não aos filhos, mas em alguns relatos parece que o pai traiu os filhos ao se relacionar sexualmente com outra pessoa. Será? Será que desejar viver com outro alguém faz dele um pai menos carinhoso com os filhos?”, indaga.

Ouvir certas confidências faz a criança se sentir usada e aprisionada, mesmo que ela não se dê conta disso. Outro comportamento comum é desprezar a diferença de idade e a hierarquia e tratar essa criança como se fossem amigos, e não mãe/pai e filho. Isso acontece entre pais e mães que querem participar dos programas dos filhos de uma maneira invasiva. “Na vida familiar, é preciso haver uma hierarquia e um certo distanciamento para permitir que o filho cresça e se desenvolva como pessoa”, diz Dora.

Situação 2: a criança vira substituta de um parceiro

Ou seja, o pai ou a mãe transfere para a criança a atenção e o carinho que gostaria de receber do par. Atinge com maior frequência com filhos do sexo oposto e quando a mãe ou o pai é solitário. “Os recém-divorciados podem sentir a ausência do parceiro intensamente. Com aspectos de seus filhos lembrando-os do ex, a ocorrência de incesto emocional pode ser aumentada”, informa Monica Pessanha, psicopedagoga e psicanalista infantil e de adolescentes, informa Monica Pessanha, psicopedagoga e psicanalista infantil e de adolescentes, de São Paulo (SP).

“Pela dificuldade de lidar com a família fragmentada, muitos genitores buscam refazer o imaginário da família ideal ‘readaptando’ a criança para a função de marido/pai ou esposa/mãe. Em determinados casos, um dos pais até projeta na criança a expectativa de que ela possa ser o marido ou a esposa perfeita que não tiveram”, comenta Silvia Malamud, psicóloga clínica especializada em terapia de casais e família, também da capital paulista.

Silvia diz que, como tanto crianças como adolescentes têm necessidades emocionais relacionadas às suas idades, o peso dessas demandas costumam afetar drasticamente sua futura vida emocional e afetiva. “Volta e meia recebo em meu consultório jovens em estados depressivos severos, com perda de interesse pela vida, pelos estudos e por tudo o que poderia auxiliá-los em seus rumos de vida adulta independente. Eles sequer alimentam a esperança de serem eles mesmos pela árdua missão que têm de substituir os pais”, relata a terapeuta.

Até mesmo casais que vivem juntos podem virar reféns desse mecanismo sufocante quando não são conectados emocionalmente e levam uma vida automatizada mais voltada para fora do que para dentro. “Nesse padrão de funcionamento, muitos pais acabam sendo permissivos além da medida, permitindo que filhos durmam entre o casal, por exemplo, num contexto que, muitas vezes, ativa ainda mais a desconexão da dupla, promovendo outros tipos de conexões psicológicas não saudáveis”, explica Silvia.

Situação 3: o filho como “propriedade” dos pais

“Ela é a princesinha do papai”, “Ele é o namoradinho da mamãe”, “Só vai namorar depois que fizer 20 anos”, “Se aparecer algum(a) vagabundo(a) aqui na porta, eu boto para correr”… Frases tidas como carinhosas, em princípio, podem apenas sinalizar superproteção. No entanto, o que muitos pais e mães expressam sem se dar conta, na verdade, é um sentimento nocivo de posse e ciúme. No futuro, a probabilidade de atrapalharem os relacionamentos amorosos dos filhos é muito grande.

Segundo Silvia Malamud, há pais e mães que criam seus filhos para lhe fazerem companhia e não deixam que se relacionem com amigos. “Eles morrem de medo do mundo e obrigam os filhos a viver sob seus medos, em condomínios fechados e círculos sociais restritos, viabilizando a diversão apenas pela internet. Sei de adultos cujos pais nunca permitiram que fossem dormir na casa de amigos ou parentes. Não por achar a casa ou os pais dos amigos inadequados, mas por puro medo deles saírem de perto e se verem frente à sua própria solidão, de perderem o controle”, completa.

Outra forma de incesto emocional é a invasão de privacidade, quando os pais querem exercer sua autoridade entrando e saindo quando bem quiserem de seus quartos e banheiros.

Da sensação inicial de poder à autoestima em frangalhos

De acordo com Monica Pessanha, o incesto emocional tem maior poder na primeira infância, pois a criança vive com os pais uma fusão emocional que até os dois anos de idade é importante para sua sobrevivência saudável. “Mas, quando os pais não se desligam, essa criança poderá criar no futuro uma incapacidade de se ligar intimamente a uma vida saudável com um parceiro adulto”, avisa.

As crianças podem se sentir importantes ou especiais porque são os confidentes escolhidos pelos pais. “Embora provavelmente saibam que estão sendo tratadas de forma diferente das crianças ao redor, a sensação de maturidade pode ser estimulante. Elas também podem sentir-se úteis ou mesmo poderosas, pois são elas quem orientam seus pais durante uma jornada adulta. Porém, mesmo se sentindo bem, ao longo dessa jornada com os pais, há o risco de a criança começar a apresentar problemas emocionais”, observa Monica.

Para Dora Lorch, em muitos casos, os filhos se sentem amados e valorizados sem perceber o alto preço que estão pagando por esse amor. “A questão é que esse comportamento vai minando a autoestima e semeando a dúvida sobre suas qualidades, opiniões e, por fim, sobre a maneira como a pessoa vê a realidade. Ela fica vulnerável e fragilizada”, pontua.

Quem eu sou? Crianças vítimas do incesto emocional nunca se sentem livres para serem quem são. “É como se os pais tivessem lhes tirado a possibilidade de solidificar a própria identidade”, diz Monica. Como esses danos não são facilmente detectados, podem emergir na adolescência ou na vida adulta através de distúrbios alimentares, autoagressão (cortes como forma de autopunição), uso de drogas e depressão em diversos níveis com risco de suicídio.

O problema mais fácil de identificar, porém, é a dificuldade em estabelecer relacionamentos afetivos saudáveis e duradouros. “Muitos filhos são orientados, de modo camuflado ou direto, para que tomem cuidado nos seus relacionamentos por conta dos sofrimentos causados pelas escolhas erradas dos pais. O aviso ‘subterrâneo’, portanto, é que o ideal seria que permanecessem atados ao papel de maridos e esposas desses pais, esses, sim, os parceiros ‘ideais’. Como consequência, ou os relacionamentos são fadados ao fracasso ou essas pessoas sequer pensam em ter algo mais consciente e muitas vezes nem buscam”, afirma Silvia.

E há, ainda, quem se torna alvo fácil de parceiros abusivos, perpetuando a dinâmica tóxica e doentia que vivia na família.

Mudança difícil

Quebrar esse padrão é árduo e complexo. “Sei de casos em que os filhos só conseguiram se libertar e viver como queriam depois da morte dos pais”, diz Elizabeth Monteiro. Na opinião da psicopedagoga, libertar-se é difícil porque essas pessoas cresceram sob o peso da culpa e das chantagens emocionais. “Ao longo da vida, muitas quiseram cortar o vínculo doentio, mas são poucos, de fato, os que conseguem cortar. As sensações de ingratidão e de ter uma dívida com os pais fala mais alto. Além disso, os filhos assumem o papel complementar dessa trama: os pais precisam dominar e eles acabam precisando ser dominados”, afirma.

Já Silvia Malamud destaca que não é raro que a identidade dos filhos desse tipo de abuso fique ‘misturada’ com a do pai ou a da mãe. “Daí, na vida adulta, existe enorme dificuldade em se saber onde um começa e o outro termina. Por conta desse desarranjo, há a dificuldade de impor limites. Como a identidade está baseada na lealdade para com os pais, a vítima ora se sente onipotente, ora se percebe com receio de ser rejeitada se não cumprir com a identidade planejada para ela. Portanto, sentimentos de inferioridade e de não pertencimento sempre serão pano de fundo”, diz.

Por mais difícil que seja, e na maior parte das vezes o processo exige uma terapia, as pessoas precisam se esforçar para estabelecer limites saudáveis com os pais. “Elas têm que trabalhar para recuperar seu senso de identidade, afastando-se de se colocar no papel de cuidador em seus relacionamentos. E isso não é fácil. É um problema para ser tratado a longo prazo, e quase sempre em um processo terapêutico, até porque o incesto emocional é devastador devido à natureza indireta e encoberta do trauma”, aponta Monica.

Para acessar na íntegra: https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/10/04/sabe-o-que-e-incesto-emocional-veja-se-foi-vitima-e-nao-perpetue-o-padrao.htm

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Conheça os livros das psicólogas Elizabeth Monteiro e Dora Lorch, mencionados na matéria:


A CULPA É DA MÃE
Autora:
Elizabeth Monteiro
SUMMUS EDITORIAL

Neste livro emocionante e catárquico, a psicoterapeuta Elizabeth Monteiro relata suas experiências – muitas vezes desastradas – como mãe de quatro filhos. Partindo das relações familiares na época de sua avó e passando pela própria infância, ela mostra que as mães, independentemente da geração, erram. Mas não devem se sentir culpadas por isso. Prefácio de Lya Luft.

Para ver outros livros dessa autora, acesse https://amzn.to/2NnkcJ0

 

COMO EDUCAR SEM USAR A VIOLÊNCIA
Autora:
Dora Lorch
SUMMUS EDITORIAL

Toda criança precisa compreender o mundo em que vive, e pais e educadores devem fornecer exemplos diários de boa conduta e agir de maneira coerente com o que dizem. Mas muitos optam pela violência e pela humilhação para ” ensinar”. Agindo assim, criam seres humanos sem capacidade crítica e também violentos. Usando a psicologia para falar de birras, medos, mentiras, vergonha, inconsciente e brincadeiras, a autora constrói um singelo manual de boas maneiras – para os pais. Prefácio de Ruth Rocha.

‘NINGUÉM PODE AJUDAR O SR. TEIXEIRA’

…………..Reprodução da coluna de Marcelo Coelho, publicada na Folha de S. Paulo, em 12/09/2018.

Enquanto o machismo agride as mulheres, a masculinidade oprime os homens

Acontece uma vez por ano, mais ou menos. Depois de uma noite calma e bem dormida, ele se levanta com alguma pressa, inclina-se para pegar as roupas que estavam jogadas no chão, e a casa inteira ouvirá seu grito.

Uma mão invisível parece ter trincado sua coluna vertebral como se fosse um palito de fósforo. O efeito seria o de um relâmpago, se um relâmpago tivesse o peso de um caminhão descendo a ladeira sem breque.

Impossível mudar de lugar. A mera ideia de tirar um pé do chão é descartada com terror. É preciso esperar alguns minutos para ter coragem de encetar qualquer movimento.

Vários dias irão seguir-se, com o relâmpago caindo várias vezes no mesmo lugar, ao menor descuido. Aos poucos, com a terapia adequada (mas qual será?), tudo irá retornando ao normal.

Depois de uma década ou duas dessa rotina, é seguro afirmar que a pior crise foi a primeira; com o tempo, todo mundo aprende a evitar os movimentos e posturas de maior perigo. Mas ninguém se acostuma. A família, muito menos.

Eis, ao pé da cama, encolhido como uma múmia de Machu Picchu, o paciente em plena crise de lombalgia. Chamemo-lo de Teixeira.

Ele acabou de gritar. “O que foi, Teixeira?”, pergunta a mulher. “Não foi nada”, responde ele, de mau humor.

Ela aparece na porta. “Coluna de novo?”. Conforme a personalidade de Teixeira, a resposta pode variar. Um sorriso: “É, mas logo passa”. Um sarcasmo: “O que acha?”. Palavra nenhuma: “Grnf”.

Não faz muita diferença, pois a mulher de Teixeira não irá alterar suas reações. “Quer que chame um médico?”

Não, Teixeira não quer um médico. Já foi a vários, nada adianta. Acupuntura, meditação, hidroginástica, homeopatia, eletrochoque, Teixeira já foi a tudo.

“Quer que eu faça uma massagem, querido?”

Não, ele não quer.

“Um chazinho?”

Teixeira também não quer.

A esposa fica mais angustiada. Ela precisa fazer alguma coisa pelo Teixeira. Um colete ortopédico? Uma bengala? Um copo d’água? Um cobertor?

Ele acabará aceitando alguma coisa, de preferência a mais neutra, a mais inócua. Por que essa opção pela ineficiência?

A razão é simples: ele irá curar-se sozinho. Não pode admitir que o ajudaram nisso. Não pode nem mesmo mostrar que precisa de ajuda.

Teixeira aguenta. Teixeira não está sentindo nada. A coisa com Teixeira não tem seriedade nenhuma.

Nenhuma mulher poderá ajudar Teixeira. Pois Teixeira, ora essa, é homem.

Escrevo estas linhas não só por me encontrar em plena crise lombar, mas porque um livro da psicanalista Malvina Muszkat, que recebi recentemente, destaca com muita sensibilidade o drama —e o ridículo— da masculinidade contemporânea.

Na capa de “O Homem Subjugado” (ed. Summus), a cartunista Laerte resume a melancolia da situação. Ao sair de uma enorme armadura de cavaleiro medieval, um homenzinho põe a mão no queixo, sem saber o que pensar.

Aquela carapaça de ataque e de defesa, do tamanho de um tanque de guerra, é pesada demais para o homenzinho. Terá ele coragem de sair, nu, a caminho de uma vida mais pacífica e de um convívio mais aberto com os seus semelhantes?

O livro de Malvina Muszkat acerta muito ao diagnosticar vários comportamentos “sem sentido” (isto é, historicamente condicionados) do macho comum. Sua resistência a falar dos próprios medos e de seus sentimentos, por exemplo. De onde vem esse silêncio?

A clássica incapacidade masculina para pedir informações no trânsito, provavelmente, tem a mesma origem.

Também faz parte da “masculinidade” (nem digo do “machismo”) o compromisso de não chorar, de não ter crises de nervos, e —em alguns casos— de nem mesmo se mostrar em dúvida ou capaz de mudar de ideia.
O Homem Subjugado” toma a defesa dos homens contra tudo o que o machismo e o sistema de gênero fizeram, ao longo de séculos, para sufocar sua sensibilidade e negar seu sofrimento.

Seria importante tentar uma abordagem mais sistemática e detalhada do tema, algo que não cabe no espírito ensaístico do livro.

Do ponto de vista mais estritamente psicanalítico, a autora destaca o momento, dramático como poucos, em que o menino se vê levado a rejeitar a mãe (seus cuidados, suas preocupações, seus carinhos) para se tornar “homem”. A “mãe-fada”, diz ela, se transforma em “mãe-bruxa”.

Coitada! É o momento em que seu principezinho se transforma em ogro. Com sorte, ele será mais um sr. Teixeira.

Marcelo Coelho
Membro do Conselho Editorial da Folha, autor dos romances “Jantando com Melvin” e “Noturno”. É mestre em sociologia pela USP.

 

Para ler na íntegra, acesse (para assinantes ou cadastrados): https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2018/09/ninguem-pode-ajudar-o-sr-teixeira.shtml

 

Conheça o livro:

O HOMEM SUBJUGADO
O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo
Autora: Malvina E. Muszkat
SUMMUS EDITORIAL

Neste livro, a autora Malvina Muszkat propõe que se repense o fenômeno da violência sob a perspectiva da subjetividade masculina na dinâmica dos relacionamentos, de forma a buscar maneiras mais eficientes de se promover o dialogo e evitar o confronto. Transitando por áreas como antropologia, sociologia, mitologia e psicanálise, Malvina mostra como a imagem da masculinidade foi construída ao longo dos séculos e de que forma os homens foram proibidos de demonstrar seus medos e fraquezas.
Talvez seja possível criar homens com comportamentos diferentes dos usualmente atribuídos a eles em nossa sociedade. Se não há apenas uma forma de ser mulher, por que haveria apenas uma forma de ser homem?

‘BETTY MONTEIRO NO CBN GERAÇÕES’

Culpa, controle, divisão de tarefas e outras questões da rotina das mães entram em discussão

No fim de semana do Dia das Mães, a psicóloga e escritora Betty Monteiro e a jornalista e apresentadora Mariana Kotscho conversaram com Cássia Godoy sobre a maternidade. Ouça abaixo.

Clique nas capas abaixo e saiba mais sobre os livros da psicóloga Betty Monteiro:
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‘O FILHO SURPRESA E A LEI’

Acontece nas melhores famílias. Um belo dia, o ilustríssimo senhor e respeitável cidadão, que já constituiu sua prole dentro dos laços do sagrado matrimônio e acha que a vida não tem mais nenhuma surpresa a lhe reservar – a não ser, talvez, acompanhar com orgulho as proezas escolares de filhos, ou quem sabe netos – recebe uma inesperada visita do passado.

Às vezes, a visita aparece sob a forma de uma ex-namorada, amante ou relacionamento casual, portadora de uma mensagem cujo resumo é mais ou menos o seguinte: “Toma que o filho é teu”.

Outras vezes, o visitante é um perfeito estranho, que alega ter com o cidadão um dos laços mais íntimos que pode haver entre duas pessoas: o de pai e filho.

O que fazer nessas situações?

O suposto pai é obrigado a fazer teste de DNA? Ele tem que dividir seus bens com o filho “surpresa”? E, do outro lado, como uma pessoa pode provar que é filha de outra? Qual é o caminho para reivindicar seus direitos? Para esclarecer essas e outras questões, preparei um guia rápido sobre investigação e reconhecimento de paternidade. Aproveite para tirar suas dúvidas.

Quem pode pedir a investigação de paternidade?

O processo de investigação de paternidade de um menor de 18 anos deve ser aberto pela mãe do menor, representada por um advogado. Sendo maior de idade, a própria pessoa pode abrir o processo – mas também deve ser representada por um advogado.

O suposto pai é obrigado a fazer o exame de DNA?

Não. Nossa legislação não obriga ninguém a fazer exame de DNA, sob o princípio de que ninguém pode ser forçado a produzir provas contra si mesmo.

O que acontece quando o suposto pai se recusa a fazer o exame de DNA?

Se ele se recusar, passa a existir uma “presunção relativa” de paternidade. Isso significa que a recusa irá pesar contra ele, mas não basta para confirmar a paternidade. Ou seja, a pessoa que abriu o processo terá que apresentar outras provas, como por exemplo, evidências de que houve um relacionamento entre a mãe do requerente e o suposto pai, e do qual a gravidez poderia ter resultado. Mas isso nem sempre é fácil – principalmente quando se trata de um relacionamento casual.

Cabe lembrar que , o presidente Lula teria vetado um projeto de lei aprovado pelo Senado que tratava do assunto. A alegação da presidência é que o veto ocorreu porque o projeto apenas repetia o que já estava previsto em nossa legislação – isto é, a “presunção relativa” da paternidade nos casos em que o pai se recusa a fazer o exame.

O próprio relator do projeto de lei no Senado, Antônio Carlos Júnior (DEM-BA), admitiu que a matéria em pouco altera na lei em vigor, mas que funcionaria como um “reforço”. Se era apenas um reforço, por que se dar ao trabalho de criar a lei? Ou por que se dar ao trabalho de vetá-la? Mais um mistério de Brasília, caro leitor…

Existe limite de tempo para ingressar com um processo de investigação de paternidade?

Não. A investigação pode ser aberta a qualquer tempo. Se por exemplo, uma pessoa de 60 anos descobrir que uma outra, de 80 anos, pode ser seu pai, ela pode ingressar com a ação.

E se o suposto pai já tiver falecido, ainda é possível realizar a investigação de paternidade?

Sim. Nesse caso, os parentes sanguíneos mais próximos do falecido podem ser solicitados a fazer o exame de DNA. Mas vale o mesmo princípio: se eles não concordarem, não se pode obrigá-los a fazer o teste.

Se o filho for reconhecido, ele pode usar o sobrenome paterno mesmo contra a vontade do pai?

Se a paternidade for legalmente reconhecida, o pai não tem como impedir que o filho use seu sobrenome. A alteração na certidão de nascimento pode ser feita após o juiz expedir a sentença na qual a filiação é reconhecida, e isso independe da vontade do pai.

Filhos reconhecidos mediante processos judiciais têm os mesmos direitos do que os filhos nascidos no casamento?

Com certeza. Os direitos são os mesmos, inclusive no que diz respeito à pensão alimentícia e herança.

E se o pai tiver deixado um testamento que exclui o filho reconhecido na justiça?

Essa possibilidade prevê duas situações diferentes. Na primeira, o pai ainda está vivo quando o processo de investigação de paternidade teve início e opta por excluir o suposto filho de seu testamento. Nesse caso, sendo a paternidade comprovada, o filho reconhecido terá direito à legítima – isto é, à parte da herança que cabe aos herdeiros necessários (como os filhos e o cônjuge) e que, por isso, não pode ser disponibilizada por meio de testamento. Na segunda situação, a investigação de paternidade é aberta após o falecimento do pai. Nesse caso, como ele desconhecia a existência desse filho ao fazer o testamento, o juiz poderá anular esse documento, dando ao filho reconhecido o direito de participar da partilhar de todos os bens do pai, e não apenas da legítima.

Se o suposto filho tiver falecido, seus herdeiros podem ingressar com a ação de investigação de paternidade?

Os herdeiros do filho falecido não podem ingressar com uma ação de investigação de paternidade em nome de seu pai. Podem, no entanto, dar entrada em uma ação de investigação de parentesco com seu suposto avô. Esse precedente foi aberto pelo Superior Tribunal de Justiça, ao julgar caso semelhante. No entender da relatora, ministra Nancy Andrighi, “se o pai não propôs ação investigatória em vida, a via do processo encontra-se aberta aos seus filhos”.

*Advogada especialista em Direito de Família e Sucessão. Membro efetivo da Comissão de Direito de Família da OAB/SP, do Instituto Brasileiro de Direito de Família, e do IASP, é autora dos livros “Herança: Perguntas e Respostas”, “Família: Perguntas e Respostas” e “Direito LGBTI: Perguntas e Respostas”, todos da Mescla Editorial.

Artigo publicado no Estadão, em 12/04/2018. Para acessar na íntegra:
http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/o-filho-surpresa-e-a-lei/

 

Conheça os livros da autora:Direito de Família

FAMÍLIA
Perguntas e respostas
Autora: Ivone Zeger

Quando o assunto é direito da família, somente uma especialista como Ivone Zeger pode responder de forma simples e direta às principais dúvidas relacionadas com casamento, divórcio, pensão alimentícia, partilha de bens, adoção, violência doméstica, filhos, união gay etc. – tudo de acordo com as mudanças ocorridas na legislação.

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HERANÇA
Perguntas e respostas
Autora: Ivone Zeger

 

Quais são os motivos para deserdar alguém? Bens de família também entram no pagamento da dívida? Quando uma pessoa morre sem deixar testamento, quem fica com os bens? O que cabe aos enteados? E à segunda esposa? Divorciados têm direito à herança do cônjuge? O que é usufruto? Filhos têm de dividir a herança com o avô?

Essas são apenas algumas das perguntas respondidas neste livro. Com base em sua ampla experiência em Direito de Família e Sucessão, a advogada Ivone Zeger esclarece – em linguagem simples e objetiva, bem distante do “juridiquês” que assusta os leigos – as dúvidas mais comuns que todos temos sobre o assunto.
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DIREITO LGBTI
Perguntas e respostas
Autora: Ivone Zeger

Esta obra de Ivone Zeger tem o objetivo de responder a questões relativas a casamento, união estável, adoção, inseminação artificial, dissolução de união estável, divórcio, partilha de bens, herança, entre outros temas pertencentes ao Direito de Família, porém voltados ao público homossexual, bissexual e transexual.

‘LIVRO TRAZ ARGUMENTOS FAVORÁVEIS À VACINAÇÃO’

Ouça entrevista do infectologista Guido Levi, um dos autores de Vacinar, sim ou não?, à rádio CBN:

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Saiba mais sobre a obra:
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VACINAR, SIM OU NÃO?
Um guia fundamental
Autores: Monica Levi, Guido Carlos Levi, Gabriel Oselka
MG EDITORES

Desde o surgimento da primeira vacina, no fim do século XVIII, centenas de milhares de mortes foram evitadas e dezenas de moléstias, combatidas. Estima-se que, nos últimos dois séculos, as vacinas proporcionaram um aumento de cerca de 30 anos em nossa expectativa de vida.

Porém, nos últimos anos, um grande movimento internacional contra as vacinas tem chamado a atenção de pais, profissionais de saúde e educadores. Partindo de informações contraditórias e de dados sem comprovação científica, seus membros alegam ter o direito de escolher vacinar ou não os filhos. No entanto, essa decisão, que de início parece individual, tem consequências coletivas, fazendo por vezes ressurgir epidemias que se consideravam erradicadas.

Escrito por dois pediatras e um infectologista, todos com vasta experiência em imunização, este livro apresenta:

  • um histórico do surgimento e da consolidação das vacinas;
  • os benefícios da imunização para a saúde individual e coletiva;
  • os mitos – pseudocientíficos e religiosos – associados a elas, como o de que a vacina tríplice viral provoca autismo;
  • as respostas da ciência a esses mitos;
  • as consequências da não vacinação para os indivíduos e a comunidade;
  • as reações adversas esperadas e como agir caso isso aconteça;
  • as implicações éticas e legais da vacinação compulsória.