‘PASSO A PASSO PARA SUPERAR A TIMIDEZ’

Artigo publicado no portal A Mente É Maravilhosa,
em 28/08/2019.

A timidez é, em muitas ocasiões, aquela barreira que nos separa dos nossos objetivos e nos impede de apreciar os momentos da vida. Um obstáculo que temos que aprender a enfrentar para podermos nos mostrar da forma como somos.

Superar a timidez é um desafio para muitas pessoas. Não se trata de uma doença ou um distúrbio, mas de uma condição emocional na qual a vergonha prevalece a nível emocional e a dissimulação a nível comportamental.

O tímido não rejeita os outros nem evita o contato em sentido estrito. Muitas vezes até mesmo gosta da companhia dos outros. Também não teme os outros em termos globais. O que ele teme é ser exposto aos outros, ser objeto de atenção dos outros.

Para superar a timidez, é importante que tenhamos certeza do que é esta característica. Especificamente, não devemos confundi-la com a introversão. O introvertido pode ser tímido ou não, já que as duas características nem sempre coincidem.

Vamos ver tudo isso em mais detalhes a seguir.

O que é a timidez?

Existem, basicamente, três abordagens para entender a timidez. A primeira é a organicista. De acordo com ela, esse traço provavelmente tem uma origem genética. Tem a ver com certas anormalidades nas glândulas de secreção, particularmente nas glândulas pituitária e adrenal.

A abordagem comportamental, por sua vez, indica que a timidez é um comportamento aprendido. Geralmente tem sua origem na infância; às vezes pelos modelos parentais, às vezes porque a criança não é suficientemente reconhecida e valorizada pelos adultos ao seu redor.

Além disso, também pode surgir diante de alguma forma de abuso.

A psicanálise, por outro lado, aponta que a timidez é uma manifestação de um conflito do indivíduo consigo mesmo ou com uma parte de si mesmo. Isso está associado à repressão inconsciente de um ou vários instintos.

O tímido, quando exposto, sente que incorreu em uma ação incorreta ou imprópria. Sente que foi descoberto e não pode se defender. Também pode sentir que foi marcado pelo julgamento e a desaprovação dos outros.

Os primeiros passos para superar a timidez

Pelo menos 50% das pessoas se definem como tímidas em um ou mais aspectos. Então, este é um problema bastante comum.

Superar a timidez só se torna um objetivo importante se você achar que essa característica o limita significativamente. Especialmente se você acha que ela lhe causa sofrimento.

Nesses casos, vale a pena se dedicar para superar a timidez. Não é tão difícil. Os primeiros passos a dar são os seguintes:

Identifique seu tipo de timidez. Basicamente, existe uma timidez global e uma outra ocasional. A primeira está constantemente presente. A segunda aparece apenas diante de certas pessoas ou circunstâncias. Por isso, a primeira coisa a fazer é identificar a que tipo você corresponde.

Identifique os gatilhos. Tente se lembrar dos momentos em que você se sentiu mais envergonhado. O que essas situações têm em comum? Quais são os fatores que mais influenciaram para que você se sentisse tão envergonhado? Quais presenças tiveram um efeito especial em você?

Um passo a passo prático

Se você sente que as limitações provocadas pela timidez são relevantes na sua vida, a psicoterapia pode ajudá-lo. Atualmente, existem conhecimentos e meios para superar essas limitações.

Por outro lado, se a timidez não o condiciona tanto, você pode tentar seguir em frente usando alguma das estratégias que apresentaremos a seguir. Siga estas etapas:

Aceite que você é tímido. Você não está cometendo um crime, você simplesmente tem um traço de personalidade que, inclusive, muitos acham atraente. Sim, você é tímido e ponto.

Defina 10 situações de “risco”. Faça uma lista das dez situações sociais mais temidas. Não importa o quão improváveis ou absurdas elas possam parecer. Tente ser muito realista e específico. Por exemplo: “Contar uma piada e ninguém rir”.

Organize os dados. Classifique sua lista da situação mais simples à mais complexa. Por simples entendemos aquela que não lhe causa tanto medo. Por complexa, a que mais o incomoda, paralisa ou incapacita.

Domine o inventário. Depois de definir essas situações estressantes, comece a trabalhar uma por uma. Tente se expor a circunstâncias que o levem a enfrentar cada medo.

Ative seu detector. Quando você começar a se sentir envergonhado, pare por um minuto. Tome nota de seus pensamentos e emoções. Não faça nada antes de entender o que está acontecendo com você.

Anime-se. Mantenha uma postura corporal que o encoraje a continuar e valorize cada progresso que fizer. Evite comparações e destaque as características que melhor o definem de forma positiva. Pense em tudo que você contribui para os outros.

A timidez, por si só, não é um problema. O problema surge quando ela provoca emoções desagradáveis em nós, ​​ou nos afasta dos objetivos que desejamos alcançar.

Para ler na íntegra, acesse: https://amenteemaravilhosa.com.br/superar-a-timidez/

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Quer saber mais sobre timidez? Conheça:

MORRENDO DE VERGONHA
Um guia para tímidos e ansiosos
Autores: Teresa Flynn, Cheryl N. Carmin, C. Alec Pollard, Barbara G. Markway
SUMMUS EDITORIAL

Pessoas que sofrem de fobia ou ansiedade em situações sociais não conseguem comer diante de outras pessoas, não utilizam banheiro público, fracassam em tentar expressar opiniões, apavoram-se diante de testes ou exames etc. Neste livro um grupo de psicólogos estuda o problema e apresenta um programa para vencê-lo. Analisando situações específicas, oferecem meios de auto-avaliação e recursos para dominar as fobias sociais.

TIMIDEZ
Esclarecendo suas dúvidas
Autores: Lynne Crawford, Linda Taylor
EDITORA ÁGORA

A timidez excessiva interfere na vida profissional, social e emocional das pessoas. Este livro mostra como identificar o problema e como quebrar os padrões de comportamento autodestrutivos da timidez. Apresenta conselhos e técnicas simples e poderosas para enfrentar as mais diversas situações.

SEU FILHO É O CENTRO DO SEU RELACIONAMENTO? ENTENDA POR QUE ISSO É TÃO RUIM



Matéria de Heloísa Noronha, publicada originalmente 
no Universa│UOL , em 27/08/2019.

Em seu livro “Mulheres Querem Sexo, Homens Sempre têm Dor de cabeça: Destruindo os Mitos Sobre Sexo e Relacionamentos Amorosos” (Ed. Cultrix), o terapeuta de casal alemão Christian Thiel afirma que as relações chamadas de child-centered (em tradução livre, centradas no filho) são um dos principais motivos para o afastamento de vários casais. De tão concentrados no filho, não só na fase de bebê, muitos se transformam em “sócios” na administração da casa e da vida em família e acabam se distanciando emocional e sexualmente. Nem sempre o desfecho é a separação: em alguns casos, a situação fica no piloto automático e as pessoas passam anos a fio convivendo nessas circunstâncias cômodas, mas infelizes. A boa notícia é que dá, sim, para reverter essa condição, mas primeiro é preciso compreender como os dois chegaram a esse ponto.

Ter um filho é, obviamente, uma experiência transformadora. E é lógico que nos primeiros meses pós-nascimento, por causa da nova rotina e dos cuidados essenciais, como a amamentação, a atenção dos pais fique 100% voltada ao bebê. Depois de um tempo é natural que o casal volte a se concentrar também na relação, mas isso depende de vários fatores que vão desde a possibilidade de contar com uma rede de apoio até o fato de o modelo familiar ser mais ou menos ansioso.

Na opinião da terapeuta de relacionamentos Rosangela Matos, que atua com atendimento online, após os primeiros seis meses de vida da criança os pais podem começar a dar pequenas “fugidinhas” para namorar. “Os familiares são importantes para dar um suporte. Aceitar ajuda é bom para todos: para o casal, que precisa fortalecer o vínculo homem-mulher; para a família, que se sente fazendo parte desse momento tão especial, e para o filho, que vai ter pais felizes ao seu lado”, comenta. “Porém, é importante que, antes disso, o casal separe alguns minutos para estar junto para falar do seu dia, trocar um abraço, um chamego e um sentir que o outro está ali”, completa Rosangela.

Já Triana Portal, psicóloga clínica e terapeuta de casal, de São Paulo (SP), observa que o casal consegue voltar ao “normal” por volta dos 3 anos de idade do filho, idade na qual já houve o desfralde, os pais não sofrem tanto com a privação de sono e a criança apresenta uma certa autonomia. “É uma fase em que o par realmente consegue ter mais intimidade e liberdade para passear e fazer pequenas viagens. Isso pode variar muito dependendo das características de cada família, mas os três primeiros anos costumam ser os mais desafiadores para qualquer casal. É, inclusive, uma fase em são registrados muitos divórcios”, fala.

Para Rosangela, um filho pode tanto unir quanto afastar um casal e um fator é determinante para isso: o alinhamento. “Muitos pais, especialmente os de primeira viagem, se preparam para a chegada do pequeno, assistem a filmes e documentários, fazem cursos, compram livros… Poucos, no entanto, procuram ajuda para se prepararem emocionalmente para a mudança na relação amorosa. O foco passa a ser o pequeno, os assuntos mudam. Dormir até tarde no fim de semana, passar uma tarde vendo filme agarradinho no sofá ou sair para se divertir nem sempre são possíveis. As mudanças são muitas e pegam o mais unido dos casais”, afirma.

Problema também para a criança

À medida que a criança cresce, o excesso de trabalho, o cansaço e a culpa por não dar tudo o que o filho precisa – principalmente tempo – acaba levando o casal a concentrar todas as suas energias na criança e a se descuidar dos papéis de homem e mulher. Com filhos, praticamente qualquer decisão deve levá-los em conta: do cardápio do jantar até a forma de gastar o dinheiro e o que a família vai fazer no fim de semana. No entanto, alguns pais e mães acabam superestimando essas resoluções, atribuindo poder à criança e desequilibrando a relação. “É o que chamo de ‘filiarcado’, ou seja, permitir que a criança decida tudo”, diz Elizabeth Monteiro, psicóloga e psicopedagoga, autora dos livros “Criando Filhos em Tempos Difíceis” e “Criando Adolescentes em Tempos Difíceis” (Summus Editorial).

Para Elizabeth, às vezes as pessoas simplesmente se entregam ao tipo de relação child-centered por puro desânimo. “Está todo mundo cansado demais. É mais fácil abrir mão de autoridade e, por comodismo, deixar a situação como está. Porém, essa não é a solução ideal para ninguém”, afirma. Um dos riscos é a criança se transformar num adulto mimado, já que sempre teve suas vontades atendidas. Vai comer o pão que o diabo amassou, claro, porque dificilmente alguém vai atender suas demandas como papai e mamãe faziam. Para o casal, uma das consequências é, quando o filho crescer e for embora de casa, enfrentar a chamada “síndrome do ninho vazio”. Como o filho possivelmente era o único elo forte que os unia, o que restará? Isso sem contar que, após tantos anos de afastamento, é possível que um sequer reconheça o outro como pessoa.

Segundo a psicóloga Renata de Azevedo, especialista em terapia de casal pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), alguns casais já estavam afastados antes mesmo de terem filhos. “Alguns, inclusive, acreditavam que o bebê salvaria a relação. Com o nascimento, os casais que estavam mal ficam pior ainda, pois o afastamento, o stress e alguns atritos são comuns nessa fase de adaptação. Outros casais colocam todo o seu afeto e a carência em cima do filho e não sobra tempo, espaço e energia para mais ninguém, inclusive o seu cônjuge. Dessa forma, a distância aumenta e passam a ser apenas pais”, observa. O filho passa a ser o centro e o único elo entre o casal durante anos.

Separar os papéis é fundamental

Um filho toma toma tempo, espaço, energia, pesa no orçamento, limita a intimidade. Resgatar ou manter a mesma relação de amor anterior à sua chegada é bem difícil. Com alguns ajustes no dia a dia e na forma de configurar as tarefas domésticas e as atividades em família, dá para o casal encontrar um equilíbrio saudável para lidar com tudo. “É possível reverter, mas a mudança precisa fazer sentido. Ambos devem estar cientes que a reversão de um padrão de comportamento ou rotina é um processo, leva tempo e exige paciência para adaptação do novo formato”, avisa Triana.

Uma conversa franca sobre o que mudou para cada um depois da chegada do filho, o que mais faz falta e o que pode ser feito diferente é o primeiro e mais importante passo, segundo Rosangela. Se o casal está vivendo essa situação é importante sentar e conversar sobre isso para que possam ir mudando seus comportamentos aos poucos.

Uma criança precisa que suas necessidades emocionais e físicas sejam supridas, mas também necessita que os pais estimulem sua segurança e autonomia. “Grande parte dos problemas da vida adulta são resultado da primeira infância, na melhor das intenções os pais vão se anulando e não percebem o quanto isso impacta nos filhos. Os pequenos devem ter limites e também aprender a conviver com a família e outras pessoas além dos pais. E precisam saber que os pais são um casal e que eles priorizam também essa relação”, diz a terapeuta.

Para Triana, os casais child-centered precisam se conscientizar de várias verdades. A primeira é que construir um “reinado” para o filho não é a melhor forma de educar. “E, em seguida, devem entender que se não estiverem inteiros nem felizes não conseguirão cuidar bem do filho. A relação conjugal precisa de constante manutenção, algo que dá trabalho e demanda atenção. Valorizar a intimidade, o sexo e os momentos de lazer sem os filhos, não os torna pais negligentes ou maus”, declara. Para isso, também é fundamental que cada um cuide bem de sua autoestima, assim ficam menos inseguros, têm mais clareza de pensamento e objetivos e levam a vida de forma mais assertiva.

“As pessoas também precisam compreender que têm o direito de ser homem e mulher, não precisam ser apenas pai e mãe pelo resto da vida. Dá para vivenciar todos os papéis sem negligenciar nenhum. Além disso, os filhos gostam de saber que os pais namoram, se curtem, saem, apreciam ficar juntos. Isso é benéfico para o desenvolvimento da criança, que cresce aprendendo um modelo saudável de relacionamento”, pontua a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casal pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Para ler na íntegra o texto publicado no UOL Universa, acesse: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/08/27/relacionamento-child-centered-voce-esta-vivendo-um.htm

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Conheça abaixo alguns livros das autoras Elizabeth Monteiro e Marina Vasconcellos. Outros podem ser encontrados no site do Grupo Editorial Summus.

CRIANDO FILHOS EM TEMPOS DIFÍCEIS
Atitudes e brincadeiras para uma infância feliz
Autora: Elizabeth Monteiro
SUMMUS EDITORIAL

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.

 

CRIANDO ADOLESCENTES EM TEMPOS DIFÍCEIS
Autora: Elizabeth Monteiro
SUMMUS EDITORIAL

O amor parental não é estático: ele muda com o tempo e com os filhos. Por isso, os pais precisam atualizar seu modo de sentir e amar. Com uma linguagem direta e delicada, Elizabeth Monteiro fala sobre a necessidade de proteger os adolescentes de ameaças como as drogas e, ao mesmo tempo, de incentivar a autonomia deles. Sem fórmulas mágicas, a autora estabelece com pais e educadores um diálogo amplo e profícuo.

QUANDO A PSICOTERAPIA TRAVA
Como superar dificuldades
Organizadora: Marina da Costa Manso Vasconcellos
SUMMUS EDITORIAL

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.



‘POR QUE USAR A AFETIVIDADE PARA MOBILIZAR ADOLESCENTES’

Estudantes nessa faixa etária precisam de adesão emocional e de acreditar que a escola se preocupa verdadeiramente com eles

Artigo de Jordana Balduino e Rosana Teixeira,
publicada na revista Nova Escola, em 22/08/2019

Quando pequenos, os estudantes, em geral, têm apreço à escola. Levam os pais pelos corredores mostrando a sala em que estudam, apontam para seus desenhos nas paredes e apresentam os coleguinhas. À medida em que vão crescendo, esses comportamentos muitas vezes dão lugar à apatia ou ao descaso. Às vezes, até à raiva do ambiente escolar. Por quê? O que se perde nesse processo?

Acreditamos que uma das explicações (não a única, claro) é que a escola muitas vezes deixa de prestar atenção no componente afetivo do processo educativo para focar somente nas experiências formais de aprendizagem. Para Vygotsky (1995), a aprendizagem, na verdade, se amplia à medida em que as redes de interações e vínculos também se ampliam, englobando aspectos não somente cognitivos, mas, também, afetivos.

Segundo o teórico do ensino, construir conhecimento é uma ação compartilhada, fundada nas trocas entre sujeitos – professores, alunos, família e equipe escolar. Isso porque não aprendemos somente dentro das quatro paredes da sala de aula, mas também trocando conhecimento com colegas, conversando sobre a matéria com os pais, contando algo para alguém da equipe escolar…. Quando falamos isso, não estamos pensando somente nos conteúdos didáticos, mas no desenvolvimento do (a) estudante como um todo. Ele ou ela é uma pessoa que, além de pensar, também sente, chora, se emociona, sonha. E quando entramos na escola, não deixamos as emoções do outro lado da porta – elas entram com a gente.

Dimensão afetiva da aprendizagem

Olhando especificamente para o Ensino Médio, temos um desafio gigantesco em termos de aprendizagem. O Ideb para a etapa, considerando apenas a rede pública, foi de apenas 3,5 pontos, em 2017. A meta para o país era de 4,7. O índice não tem evoluído como o esperado. Em 2009, 2011 e 2013, o Ideb do Ensino Médio da rede pública se manteve estável em 3,4. Em 2015, subiu para 3,5 e se manteve assim em 2017. Isso indica, entre outras coisas, que a escola não está se conectando com esse jovem, não está sabendo engajá-lo. Esse aspecto, muitas vezes, é negligenciado pelas escolas que não levam em consideração a dimensão afetiva da aprendizagem e do desenvolvimento.

Diferentes estudos vêm sendo desenvolvidos nas últimas décadas – por Fernandéz (1991), Dantas (1992), Snyders (1993), Pinheiro (1995), Almeida (1997), Pereira (1998) e Tassoni (2003) – defendendo que o afeto é indispensável na atividade de ensinar. De forma geral, todos entendem que as relações entre ensino e aprendizagem são movidas pela mediação do outro e que, portanto, é possível identificar as condições afetivas favoráveis que facilitam a construção do sujeito e do conhecimento.

Pensando na perspectiva de Vygotsky, se o desenvolvimento dos sujeitos é um processo construído pelos contextos histórico, cultural e social no qual estão inseridos, a escola exerce um papel fundante neste sentido. Tassoni (2000), em uma pesquisa com o objetivo de analisar os aspectos afetivos na interação em sala de aula, percebeu que estes influenciam diretamente no processo ensino-aprendizagem. Compreendendo que a Educação não se dá apenas na relação professor-aluno, mas é mediada por todos os integrantes da equipe escolar de maneira complementar, podemos pensar que é na rotina do colégio – e interação com todos – que os objetos do conhecimento ganham um contorno afetivo, gerando aproximação ou afastamento por parte do estudante.

Segundo Leite e cols. (2006, p. 17), a partir da notoriedade que o tema da afetividade vem alcançando no âmbito educacional nos últimos anos, o conceito de homem centrado apenas na sua dimensão racional, típico da visão cartesiana na escola, vem sendo revisto. A principal direção é de uma concepção de ser humano em que afetividade e cognição são interpretadas como dimensões indissociáveis do mesmo processo, não sendo mais aceitável analisá-las isoladamente.

Como usar a afetividade para engajar os alunos

É justamente pela afetividade que podemos trazer o jovem para mais perto da escola. Para convencê-lo a realizar alguma tarefa, precisamos não somente de uma aceitação e compreensão racional da situação por parte do estudante, mas também do componente afetivo, de uma adesão emocional à proposta. Para dar significado à experiência, precisamos de uma troca com nosso ambiente social – as conversas com professores, momentos compartilhados com os colegas, a convivência diária com a equipe escolar…. Todas essas pequenas interações, que muitas vezes são ignoradas ou até mesmo desencorajadas, são importantíssimas.

Para que os adolescentes se sintam acolhidos e dispostos a não só viverem as experiências proporcionadas pela escola, mas também a atuarem nela de forma ativa, eles precisam sentir que aquelas pessoas que compõem seu cenário escolar se importam verdadeiramente com eles. E mais: que suas ações fazem alguma diferença na escola, que eles não são mais um na multidão, e que são capazes de interagir e agir em seu meio e transformá-lo.

Isso é relativamente simples com estudantes que já são engajados, têm um “bom” desempenho acadêmico e constroem redes de relações com facilidade. Com os alunos considerados “problemáticos”, a criação do vínculo jovem-escola é um processo muito mais complexo. Estes já consideram o colégio um espaço de enfrentamento diário, de ataques à sua autoestima, de inúmeras possibilidades de falhar e de pouquíssima compreensão de seus esforços, que parecem inúteis frente ao grande caminho que parecem ter que percorrer para “chegar aos pés” de seus colegas de bom desempenho.

Assim, uma Educação que tem como objetivo romper os estigmas e como foco a formação integral, precisa possibilitar ao estudante seu reconhecimento como um sujeito autônomo, cujo futuro não está traçado e determinado, mas é possível de ser construído por ele ao longo do tempo. E construído de fato, com as próprias mãos. Falar é, claro, mais fácil do que executar, mas a escola precisa pensar em como dar protagonismo ao jovem. Esse protagonismo ou envolvimento pode ser feito de diferentes formas com estudantes adolescentes, por exemplo, contando com sua participação na organização e produção de eventos; estabelecendo espaços de expressão de suas individualidades e de diálogo entre eles, e entre eles e diferentes pessoas da equipe escolar.

Tais ações são fundamentais para dar voz e acolher cada jovem em sua singularidade, tornando a escola “para todos e para cada um” (Kupfer et al). Ao integrar o estudante no coletivo da escola e ao permitir que ele exerça seu protagonismo, a escola realiza sua função de construção de um verdadeiro sentimento de pertencimento que, por sua vez, deve implicar nos resultados de aprendizagem.

Jordana de Castro Balduino Paranahyba é psicóloga, com mestrado e doutorado em Educação e professora adjunta de Psicologia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (FE/UFG). Rosana Ferrari Pandim Lisboa Teixeira é psicóloga, com atuação escolar, e mestranda em psicologia na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (FE/UFG).

Para saber mais

ALMEIDA, A. R. S. (1997) A emoção e o professor: um estudo à luz da teoria de Henri Wallon. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 13, n º 2, p. 239-249, mai/ago.
DANTAS, H. (1992) Afetividade e a construção do sujeito na psicogenética de Wallon, em La Taille, Y., Dantas, H., Oliveira, M. K. Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
FERNANDÉZ, A. (1991) A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas.
LEITE, S. A. S. e cols. (2006). Afetividade e Práticas Pedagógicas. São Paulo: Casa do Psicólogo. 
OLIVEIRA, M. K. (1992) O problema da afetividade em Vygotsky, em La Taille, Y., Dantas, H., Oliveira, M. K. Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
PEREIRA, M. I. G. G. (1998) Emoções e conflitos: análise da dinâmica das interações numa classe de educação infantil. Tese de doutorado, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo.
PINHEIRO, M. M. (1995) Emoção e afetividade no contexto da sala de aula: concepções de professores e direções para o ensino. Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo.
REGO, T. C. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis: Vozes, 1995.
SAVIANI, D. Pedagogia Histórico-Crítica. Campinas: Autores Associados, 2013.
SNYDERS, G. (1993) Alunos felizes. São Paulo: Paz e terra.
KUPFER, M. C. et al. A escola protagonista. Propostas LV para práticas inclusivas e transformadoras. In: KUPFER, M.C.; PATTO, M. H. S.;
OLTOLINI, R. (Orgs.) Práticas inclusivas em escolas transformadoras: acolhendo o aluno-sujeito. São Paulo: Escuta: Fapesp, 2017, p. 9-16.
TASSONI, E. C. M. Afetividade e aprendizagem: a relação professor-aluno. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPEd, 23, 2000, Caxambu. Anais… Caxambu: ANPEd, 2000.
VYGOTSKY, L. S. A construção social do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Para ler na íntegra, acesse: https://novaescola.org.br/conteudo/18215/por-que-usar-a-afetividade-para-mobilizar-adolescentes

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Conheça a nova edição, lançada em 2019, do livro Piaget, Vigostski, Wallon, da Summus Editorial:

PIAGET, VIGOTSKI, WALLON – EDIÇÃO REVISTA
Teorias psicogenéticas em discussão
Autores: Yves de La TailleMarta Kohl de OliveiraHeloysa Dantas


Jean Piaget, Lev S. Vigotski e Henri Wallon são os três maiores teóricos estudados no universo da educação e da psicologia. Nesta edição revista de uma obra consagrada por crítica e público, Yves de La Taille, Marta Kohl de Oliveira e Heloysa Dantas traduzem para o leitor o pensamento vivo desses autores.

Analisando as ideias de Piaget, Yves de La Taille aborda conceitos como ser social, ética, autonomia, coerção versus colaboração e obediência versus justiça. Ao esclarecer os principais construtos da teoria construtivista, ele ressalta a importância da afetividade na educação.

Debruçando-se sobre os contrutos de Vigotski, Marta Kohl de Oliveira destaca tópicos como linguagem, formação de conceitos e metacognição. Partindo de uma abordagem holística do ser humano, a autora analisa a fundo a abordagem sócio-histórica e as implicações da afetividade para a cognição.

Já Heloysa Dantas dedica-se ao pensamento de Henry Wallon, destacando a emoção como instrumento típico da espécie humana e mostrando a interligação entre afetividade e inteligência – concluindo, como seus colegas, que a comunicação afetiva é fundamental para uma educação efetiva.

Trata-se, definitivamente, de um livro fundamental na área da pedagogia.

‘TDAH: TRANSTORNO APARECE NA INFÂNCIA E ACOMPANHA A PESSOA POR TODA A VIDA’

Matéria de Luíza Tiné, publicada originalmente
no Blog da Saúde│UOL VivaBem, em 14/08/2019.


Nem sempre os pais levam a sério quando escutam que o filho não se concentra na sala de aula. Mas você sabia que isso pode ser TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade)? Esse transtorno é neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a vida e se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade.

Segundo a ABDA (Associação Brasileira de Déficit de Atenção), o distúrbio afeta de 3% a 5% das crianças em idade escolar e sua prevalência é maior entre os meninos. Uma das características mais fortes da síndrome é a dificuldade para manter o foco nas atividades e a agitação motora, o que podem prejudicar o aproveitamento escolar.

Na prática, isso significa “questões relacionadas à leitura e escrita, queixas escolares, dificuldades no reconhecimento de algumas palavras, em alguns casos, atraso de fala na compreensão e na decodificação das palavras. O desempenho acadêmico, por exemplo, não é equivalente a uma criança de sua idade e isso implica no seu desenvolvimento”, explica a fonoaudióloga Luiza Aline Monteiro, da Meic (Maternidade Escola Januário Cicco), vinculada à UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e à Rede Ebserh. “Dependendo do apoio que a criança ou adolescente recebe, eles terão mais, ou menos, problemas”, completa.

Se o TDAH for entendido como um transtorno do neurodesenvolvimento, é possível compreender que existem diferenças entre o cérebro de uma criança com TDAH e outra que não tem. “A incapacidade de resposta ao estímulo tem uma relação com circuitos neuronais, que é associado com o córtex pré-frontal, ou seja, muitas vezes a pessoa pode ter o quadro comportamental nítido, mas tem também esse impacto neurológico nesse transtorno”, afirma Rachel Schlindwein-Zanini, neuropsicóloga do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina e vinculado à Rede Ebserh.

O córtex pré-frontal localizado em nosso cérebro tem maior impacto em crianças com TDAH. Essa é uma parte importante, que tem a função de autorregulação comportamental. É por meio dele que se desenvolve a concentração, controle de impulsos, memória operacional, planejamento, flexibilidade cognitiva, autorregularão emocional, tomada de decisão e conscientização. “Uma parte normal importante para o crescimento”, complementa a neuropsicóloga.

Para Monteiro, compreender o desenvolvimento do córtex pré-frontal contribui para o progresso das funções. A criança e o adolescente com esse distúrbio têm dificuldade de compreender as coisas, por isso, é preciso reforços de profissionais. “Quando a gente faz uma leitura, automaticamente a gente faz construção de imagem. Já a criança com TDHA tem essa dificuldade, por conta disso, uma consequência óbvia é que ela terá comprometimento de leitura e escrita” explica.

Diagnóstico

A neuropsicóloga conta que muitas pessoas não se atentam ao diagnóstico de TDHA por falta de informação. “De modo geral, o diagnóstico é multidisciplinar, a criança deve ser atendida por um neuropsicólogo, neurologista, psiquiatra ou psicólogo clínico, fonoaudiólogo e pode também ter uma colaboração outros profissionais”, explica.

Para efeito de diagnóstico, é preciso observar os sintomas que se manifestam ainda na infância, antes dos sete anos e em pelo menos em dois ambientes diferentes (casa, escola, lazer), durante, no mínimo, seis meses. Normalmente o problema fica claro nos primeiros anos de escola, apesar de estar presente desde o nascimento.

Tratamento

A intervenção nesses casos prevê uma atuação que envolva familiares, escola e criança. A multidisciplinariedade é prevista em casos de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, com o envolvimento de profissionais como psicólogo, médico, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional. Quando orientado, o tratamento deve ser medicamentoso, além de contar com a equipe da USF (Unidade de Saúde da Família), que poderá garantir melhores progressos no tratamento do paciente.

Schlindwein-Zanini explica que, quando se tem um atendimento multidisciplinar, os resultados surgem rapidamente. “Quando esse trabalho é feito, a comunicação melhora, a criança amplia seu vocabulário, suas possibilidades, além disso, melhora a organização de pensamento e da compreensão do transtorno”, conta.

Outro destaque é para a realização das atividades que devem ser feitas em um período curto. “É preciso promover jogos e atividades lúdicas, com atividades que gerem prazer para criança e não podem ser muito longas, justamente pela dificuldade de atenção à criança. Ela precisa compreender o seu transtorno”, reforça a especialista. Segundo ela, as essas atividades curtas ajudam as crianças a se organizar no tempo dela. “A organização também precisa ser trabalhada e as crianças respondem muito bem a isso com estímulo, é importante elogiar e mostrar que elas estão evoluindo”, finaliza.

Para ler na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2019/08/14/tdah-transtorno-aparece-na-infancia-e-acompanha-a-pessoa-por-toda-a-vida.htm

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Tem interesse pelo assunto? Conheça:

TDAH E MEDICALIZAÇÃO
Implicações neurolinguísticas e educacionais do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade
Autoras: Rita SignorAna Paula Santana
PLEXUS EDITORA


Esta obra representa uma significativa contribuição a um debate que tem mobilizado pais, educadores, estudantes e profissionais de saúde: o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e a medicalização da educação. Medicalizar significa transformar aspectos de ordem social, pedagógica, cultural e afetiva em doença (transtorno, distúrbio). Partindo dessa realidade inquietante, Rita Signor e Ana Paula Santana mostram os problemas de deixar de lado o contexto social e a história de cada criança ao avaliá-la, apontando o papel da formação dos profissionais (de educação e saúde) na produção do chamado TDAH. Seguindo esse entendimento, as autoras questionam a qualidade do ensino no Brasil, o excesso de diagnósticos voltados ao campo educacional, os testes padronizados da área da saúde, o crescente consumo de medicamentos e as políticas públicas, entre outros fatores que legitimam o fenômeno da medicalização. Amparadas na perspectiva sócio-histórica, refletem sobre essas e outras questões neste livro corajoso e pioneiro, que conta também com dois estudos de caso que comprovam que a afetividade do educador e o trabalho interdisciplinar na escola podem mudar o futuro de muitos adolescentes e crianças.

‘A CIÊNCIA POR TRÁS DA TIMIDEZ’

Texto de Sarah Keating, da BBC, publicado no UOL em 13/08/2019.

A ideia de se enturmar em uma festa te tira a vontade de sair de casa? Ou só de pensar em fazer uma apresentação para uma sala cheia de pessoas te faz ficar angustiado dias antes deste evento de fato acontecer?

Se sim, então você não está sozinho.

Akindele Michael era um garoto tímido. Crescendo na Nigéria, ele passou muito tempo no interior da casa de seus pais. Estes, aliás, não são tímidos. Michael acredita que sua criação dentro de casa explica sua timidez. Ele está certo?

Está em parte, responde Thalia Eley, professora de genética do desenvolvimento e do comportamento no King’s College London.

“Pensamos na timidez como um traço de temperamento, e temperamento é uma espécie de precursor da personalidade”, explica. “Quando crianças muito pequenas começam a se envolver com outras pessoas, você percebe uma variação no conforto que sentem ao falar com um adulto desconhecido.”

Eley diz que apenas cerca de 30% da timidez como característica se deve à genética; o resto vem como uma resposta ao entorno.

A maior parte do que sabemos sobre a genética da timidez vem de estudos que compararam esta característica em gêmeos idênticos – cópias genéticas perfeitas um do outro – com gêmeos não-idênticos – que compartilham apenas metade dos mesmos genes.

Na última década, cientistas como Eley começaram a examinar o DNA em si para tentar encontrar variantes genéticas que possam afetar a personalidade e a saúde mental.

Cada variante genética individual tem um efeito minúsculo, mas quando você considera as milhares de combinações possíveis, o impacto começa a ser mais perceptível. Mesmo assim, a influência dos genes na timidez não pode ser tomada isoladamente.

“Não haverá um, dez ou cem genes envolvidos. Haverá milhares”, diz Eley. “Então, se você pensar em todo o genoma de ambos os pais [de uma criança], existem centenas de milhares de variantes genéticas relevantes”.

Assim, o ambiente é quase mais importante para desenvolver esses tipos de características, ela diz. E uma das coisas interessantes sobre genética é que isso nos leva a nos conectar com aspectos do ambiente que correspondem às nossas predisposições reais.

Por exemplo, uma criança tímida pode ser mais propensa a se isolar em um playground e assistir aos outros em vez de se envolver. Isso faz com que crianças assim se sintam mais confortáveis ??estando sozinhas, porque isso se torna sua experiência recorrente.

“Não é que seja um ou outro: são ambos [genética e ambiente] trabalhando juntos “, diz a pesquisadora. “É um sistema dinâmico. E por causa disso, é sempre possível mudá-lo através de terapias psicológicas.”

A timidez é necessariamente uma coisa ruim?

Chloe Foster, psicóloga clínica do Centro de Transtornos de Ansiedade e Trauma em Londres, diz que a timidez em si é bastante comum, normal e não causa problemas – a menos que se transforme em uma ansiedade social maior.

Foster diz que as pessoas que trata buscam ajuda quando “estão começando a evitar coisas que precisam fazer”, como falar com outras no trabalho, socializar ou estar em uma situação em que acham que serão julgadas.

Eley acredita que pode haver razões evolucionárias para as pessoas desenvolverem traços de personalidade tímidos.

“Era útil ter pessoas do grupo lá fora, explorando e participando de novas comunidades; mas também era útil ter pessoas mais avessas ao risco, conscientes das ameaças. Estas faziam um trabalho melhor protegendo os filhotes jovens, por exemplo”, diz Eley.

A pesquisadora avalia que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a mais eficaz para pessoas com timidez e ansiedade social. Essa terapia, baseada em evidências, funciona tentando mudar padrões de pensamento e comportamento.

A TCC ajuda, por exemplo, a identificar pensamentos negativos ou comportamentos que acreditamos nos ajudar, mas na verdade podem estar gerando mais ansiedade social – como ensaiar com antecedência uma fala ou evitar o contato visual.

Às vezes, o problema é que pessoas tímidas que sofrem com situações como falar em público muitas vezes estabelecem padrões muito elevados para como essas situações devem se desenrolar, explica Foster.

“Elas podem achar que não podem tropeçar nas palavras… ou que têm que ser tão interessantes que todos devem ficar totalmente fascinados no que estão dizendo o tempo todo.”

Se estas pessoas forem capazes de aliviar um pouco da pressão sobre si mesmos, de fazer curtas pausas para respirar, a ansiedade pode ser um pouco aliviada.

Outra coisa que pode ajudar é se concentrar externamente no que está acontecendo ao redor, em vez de internamente em como a ansiedade está fazendo você se sentir fisicamente. Concentrar-se no público, em vez de em si mesmo, pode contribuir.

Desafiar-se a estar mais aberto a novas situações também pode ajudar: “Quanto mais você puder se envolver em situações sociais, mais confiante ficará. Mas lembre-se de abordar estas situações sociais de uma maneira nova também”.

Ou seja: é importante mudar o script (roteiro). Pergunte a si mesmo o que mais teme sobre situações sociais. Você está preocupado em parecer chato? Ou ficar sem coisas para dizer? Quanto mais você conhecer sua ansiedade, mais poderá começar a desafiá-la.

Qual é a diferença entre timidez e introversão?

Jessie Sun, doutoranda na Universidade da Califórnia em Davis que pesquisa a psicologia por trás da personalidade, destaca que a timidez e a introversão não são a mesma coisa.

Enquanto para muitas pessoas a introversão tem a ver com o interesse em explorar pensamentos, para os psicólogos ela faz parte de uma dimensão diferente da personalidade: a abertura a experiências.

Pessoas tímidas são comumente introvertidas, mas elas também podem ser extrovertidos cuja ansiedade atrapalhou a sociabilidade. E os introvertidos não-tímidos podem ser socialmente hábeis, mas que preferem a própria companhia.

Sun diz que “a personalidade é consistentemente um dos mais fortes indicadores da felicidade, e a extroversão tem associações especialmente consistentes com o bem-estar”.

“As pessoas que são extrovertidas tendem a experimentar mais sentimentos de entusiasmo e alegria, enquanto as introvertidas tendem a sentir essas coisas com menos frequência”, explica.

Mas os introvertidos poderiam absorver um pouco dessa alegria e entusiasmo simplesmente agindo de forma extrovertida?

Sun e seus colegas fizeram um experimento. Eles pediram para as pessoas agirem com extroversão por uma semana inteira – um tempo demorado para quem é tímido.

“Pedimos a elas que agissem de forma ousada, falante, ativa e assertiva o máximo possível”, lembra.

A equipe descobriu que, para pessoas normalmente extrovertidas, agir consistentemente desse jeito ao longo de uma semana significou que elas experimentaram mais emoções positivas e se sentiram mais “autênticas”.

Mas as mais introvertidas não experimentaram essa “injeção” de emoções positivas. Aquelas extremamente introvertidas chegaram a se sentir cansadas e experimentaram mais emoções negativas.

“Eu acho que a principal lição é: provavelmente é demais pedir a pessoas introvertidas ou muito tímidas que ajam de forma extrovertida por uma semana inteira. Mas elas podem considerar ‘atuar’ extrovertidamente em algumas poucas ocasiões”, diz Sun.

E a cultura?

Vimos como o ambiente desempenha um papel importante no fato de sermos tímidos ou não. Mas a cultura também pode influenciar?

Diz-se que os Estados Unidos valorizam o comportamento confiante e extrovertido em detrimento da introversão, enquanto estudos descobriram que em partes da Ásia, como no Japão e na China, é mais desejável ser quieto e reservado.

Atitudes em relação ao contato visual também variam enormemente de país para país.

Kris Rugsaken, professor aposentado de estudos asiáticos na Ball State University, diz que “enquanto um bom contato visual é esperado e valorizado no Ocidente, é visto como sinal de desrespeito e desafio em outras culturas, incluindo asiáticas e africanas”.

“Quanto menos contato visual esses grupos tiverem com um indivíduo, mais respeito eles demonstram.”

Apesar dessas diferenças culturais, Sun diz que a pesquisa parece mostrar que os extrovertidos tendem a ser mais felizes mesmo nos países onde a introversão é mais respeitada, mas o grau de felicidade é menos acentuado nesses lugares.

Assim, embora a pesquisa sugira que os extrovertidos acabam sendo mais felizes onde quer que estejam no mundo, ser introvertido não é necessariamente negativo – assim como ser extrovertido nem sempre é positivo.

“Não pense na introversão como algo a ser curado”, escreve Susan Cain em seu livro O poder dos quietos. “Há uma correlação zero entre ser o mais falante e ter as melhores ideias”.

Este artigo foi adaptado de “Why am I shy?”, um episódio do programa radiofônico CrowdScience, do serviço mundial da BBC, apresentado por Datshiane Navanayagam e produzido por Cathy Edwards. Para ouvir mais episódios do CrowdScience (em inglês), clique aqui.

Para ler na íntegra o texto publicado no UOL, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/bbc/2019/08/13/a-ciencia-por-tras-da-timidez.htm

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Tem interesse no tema “timidez”? Conheça:

MORRENDO DE VERGONHA
Um guia para tímidos e ansiosos
Autores: Teresa Flynn, Cheryl N. Carmin, C. Alec Pollard, Barbara G. Markway
SUMMUS EDITORIAL

Pessoas que sofrem de fobia ou ansiedade em situações sociais não conseguem comer diante de outras pessoas, não utilizam banheiro público, fracassam em tentar expressar opiniões, apavoram-se diante de testes ou exames etc. Neste livro um grupo de psicólogos estuda o problema e apresenta um programa para vencê-lo. Analisando situações específicas, oferecem meios de auto-avaliação e recursos para dominar as fobias sociais.

TIMIDEZ
Esclarecendo suas dúvidas
Autores: Lynne Crawford, Linda Taylor
EDITORA ÁGORA

A timidez excessiva interfere na vida profissional, social e emocional das pessoas. Este livro mostra como identificar o problema e como quebrar os padrões de comportamento autodestrutivos da timidez. Apresenta conselhos e técnicas simples e poderosas para enfrentar as mais diversas situações.

‘ELE MATOU A MULHER PORQUE QUERIA VER O CELULAR DELA. CIÚME É LEGAL?’

Texto de Nina Lemos, publicado em sua coluna no UOL Universa,
em 07/08/2019.

“O que você está escrevendo nesse celular?”, “Está falando com quem?”, “Me dá essa senha aí, libera, me deixa ver o que você está escrevendo.”

 Talvez você já tenha passado por isso. Quem sabe o seu namorado ou marido seja do tipo “controlador” e ciumento. Talvez você até ache que isso é “bonitinho”, uma fofura. Pois eu tenho uma história triste e apavorante para contar.

A dona de casa Sandra Nobre dos Santos foi assassinada no interior do Paraná na segunda-feira e o principal suspeito é seu marido (mais uma vez um marido que mata a mulher). Motivo: ele estava com “ciúmes” de uma conversa no celular. Ele chegou em casa e pegou o celular da esposa para ver com quem ela falava e pediu a senha.

Sandra, que carregava o filho mais novo do casal no colo (um bebê de um ano), errou o número. O marido empunhou uma arma. Atirou duas vezes e a matou. Quem contou a história foi uma irmã de Sandra, que ouviu o relato do filho de 11 anos do casal, que viu tudo e está em estado de choque.

Sandra tinha 35 anos e quatro filhos. O suspeito, até a tarde de terça-feira, ainda estava foragido. Ela é mais uma vítima de uma epidemia que cresce no Brasil, a do feminicídio (em alguns estados, como São Paulo, o crime cresceu 76% no primeiro trimestre do ano). Sandra se encaixa em algumas tristes estatísticas:

  • Os parceiros são suspeitos de 71% dos casos de feminicídio no Brasil.
  • O lugar onde uma mulher mais corre perigo é em casa.
  • 30% dos crimes são motivados, segundo pesquisadores, por “ciúme.” “Ciúme”.

Bem, que ciúme é esse, que faz com que alguém mate uma mulher friamente na frente dos filhos?

Não, eu não sou daquelas que acham que todo homem é um assassino ou estuprador em potencial. Agora, vamos encarar a realidade: um cara possessivo, que controla seus passos, que briga por ciúme, que tenta te controlar, saber com que você anda, que reclama das roupas que você veste pode, sim, ser perigoso. Se ele não te matar com um tiro, pode, no mínimo, te deixar infeliz por anos.

Então homens possessivos são, sim, uma ameaça à integridade física e mental das mulheres. Se seu namorado ou marido tiver reações exageradas de ciúme, ligue o alerta. Se ele ficar agressivo quando ciumento, pense que você provavelmente não está em uma relação boa e pode se machucar. Procure ajuda. Fale com uma amiga. Tente escapar. É sério. Nossas vidas estão em jogo. 

Ciúme é saudável?

Há muito tempo, desde que me lembro por gente, ouço as frases: “ah, mas um pouco de ciúme é saudável”; “ah, ciúme apimenta a relação”; “ah, quem ama tem ciúme.”

O que acho, depois de muita experiência na vida e de ler sobre casos como o da Sandra (prestem atenção, eles acontecem todos os dias!) é que ciúme não é bom, não é saudável e muito menos prova de amor. Esse sentimento, assim como controle e posse, são apenas provas de insegurança e babaquice mesmo.

Se um cara a trata como propriedade dele, desculpe: não faz isso porque te ama, mas porque acha que você é propriedade dele. Se alguém te controla, isso não é prova de amor, mas de necessidade de controle, de medir seus passos. Não é romântico. Em doses leves, ciúme é chato. Em doses violentas, é perigoso.

Se não dá a senha do celular

E não, ninguém tem obrigação de contar para quem telefonou, ou tem o direito de invadir o celular de outra pessoa. “Ah, mas quem não deve não teme”, dizem muitos. Discordo fortemente. Celulares e computadores são aparelhos pessoais. As suas conversas com amigas e amigos são só suas. Ninguém tem o direito de invadir a sua privacidade. E, claro, você também não pode invadir a privacidade de ninguém. Deixe o celular do seu namorado em paz!

Nem todos concordam. Em 2015, a dupla sertaneja Henrique e Diego lançou a música “Senha do Celular”, que faz sucesso até hoje. Eles cantam: “Se não deixa pegar o celular/É porque tá traindo/E tá mentindo/Alguma coisa tem/Se não deixa pegar o celular/É porque tá devendo/Me enganando de papo com outro alguém.”

Bem, que imagem é essa que esses homens têm das mulheres? Que estamos por aí, “aprontando”. Bem, mesmo se fosse o caso, não seria motivo para agressão, muito menos morte (é óbvio). Mas não, queridos, existe uma coisa simples chamada individualidade, independência, direito de falar com quem quiser. Acordem!

Ah, mas as mulheres também não são ciumentas? Claro que são. E também são chatas quando enciumadas e também precisam aprender a se controlar. Agora, os dados mostram, por “ciúmes”, alguns homens MATAM. E não, não é por amor.  

Como dizia um slogan antigo de quando eu era criança: “quem ama não mata”. Vou além. Quem ama até sente ciúme. Mas se controla. Por sinal, a capacidade de se controlar, de não sair fazendo tudo o que passa pela cabeça é o que nos difere de crianças e de assassinos. Por isso, se seu parceiro “ficar louco de ciúme”, se assuste. Como diria a dupla sertaneja, se um cara age assim, é porque “alguma coisa tem.”

Para ler na íntegra, cesse:
https://ninalemos.blogosfera.uol.com.br/2019/08/07/ele-matou-a-mulher-porque-queria-ver-o-celular-dela-ciume-e-legal/

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Tem interesse no assunto? Conheça o livro:

CIÚME
O lado amargo do amor
Autor: Eduardo Ferreira-Santos
EDITORA ÁGORA

O autor, psiquiatra, mergulha no tema do ciúme, mostrando as causas de seu surgimento e suas conseqüências para as relações afetivas – como dependência, perda de auto-estima e até distúrbios psicológicos graves. Ele também aponta saídas para situações neuróticas. Afinal, o ciúme acaba transformando o amor, sentimento altruísta por natureza, no mais exacerbado egoísmo.

‘DEPRESSÃO PÓS-PARTO: PORQUE MUITAS VEZES OS SINTOMAS SÃO MENOSPREZADOS’

Reproduzido do Blog do Luiz Sperry,
publicado em 15/07/2019.

Não tenho inveja da maternidade
Nem da lactação
Não tenho inveja da adiposidade
Nem da menstruação
Só tenho inveja da longevidade
E dos orgasmos múltiplos

Não foi à toa que Caetano cantou essa bola. A maternidade não é para qualquer um, muito menos para homens. Diversas mudanças que acontecem dia após dia, com um bebê dentro de você, te impondo de saída uma série de restrições antes mesmo de nascer. É sabido que gestantes são muito sensíveis. Mas eventualmente as coisas ficam piores.

Provavelmente por conta das gestantes serem consideradas sensíveis que os quadros de humor relacionados à gestação e ao pós-parto são complexos. Grande parte dos sintomas são menosprezados como se fosse esperado que a mulher sofresse em decorrência da gestação e, principalmente, das demandas do recém-nascido. Mas a depressão pós-parto, quando ocorre, pode ser devastadora.

Existe uma grande quantidade de fatores que estão relacionados com depressão pós-parto, como: baixo nível sócio-econômico, dificuldades durante a gestação e no parto, dificuldades de relação com familiares ou com o pai da criança, gravidez indesejada, antecedentes de depressão e outros. Somando-se a essas condições as demandas físicas do parto e pós-parto, as variações hormonais intensas causadas pela gestação e aleitamento, surgem os quadros de depressão.

Voltamos então para a velha questão de depressão não é tristeza, depressão não é cansaço. Existe um quadro, chamado de baby blues ou blues puerperal que ocorre em até 80% das mães. Existem alguns sintomas de depressão, como fadiga e/ou irritabilidade, mas não todos para se definir a depressão de fato. Esse quadros podem evoluir para a depressão, que é mais grave e pode impactar na relação mãe-bebê e levar a prejuízo no desenvolvimento da criança.

Por isso é importante estar atento e tratar. Os antidepressivos, apesar de passarem para o leite, são bastante seguros de uma maneira geral. Lembro uma vez, logo que saí da residência, fui trabalhar num posto. Assustado que era, tratei de proibir todas as mães que tomavam antidepressivo de amamentar. Não passou uma semana e as pediatras me esculacharam. Fui pego pelo braço e levado para uma sala onde elas falaram da dificuldade que era para elas conseguir convencer as mães a amamentarem seus rebentos. E eu estava botando tudo a perder. Botei o rabo entre as pernas e pedi desculpa. Ficou a lição de que antidepressivo não é motivo para, necessariamente, interromper a amamentação. E ficou um certo trauma também. Com pediatra não se brinca.

Bem recentemente foi lançado nos EUA a brexanolona, uma medição endovenosa específica para esses casos. Trata-se exatamente de um hormônio sintético, que viria e atenuar os efeitos da variação hormonal intensa após o parto; a ver.

Importante lembrar que talvez o melhor jeito de evitar a depressão na gravidez e pós-parto seja justamente cuidar da mãe e do bebê. Tem coisas que só a mãe pode fazer, mas tem coisas que não necessariamente. Estejamos atentos a isso.

Para ler na íntegra, acesse: https://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/07/15/depressao-pos-parto-porque-muitas-vezes-os-sintomas-sao-menosprezados/

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Quer saber mais sobre o assunto? Conheça o volume da Coleção Guias Ágora que fala especificamente sobre o tema:

DEPRESSÃO PÓS-PARTO
Esclarecendo suas dúvidas
Autora: Erika Harvey
Coleção Guias Ágora
ÁGORA EDITORIAL

O livro mostra a diferença entre a depressão conhecida como “baby blues”, que afeta quase todas as mulheres após o parto, sem maiores conseqüências, e a depressão grave que requer intervenção de profissional capacitado. Saber identificar essa diferença, às vezes bastante sutil, cabe à própria mulher, aos familiares à sua volta e aos seus médicos, e esta leitura é de grande utilidade para todos.

‘NOVOS CAMINHOS PARA O VELHO’

Artigo de Maria Celia de Abreu*, publicado no jornal O globo, em 07/03/2019

Psicóloga e coordenadora de instituto para terceira idade diz que, à medida que sua população envelhece, país terá de rever seus valores sobre o tema

O aumento da longevidade e a diminuição de nascimentos trazem grandes modificações para a distribuição demográfica no Brasil do século XXI. Nos anos 1940, a expectativa média de vida de um brasileiro era em torno dos 40 e poucos anos; hoje, na primeira década do século XXI, vai além dos 70; viver 100 anos já não nos parece uma meta inatingível.

Entretanto, famílias com dez filhos, que eram comuns, tornaram-se uma raridade, ao mesmo tempo em que casais com um só filho, ou sem filhos, são encontrados com frequência. Somos uma sociedade que vem envelhecendo depressa, com tendência a acelerar ainda mais esse fenômeno.

Não é fácil se adaptar a situações novas, que geram uma verdadeira revolução, mas, neste caso, é imprescindível. Precisamos rever com urgência nossos valores em relação ao envelhecimento e ir em busca de bons caminhos para uma velhice com a melhor qualidade de vida possível.

As ciências, entre elas a psicologia, investiram em compreender a adolescência e a infância. Porém, não conhecemos a fundo características de pessoas com mais de 60 anos — que dirá com mais de 80 —,porque a existência delas como um grupo significativo para a população geral do país é recente. Estes estudos estão começando a florescer.

Uma reflexão sobre a qualidade de vida depois dos 80 anos precisa começar por distinguir entre o que é fato comprovado e o que é preconceito. Tal revisão de informações versus crenças deve ser feita pelos idosos e também pelos que com eles convivem, para que seu relacionamento não lhes seja nocivo ou restritivo e também para que os mais jovens se preparem para o seu futuro.

Qual é o valor que se atribui ao velho? Já é tempo de considerar que os seres humanos, qualquer que seja a sua idade cronológica, têm todos o mesmo valor.

Não é por não ser capaz de produzir bens como um jovem que seu papel na sociedade desaparece – crença que nos foi imposta pelo capitalismo e seu endeusamento da produção de bens de consumo. É preciso entender que a função do velho na sociedade só é diferente, mas não é inferior. Incorporar esse novo princípio é um desafio e tanto.

Suas consequências serão variadas: por exemplo, não será mais possível considerar o velho uma caricatura, um estereótipo do qual se debocha. Não vai dar mais para censurar e impedir o velho que se enamora ou que quer para si uma companhia; nem considerar alguém incapaz de trabalhar, de aprender ou de criar, só por sua idade.

Quem se livra do preconceito relativo ao desvalor do velho passa a respeitar sua capacidade de ser autônomo, de fazer escolhas sobre os rumos da própria vida, incluindo como quer usar o patrimônio e o dinheiro que lhe pertencem.

A não ser quando se instalou uma demência cognitiva, o fato de o velho precisar de alguma ajuda para atos cotidianos — como cuidar da casa, da roupa, da alimentação, da locomoção, da higiene — precisa ser discriminado do exercício de sua liberdade. Dependência é uma coisa, autonomia é outra.

Infantilizar o velho, muitas vezes superprotegendo-o, mesmo que seja carinhosamente, tolhe suas iniciativas, humilha, diminui, provoca a estagnação e o retrocesso.

À luz dessas reflexões, instituições tradicionais, tais como as propostas de moradia para quem tem mais de 80 anos, estão sendo radicalmente revistas. Não se aceita mais que a individualidade de cada morador seja ignorada, que suas funções cognitivas e de sociabilidade não sejam estimuladas, que seja tirado do morador asilado o exercício da liberdade.

O próprio interessado, desde que lúcido, deve fazer sua escolha de onde quer morar, e esta ser respeitada, sem mágoas e ressentimentos. Hoje, morar em uma instituição de longa permanência para idosos é uma opção tão válida quanto morar com um parente ou sozinho, com ou sem a presença de um cuidador.

É animador constatar que surgem caminhos novos para melhor atender a população crescente de quem tem mais de 80. O Sesc foi pioneiro em oferecer atividades e cursos para idosos. Faculdades da terceira idade são relativamente recentes, e se propagaram muito rapidamente, bem como cursos de iniciativa isolada específicos para idosos: informática, atualidades, dança e teatro e por aí afora, respondendo a demandas.

Há empresas de turismo atendendo a velhos. A indústria de calçados e de confecções começa a perceber que velhos precisam de mercadorias com características diferenciadas. As faculdades voltadas para a área da saúde começaram a incluir em sua grade curricular a disciplina da gerontologia. Nos hospitais, as maternidades estão diminuindo e as UTIs, crescendo, enquanto a medicina preventiva passa a ser valorizada.

Centro-dia

Surgida há poucos anos, a instituição conhecida como centro-dia vem se multiplicando rapidamente, provando sua utilidade e adequação. É um local onde a pessoa idosa passa algumas horas, embora continue morando em sua residência; ali lhe são oferecidas atividades que visam inclusão social, como a estimulação de habilidades cognitivas, a escuta de sua fala e o favorecimento da socialização.

Não é um local onde o velho é “depositado” enquanto os membros da família estão trabalhando e estudando e não podem supervisioná-lo, mas onde seu frequentador continua crescendo como ser humano, estimulado, desafiado, com acolhimento, respeito e alegria.

Infelizmente, nossa sociedade ainda não consegue dar as mesmas oportunidades aos velhos de todas as classes socioeconômicas. Os mais pobres, como sempre, saem penalizados. O fundamento desta realidade é o preconceito torto, pernicioso, falso, de que o rico vale mais que o pobre — um modo de pensar a ser destruído, tanto quanto seu paralelo, o de que o jovem vale mais que o velho.

São muitos os caminhos possíveis a serem descobertos que conduzem a uma vida de mais qualidade para quem já viveu pelo menos 80 anos. São muitos os tabus que dificultam essas descobertas e que necessitam ser desmascarados.

Nessa aventura pioneira, a mídia tem uma função fundamental, seja para estimular a reflexão, seja para apontar soluções e divulgar as que comprovam ser efetivas. Muita coisa há de mudar para melhor para os velhos que vivem no século XXI.

* Maria Celia de Abreu é psicóloga com doutorado pela PUC-SP e coordenadora do Ideac (Instituto para o  Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico)

Para acessar na íntegra: https://oglobo.globo.com/sociedade/artigo-novos-caminhos-para-velho-23503082

§§§

Maria Celia de Abreu é autora do livro “Velhice – Uma nova paisagem”, da Ágora. Conheça-o:

VELHICE
Uma nova paisagem
EDITORA ÁGORA

Estima-se que, em 2050, a população de pessoas com mais de 60 anos comporá 30% da população brasileira, ou seja, cerca de 66,5 milhões de pessoas. Ao lado do grande crescimento do número de idosos, há também o aumento da expectativa de vida: hoje, no Brasil, vive-se em média 75 anos. Assim, todos nós estamos ou muito em breve estaremos envolvidos com velhos: por sermos idosos, por termos alta probabilidade envelhecer ou porque nossos produtos tendem a ser consumidos por esse público. Por que, então, a velhice permanece um estigma em nossa sociedade?

A fim de mudar essa visão, a psicóloga Maria Celia de Abreu propõe neste livro transformar visões e ideias preconcebidas a respeito do velho. Partindo de estudos teóricos sobre a psicologia do envelhecimento e de vivências colhidas em grupos de estudos, ela propõe que a vida passe a ser encarada como uma estrada que percorre diversas paisagens diferentes – nem melhores nem piores que as outras.

Com exercícios de conscientização e exemplos práticos, a autora discorre sobre inúmeros assuntos pertinentes à velhice, como corpo, sexualidade, memória, perdas, luto e depressão. Fundamental para idosos, seus familiares, cuidadores, pesquisadores e para todos os que desejam envelhecer com saúde, autoconfiança e alegria, a obra conta com depoimentos de importantes personalidades sobre emoções que sentem ao encarar a ideia da velhice.

‘4 FORMAS INADEQUADAS DE LIDAR COM A RAIVA’

Artigo publicado originalmente no site A Mente é Maravilhosa,
em 13/01/2019.

A raiva não desaparece sozinha, nem por magia. Quando sentimos essa emoção invasiva, é muito importante expressá-la da maneira adequada. Caso contrário, podemos acabar ficando doentes.

Lidar com a raiva de maneira inadequada é um costume que pode provocar consequências desastrosas. A raiva é uma dessas emoções invasivas que, muitas vezes, nos leva a fazer besteiras. Acabamos falando ou fazendo alguma coisa que nos prejudica e/ou prejudica as pessoas que amamos.

Infelizmente, por vezes, a raiva é vista de forma mais ou menos positiva. O chefe que grita ou o pai rígido podem acreditar que suas explosões de humor são uma demonstração de seriedade ou compromisso.

No entanto, a raiva descontrolada dificilmente gera algo positivo. Pelo contrário, machuca, fere e acaba gerando mais raiva e ressentimento nos outros. Por isso é tão importante aprender a lidar com a raiva.

Não se trata de não senti-la, porque a raiva, assim como todas as emoções, é uma reação legítima em muitos casos. O importante é não deixar que assuma o controle. Ou seja, não deixar a emoção ditar o que é preciso fazer. A seguir, vamos apresentar quatro maneiras inadequadas de lidar com a raiva.

  1. A contenção absoluta, uma forma inadequada de lidar com a raiva

A contenção absoluta nunca é um caminho válido para lidar com a raiva, nem com outras emoções. Negar o que se sente, aprisionar, evitar ou tentar ignorar o que sentimos não é adequado. Nenhuma repressão é positiva.

Essa energia que pretendemos asfixiar dentro de nós mesmos sempre retorna em forma de outro sintoma físico ou psicológico. Assim, o melhor caminho não é morder os lábios e tentar seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

O que podemos fazer é pensar em um primeiro momento para evitar que ocorra uma dessas explosões de raiva. Assim, evitamos que se voltem contra nós ou contra quem amamos. A serenidade dará lugar a um cenário mais propício para expressar a emoção.

  1. Descarregar a raiva sobre si mesmo

Uma das consequências de reprimir a energia que acompanha a raiva é que ela acaba explodindo dentro de nós. As emoções não se diluem, nem desaparecem sozinhas. Quando não as gerimos, acabam se transformando em algo indesejado. É comum que essa raiva que guardamos, posteriormente, se transforme em uma agressão contra nós mesmos.

A depressão muitas vezes encobre uma raiva reprimida. A raiva está aí, mas em vez de se dirigir a quem a causou, se volta contra nós. É nesse momento que aparecem as recriminações e o ressentimento.

Também é possível que surjam enxaquecas, vertigens e outros sintomas físicos. Não devemos perder de vista a fonte da raiva. O que fez com que esse sentimento aparecesse?

  1. Adotar atitudes passivo-agressivas

As atitudes passivo-agressivas são aquelas nas quais as palavras, os gestos ou os atos denotam raiva, mas esta não é expressada diretamente. Pelo contrário, é ocultada.

São colocados enfeites ou véus que amenizam a raiva, mas não a canalizam nem a solucionam. O exemplo mais típico são as indiretas. A pessoa diz, mas não diz.

Lidar com a raiva dessa maneira não é adequado porque gera confusão, tanto para você quanto para os outros. A pessoa não consegue manifestar abertamente o incômodo, mas também não fica completamente quieta.

O problema é que isso pode dar lugar a uma prorrogação desnecessária do conflito ou a novas fontes de problemas.

  1. Descontar a raiva em pessoas inocentes

A raiva, às vezes, gera redes de agressão que são completamente irracionais. Vamos supor que um chefe fique incomodado de alguma maneira com sua funcionária. Ela não responde, mas quando conversa com seu namorado, se mostra contrariada e o recrimina sem razão. O namorado não responde, mas guarda um certo incômodo dentro de si. Por isso, chega em casa e se mostra excessivamente intolerante com seu irmão mais novo, com quem acaba gritando. A criança não responde, mas brinca de forma brusca com o animal de estimação para atenuar a raiva que está sentindo.

Dessa maneira, forma-se um círculo de agressões, sem que em nenhum ponto o sentimento seja administrado de maneira adequada. Alguém completamente inocente pode acabar sofrendo as consequências de uma má gestão emocional. Como se pode ver, isso deteriora os vínculos sem nenhuma necessidade.

Aprender a lidar com a raiva é muito importante para criar ambientes saudáveis e relações mais construtivas. O adequado é sempre expressar nossos incômodos para a pessoa que os causou. Manifestar abertamente que repudiamos um tratamento injusto, sem consideração ou pouco respeitoso.

Fazer isso depois de ter recuperado a serenidade – se for impossível falar, coloque tudo no papel, sem filtros – é de grande ajuda.

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Para ler na íntegra, acesse:
https://amenteemaravilhosa.com.br/4-formas-inadequadas-lidar-com-a-raiva/

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Tem interesse pelo assunto? conheça:

QUANDO A RAIVA DÓI
Acalmando a tempestade interior
Autores: Peter D. Rogers, Matthew McKay e Judity Mckay
SUMMUS EDITORIAL

A raiva tem um preço alto, nem sempre justificado. As causas muitas vezes se diluem, restando apenas feridas e mágoas., distanciamento, amargura e profunda autodesvalorização. Este é um guia-prático para pessoas que queiram lidar com sua raiva, que se cansaram do desgaste físico e emocional que ela provoca, que buscam formas melhores de expressar suas insatisfações e problemas.

 

‘EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS É NECESSÁRIA PARA QUE O SEXO NÃO SEJA REPRIMIDO’

Artigo de Regina Navarro publicado originalmente em seu blog no UOL Universa,
em 09/01/2019.

Pesquisa Datafolha, feita com 2077 pessoas em 130 municípios, perguntou aos brasileiros sobre dois temas: educação sexual e discussão política em sala de aula. A conclusão foi de que 54% concordam com educação sexual nas escolas e 71% acreditam que assuntos políticos devem ser abordados.

Escolhi o primeiro tema para tratar aqui. A educação sexual nas escolas é fundamental, na medida em que contribui para evitar gravidez precoce, DSTs, homofobia e violência contra a mulher. O debate com os alunos pode contribuir, e muito, para a diminuição dos preconceitos e a maior aceitação da diversidade.

Desde cedo as crianças aprendem que todas as ofensas e xingamentos estão ligados ao sexo. A partir daí concluir que sexo é algo sujo e perigoso é o caminho mais comum. A consequência na vida adulta é a grande quantidade de pessoas que sofrem com seus medos, culpas, dúvidas, frustrações e disfunções sexuais.

O psicoterapeuta e escritor José Ângelo Gaiarsa dizia que sexo reprimido é liberdade reprimida e acrescentava: “O sexo é responsável pela maior perseguição na área dos costumes humanos e o maior mistério diante do óbvio. Todas as forças repressoras de todas as épocas se voltaram sistematicamente contra a sexualidade humana”.

Um bom exemplo é o que ocorreu, há pouco mais de um ano, quando 150 pais indignados fizeram um abaixo-assinado e o entregaram ao Ministério Público de Rondônia. Eles queriam a retirada de um livro escolar da 8ª série que tem ilustrações de um pênis, autoexame de mama e do órgão reprodutor feminino, na cidade de Ji-Paraná (RO).

Sem ser percebida como tal, a repressão sexual vai se instalando e condiciona o surgimento de valores e regras para controlar a sexualidade das pessoas. Tudo isso passa a ser visto como natural, fazendo parte da vida, o que causa grandes prejuízos.

Para ler na íntegra, acesse: https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/01/09/educacao-sexual-nas-escolas-e-necessaria-para-que-o-sexo-nao-seja-reprimido/

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Conheça alguns dos livros do já falecido psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa, mencionado no artigo:

 

AMORES PERFEITOS

Para J. A. Gaiarsa, um dos maiores críticos da família e da hipocrisia social que a cerca, o conjunto de regras que obedecemos desde que nascemos – regras essas que transmitimos a nossos filhos mesmo tendo sofrido com elas – só serve a um propósito: o da opressão. Neste livro, ele mostra que o amor não pode ficar restrito a determinadas amarras. Prepare-se para rever todos os seus (pre)conceitos sobre fidelidade, família, relacionamentos e felicidade.

 

SEXO: TUDO QUE NINGUÉM FALA SOBRE O TEMA

Como o próprio título indica, e sendo o autor quem é, este livro fala sobre intimidades, em linguagem permitida apenas com o espelho ou pessoas muito íntimas. A intenção era essa mesmo: ajudar o leitor a despir suas máscaras sociais e refletir com honestidade sobre sua própria sexualidade, que inclui o corpo a corpo e a afetividade.

 

EDUCAÇÃO FAMILIAR E ESCOLAR PARA O TERCEIRO MILÊNIO

Gaiarsa combate aqui a idéia de que o indivíduo nasce com aptidões mínimas de aprendizado. Ao contrário, a revolução pedagógica proposta pelo autor fundamenta-se em que toda criança, ao nascer, é um gênio potencial; aprender vai muito além de palavras; durante a infância são incutidas no indivíduo grande parte das perturbações mentais, psiconeuróticas e psicossomáticas que conhecemos. Obra indicada para psicólogos, educadores e leigos.

 

SOBRE UMA ESCOLA PARA O NOVO HOMEM

Aqui o autor ajuda a questionar (e demolir!) o sistema educacional brasileiro, que, segundo ele, é arcaico e reacionário. Educar significa conduzir, diz ele, e a escola não está cumprindo seu papel. Além de críticas, o livro traz idéias e propostas para humanizar o ensino e ajudar as crianças a se prepararem para um mundo diferente.

 

A FAMÍLIA DE QUE SE FALA E A FAMÍLIA DE QUE SE SOFRE
O livro negro da família, do amor e do sexo

Ardoroso defensor da criança em estado puro – ou seja, sem a intervenção maléfica dos adultos –, José Angelo Gaiarsa analisa nesta obra, em edição revista, como transformamos um ser pleno de possibilidades em um indivíduo mesquinho, preconceituoso e frustrado.

A fim de inspirar novas leis sobre a família e provocar no leitor reflexões sobre seu modo de agir diante dos filhos e da vida, o autor propõe o resgate do prazer, da amorosidade e da espontaneidade para aprimorar os relacionamentos. Afinal, diz ele, “a finalidade primeira de qualquer civilização amante da vida é empenhar-se por inteiro para que a geração seguinte seja definitivamente melhor, oferecendo a todo ser humano recém-nascido tudo de que ele precisa e todos de que precisa”.