‘O LADO B DA PSIQUIATRIA: EXPANSÃO DE DIAGNÓSTICOS TRAZ LUCRO À INDÚSTRIA’

Do Blog do Luiz Sperry, publicado no VivaBem UOL em 02/12/2019.

Não é segredo que o número de casos de transtornos mentais têm aumentado, qualquer que seja o enfoque utilizado. Mais consultas, mais internações, muito mais medicações. De modo irregular, mas constante, a psiquiatria vem saindo do espaço da obscuridade e chegando lentamente a parcelas cada vez maiores da população. Alguns saúdam isso como um dado positivo, mas tenho cá minhas reservas. Vamos aos fatos.

A demanda por serviços de saúde mental não para de crescer. O número de consultas psiquiátricas, internações psiquiátricas, sessões de terapia e diárias de hospitais-dia, que é uma modalidade onde o paciente passa o dia no hospital mas volta para casa à noite, cresceu muito no país. Os dados são da Agência Nacional de Saúde Suplementar, ou seja, não incluem pacientes SUS, e estiveram em pauta em seminário promovido recentemente pela Folha de S.Paulo. Mesmo assim são um forte indício de que a demanda por estes serviços tem aumentado de forma constante. Sobre esses dados, o professor Wagner Gattaz, do IPq da USP (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo) diz o seguinte: “É uma ótima notícia. Tratar saúde mental é contribuir com menos sofrimento para os pacientes”.

Não é fácil discordar dessa afirmação. Se os pacientes não chegam ao tratamento, fica muito mais difícil se fazer um diagnóstico preciso e intervir adequadamente. Acontece de modo semelhante ao que conta Chimamanda Ngozi Adichie, em seu maravilhoso romance “Americanah” (Companhia das Letras). Em um certo momento a protagonista, Ifemelu, sai da Nigéria e vai estudar nos Estados Unidos, mas ao se deparar com as dificuldades de se ver estrangeira num outro país, acaba por ficar deprimida. Uma amiga a adverte, mas é difícil para ela acreditar. “As pessoas não ficam deprimidas na Nigéria. Não que não fiquem deprimidas, elas ficam, mas não se chama isso de depressão. Não se fala sobre depressão”. Depressão no seu conceito era algo que poderia acontecer apenas com americanos. Americanos brancos.

O desconhecimento sobre as doenças mentais não é um fenômeno nigeriano, obviamente. No Brasil, mesmo nos grandes centros urbanos, ainda existe uma grande resistência aos serviços de saúde mental, mesmo quando estão disponíveis. E doenças sobre as quais não se falam são mais difíceis de serem detectadas.

Porém existe algo que também salta aos olhos nesse aumento. Como em qualquer serviço regulado por regras de mercado, muita gente ganha dinheiro com isso. No bom texto: “Pode a Psiquiatria se Curar Ela Mesma?” de John Horgan na Scientific American, a crítica é categórica: é necessário menos foco em ganhar dinheiro e mais em ajudar as pessoas. Ele ressalta que ao longo de seu percurso científico no último século, a psiquiatria muitas vezes esteve associada a práticas torpes como o coma insulínico e a lobotomia, e nem sempre pelos melhores motivos. Parte das políticas eugenistas do 3º Reich nazista foram inspiradas por políticas de saúde mental vindas da Associação Psiquiátrica Americana.

A respeito da psiquiatria atual, as críticas não são mais leves. Ela prometeria demais e entregaria pouco, em um conluio com os laboratórios e parte da mídia, ávidos por vender novos medicamentos e novidades sensacionalistas. Além de esconder suas evidentes fragilidades, tão bem descritas por Thomas Insel, um ícone da biopsiquiatria: “Não nos movemos um milímetro na redução de suicídio, na redução das internações ou de melhorar a recuperação de dezenas de milhões de pessoas com doença mental.”

Uma realidade não exclui a outra. Uma parte das pessoas de fato se beneficia, mas tem um monte de gente ganhando muito dinheiro vendendo doenças e tratamentos com finalidades menos cristãs do que apregoam.

Para ler na íntegra, acesse https://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/o-lado-b-da-psiquiatria-expansao-de-diagnosticos-traz-lucro-a-industria/

Tem interesse pelo assunto? Conheça o livro:


A TRISTEZA PERDIDA
Como a psiquiatria transformou a depressão em moda
Autores: Jerome C. WakefieldAllan V. Horwitz
SUMMUS EDITORIAL

Nos últimos anos, a depressão se transformou no distúrbio mais tratado por psiquiatras. Ao mesmo tempo, o consumo de antidepressivos aumentou significativamente. Neste livro, Horvitz e Wakefield criticam tal postura, mostrando que a tristeza, comum a todo ser humano, vem sendo tratada como doença – e expondo as implicações dessa prática para a saúde.

NOITE DE AUTÓGRAFOS DE “RAIOS E TROVÕES” AGITA LIVRARIA DA VILA, EM SP

Bruno Capelas autografou seu livro Raios e trovões – A história do fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum, recém-lançado pela Summus. O evento aconteceu ontem, 27/11, na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho. Veja abaixo algumas fotos do lançamento.

Conheça o livro:

RAIOS E TROVÕES
A história do fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum
Autor: Bruno Capelas
SUMMUS EDITORIAL

“Morcego, ratazana, baratinha e companhia: está na hora da feitiçaria!”. Lançado em 1994 pela TV Cultura, o Castelo Rá-Tim-Bum é até hoje a maior produção infantil já feita pela televisão brasileira. Nesse sentido, Raios e trovões dá a senha para os leitores que quiserem entrar nos bastidores do programa: dos detalhes de figurinos e cenários à rotina de gravações, passando pela criação dos roteiros e escolha do elenco. Baseado em mais de 30 entrevistas com quem viveu o Castelo, o livro mostra como a Cultura conseguiu, em meio a um dos piores momentos da economia brasileira, realizar um projeto que marcou gerações, unindo entretenimento, informação e educação. Para isso, Bruno Capelas faz um mergulho pela história da emissora, em uma trajetória que passa por antenas, incêndios, bonecos de espuma e muito bom humor. Raios e trovões também avança até os dias de hoje, contando por que personagens como Nino, Zequinha, Dr. Victor, Celeste, Bongô, Penélope e Etevaldo permanecem vivos no coração e na mente de crianças pequenas e de outras já bem crescidas – afinal, “porque sim não é resposta!”

“JOÃO CÂNDIDO, O ‘ALMIRANTE NEGRO’, É RECONHECIDO COMO HERÓI DO RJ”

Ele liderou a Revolta da Chibata há 109 anos. O nome dele está agora no Livro dos Heróis do Estado.

Por Paulo Renato Soares, RJ2, publicado no G1 em 20/11/2019.

Em novembro de 1910, um marinheiro negro liderou a Revolta da Chibata, um motim contra castigos impostos por oficiais brancos da Marinha.

Nesta semana, 109 anos depois, João Cândido Felisberto, conhecido como o “Almirante Negro”, foi reconhecido como herói do estado do Rio pela Assembleia Legislativa.

O caminho até o reconhecimento foi longo. Nesta quarta-feira (20), Dia da Consciência Negra, o único descendente vivo dele falou sobre o sentimento de ver o nome do pai no livro dos heróis.

“É muito gratificante o Estado do Rio de Janeiro ceder essa moção ao meu pai, como herói estadual. E foi ali, perto da assembleia mesmo, que teve o movimento de 1910, na Praça XV”, diz Adalberto do Nascimento Cândido, de 81 anos.

João Cândido Felisberto foi o líder da revolta da chibata, em 1910. Um motim de marinheiros que não aceitavam mais receber chibatadas de oficiais brancos como punição. O ato de coragem e a vida do almirante negro viraram símbolo da luta contra o racismo.

Em São João do Meriti, onde ele passou os últimos dias de vida, amigos da família comemoraram e lembraram que João Cândido é inspiração para todos os negros do país.

“A gente vive ainda um contexto de muita dificuldade pras pessoas negras no país, os pobres, de modo geral, e a gente entende que é um legado que precisa ainda ser reforçado pra se modificar”, diz Carlos André Teixeira, diretor do museu Murilo Braga e amigo da família de João Cândido.

A lei que reconhece João Cândido como herói do Rio de Janeiro foi de autoria dos deputados André Ceciliano e Waldeck Carneiro, ambos do PT. Ela foi sancionada e publicada no Diário Oficial do Estado.

O nome dele está agora no Livro dos Heróis do Estado, onde estão os registros de quem contribuiu para a defesa, o progresso ou desenvolvimento do Rio, do Brasil ou da Humanidade.

Agora, representantes de movimentos negros que defendem a história de João Cândido esperam que o Congresso Nacional faça o mesmo. Um projeto de lei que reconhece o Almirante Negro como herói nacional está parado.

“Estão no mesmo estágio, esperando uma vista dessa comissão de defesa nacional”, diz Leila Regina, assessora da Casa da Cultura. “Aliás, cabe dizer que a lei que quer inserir o nome de João Cândido como herói nacional, as leis, as duas são as únicas que estão sofrendo essa espera, esse impacto todo.”

O filho de João Cândido sabe que lutar pelo reconhecimento do pai também é lutar contra o racismo …

“A luta social ainda continua, muita desigualdade ainda entre os povos, então o meu pai deixou um exemplo para os demais lutarem sempre, nunca esmorecerem”, disse Adalberto.

Para ler na íntegra e assistir ao vídeo da reportagem, acesse:
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/11/20/joao-candido-o-almirante-negro-e-reconhecido-como-heroi-do-rj.ghtml


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Quer saber mais sobre João Cândido? Conheça sua biografia publicada pela Selo Negro Edições:

JOÃO CÂNDIDO
Retratos do Brasil Negro
Autor: Fernando Granato
SELO NEGRO EDIÇÕES

Conhecido como “Almirante negro”, João Cândido Felisberto foi o líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910. Figura importante na luta por melhores condições na Marinha, esse herói brasileiro só teve sua anistia concedida em 2008, 39 anos após sua morte. Fruto de ampla pesquisa, esta biografia mostra o lado humano de João Cândido, cuja vida foi marcada por tragédias, perseguições e miséria.

Esta obra faz parte da Coleção Retratos do Brasil Negro, coordenada por Vera Lúcia Benedito, mestre e doutora em Sociologia/Estudos Urbanos pela Michigan State University (EUA) e pesquisadora e consultora da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. O objetivo da Coleção é abordar a vida e a obra de figuras fundamentais da cultura, da política e da militância negra. Conheça todos os volumes da coleção em https://bit.ly/2OxCAl1

‘NOVO ENSINO DE HISTÓRIA DA ÁFRICA NO PAÍS DESTACA RESISTÊNCIA E CULTURA AFRO’

Implementação de lei que tornou obrigatória a temática no currículo é irregular entre estados e municípios

Matéria de Angela Pinho, publicada na Folha de S. Paulo,
em 19/11/2019.

Eles à noite ganham vida, mandam cartas para as crianças e, no final do ano, saem de férias  para voltar com novos objetos.

Os bonecos da família Abayomi estão no centro do trabalho pedagógico da Escola Municipal Nelson Mandela, no Limão (zona norte de SP), que atende crianças de 4 a 6 anos. O pai, Azizi, é um príncipe africano. A mãe, Sofia, é sua mulher e branca. O casal tem dois filhos miscigenados, um de cor mais clara e outro de uma mais escura.

A partir da história deles, construída em conjunto com as crianças, a escola aborda diversos temas relacionados às questões étnico-raciais, como o racismo, a explicação biológica para a diferença de cor da pele e outras.

A escola é uma das que transformaram seu currículo desde a sanção da lei que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afrobrasileira. Dezesseis anos após a legislação entrar em vigor, a implementação da medida ainda é irregular pelo país. As iniciativas existentes, porém, têm cada vez mais tentado mostrar uma história do negro que vai muito além da escravidão.

Ao analisar os planos de educação de todos os estados e de uma amostra de municípios do país para uma publicação do Conselho Nacional de Educação (CNE) de 2018, a cientista social Edilene Machado Pereira, doutora pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), constatou que os planos estaduais, em regra, contemplam o previsto na lei, com ações que viabilizem a efetiva implementação, como capacitação de professores e produção de material didático.

Nos planos municipais, porém, muitas vezes há menção à lei, mas sem indicação de ações que a tornem efetiva. Ela observou ainda que muitos dos documentos, tanto no âmbito estadual como municipal, têm redação semelhante.

Curiosamente, entre as regiões analisadas, destacou-se a Sul, que tem a menor proporção de população negra, com uma série de ações.

Para Ivan Siqueira, presidente da Câmara de Educação Básica do Ministério da Educação, isso se deve à consolidação do quadro de técnicos das secretarias de Educação dessa região.

“Muitos estados e municípios colocaram a lei no currículo, mas quando se vai ver o que de fato acontece, verifica-se que, em muitos, é letra morta”, afirma. “O país avançou nesse sentido, mas é preciso fazer mais.”

Doutora em educação pela USP e consultora do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), Waldete Tristão corrobora a afirmação. Ela trabalha como formadora de educadores nessa temática. “Ainda nos surpreendemos ao chegar em instituições e secretarias e ver que, para muitos, esse é um assunto novo”, diz.

Nas escolas onde a lei saiu no papel, consolida-se cada vez mais a ideia de que falar em história e cultura afrobrasileira é ir muito além do período da escravidão, e enfatizar não só a opressão, mas também a resistência dos negros.

É o que ocorre na Nelson Mandela, que decidiu adotar esse nome por sugestão da própria comunidade escolar após um episódio traumático. Depois de começar a priorizar o tema, o muro do colégio amanheceu com uma pichação com uma suástica e a seguinte inscrição: “Vamos cuidar do futuro de nossas crianças brancas”.

A partir do episódio, em 2011, a escola decidiu aprofundar o trabalho, que todo ano é desenvolvido a partir de um tema.

Neste, cada sala ganhou o nome de uma mulher negra, como a cantora Dona Ivone Lara, a artista Lia de Itamaracá e a guerreira Dandara, mulher de Zumbi dos Palmares. As crianças pesquisam sobre elas e, a partir das descobertas, aparecem com perguntas, que vão do motivo de a cor da pele ser diferente de pessoa para pessoa e de por que algumas das homenageadas foram discriminadas. No segundo semestre, buscam saber mais sobre a própria história. Os pais também participam de muitas das atividades.

Como resultado, diz a coordenadora Marina Basques Masella, famílias que não se viam como negras passam a se reconhecer, e as crianças desenvolvem vocabulário para nomear as coisas em geral, e o racismo em particular, além de reconhecerem suas características físicas como referenciais de beleza, o que não acontecia antes para as negras.

Em vigor desde 2018, o currículo da cidade de São Paulo prevê que as crianças tenham contato com brinquedos e manifestações artísticas de origem africana ou afrobrasileira nas primeiras séries do ensino fundamental. Nas posteriores, o tema entra em cena em conteúdos de história e geografia, entre outras disciplinas.

Norteadora dos currículos das redes de ensino, a Base Nacional Comum Curricular também prevê a abordagem de cultura africana e da história do continente antes, durante e depois da escravidão.

A preocupação em ampliar o foco está presente também no ensino superior, que forma os futuros professores.

A tendência é privilegiar cada vez mais os atores africanos ao contar a história do continente, levando-se em conta a sua enorme heteogeneidade, diz Leila Leite Hernandez, professora de história da África na USP. Isso significa dizer quem eram os africanos, de onde vieram, o que faziam etc.

Ela explica que, ao se falar da servidão, há uma ênfase crescente na resistência dos negros, tanto na forma de rebeliões como em outras, como o trabalho lento e as fugas para o interior.

A nova abordagem abriu espaço para que as novas gerações aprendam na escola episódios como a Revolta dos Malês, levante de escravos muçulmanos na Bahia ocorrido em 1835.

Apesar dos avanços, Leila avalia que ainda é preciso mais. Na USP, pioneira na abordagem do tema no curso de história, a África é tema de apenas um semestre de disciplina obrigatória. E em outros espaços, nem isso.

“Em alguns lugares, a história da África continua sendo ensinada pelo marco da escravidão, que conta a história pela metade. É um problema tanto do ponto de vista da historiografia como da valorização da criança negra.”

Se conhecer o que passou é fundamental, ainda não é o suficiente, dizem educadores que trabalham com o tema.

“Não podemos nos ater ao passado. É preciso entender qual o legado da história dos povos africanos no Brasil nas relações cotidianas”, diz Manuelita Falcão Brito, superintendente de educação básica da Secretaria da Educação da Bahia. Por exemplo, compreender a relação entre escravidão e racismo e desigualdade.

O estado trabalha com o tema de forma transversal, com prioridade à formação de professores. Iniciativas das próprias escolas também são incentivadas.

Na rede particular, a prioridade à temática varia, ainda que a abordagem seja obrigatória, uma vez que está na BNCC.

Na região central de São Paulo, o Colégio Equipe é um dos que nos últimos anos passou a dar mais espaço ao assunto. Antes de se trabalhar a escravidão, a disciplina de história no ensino fundamental expõe aos alunos as diversas realidades africanas. Em uma parceria com a área de língua portuguesa, o tema é ampliado com a história em quadrinhos “Angola Janga”, de Marcelo D’Salete, que trata do quilombo de Palmares.

A ideia da escola é também ir além do passado. “Zumbi ainda é uma personalidade importante. Mas, mais do que personagens, a discussão caminha para atores sociais que atuam ainda hoje”, diz o professor de história Mauricio Freitas.

LIVROS PARA CONHECER MELHOR A HISTÓRIA DOS POVOS AFRICANOS

A África na Sala de Aula – Visita à História Contemporânea”, de Leila Leite Hernandez (Selo Negro, 680 págs., R$ 74 a R$ 81)

“Agbalá – um lugar continente”, de Marilda Castanha (Cosac Naify, 48 págs., a partir de R$ 17,90 na Amazon)

“Angola Janga”, HQ de Marcelo D’Salete (Editora Veneta, 432 págs., R$ 58 – R$ 89,90)

Coleção História Geral da África – dois volumes editados por Valter Roberto Silvério e disponibilizados para download gratuito no site da Unesco

“Coração das Trevas”, de Joseph Conrad (diversas editoras). A professora da USP Leila Leite Hernandez sugere aos adolescentes ler e emendar com o filme Apocalipse Now

“Histórias da Preta”, de Heloisa Pires Lima (Companhia das Letrinhas, 64 págs., R$ 35,90)

“Toques do Griô – memórias sobre contadores de histórias africanos”, de Heloisa Pires Lima e Leila Leite Hernandez (Melhoramentos, R$ 24,90 a R$ 49,60)

Fontes: Leila Leite Hernandez e Mauricio Freitas

Para ler na íntegra (apenas para assinantes da Folha de S. Paulo ou UOL), acesse https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/11/novo-ensino-de-historia-da-africa-no-pais-destaca-resistencia-e-cultura-afro.shtml

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Conheça o livro A África na sala de aula, de Leila Leite Hernandez, publicado pela Selo Negro Edições:

A ÁFRICA NA SALA DE AULA
Visita à história contemporânea
Autora: Leila Leite Hernandez
SELO NEGRO EDIÇÕES

Uma visão clara e abrangente da África contemporânea, que reúne questões polêmicas sobre o domínio europeu e a diversidade das lutas contestatórias até a formação dos Estados nacionais. Com rica pesquisa cartográfica, a obra interessa aos estudiosos de história, geografia, antropologia, ciência política e sociologia.
Edição revista.

‘CIRURGIA BARIÁTRICA É SEGURA, MAS TEM RISCO DE COMPLICAÇÕES’

A bariátrica costuma ser um procedimento seguro. Mas é preciso falar dos cuidados pós-cirurgia bariátrica que devem ser tomados para evitar complicações e efeitos colaterais.

Texto parcial de matéria de Rafael Machado, publicado originalmente
no Portal Drauzio Varella.

A cirurgia bariátrica é um procedimento indicado para reverter casos de obesidade grau 3. Ela ficou conhecida como “redução do estômago” porque muda a anatomia original do órgão e reduz sua capacidade de receber alimentos. No Brasil, são realizadas cerca de 65 mil cirurgias por ano, sendo 54 mil pela saúde suplementar (convênio) e 11 mil pelo sistema público de saúde.

Uma pessoa não operada tem espaço para consumir aproximadamente de 1 litro a 1,5 litro de alimentos. Já um estômago pós-bariátrica tem capacidade para 25 ml a 200 ml (equivalente a um copo americano). A cirurgia afeta ainda a produção do hormônio da saciedade, o GLP-1, o que diminui a vontade de comer, mas a redução da capacidade é mesmo a principal responsável pelo emagrecimento.

Cerca de 10% do peso é eliminado no primeiro mês, com uma perda que varia de 14% a 72% ao longo da vida. “Nos primeiros meses após a cirurgia, o paciente consegue comer apenas 200 g por refeição, o que faz com que ele perca peso expressivamente”, aponta o médico Marcos Leão Vilas Bôas, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). Uma pessoa não operada ingere entre 300 g e 500 g por refeição.

Em geral, a bariátrica é um procedimento seguro. A taxa de mortalidade fica entre 0,1% e 1%, de acordo com o tipo da cirurgia. A segurança e os resultados que proporciona contribuíram para que houvesse aumento de 84,73% no número de cirurgias realizadas no Brasil, passando de 34.6289 em 2011 para 63.969 em 2018. Somos o segundo país com maior número de procedimentos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Pouco se fala, porém, nos cuidados pós-cirúrgicos que devem ser tomados para evitar complicações e efeitos colaterais.

CUIDADOS IMEDIATOS APÓS A CIRURGIA BARIÁTRICA

Existem alguns critérios para passar pela cirurgia. Ela é recomendada para indivíduos obesos com IMC acima de 40 (para referência, é o caso de uma pessoa de 1,70 metro e 116 quilos), e pessoas que tenham IMC acima de 35 (como uma pessoa de 1,70 metro e 102 quilos) com doenças associadas, como diabetes, colesterol alto, hipertensão, hérnia de disco, esteatose hepática, entre outras.

Atualmente existem duas técnicas mais utilizadas. Sleeve ou manga é o método que retira parte do estômago sem alterar o intestino. Comumente é recomendada para pacientes que apresentem um quadro menos grave de obesidade. O outro método é chamado de bypass. Ele representa 70% das cirurgias realizadas no Brasil, sendo mais praticado no sistema público. Nesse caso, o estômago é reduzido com cortes ou grampos e é feita uma alteração no intestino para reconectá-lo à parte do estômago que irá permanecer funcional.

O que interfere mais no pós-cirúrgico é o modo como a cirurgia é realizada, que pode ser de duas formas: por laparoscopia — minimamente invasiva, por meio de uma pequena incisão no abdômen — ou aberta — através de um corte de 30 centímetros. Os cuidados são praticamente os mesmos, mas no caso do método aberto, por ser mais invasivo, o paciente deve ficar em repouso por mais tempo para que a cicatrização ocorra adequadamente. Quem fez a cirurgia por esse método também deve utilizar uma cinta ou faixa abdominal pelo período indicado pelo médico para evitar que os pontos se soltem.

PRIMEIROS DIAS APÓS A CIRURGIA BARIÁTRICA

 Nos primeiros dias, o maior desafio é conciliar nutrição e hidratação adequadas com um estômago cuja capacidade passou a ser muito reduzida. A quantidade de água recomendada tradicionalmente, de dois a três litros por dia, continua valendo, mas o paciente precisa fazer a ingestão em porções muito pequenas, tomadas várias vezes ao longo do dia. Há pacientes que são orientados a tomar quantidades da ordem de 50 ml a cada 30 minutos, por exemplo.

Quanto à alimentação, o paciente deve seguir dieta líquida durante 15 dias, passando para uma dieta pastosa ou branda até receber liberação para a dieta sólida. Em geral, essa fase demora 30 dias.

Durante seis semanas, o paciente também não deve fazer grandes esforços. Por outro lado, a recomendação não deve ser entendida como desculpa para não se movimentar. Pelo contrário, é essencial se manter ativo e fazer leves caminhadas.

O acompanhamento deve ser criterioso, principalmente no caso das mulheres, pois a alteração na absorção de nutrientes pode ser tanta que há risco de a perda de sangue da menstruação provocar anemia. O problema é agravado porque a cirurgia pode fazer com que o fluxo menstrual aumente. “Recomendamos que a paciente suspenda a menstruação com DIU ou anticoncepcional”, afirma Vilas Bôas, da SBCBM. Mas vale lembrar: o indicado é usar métodos como adesivos ou injeções, que não passam pelo estômago, pois a absorção no trato gástrico pode não ocorrer adequadamente. A suspensão é indicada mesmo para mulheres que queiram engravidar, pois pacientes pós-bariátrica devem aguardar pelo menos 15 meses e consultar seu médico antes de uma gestação.

O excesso de pele geralmente não oferece grandes riscos. Embora a sobrepele possa causar micoses e dermatites, esses são problemas que podem ser prevenidos ou evitados. De qualquer forma, costuma-se indicar cirurgia para retirá-la depois que o paciente se adéqua à nova rotina, pois ela contribui para melhorar a autoestima.

ESTADO EMOCIONAL APÓS CIRURGIA BARIÁTRICA

Com frequência, a saúde mental está envolvida de alguma forma na obesidade. O sobrepeso pode ser uma consequência de questões psicológicas anteriores, e fazer a cirurgia não é garantia de que elas irão desaparecer. O acompanhamento psicológico e psiquiátrico é essencial antes e depois do procedimento.

O impacto da mudança brusca na alimentação, peso e estilo de vida não pode ser subestimado. Pacientes que passaram pela cirurgia têm risco de automutilação aumentado em 50%, o que inclui traumas físicos, envenenamento e overdose de medicamentos e de álcool.

Amanda Aragão é  jornalista e professora, e passou por uma cirurgia bariátrica. Após recomendação médica e incentivo de amigos, a jornalista optou por fazer a bariátrica, mas afirma que a pressão social e estética tiveram papel fundamental na decisão. Na época, ela sofria de compulsão alimentar e tinha IMC acima de 40. “Após a cirurgia, eu internalizei que não podia seguir tendo compulsão, pois teria complicações.”

Ela eliminou 65 quilos no total, sendo 20 quilos só no primeiro mês. No seu caso, precisou ir somente duas vezes a consultas obrigatórias com psicólogo antes e duas vezes após a cirurgia. “Teria sido melhor se eu tivesse acompanhamento. Faltou ênfase médica sobre esse e outros cuidados”, relata Aragão. Ela afirma que um ano após a cirurgia quase chegou a ter depressão. “As pessoas começaram a me tratar melhor. Comecei a refletir sobre o meu valor: Ele sempre esteve ligado ao meu peso?” Atualmente ela conta com o apoio de terapia para auxiliá-la.

Embora a perda de peso seja rápida, há risco de o paciente recuperar o peso. Quem passou pelo procedimento tem dificuldade de comer excessivamente porque o estômago perde a capacidade de comportar grandes quantidades de alimentos, mas é necessário praticar exercícios e seguir um acompanhamento multidisciplinar com nutricionista, endocrinologista, gastroenterologista, psicólogo, entre outros profissionais.

(…)

Para ler na íntegra, acesse: https://drauziovarella.uol.com.br/obesidade/cirurgia-bariatrica-e-segura-mas-tem-risco-de-complicacoes/

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Quer saber mais sobre o assunto? Conheça o livro:

CIRURGIA BARIÁTRICA E PARA O DIABETES
Um guia completo
Autor: Marcos Giansante
MG EDITORES

A obesidade é fator de risco para diversas enfermidades, entre elas hipertensão, doenças cardiovasculares e, principalmente, o diabetes – que, em 2014, matou mais que o HIV. Hoje, a cirurgia bariátrica é um procedimento seguro e eficaz, e reduz sobremaneira o surgimento dessas doenças relacionadas.

Neste livro destinado a obesos e a seus amigos e familiares, o cirurgião Marcos Giansante expõe sua vasta experiência no tratamento da obesidade. Em linguagem clara e sem jargões técnicos – e de forma humana e integrativa –, ele responde às principais dúvidas relacionadas ao tratamento cirúrgico da doença, como:
• o papel da cirurgia bariátrica, principalmente na parte metabólica, como tratamento complementar de doenças como o diabetes;
• as principais técnicas cirúrgicas utilizadas e as mais indicadas para cada caso;
• o pré e pós-operatório;
• a importância da alimentação e de atividades físicas na qualidade de vida do obeso e pós-operado.

‘A HISTÓRIA DO CASTELO RÁ-TIM-BUM. E POR QUE SEU SUCESSO PERDURA’

Texto parcial de matéria de Cesar Gaglioni, publicada
no Nexo Jornal em 10/Nov/2019.

Programa infantil da TV Cultura estreou em 1994 e ainda conquista fãs. O ‘Nexo’ conversou com o jornalista Bruno Capelas, autor de livro que remonta a trajetória da produção e avalia o seu legado

Quem passasse pela Avenida Europa, uma das principais vias do bairro do Jardins, em São Paulo, entre os meses de julho de 2014 e janeiro de 2015 se depararia com uma grande fila, que se chegava a dar a volta em quarteirões. A espera não era para alguma uma casa de shows ou para ver celebridades, mas sim para visitar o MIS (Museu da Imagem e do Som). Entre esses meses, o espaço recebeu uma exposição focada nos bastidores do programa infantil “Castelo Rá-tim-bum”, exibido originalmente duas décadas antes — entre 1994 e 1997 — pela TV Cultura. Ao todo, mais de 400 mil pessoas visitaram a exposição, fazendo com que o MIS se tornasse o museu mais visitado da cidade em 2014.

  A trajetória de “Castelo Rá-tim-bum” é contada em “Raios e trovões”, livro publicado em novembro de 2019 pela editora Summus, assinado pelo jornalista Bruno Capelas. Nele, o autor traça uma cronologia dos bastidores do programa, entrevista figuras ligadas à produção e demonstra o impacto que o programa teve para a cultura pop nacional.

A origem do programa

O “Castelo Rá-tim-bum” teve sua origem em 1990, quando a TV Cultura produziu o programa infantil “Rá-tim-bum”. Seus quadros mais famosos eram as aulas de conhecimentos gerais com o professor Tibúrcio, interpretado por Marcelo Tas, e as histórias apresentadas no quadro “Senta que lá vem história”. Nomes importantes do audiovisual brasileiro passaram pelo programa, como o roteirista Flávio de Souza, o animador Flávio Del Carlo e os cineastas Fernando Meirelles e Paulo Morelli.

“Rá-tim-bum” foi um sucesso para a TV Cultura, tanto de audiência, como de crítica: o programa venceu, em 1995, o prêmio de Melhor Programa Infantil no Festival de Televisão de Nova York.

Dois anos depois da estreia, a TV Cultura decidiu produzir uma nova versão do programa. A empreitada ficou na mão de Flávio de Souza e do diretor Cao Hamburger, indicado para o programa por Fernando Meirelles.

Quando começaram a criar os conceitos para o programa, Hamburger e Souza tiveram tantas ideias que perceberam que o “Rá-tim-bum 2” seria uma empreitada nova e original.

Inicialmente batizado de “Mundo encantado”, o programa traria três crianças que usavam portais mágicos para viajar pelo mundo, com cada episódio mostrando o trio em um lugar diferente. A ideia foi apresentada à TV Cultura, que não aprovou a iniciativa pelo custo de produção, alto demais o canal.

Souza e Hamburger acharam uma solução: ambientar todas as aventuras em um único local. A primeira ideia, sugerida pela Cultura, era limitar os episódios a um ambiente escolar, com os alunos sendo interpretados por bonecos de espuma. Cao Hamburger não gostou da ideia. “Eu não queria fazer a ‘Escolinha do professor Raimundo’ com bonecos”, afirmou o cineasta em entrevista ao livro “Raios e trovões”.

Em um estalo, Hamburger teve a ideia de trazer alguns conceitos de “Mundo encantado” para dentro de um castelo mágico, cujo dono era um cientista chamado Dr. Victor, em referência ao Dr. Victor Frankenstein, do romance “Frankenstein”, de Mary Shelley. O título provisório dado ao projeto foi “Castelo encantado”.

Roberto Muylaert, à época presidente da Fundação Padre Anchieta, entidade que administra a TV Cultura, buscou a Fiesp, (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), em busca de patrocínio para a nova produção. Os executivos da entidade toparam investir, mas com uma condição: o título do programa precisava conter a palavra “Rá-tim-bum”. Assim surgiu o nome “Castelo Rá-tim-bum”.

No meio do processo, Flávio de Souza saiu do projeto, assinando contrato com o SBT. Entrou na jogada Anna Muylaert, roteirista e filha do presidente da Fundação Padre Anchieta. Meses antes do começo das filmagens o elenco principal foi escalado:

Cássio Scapin, ator conhecido dos palcos paulistanos foi escalado para viver o protagonista do “programa”: o aprendiz de feiticeiro Nino, uma criança de 300 anos de idade que morava no castelo com seus tios

Luciano Amaral, ator que já tinha feito sucesso na Cultura com o programa “Mundo da lua” interpretava Pedro, um dos amigos de Nino que visitava o castelo diariamente

Cinthya Rachel, atriz conhecida pela peça “A fuga do planeta Kiltran” foi escalada para viver Biba, amiga de Nino e visita diária no castelo

Fredy Allan, ator que contracenou com Rachel e Amaral em “A fuga do planeta Kiltran”, vivia Zequinha, o mais novo do trio de amigos de Nino

Sérgio Mamberti, ator que já tinha uma carreira consagrada nos palcos e na política como um dos fundadores do PT foi escalado para viver o Dr. Victor, tio de Nino, feiticeiro, inventor e um dos donos do castelo

Rosi Campos, atriz com carreira consagrada no cinema e na TV interpretava Morgana, tia-avó de Nino e uma feiticeira prestes a completar 6.000 anos de idade.

Além dos cinco atores principais, o “Castelo Rá-tim-bum” contava com a participação de personagens convidados, como o Dr. Abobrinha, vilão interpretado por Pascoal da Conceição, um especulador imobiliário que queria derrubar o castelo para construir um shopping center; e o extraterrestre Etevaldo (Wagner Bello), que ocasionalmente visitava Nino e seus amigos.

Criaturas mágicas também habitavam o castelo, sendo representadas em tela por bonecos de espuma — era o caso de Celeste, uma cobra cor-de-rosa que morava dentro de uma árvore no meio do castelo; e o Gato Pintado, um felino leitor que vivia na biblioteca do Dr. Victor.

O próprio castelo era um personagem. Com um visual inspirado nas construções projetadas pelo arquiteto espanhol Antoni Gaudí (1852-1926), o cenário trazia uma série de traquitanas e objetos de cena, que eram uma ponte para introduzir na trama principal os quadros educativos — como o famoso “Que som é esse?”, no qual o programa apresentava instrumentos musicais para as crianças.

As filmagens do “Castelo” começaram em maio de 1993, e se estenderam até o começo de 1994. Ao todo, 90 episódios e um especial foram gravados.

Para ler a matéria na íntegra, acesse: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/11/10/A-hist%C3%B3ria-do-Castelo-R%C3%A1-tim-bum.-E-por-que-seu-sucesso-perdura?utm_campaign=anexo&utm_source=anexo

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Conheça o livro:

RAIOS E TROVÕES
A história do fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum
Autor: Bruno Capelas
Summus Editorial

“Morcego, ratazana, baratinha e companhia: está na hora da feitiçaria!”. Lançado em 1994 pela TV Cultura, o Castelo Rá-Tim-Bum é até hoje a maior produção infantil já feita pela televisão brasileira. Nesse sentido, Raios e trovões dá a senha para os leitores que quiserem entrar nos bastidores do programa: dos detalhes de figurinos e cenários à rotina de gravações, passando pela criação dos roteiros e escolha do elenco. Baseado em mais de 30 entrevistas com quem viveu o Castelo, o livro mostra como a Cultura conseguiu, em meio a um dos piores momentos da economia brasileira, realizar um projeto que marcou gerações, unindo entretenimento, informação e educação. Para isso, Bruno Capelas faz um mergulho pela história da emissora, em uma trajetória que passa por antenas, incêndios, bonecos de espuma e muito bom humor. Raios e trovões também avança até os dias de hoje, contando por que personagens como Nino, Zequinha, Dr. Victor, Celeste, Bongô, Penélope e Etevaldo permanecem vivos no coração e na mente de crianças pequenas e de outras já bem crescidas – afinal, “porque sim não é resposta!”

‘DA MORTE AO DESEMPREGO: MAPA TRAZ EXTREMOS DA DESIGUALDADE DE SÃO PAULO’

Texto de Clara Cerioni, publicado na Exame.com em 05/112019.

A desigualdade que atinge a cidade de São Paulo faz com que um morador de Cidades Tiradentes, bairro do extremo leste, viva, em média, 23 anos a menos do que os habitantes de Moema, uma das regiões mais nobres da capital paulista.

Dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde mostram que a idade média de morte dos moradores da Cidades Tiradentes foi, no ano passado, de 57,31, ao passo que em Moema foi de 80,57. A média de São Paulo é de 68,7.

A estatística faz parte do Mapa da Desigualdade de 2019, divulgado nesta terça-feira (05) pela Rede Nossa São Paulo, organização dedicada a identificar desafios e propor políticas públicas para a capital paulista.

Neste ano, o levantamento conta com 53 indicadores que apontam as diferenças entre os 96 municípios da cidade. A análise dos números revela um abismo entre as regiões mais pobres e as mais ricas de São Paulo. Os dados contemplam áreas como habitação, meio ambiente, educação, cultura e segurança viária.

Na comparação entre Cidade Tiradentes e Moema — os dois extremos de menor e maior tempo de vida —, é possível identificar fatores que influenciam diretamente na idade média de vida dos moradores.

Enquanto a taxa de mortalidade infantil, que considera a proporção de óbitos para crianças menores de um ano para cada mil crianças nascidas nos distritos, é de 15,68 no extremo leste, na região nobre, o índice é 3,53. Já a taxa de mortalidade materna, que considera os óbitos de grávidas para cada dez mil crianças nascidas vivas, em Cidade Tiradentes chega a 5,5. Em Moema, o índice é zero.

Já em relação à disponibilidade de leitos hospitalares públicos ou privados disponíveis para cada mil habitantes, a desigualdade entre os dois bairros também é alta: a região do extremo leste tem índice de 0,77, ao passo que o bairro nobre registra 17,99.

Ainda nos aspectos relacionados à saúde, a estatística mais negativa de Moema é a proporção de mortes por câncer para cada cem mil habitantes. Enquanto o bairro nobre da capital paulista apresenta taxa de 148, Cidade Tiradentes tem 77,19. Uma das explicações para a diferença, é a quantidade de idosos que moram nas regiões.

“Ainda que o envelhecimento e a genética influenciem no desenvolvimento da doença, alguns fatores relacionados à vida urbana contribuem diretamente para seu surgimento. A exposição constante a poluentes, o sedentarismo, o estresse, a má qualidade do sono e o consumo de alimentos contaminados por agrotóxicos são alguns deles”, diz o Mapa da Desigualdade.

Em outros eixos também é possível verificar raízes para as diferenças entre a vida dos moradores das duas regiões: a taxa de emprego formal por dez habitantes com idade igual ou superior a quinze anos em Moema é de 9,40. Na Cidade Tiradentes, o índice despenca para 0,24.

O acesso à equipamentos públicos municipais de cultura para cada cem mil habitantes no bairro nobre da capital paulista é de 6,81. Já no extremo leste a proporção é de 2,63.

Feminicídio

Em relação a 2017, o homicídio de mulheres cresceu 167% em toda a cidade de São Paulo no ano passado. Já as ocorrências de violência contra a mulher subiram 51%.

Essa foi a primeira vez que o estudo trouxe dados comparativos sobre feminicídio. Apesar da relevância da estatística, não é possível afirmar com precisão que houve uma alta de morte de mulheres por serem mulheres. O mais provável é que, por ser uma lei recente, de 2015, as delegacias de polícia estejam tipificando com mais detalhes esses casos como feminicídio.

Os dados mostram que os distritos da Sé e Barra Funda concentram as maiores taxas nos dois indicadores. Na Sé, que lidera os casos de violência contra a mulher, foram registradas 8,4 ocorrências de feminicídio para cada 10 mil mulheres na faixa de 20 a 59. O número é 56 vezes maior que em outros 20 distritos da cidade. A violência contra a mulher também é maior nesse mesmo distrito, com 803,9 registros.

Veja na íntegra o Mapa da Desigualdade de 2019

(Com Estadão Conteúdo)

Para ler na íntegra: https://bit.ly/2Ci2T8T

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Tem interesse no assunto? Conheça os livros abaixo, da Selo Negro Edições:

RACISMO, SEXISMO E DESIGUALDADE NO BRASIL
Coleção Consciência em Debate
Autora: Sueli Carneiro
SELO NEGRO EDIÇÕES

Entre 2001 e 2010, a ativista e feminista negra Sueli Carneiro produziu inúmeros artigos publicados na imprensa brasileira. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil reúne, pela primeira vez, os melhores textos desse período. Neles, a autora nos convida a refletir criticamente a sociedade brasileira, explicitando de forma contundente como o racismo e o sexismo têm estruturado as relações sociais, políticas e de gênero.

RELAÇÕES RACIAIS E DESIGUALDADE NO BRASIL
Coleção Consciência em Debate
Autora: Gevanilda Santos
SELO NEGRO EDIÇÕES

Este livro apresenta o ponto de vista histórico das relações raciais e das desigualdades no Brasil, começando no século XIX e chegando aos dias de hoje. A autora mostra novos caminhos para uma educação antirracista e, sobretudo, para estimular seus valores intrínsecos: a igualdade das relações sociais, a consciência política da diversidade histórica, o respeito às diferenças – caminhos esses que nos conduzem à cidadania plena.

‘RAIOS E TROVÕES’ FAZ LEITOR VIAJAR NO TEMPO

Matéria de Eliana Silva de Souza publicada originalmente no Caderno 2,
de O Estado de S. Paulo, em 6/11/2019.

Bruno Capelas, repórter do ‘Estado’, lança livro sobre ‘Castelo Rá-Tim-Bum’, sucesso da TV Cultura

Um livro que certamente vai atingir em cheio toda uma geração, proporcionando uma verdadeira viagem no tempo. Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum (Summus Editorial), do jornalista do Estado Bruno Capelas, surge da vivência do próprio autor, que é dessa turma que nasceu nos anos 1990 e acompanhou diariamente as aventuras de Nino, Pedro, Biba, Zeca e tantos outros personagens, que marcaram uma fase extremamente criativa e importante da TV Cultura. A obra, que trata da importância do programa infantil para a emissora e para as crianças, será lançada no dia 27, às 19h30, na Livraria da Vila.

Seguindo a trajetória dos infantis de sucesso da TV Cultura, como é o caso de O Mundo da Lua, Capelas tem como ponto de partida a incrível mostra com os cenários do icônico programa da TV Cultura Castelo RáTim-Bum – A Exposição, que ocupou as instalações do Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, em 2014, e que foi vista por mais de 400 mil pessoas. O sucesso foi tamanho que obrigou o museu a mexer em seus horários para poder atender todos os interessados. Na mesma linha, em 2017, o Memorial da América Latina sediou uma nova exposição, Rá-Tim-Bum, o Castelo, que atraiu um público de pelo menos 800 mil pessoas.

O mais relevante, no entanto, é que tudo isso se deu por se tratar de um programa que marcou a infância de muita gente, crianças e adultos. Todos queriam ver de perto o porteiro pedindo a senha para liberar a entrada, o quarto do Nino e a árvore no meio da sala. É esse um dos motivos que levaram Capelas a se debruçar sobre o tema e colocar tudo em formato de livro, que teve início como um trabalho de conclusão de curso na faculdade.

“Sou geração Cultura e, como outros que nasceram nos anos 1990, também cresci vendo esses programas, Castelo Rá-TimBum , Mundo da Lua , X-Tudo ”, conta o autor, explicando a razão de ter escolhido o tema. “Tinha

que ser sobre algo que eu quisesse muito falar, alguma coisa muito minha, daí pensei no Castelo, pois ninguém tinha escrito sobre ele”, completa.

Fã assumido dos inúmeros programas da Cultura, Capelas contou com uma boa parcela de sorte para sua pesquisa. “Parte dela eu fiz em 2014. O Castelo estava comemorando 20 anos quando a exposição foi montada, o que me ajudou muito a conseguir encontrar algumas pessoas, principalmente os profissionais que trabalharam por trás das câmeras”, revela Capelas, que afirma que quis dar espaço a esses profissionais que pouco aparecem.

Como destaca o jornalista, quando se fala em Castelo RáTim-Bum, sempre se tem em mente nomes como os criadores Cao Hamburger e Flávio de Souza ou de Anna Muylaert, coordenadora de textos. “Quis mostrar que o Castelo é uma construção de muita gente, como o Silvio Galvão, que fez a árvore, a maquete, o jardim”, afirma.

O que Capelas expõe no livro é fruto de mais de 30 entrevistas, muita pesquisa de acervo, horas debruçado em material recheado de curiosidades, com cada capítulo contando uma história diferente que ajuda a elucidar a trajetória bem-sucedida da atração. Aos poucos, ele vai revelando curiosidades, como o fato de a abertura ter sido feita de trás para frente ou como era rotina de gravações. “Certa vez, teve uma enchente no cenário e todo mundo ajudou, ficando de joelho no chão, a repintar tudo”, conta, emocionado, o escritor, que aos poucos vai detalhando a trajetória do Castelo.

“Entre tantas divertidas curiosidades, o leitor vai descobrir, por exemplo, que o quarto do Nino foi um improviso, pois, na verdade, era para ser um portal, que levaria para qualquer lugar do castelo”, explica.

Para o autor, o sucesso dos programas infantis da Cultura tem relação com quem produzia o material. “Era um monte de gente que se encontrou no Castelo. A trilha sonora era Grupo Rumo, do Karnak, o Flávio de Souza era do grupo de teatro Pod Minoga, o Cao tinha feito curta-metragem de massinha ECA.” Com o programa, a TV Cultura inovou, passou por cima das dificuldades, mas optou por não dar continuidade ao trabalho, conta Capelas. “O Roberto Muylaert, que montou essa estrutura na emissora, saiu e, na sequência, houve corte de verbas. Mas foi um momento muito rico.”

Para ler na íntegra (assinantes ou cadastrados no jornal O Estado de S. Paulo), acesse: https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,raios-e-trovoes-livro-de-bruno-capelas-faz-leitor-viajar-no-tempo,70003077244

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Conheça o livro:

RAIOS E TROVÕES
A história do fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum
Autor: Bruno Capelas
SUMMUS EDITORIAL

“Morcego, ratazana, baratinha e companhia: está na hora da feitiçaria!”. Lançado em 1994 pela TV Cultura, o Castelo Rá-Tim-Bum é até hoje a maior produção infantil já feita pela televisão brasileira. Nesse sentido, Raios e trovões dá a senha para os leitores que quiserem entrar nos bastidores do programa: dos detalhes de figurinos e cenários à rotina de gravações, passando pela criação dos roteiros e escolha do elenco. Baseado em mais de 30 entrevistas com quem viveu o Castelo, o livro mostra como a Cultura conseguiu, em meio a um dos piores momentos da economia brasileira, realizar um projeto que marcou gerações, unindo entretenimento, informação e educação. Para isso, Bruno Capelas faz um mergulho pela história da emissora, em uma trajetória que passa por antenas, incêndios, bonecos de espuma e muito bom humor. Raios e trovões também avança até os dias de hoje, contando por que personagens como Nino, Zequinha, Dr. Victor, Celeste, Bongô, Penélope e Etevaldo permanecem vivos no coração e na mente de crianças pequenas e de outras já bem crescidas – afinal, “porque sim não é resposta!”


‘ASSIM COMO EM “BOM SUCESSO”, QUAL A MELHOR FORMA DE SE PREPARAR PRA MORTE?’

Texto parcial de matéria de Heloísa Noronha,
publicada originalmente no UOL Universa, em 02/11/2019.

Logo nos primeiros capítulo de “Bom Sucesso”, novela da faixa das 19h da Rede Globo, o milionário Alberto (Antonio Fagundes) e a costureira Paloma (Grazi Massafera) têm seus exames trocados: ela recebe o diagnóstico de que sofre de uma doença fatal e que lhe restam cerca de seis meses de vida, mas na verdade o doente é ele.

Após o esclarecimento da confusão, os dois ficam muito amigos e decidem encarar a vida de um outro jeito. Enquanto a moça passa por um processo de refinamento, sendo estimulada a gostar de livros e arte, o ricaço tenta deixar de ser ranzinza, fazer as pazes com o passado e resgatar relacionamentos importantes.

A jornada de Alberto é, de acordo com especialistas, similar a de inúmeras pessoas que precisam enfrentar a realidade de que lhes sobra pouco tempo de vida. Todo mundo sabe que um dia vai morrer; no entanto, ao tomar consciência de uma espécie de “data” para isso, muita gente promove transformações profundas em seu comportamento. As reações mais comuns já foram bastante estudadas e listadas pela psiquiatra suíça Elizabeth Küler-Ross (1926-2004) em cinco estágios — negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

Embora nem sempre essas cinco etapas percorrem essa ordem, a aceitação configura o momento em que “as fichas costumam cair”. “Isso inclui a percepção de que não se tem a eternidade para consertar as relações. Assim, o valor das coisas e da existência podem ser completamente alterados e ressignificados diante do fim”, expõe, de forma sucinta, Mara Lúcia Madureira, psicóloga cognitivo-comportamento e MBA em Gestão Estratégica de Pessoas.

Para a psicóloga Nazaré Jacobucci, mestranda em Cuidados Paliativos na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em Portugal, e administradora do site Perdas e Luto, provavelmente a “ficha” que provoca mais dor ao “cair” sejam a confrontação dos sonhos não realizados durante a vida e a reflexão sobre as razões pelas quais não se concretizaram.

“A recepção da notícia de que se tem poucos meses de vida faz com que a pessoa reflita sobre a restrição de tempo que tem para viver aquilo que é significativo e que faz sentido em sua vida”, comenta a psicóloga Karina Okajima Fukumitsu, pós-doutora em Psicologia pela USP (Universidade de São Paulo) e autora do livro “Vida, Morte e Luto – Atualidades Brasileiras” (Ed. Summus Editorial). “A morte tira todas as ilusões, não há mais tempo para se perder! Assim, a partir da consciência da finitude acontece a compreensão de que ainda há vida a ser vivida, o que pode ajudar a pessoa a priorizar e a escolher as ‘batalhas’ que quer enfrentar”, completa.

(…)

Para ler a matéria na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/11/02/assim-como-em-bom-sucesso-qual-a-melhor-forma-de-se-preparar-pra-morte.htm

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Quer saber mais sobre o assunto? Conheça alguns dos livros do Grupo Summus que abordam o tema, incluindo o de Karina Fukutmitsu, mencionado na matéria:


EXPERIÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS SOBRE A MORTE E O MORRER
O legado de Elisabeth Kübler-Ross para os nossos dias
Autores: Rodrigo Luz e Daniela Freitas Bastos
SUMMUS EDITORIAL

Neste livro, Rodrigo Luz e Daniela Freitas Bastos contam um pouco da trajetória pessoal e profissional de Elisabeth, aprofundam-se nos estudos que ela nos legou e reproduzem os seminários no contexto brasileiro. Por meio do depoimento dos pacientes-professores, eles nos permitem enfrentar de peito aberto o tabu da morte e entrar em contato com recursos que nos ajudem a lidar com os pacientes com empatia, respeito e compaixão.

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
SUMMUS EDITORIAL

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

CUIDADOS PALIATIVOS
Diretrizes para melhores práticas
Organizadores: Ricardo CaponeroMarcella Tardeli Esteves Angioleti SantanaAna Lucia Coradazzi
MG EDITORES

O conhecimento do ser humano evolui continuamente em todas as áreas. Na medicina, porém, o avanço de uma ampla gama de tecnologias voltadas para o prolongamento da vida – desejo primitivo dos seres humanos – deu lugar à tecnocracia. Esse movimento iludiu leigos (e muitos profissionais) e criou mitos, sobretudo o de que a morte poderia ser vencida. O problema é que essa obstinação terapêutica é hoje, muitas vezes, fonte de sofrimento – e paradoxalmente pode resultar no abreviamento do tempo de vida.
Assim, é fundamental resgatar a qualidade do cuidar, não só do ponto de vista biológico, mas também mental e espiritual. Não se trata de abandonar o desenvolvimento tecnológico, mas de integrá-lo à visão plural de cuidado.
Partindo desse pressuposto, esta obra – escrita por uma equipe multidisciplinar – se baseia numa prática integrativa, na qual todas as áreas de conhecimento trabalham juntas na busca da melhor qualidade de vida e da dignidade humana. Dividida em 16 capítulos, ela oferece protocolos seguros e eficazes que aliviam os principais sintomas dos pacientes que demandam atenção paliativa e traz uma série de opções de tratamento. Também são abordados temas como plano avançado de cuidados e diretivas antecipadas de vontade, além dos cuidados de fim de vida. Trata-se de uma referência fundamental num campo que está em franco desenvolvimento.

VIVER O SEU MORRER
Autor: Stanley Keleman
SUMMUS EDITORIAL

Este livro é sobre o morrer, não sobre a morte. Estamos sempre morrendo um pouco, sempre perdendo alguém ou alguma coisa. São as nossas pequenas mortes, que nos ensinam o significado do morrer e nos oferecem condições de enfrentá-lo sem medo ou morbidez. É exatamente disso que trata este livro: estar pleno e inteiro para deparar-se com o morrer.



‘A DESAFIADORA TAREFA DE CONVIVER COM FIBROMIALGIA’

Artigo do médico Dante Senra, publicado no VivaBem UOL,
em 26/10/2019.


Peregrinar por vários consultórios médicos em busca de alívio para o sofrimento tem sido a vida das pessoas acometidas por esse mal que a medicina desconhece a causa.

Exames que nada demonstram ainda fazem os indivíduos com fibromialgia serem rotulados como “exagerados e muitas vezes preguiçosos ou depressivos”. Embora possa estar ligada à ansiedade e depressão, não se sabe o que veio primeiro.

Trata-se de uma síndrome complexa e muitas vezes mal compreendida por quem convive com ela e até pela medicina.

É mais comum em mulheres em idade fértil (mas pode acometer qualquer gênero ou idade) e estima-se que acometa de 2 a 10% da população mundial.

Famosos como Lady Gaga e Morgan Freeman, acometidos pela doença, já deram diversos depoimentos contundentes sobre seu sofrimento.

No documentário “Five Foot Two”, de 2017, Gaga fala sobre sua dificuldade em encontrar tratamento e técnicas para controlar os sintomas. No mesmo ano, a celebridade cancelou sua participação no Rock in Rio, supostamente por conta das fortes dores causadas pela fibromialgia.

Já Freeman, em 2017, em declaração polemica, fala sobre legalização de drogas para controle da doença.

Fato é que se trata de uma doença cruel, de diagnóstico apenas clínico e, portanto, o diagnóstico depende da experiência do médico consultado. Com sintomas variados, pode acometer pessoas da mesma família e, portanto, pode haver, sim, um componente genético em sua gênese.

Sabe-se que o cérebro (e talvez os receptores cutâneos) interpreta os estímulos recebidos (um simples toque no corpo, como um abraço, por exemplo) de maneira alterada, aumentando a sensibilidade destes, causando dor e desconforto. O que não se sabe é por quê. Aí se desencadeia o quadro.

Quais são os sintomas?

O sintoma que predomina é a dor, que pode ser muscular, em articulações ou tendões e vem geralmente acompanhada de fadiga extrema (o indivíduo frequentemente acorda cansado), quadro que pode durar meses.

Esse quadro também pode vir acompanhado de perturbações no sono (em quase 90% das vezes), tais como insônia e apneia (noites mal dormidas podem piorar o quadro) e costumam se intensificar com o estresse e com temperaturas mais baixas.

O defeito típico do sono é se tornar superficial e/ou interrompido e, assim, frases como “acordo mais cansado do que deitei” e “parece que fui atropelado por um caminhão” são muito frequentes no consultório. Outro incômodo que costuma aparecer à noite é a chamada síndrome das pernas inquietas, na qual há necessidade de esticá-las ou mexe-las o tempo todo para aliviar o desconforto.

Dores de cabeça e problemas cognitivos como alterações da memória e dificuldade em se concentrar são também queixas bastante frequentes. Além de dormências e formigamento nas mãos e pés e até sintomas cardiológicos como palpitações, que podem estar presentes.

Isso sem falar dos distúrbios gastrointestinais como cólicas e até diarreias frequentes (síndrome do intestino irritável).

Como Tratar?

A aceitação da doença pelo próprio paciente e por quem convive com ele se tornam importantes desafios no dia a dia. Como não existe um padrão clássico de doença, também não existe um padrão referendado e indicado de tratamento medicamentoso para todos.

Não, a doença não é um transtorno de ordem psicológica, embora distúrbios emocionais se tornem quase sempre presentes pela difícil tarefa de conviver com ela, sem perspectiva de cura e com um grau exacerbado de sofrimento.

Mas embora nem todos os pacientes com fibromialgia apresentem depressão, ela hoje é considerada um fator agravante dos sintomas e precisa ser tratada. Em geral, inicia-se o tratamento da fibromialgia com antidepressivos.

Mas é possível conseguir períodos prolongados de calmaria, mesmo nas manifestações clínicas mais cruéis da doença, ou seja, a dor e a fadiga.

O alívio e controle da dor e a melhora da qualidade de vida são os objetivos fundamentais. Para isso, a melhor estratégia é a abordagem multidisciplinar sempre que possível, por médicos, psicólogos, nutricionistas e profissionais de educação física (sem esquecer a participação da família).

Esse grupo multidisciplinar, levando em consideração as características pessoais de cada indivíduo, deverá complementar o tratamento farmacológico (analgésicos, antidepressivos, relaxantes musculares, fitoterápicos e até homeopatia) com os não farmacológicos, como exercícios físicos, fisioterapia, massagens e técnicas de relaxamento (ioga e mindfulness, uma técnica de meditação que prega a atenção plena), dieta e acupuntura. Tais práticas (acupuntura, fitoterápicos, homeopatia), factíveis com um pouco de paciência e perseverança, foram incorporadas recentemente ao Sistema Único de Saúde (SUS) com a publicação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares.

Quero aqui ressaltar a importância de praticar exercícios físicos que tem sido considerada pelos reumatologistas (e endossada pelos pacientes) como uma das intervenções mais efetivas no tratamento da fibromialgia, sendo responsável por alivio considerável da dor e da fadiga. Obviamente individualizado, progressivo e evitando-se o alto impacto.

Grupos de apoio de indivíduos com a doença e até aplicativos para celulares e tablets discutem estratégias para lidar com as dores crônicas e fadiga, objetivando uma melhora na qualidade de vida.

Há inclusive um projeto de lei tramitando no congresso para promover aos diagnosticados o direito à dispensa do cumprimento de período de carência, para usufruir dos benefícios de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez.

É preciso falar muito sobre essa doença invisível aos olhos de quem não a sente, para que haja compreensão e mudança de comportamento da sociedade. Como dizia Shakespeare, “Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente”.

Para ler na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/colunas/danta-senrra/2019/10/26/a-desafiadora-tarefa-de-conviver-com-a-fibromialgia.htm

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Quer saber mais sobre o assunto? Conheça o livro do reumatologista mexicano Manuel Martínez-Lavín, reconhecido como autoridade na área da fibromialgia:

FIBROMIALGIA SEM MISTÉRIO
Um guia para pacientes, familiares e médicos
Autor: Manuel Martínez-Lavín
MG EDITORES

Este livro esclarece vários aspectos de um problema de saúde polêmico e ainda não totalmente compreendido nem mesmo pela classe médica: a fibromialgia. Apresenta os principais sinais e sintomas dessa doença, explica por que seu diagnóstico é tão difícil e apresenta alguns conceitos importantes que explicam a provável causa e as possibilidades de tratamento do problema.