‘OS CUIDADOS PARA PROTEGER A SAÚDE MENTAL DE QUEM VIVE TRAUMAS’

Texto parcial de matéria de João Fellet, BBC News,
publicada no UOL em 15/03/2019

 Enlutados pelo massacre de quarta-feira na escola Professor Raul Brasil, em Suzano (SP), sobreviventes, amigos e parentes dos mortos devem ser acompanhados para que não desenvolvam transtornos mentais associados a traumas, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Nos EUA, onde massacres em escolas são frequentes, um estudo apontou que 29% das testemunhas desses ataques sofrem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) – um transtorno de ansiedade que pode gerar sintomas vários meses ou anos após o incidente.

Profissionais de saúde mental alertam que sintomas semelhantes podem acometer até mesmo quem não tem qualquer relação com as vítimas, mas se expôs a fotos e vídeos do ataque nas mídias sociais ou na imprensa. Eles dizem que as pessoas abaladas, assim como vizinhos da escola e outros moradores de Suzano, também devem ser acolhidas e ajudadas a superar o luto coletivo causado pela tragédia.

A Prefeitura de Suzano disse à BBC News Brasil que a Secretaria de Estado da Saúde enviou dois psiquiatras e um psicólogo a Suzano para atender sobreviventes e familiares das vítimas. Segundo a prefeitura, os profissionais estão trabalhando ao lado de uma equipe local do Caps (Centro de Atenção Psicossocial), unidade do SUS especializada em saúde mental.

Reações a eventos traumáticos

O psiquiatra Higor Caldato, especialista em Psicoterapias pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que, nos dias seguintes ao evento, sobreviventes e pessoas próximas das vítimas costumam vivenciar sentimentos de estresse agudo, choque, tristeza e lamentação.

Nesse período, diz Caldato, é essencial que eles sejam acompanhados por profissionais de saúde mental para que possam dar vazão às emoções em sessões de terapia e não se refugiem em comportamentos nocivos, como compulsões alimentares ou o consumo abusivo de álcool.

Ele afirma que pessoas que estejam sob ansiedade extrema e com dificuldade para se expressar podem precisar de medicação para atenuar os sintomas e tirar mais proveito da terapia.

Segundo o psiquiatra, se os sentimentos negativos persistirem por mais de um mês e estiverem associados a outros fatores, como pesadelos, medo e sintomas depressivos, é possível que o transtorno de estresse pós-traumático tenha se instalado.

A condição, que também costuma exigir tratamento medicamentoso, pode causar grandes impactos na vida do afetado por um longo período. Com frequência, o transtorno é acompanhado por problemas para dormir, dificuldade para se concentrar e sentimentos de isolamento, irritação e culpa.

‘Crescimento pós-traumático’

Para Caldato, o caminho para evitar o quadro é usar o episódio violento para reforçar relações e comportamentos positivos, estimulando o que ele chama de “crescimento pós-traumático”.

“O mais importante é dar apoio psicológico para que as pessoas possam enxergar a tragédia por outro ângulo – para que se sintam amparadas, protegidas, possam se cuidar, valorizar mais a vida e a família, ter urgência em buscar a felicidade.”

Segundo a psicóloga Maria Helena Franco, até quem não estava presente no massacre e não tem qualquer relação com as vítimas pode sofrer seus impactos quando exposto a imagens, notícias ou relatos sobre o evento. Essa reação é conhecida como trauma vicário ou estresse traumático secundário.

“Tem um fio que nos une que é a empatia, a questão humana. Todo mundo fica tocado, assustado. Não é um impacto menos importante e ele deve ser visto e considerado”, afirma Franco, que coordena o Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP, onde é professora titular de Psicologia.

Segundo Franco, o primeiro passo para superar o trauma vicário é aceitar o sofrimento provocado pelo massacre.

“Quando você está sofrendo mas entra num raciocínio de que não deveria sofrer pois não estava lá, não conhecia ninguém, você impossibilita que o sentimento seja elaborado. Só que não, ele continua ali, na mente.”

Luto coletivo

Ela diz que alguns grupos estão mais sujeitos a esse quadro, como bombeiros ou profissionais de saúde que lidam com pessoas traumatizadas. “É preciso que eles estejam preparados para trabalhar com crises, com sofrimento intenso, com luto. Porque eles também podem chegar a um limite e até adoecer.”

Franco afirma que também merecem atenção vizinhos da escola e outros moradores de Suzano.

“De repente Suzano, uma cidade pacata, ficou associada ao massacre – alguns passaram a se referir ‘ao drama de Suzano’. É uma marca, uma ferida, e isso é sério. O tecido social sofreu um rombo.”

Ela diz que, além dos atendimentos individuais, o trauma precisa ser trabalhado de maneira coletiva. “É importante pensar em formas de unir os alunos, as escolas, as várias comunidades envolvidas. É daí, do coletivo, que virá a força de reconstrução.”

Estresse Traumático Secundário

Em artigo publicado em 2018 pela Vanderbilt University (EUA), o pesquisador Chad Buck, PhD em Psicologia Clínica, diz que os sintomas do trauma vicário ou estresse traumático secundário são semelhantes aos do TEPT, mas menos intensos.

Segundo ele, a condição pode envolver fadiga crônica, tristeza, raiva, exaustão emocional, vergonha, medo e desconexão, entre outros sentimentos.

Segundo Buck, embora os estudos sobre esse distúrbio enfoquem profissionais de saúde mental, outras pessoas podem desenvolver os mesmos sintomas.

“Quem já vivenciou eventos semelhantes, tem TEPT pré-existente ou outras questões de saúde mental tem maior risco de sofrer uma acentuação dos sintomas e o desenvolvimento de estresse traumático secundário”, diz o psicólogo.

‘Divisor de águas’

Para Maria Helena Franco, o massacre será “um divisor de águas” para os alunos sobreviventes. “Há uma situação muito particular que agrava a situação: eles são ao mesmo tempo sobreviventes e testemunhas. São duas experiências muito fortes.”

Franco afirma que o acompanhamento dos jovens deve levar em conta os registros sensoriais vinculados a traumas, como barulhos, cheiros, cenas e movimentos.

“O cuidado precisa ser voltado para os registros que, se não forem tratados, vão ficar.” Segundo ela, o acompanhamento tem de durar vários anos. “É um trabalho de longuíssimo prazo.”
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Para ler a matéria na íntegra, acesse: https://vivabem.uol.com.br/noticias/bbc/2019/03/15/os-cuidados-para-proteger-a-saude-mental-de-quem-vive-traumas.htm

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A psicóloga Maria Helena Pereira Franco é autora de vários livros que abordam o luto, todos publicados pela Summus Editorial. Conheça abaixo alguns::

 

FORMAÇÃO E ROMPIMENTO DE VÍNCULOS
O dilema das perdas na atualidade
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas, Airle Miranda de Souza, Danielle do Socorro Castro Moura, Durval Luiz de Faria, Elizabeth Queiroz, Gabriela Golin, Geórgia Sibele Nogueira da Silva, Janari da Silva Pedroso, José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres, Maíra R. de Oliveira Negromonte, Vera Regina R. Ramires, Maria Helena Pereira Franco, Maria Julia Kovács, Maria Lucia C. de Mello e Silva, Maria Thereza de Alencar Lima, Roberta Albuquerque Ferreira, Rosane Mantilla de Souza, Silvia Pereira da Cruz Benetti, Soraia Schwan, Tereza Cristina C. Ferreira de Araújo

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.

 

A INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA EM EMERGÊNCIAS
Fundamentos para a prática
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Cristina Foloni Delduque da Costa, Karina Kunieda Polido, Julia Schmidt Maso, José Paulo da Fonseca, Isabela Garcia Rosa Hispagnol, Iara Boccato Alves, Gabriela Casellato, Ester Passos Affini, Eleonora Jabur, Lilian Godau dos Anjos Pereira Biasoto, Cristiane Corsini Prizanteli, Claudia Gregio Cukierman, Cibele Martins de Oliveira Marras, Ariana Oliveira, Ana Lucia Toledo, Adriana Silveira Cogo, Adriana Vilela Leite César, Viviane Cristina Torlai, Luciana Mazorra, Luiz Antonio Manzochi, Marcelo M. S. Gianini, Maria Angélica Ferreira Dias, Maria Helena Pereira Franco, Maria Inês Fernandez Rodriguez, Mariangela de Almeida, Priscila Diodato Torolho, Rachel Roso Righini, Reginandréa Gomes Vicente, Régis Siqueira Ramos, Samara Klug, Sandra Regina Borges dos Santos, Sandra Rodrigues de Oliveira, Suzana Padovan

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.

‘CIRURGIA BARIÁTRICA: ENTENDA OS TIPOS, COMPLICAÇÕES E QUEM PODE FAZER’

Publicado no Blog de Cintia Cercato, no UOL,  08/03/2019

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Cada vez mais pessoas sofrem com o excesso de peso e a obesidade. E as estatísticas tem mostrado que o número de casos graves também vem aumentando significativamente. De acordo com os dados de inquéritos populacionais brasileiros a obesidade grau 3 (índice de massa corpórea maior ou igual a 40 kg/m2) aumentou 255% entre os anos de 1975 e 2003. Uma pesquisa feita pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica mostra que de 2007 a 2014 o número de pessoas com obesidade grau 3 praticamente dobrou, atingindo cerca de 6,8 milhões de brasileiros. E como reflexo desse crescimento, o número de cirurgias bariátricas aumentou 46,7% entre 2012 e 2017. Foram realizadas mais de 105 mil cirurgias em nosso meio no ano de 2017.

Para quem está indicada a cirurgia?

De acordo com a Resolução 2131/15 do Conselho Federal de Medicina, a cirurgia está indicada para pessoas com índice de massa corpórea (IMC) acima de 40 kg/m2 ou para aquelas que apresentam o IMC maior do que 35 kg/m2 e portadoras de doenças que possam ser agravadas pela obesidade e que melhoram quando a mesma é tratada de forma eficaz. A lista de doenças é extensa e inclui diabetes tipo 2, apneia do sono, doenças cardiovasculares, osteoartrose, refluxo gastroesofágico, entre outras condições.

O tratamento cirúrgico deverá ser proposto se a pessoa tiver realizado tratamento clínico por pelo menos dois anos e não tiver obtido um resultado satisfatório. A idade mínima para realizar a cirurgia deve ser de 18 anos, mas adolescentes com 16 anos completos e menores de 18 anos poderão ser operados, desde que haja a concordância dos pais ou responsáveis legais e que exista uma avaliação de risco-benefício cuidadosa por uma equipe multiprofissional que inclua o pediatra.

Quais os tipos de cirurgia mais realizadas?

As técnicas mais realizadas são as  restritivas e as mistas. As cirurgias que apenas diminuem o tamanho do estômago são chamadas de restritivas e incluem a banda gástrica e a gastrectomia vertical. A cirurgia de banda gástrica se caracteriza pela colocação de uma cinta que aperta o estômago deixando-o com o formato de uma ampulheta. A gastrectomia vertical se baseia na remoção de 70-80% do estômago, e tem sido cada vez mais realizada em nosso meio.

Nas cirurgias mistas além da redução do tamanho do estômago há também um desvio do trânsito intestinal. Em nosso país a técnica do Bypass gástrico com reconstrução em Y de Roux ainda é a mais realizada. Nessa técnica o estômago é grampeado sendo criado um novo reservatório gástrico com um volume de apenas 50 ml e cerca de um metro do intestino é desviado. Esse desvio promove uma mudança na produção de hormônios intestinais que participam da regulação de fome e saciedade, mas que também tem efeitos metabólicos.

Quais as principais complicações da cirurgia?

Muitos são os benefícios da cirurgia, uma vez que é o tratamento mais efetivo para perda sustentada de peso em longo prazo. Mas não é isenta de complicações. Existem complicações cirúrgicas, como fistulas, estenose de anastomoses, hérnias com oclusão intestinal. Além disso podem ocorrer complicações nutricionais, particularmente nas cirurgias mistas, como deficiência da absorção de vitaminas e minerais. Esse tipo de complicação pode ser evitado com uso de polivitamínicos. Outro problema, que já discuti aqui no blog é o aumento do risco de alcoolismo após a cirurgia. Por essas razões é fundamental o acompanhamento médico regular após o procedimento, para que os benefícios prevaleçam e os riscos sejam minimizados.

Para ler na integra, acesse: https://cintiacercato.blogosfera.uol.com.br/2019/03/08/cirurgia-bariatrica-entenda-os-tipos-complicacoes-e-quem-pode-fazer/

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Quer saber mais sobre o assunto? Conheça o livro da MG:

CIRURGIA BARIÁTRICA E PARA O DIABETES
Um guia completo
Autor: Marcos Giansante
MG EDITORES

A obesidade é fator de risco para diversas enfermidades, entre elas hipertensão, doenças cardiovasculares e, principalmente, o diabetes – que, em 2014, matou mais que o HIV. Hoje, a cirurgia bariátrica é um procedimento seguro e eficaz, e reduz sobremaneira o surgimento dessas doenças relacionadas.
Neste livro destinado a obesos e a seus amigos e familiares, o cirurgião Marcos Giansante expõe sua vasta experiência no tratamento da obesidade. Em linguagem clara e sem jargões técnicos – e de forma humana e integrativa –, ele responde às principais dúvidas relacionadas ao tratamento cirúrgico da doença, como:
• o papel da cirurgia bariátrica, principalmente na parte metabólica, como tratamento complementar de doenças como o diabetes;
• as principais técnicas cirúrgicas utilizadas e as mais indicadas para cada caso;
• o pré e pós-operatório;
• a importância da alimentação e de atividades físicas na qualidade de vida do obeso e pós-operado.

HOJE É DIA INTERNACIONAL DA MULHER!

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, conheça algumas obras do Grupo Summus que apresentam uma visão renovadora sobre a força do feminino e seu papel na sociedade.

 

A MULHER HERÓICA
Relatos clássicos de mulheres que ousaram desafiar seus papéis
Autor: Allan B. Chinen
SUMMUS EDITORIAL

O livro traz contos populares compilados entre milhares de relatos ao redor do mundo. São histórias de mulheres fortes e maduras que não aceitaram o papel tradicional de passividade que grande parte das culturas lhes impõem. São explorados temas como competição, lealdade, limites, intuição e inteligência, entre outros.
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MULHERES NA JORNADA DO HERÓI
Pequeno guia de viagem
Autoras: Cristina BalieiroBeatriz Del Picchia
EDITORA ÁGORA

Baseadas no grande sucesso da obra O feminino e o sagrado – Mulheres na jornada do herói, Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro produziram uma obra dinâmica e objetiva na qual resumem os passos da jornada descrita por Joseph Campbell e apresentam depoimentos de mulheres que superaram inúmeros desafios para atingir a plenitude no cotidiano.

O FEMININO E O SAGRADO
Mulheres na jornada do herói
Autoras: Cristina BalieiroBeatriz Del Picchia
EDITORA ÁGORA

De que forma se entrelaçam o feminino, a mitologia, e as manifestações do sagrado na vida cotidiana? Partindo desse questionamento, as autoras entrevistaram 17 mulheres, cujas histórias compõem a obra. Tomando como base as etapas da jornada do herói, modelo mitológico descrito por Joseph Campbell, elas revelam histórias fortes de mulheres que tiveram a coragem de buscar o sagrado, pagando às vezes um alto preço por isso. As entrevistadas são: Ana Figueiredo, Andrée Samuel, Bettina Jespersen, Heloisa Paternostro, Jerusha Chang, Maria Aparecida Martins, Monica Jurado, Monika von Koss, Neiva Bohnenberger, Regina Figueiredo, Renata C. Lima Ramos, Rosane lmeida, Sandra Sofiati, Solange Buonocore e Soninha Francine.
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MULHERES NEGRAS NO BRASIL ESCRAVISTA E DO PÓS-EMANCIPAÇÃO
Organizadores: Juliana Barreto FariasGiovana XavierFlávio Gomes
SELO NEGRO EDIÇÕES

Como foi a participação das mulheres cativas na sociedade escravista e nas primeiras décadas da pós-emancipação? Como protestaram mirando a escravidão e contrariando a ideia de que aceitaram com passividade a opressão imposta? Os ensaios desta coletânea, que abrange os séculos 18 a 20, constituem um quadro amplo e fascinante das experiências das mulheres africanas, crioulas, cativas e forras.

‘NOVOS CAMINHOS PARA O VELHO’

Artigo de Maria Celia de Abreu*, publicado no jornal O globo, em 07/03/2019

Psicóloga e coordenadora de instituto para terceira idade diz que, à medida que sua população envelhece, país terá de rever seus valores sobre o tema

O aumento da longevidade e a diminuição de nascimentos trazem grandes modificações para a distribuição demográfica no Brasil do século XXI. Nos anos 1940, a expectativa média de vida de um brasileiro era em torno dos 40 e poucos anos; hoje, na primeira década do século XXI, vai além dos 70; viver 100 anos já não nos parece uma meta inatingível.

Entretanto, famílias com dez filhos, que eram comuns, tornaram-se uma raridade, ao mesmo tempo em que casais com um só filho, ou sem filhos, são encontrados com frequência. Somos uma sociedade que vem envelhecendo depressa, com tendência a acelerar ainda mais esse fenômeno.

Não é fácil se adaptar a situações novas, que geram uma verdadeira revolução, mas, neste caso, é imprescindível. Precisamos rever com urgência nossos valores em relação ao envelhecimento e ir em busca de bons caminhos para uma velhice com a melhor qualidade de vida possível.

As ciências, entre elas a psicologia, investiram em compreender a adolescência e a infância. Porém, não conhecemos a fundo características de pessoas com mais de 60 anos — que dirá com mais de 80 —,porque a existência delas como um grupo significativo para a população geral do país é recente. Estes estudos estão começando a florescer.

Uma reflexão sobre a qualidade de vida depois dos 80 anos precisa começar por distinguir entre o que é fato comprovado e o que é preconceito. Tal revisão de informações versus crenças deve ser feita pelos idosos e também pelos que com eles convivem, para que seu relacionamento não lhes seja nocivo ou restritivo e também para que os mais jovens se preparem para o seu futuro.

Qual é o valor que se atribui ao velho? Já é tempo de considerar que os seres humanos, qualquer que seja a sua idade cronológica, têm todos o mesmo valor.

Não é por não ser capaz de produzir bens como um jovem que seu papel na sociedade desaparece – crença que nos foi imposta pelo capitalismo e seu endeusamento da produção de bens de consumo. É preciso entender que a função do velho na sociedade só é diferente, mas não é inferior. Incorporar esse novo princípio é um desafio e tanto.

Suas consequências serão variadas: por exemplo, não será mais possível considerar o velho uma caricatura, um estereótipo do qual se debocha. Não vai dar mais para censurar e impedir o velho que se enamora ou que quer para si uma companhia; nem considerar alguém incapaz de trabalhar, de aprender ou de criar, só por sua idade.

Quem se livra do preconceito relativo ao desvalor do velho passa a respeitar sua capacidade de ser autônomo, de fazer escolhas sobre os rumos da própria vida, incluindo como quer usar o patrimônio e o dinheiro que lhe pertencem.

A não ser quando se instalou uma demência cognitiva, o fato de o velho precisar de alguma ajuda para atos cotidianos — como cuidar da casa, da roupa, da alimentação, da locomoção, da higiene — precisa ser discriminado do exercício de sua liberdade. Dependência é uma coisa, autonomia é outra.

Infantilizar o velho, muitas vezes superprotegendo-o, mesmo que seja carinhosamente, tolhe suas iniciativas, humilha, diminui, provoca a estagnação e o retrocesso.

À luz dessas reflexões, instituições tradicionais, tais como as propostas de moradia para quem tem mais de 80 anos, estão sendo radicalmente revistas. Não se aceita mais que a individualidade de cada morador seja ignorada, que suas funções cognitivas e de sociabilidade não sejam estimuladas, que seja tirado do morador asilado o exercício da liberdade.

O próprio interessado, desde que lúcido, deve fazer sua escolha de onde quer morar, e esta ser respeitada, sem mágoas e ressentimentos. Hoje, morar em uma instituição de longa permanência para idosos é uma opção tão válida quanto morar com um parente ou sozinho, com ou sem a presença de um cuidador.

É animador constatar que surgem caminhos novos para melhor atender a população crescente de quem tem mais de 80. O Sesc foi pioneiro em oferecer atividades e cursos para idosos. Faculdades da terceira idade são relativamente recentes, e se propagaram muito rapidamente, bem como cursos de iniciativa isolada específicos para idosos: informática, atualidades, dança e teatro e por aí afora, respondendo a demandas.

Há empresas de turismo atendendo a velhos. A indústria de calçados e de confecções começa a perceber que velhos precisam de mercadorias com características diferenciadas. As faculdades voltadas para a área da saúde começaram a incluir em sua grade curricular a disciplina da gerontologia. Nos hospitais, as maternidades estão diminuindo e as UTIs, crescendo, enquanto a medicina preventiva passa a ser valorizada.

Centro-dia

Surgida há poucos anos, a instituição conhecida como centro-dia vem se multiplicando rapidamente, provando sua utilidade e adequação. É um local onde a pessoa idosa passa algumas horas, embora continue morando em sua residência; ali lhe são oferecidas atividades que visam inclusão social, como a estimulação de habilidades cognitivas, a escuta de sua fala e o favorecimento da socialização.

Não é um local onde o velho é “depositado” enquanto os membros da família estão trabalhando e estudando e não podem supervisioná-lo, mas onde seu frequentador continua crescendo como ser humano, estimulado, desafiado, com acolhimento, respeito e alegria.

Infelizmente, nossa sociedade ainda não consegue dar as mesmas oportunidades aos velhos de todas as classes socioeconômicas. Os mais pobres, como sempre, saem penalizados. O fundamento desta realidade é o preconceito torto, pernicioso, falso, de que o rico vale mais que o pobre — um modo de pensar a ser destruído, tanto quanto seu paralelo, o de que o jovem vale mais que o velho.

São muitos os caminhos possíveis a serem descobertos que conduzem a uma vida de mais qualidade para quem já viveu pelo menos 80 anos. São muitos os tabus que dificultam essas descobertas e que necessitam ser desmascarados.

Nessa aventura pioneira, a mídia tem uma função fundamental, seja para estimular a reflexão, seja para apontar soluções e divulgar as que comprovam ser efetivas. Muita coisa há de mudar para melhor para os velhos que vivem no século XXI.

* Maria Celia de Abreu é psicóloga com doutorado pela PUC-SP e coordenadora do Ideac (Instituto para o  Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico)

Para acessar na íntegra: https://oglobo.globo.com/sociedade/artigo-novos-caminhos-para-velho-23503082

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Maria Celia de Abreu é autora do livro “Velhice – Uma nova paisagem”, da Ágora. Conheça-o:

VELHICE
Uma nova paisagem
EDITORA ÁGORA

Estima-se que, em 2050, a população de pessoas com mais de 60 anos comporá 30% da população brasileira, ou seja, cerca de 66,5 milhões de pessoas. Ao lado do grande crescimento do número de idosos, há também o aumento da expectativa de vida: hoje, no Brasil, vive-se em média 75 anos. Assim, todos nós estamos ou muito em breve estaremos envolvidos com velhos: por sermos idosos, por termos alta probabilidade envelhecer ou porque nossos produtos tendem a ser consumidos por esse público. Por que, então, a velhice permanece um estigma em nossa sociedade?

A fim de mudar essa visão, a psicóloga Maria Celia de Abreu propõe neste livro transformar visões e ideias preconcebidas a respeito do velho. Partindo de estudos teóricos sobre a psicologia do envelhecimento e de vivências colhidas em grupos de estudos, ela propõe que a vida passe a ser encarada como uma estrada que percorre diversas paisagens diferentes – nem melhores nem piores que as outras.

Com exercícios de conscientização e exemplos práticos, a autora discorre sobre inúmeros assuntos pertinentes à velhice, como corpo, sexualidade, memória, perdas, luto e depressão. Fundamental para idosos, seus familiares, cuidadores, pesquisadores e para todos os que desejam envelhecer com saúde, autoconfiança e alegria, a obra conta com depoimentos de importantes personalidades sobre emoções que sentem ao encarar a ideia da velhice.