‘METADE DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES SE SENTE INSEGURA NAS ESCOLAS PÚBLICAS’

Matéria de Júlia Barbon, publicada originalmente
na Folha de S.Paulo, em 26/06/2019.

Bullying e violência foram apontados como motivo por alunos em pesquisa feita por ONG

NOVA IGUAÇU (RJ)

Aos 13 anos de idade, Marina decidiu parar de estudar. A gota d’água foi o dia em que teve que se esconder em um posto de saúde ao ser perseguida a caminho da escola. Mas ela já vinha acumulando o peso de outras violências que via e vivia no colégio.

“Chupeta de baleia”, “perereca zoiuda” e “esquisitona” eram alguns dos apelidos que escutava frequentemente por ser “gordinha” e ter olhos grandes. Um professor chegou a dizer que ela tinha um grau de autismo por não entender a matéria, outra jogava o apagador nos alunos.

Uma vez por mês, discussões entre colegas terminavam em confusão ou até briga física. “Esse tipo de coisa acumulou, e perdi a vontade de estudar”, diz ela, hoje aos 17 anos e cursando o 2º ano do ensino médio, porque perdeu um ano na escola.

O sentimento de adolescentes como Marina —seu nome foi trocado para preservar sua identidade— foi alvo de uma pesquisa lançada recentemente que mostrou que 52% dos estudantes da rede pública não se sentem seguros no colégio, principalmente meninas e negros.

A ONG Visão Mundial, que tem projetos na área da infância e adolescência, entrevistou 3.814 alunos de 9 a 17 anos em agosto e setembro de 2018, em 67 escolas públicas de sete municípios onde atua no país, sobretudo no Nordeste.

Isso inclui as capitais Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Recife (PE), além das cidades de Nova Iguaçu (na zona metropolitana do Rio de Janeiro), Canapi e Inhapi (em AL, com 18 mil habitantes) e Governador Dix-Sept Rosado (no sertão do RN, com 12 mil moradores).

 “A informação sobre violência contra a criança ainda é muito precária no Brasil. Os dados vêm basicamente do Disque 100 [do governo federal] e da saúde, e eles são muito importantes para criar políticas públicas”, ressalta Karina Lira, especialista em proteção à infância da ONG.

O pior resultado apareceu na cidade de Marina, Nova Iguaçu, que fica na Baixada Fluminense, uma das regiões mais violentas do estado. Ali, 68% dos estudantes se sentem inseguros no ambiente escolar, índice bem acima da média.

 “A escola, que deveria ser esse espaço de formação cidadã e diálogo, acaba sendo o espaço onde eles presenciam conflitos. Isso não significa que ela seja a causa do problema, mas é preciso entender que ela está inserida num contexto de violência urbana, doméstica e exclusão social”, diz Lira, lembrando que mais da metade das vítimas de homicídio no país têm entre 15 e 29 anos.

Na região onde Marina mora, por exemplo, atuam tanto o tráfico como a milícia. Nos períodos em que os dois grupos estão em guerra, os alunos passam dias sem poder ir ao colégio. “Eu sinto cheiro de maconha dentro da minha própria casa, os caras ficam fumando bem em frente”, conta a jovem.

Um terço dos estudantes que responderam à pesquisa já teve aulas canceladas por tiroteios ou outros riscos externos. A mesma proporção também já foi alvo ou vivenciou efeitos da violência urbana, assim como já sofreu ameaças de abuso físico no colégio.

Já as brigas entre alunos são frequentes para 84% dos entrevistados. É o que Bernardo, 14, chama de “gritaria”: “Bate-boca durante a aula acontece quase diariamente”, diz ele, que também teve o nome preservado. O medo de se envolver e apanhar era frequente quando mais novo, na escola particular onde estudava.

“Me zoavam por causa do meu jeito, da minha voz, por sempre andar com meninas, e às vezes por eu tirar notas boas. Era ‘bichinha, menininha, baitola’. Eu fingia que estava ignorando, mas o psicológico ficava muito abalado.”

Ele chegou a passar seis meses inventando desculpas para faltar ao colégio. Se trancava no banheiro dizendo que estava com dor de barriga, esperando a van passar, até que um dia não aguentou mais e desabafou para os pais. “Eu era muito novo pra esse tipo de peso.”

Os impactos imediatos e futuros da violência na fase escolar podem ser múltiplos: dificuldade na aprendizagem e disciplina, problemas para estabelecer vínculos, lesões físicas, gravidez na adolescência, envolvimento com drogas, depressão, tentativa de suicídio e desistência de estudar.

A evasão escolar é o fator mais decisivo para levar jovens a cometerem crimes extremamente violentos —mais do que famílias desestruturadas—, concluiu um estudo de 2016 do sociólogo gaúcho Marcos Rolim. Todos os entrevistados que cumpriam pena tinham largado a escola aos 11 ou 12 anos.

Também causam consequências as violências vividas dentro de casa, onde 22% das crianças e adolescentes dizem não se sentir seguros. Seis em cada dez afirmam que apanham quando fazem algo de errado, mais de um terço costuma presenciar xingamentos e um quinto, agressões.

“Um dos grandes desafios é que a violência em casa é vista como problema privado. Quando uma mãe diz que bate porque ama, a criança internaliza isso, e é provável que faça o mesmo no futuro. É preciso romper esse ciclo e dizer que existem outras formas de educar, com respeito”, diz Karina Lira, da ONG Visão Mundial.

Para isso, ela defende a criação do que chama de “redes de proteção”, que envolvam escola, professor, família, comunidade e até outras esferas da sociedade, como postos de saúde, centros de assistência, delegacias, igrejas e associações de moradores.

Um exemplo foram as “comissões de proteção” implantadas em 36 escolas municipais de Fortaleza desde 2013, em um projeto da ONG em parceria com a prefeitura local. São grupos responsáveis por identificar situações de violência naquele espaço e pensar na prevenção e acolhimento das crianças.

 “Testamos, sistematizamos e agora queremos tornar isso uma política pública, e não isolada”, afirma Lira. A organização também está voltando aos colégios que participaram da pesquisa recente para montar planos de assistência locais.

Foi uma cadeia desse tipo que fez com que o bullying a Bernardo finalmente cessasse. Sua mãe, quando ouviu as queixas e o choro do filho, foi conversar com a escola, que conversou com os alunos sem expor o menino. “Ainda bem que parou”, sussurra para si mesmo.

Para ler na íntegra (assinantes Folha de S.Paulo e UOL), acesse: 
https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/06/metade-das-criancas-e-adolescentes-se-sente-insegura-nas-escolas-publicas.shtml

***

Tem interesse pelo assunto? Conheça o livro:

Clique no título e veja este livro na Amazon.com.br

A SOCIEDADE DA INSEGURANÇA E A VIOLÊNCIA NA ESCOLA
Autora: Flávia Schilling
SUMMUS EDITORIAL
Coleção Novas Arquiteturas Pedagógicas


Entre os discursos da violência como uma epidemia e o silêncio por ela provocado, há discursos inauditos e imprevistos que apontam para uma compreensão ampliada das questões que nos preocupam. Este livro discute a violência que está na escola, apresentando as várias dimensões que cercam o problema e apontando algumas ações possíveis que estão ao alcance de todos nós.

SUMMUS APOIA A REALIZAÇÃO DO XVII CONGRESSO LATINO-AMERICANO DE PNL

Entre os dias 19 e 22 de setembro, o Congresso Latino-Americano de PNL volta em 2019 para Curitiba, sendo ralizado pela terceira vez na capital paranaense.

Criado em 2003 pelo Diretor do INAp, Dr. Jairo Mancilha, o Congresso já passou por outras 10 cidades: Vitória, Rio de Janeiro, Campinas, Salvador, Florianópolis, Fortaleza, Belo Horizonte, Belém, São Paulo e Porto Alegre.

Sempre com temas atuais e com foco no desenvolvimento humano, o propósito do Congresso é divulgar a Programação Neurolinguística (PNL) como veículo de crescimento e desenvolvimento pessoal ou profissional.

Este ano, o tema do evento é PNL e Consciência e contará com a participação de grandes nomes da PNL no Brasil.

19 e 20 de Setembro – Curso Pré-Congresso
O Poder transformador da Consciência na PNL, no Coaching e na Constelação Sistêmica
Local: Lizon Curitiba Hotel | Curitiba – Brasil
Horário: das 9h às 18h

No conteúdo estão:
•             O Mapa da Consciência e como avaliar níveis de consciência
•             Funções e Fisiologia Cerebral e Corporal nos diferentes níveis de consciência
•             Aprender identificar níveis de consciência de sofrimento e elevá-los até o nível de empoderamento, aceitação até chegar ao nível do amor
•             Como identificar, reconhecer e mudar crenças limitantes
•             Como utilizar a Mandala do Ser para transformar sentimentos difíceis e histórias limitantes
•             Como aplicar as Leis da Abordagem Sistêmica na elevação dos níveis de consciência

21 e 22 de Novembro – Congresso
PNL e Consciência – Palestras
Local: Lizon Curitiba Hotel | Curitiba – Brasil
Horário: 9h às 18h30

Os maiores nomes da PNL no Brasil para falarão de temas atuais com foco na Consciência. Serão 2 dias de conteúdos e insights como:
•             A Evolução da Consciência nas Três Gerações da PNL
•             A Consciência na Visão Sistêmica
•             ThetaHealing®- Consciência em Expansão
•             PNL na Arte de Educar com Consciência
•             Como Criar Um Novo Eu
•             Coaching Sistêmico – A Consciência e os Princípios Sistêmicos no Crescimento Pessoal e Profissional

As obras de PNL da Summus Editorial estarão à venda no local.

Confira todas as informações sobre o evento em https://inalink.inaprj.com.br/cl/PFp0b/A/461e/0/BLpH/N6l6DdJMVfg/3/

Para conhecer todas as obras de programação neurolinguística publicadas pela Summus Editorial, acesse: https://www.gruposummus.com.br/gruposummus/categoria/PNL+(Programa%C3%A7%C3%A3o+Neuroling%C3%BC%C3%ADstica)

‘CUIDADOS AO FINAL DA VIDA: ENTENDA A IMPORTÂNCIA DOS TRATAMENTOS PALIATIVOS’

Artigo de Dante Senra, originalmente em sua coluna no
UOL VivaBem, em 15/06/2019

Os cuidados ao final da vida, também chamados de paliativos, tornaram-se uma especialidade da medicina. A palavra paliar etimologicamente vem do latim palium, que significa proteção. O termo era usado para nomear o manto que os cavaleiros usavam na época das cruzadas para protegê-los do vento, frio e tempestades pelos caminhos que percorriam.

Os médicos que escolhem esta especialidade exercem a arte de cuidar com competência e humanidade dos pacientes e familiares diante da finitude da vida. Em outras palavras, promovem qualidade de vida diante das doenças diante das doenças que ameaçam sua continuidade, prevenindo e aliviando o sofrimento através do tratamento da dor e de outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual.

Ao contrário do que se imagina, nestas condições são acrescidos cuidados, e não retirados. Esses cuidados tem como princípios básicos a aceitação dos valores próprios e prioridades dos pacientes, afirmando a vida e encarando a morte como processo natural. Assim, centram-se no bem-estar do indivíduo doente, ajudando-o a viver intensamente quanto possível até o fim. Baseia-se na disponibilidade e compaixão e somente é prestado quando bem aceito pelo paciente e familiares.

Por que isso é importante?

Tamanha é a obviedade desta pergunta que parece até estranho explicar por que aliviar a dor, mas cabe aqui um reforço. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) cerca de 18 milhões de pessoas morrem com dor desnecessária todos os anos no mundo devido acesso inadequado ao tratamento. Na tentativa de amenizar este problema, em 2012, autoridades da saúde de mais de 200 países aprovaram a primeira resolução de Cuidados Paliativos na Assembleia Mundial de Saúde. A ideia era viabilizar o acesso e tornar os cuidados paliativos como tratamento de prioridade.

Talvez as únicas coisas que podem amenizar a dor da perda (se é que é possível isso) são a sensação de realização plena de nossas tarefas e obrigações como familiares e médicos, bem como a certeza que o sofrimento do paciente foi abortado ou pelo menos reduzido em grande parte.

Por isso os pilares do tratamento paliativo baseiam-se no controle dos sintomas nesta difícil fase da vida (dor, fadiga, falta de ar, insônia, falta de apetite, distúrbios gastrointestinais e alterações cognitivas) e no apoio a família. Para tal, uma equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiras, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e até fonoaudiólogas) com formação específica na área é fundamental.

No cuidado paliativo todo o esforço é feito para que o paciente permaneça autônomo, com preservação de seu autocuidado sempre que possível. Apesar do número de doenças cardiovasculares e doenças infectocontagiosas estarem aumentando em nosso país e os números da violência serem assustadores, ainda é bem maior, segundo o DATASUS, a possibilidade de se morrer de uma doença crônica. Portanto, a necessidade desse cuidado pode não estar tão distante de nós.

Principais dificuldades dos cuidados paliativos

Somente não é possível a aplicação de cuidados paliativos quando a morte se instala de maneira súbita por doença, violência ou acidente. Mas, mesmo assim, sua aplicabilidade na prática é reduzida em nosso país. Diversos são os fatores dificultadores da atuação dos paliativistas.

A inclusão destes cuidados na atenção básica não ocorre. Outro fator que dificulta demais a sua aplicabilidade é quando estes cuidados são indicados na residência pois o preço alto dos medicamentos e o armazenamento, distribuição e descarte de opiáceos (medicamentos para dor controlados) praticamente inviabilizam o tratamento.

Mas, sem dúvida o maior dos obstáculos é o preconceito. Os profissionais desta área precisam vencer não só o preconceito de falar de cuidados paliativos tanto dos pacientes quanto dos familiares, como também a frustração do paciente devido a falência do tratamento da doença de base.

Com o entendimento de que a vida é finita a aceitação de cuidados paliativos talvez seja mais fácil, mas até hoje, famílias e pacientes ouvem de médicos e profissionais de saúde a frase “não há mais nada a fazer”. A médica inglesa Cicely Saunders sempre refutava: “ainda há muito a fazer”. Em 1967, ela fundou o St. Christopher´s Hospice, o primeiro serviço a oferecer cuidado integral ao paciente, desde o controle de sintomas, alívio da dor e do sofrimento psicológico. Até hoje, o St. Christopher é reconhecido como um dos principais serviços no mundo em Cuidados Paliativos e Medicina Paliativa.

Ela faleceu em 2005, em paz, sendo cuidada no St. Christopher. É dela a expressão que norteia e inspira essa excepcional especialidade médica: “Eu me importo por você ser você, eu me importo até o ultimo momento da sua vida e faremos de tudo o que está ao nosso alcance, não só para ajudar você a morrer em paz, mas também para você viver até o dia da sua morte!”

Para ler na íntegra, acesse:
https://vivabem.uol.com.br/colunas/danta-senrra/2019/06/15/cuidados-ao-final-da-vida.htm

***

Se você é profissional de saúde e quer saber mais sobre o assunto, conheça:

CUIDADOS PALIATIVOS
Diretrizes para melhores práticas
Organizadores: Ricardo CaponeroMarcella Tardeli Esteves Angioleti SantanaAna Lucia Coradazzi
MG EDITORES



O conhecimento do ser humano evolui continuamente em todas as áreas. Na medicina, porém, o avanço de uma ampla gama de tecnologias voltadas para o prolongamento da vida – desejo primitivo dos seres humanos – deu lugar à tecnocracia. Esse movimento iludiu leigos (e muitos profissionais) e criou mitos, sobretudo o de que a morte poderia ser vencida. O problema é que essa obstinação terapêutica é hoje, muitas vezes, fonte de sofrimento – e paradoxalmente pode resultar no abreviamento do tempo de vida.
Assim, é fundamental resgatar a qualidade do cuidar, não só do ponto de vista biológico, mas também mental e espiritual. Não se trata de abandonar o desenvolvimento tecnológico, mas de integrá-lo à visão plural de cuidado.
Partindo desse pressuposto, esta obra – escrita por uma equipe multidisciplinar – se baseia numa prática integrativa, na qual todas as áreas de conhecimento trabalham juntas na busca da melhor qualidade de vida e da dignidade humana. Dividida em 16 capítulos, ela oferece protocolos seguros e eficazes que aliviam os principais sintomas dos pacientes que demandam atenção paliativa e traz uma série de opções de tratamento. Também são abordados temas como plano avançado de cuidados e diretivas antecipadas de vontade, além dos cuidados de fim de vida. Trata-se de uma referência fundamental num campo que está em franco desenvolvimento.