‘QUAL A REAÇÃO A UM DIAGNÓSTICO DE CÂNCER?’


Pesquisa mostra que 70% pensam em morte e desespero; nervosismo impede esperança na possibilidade de cura 

Quando estava grávida de seis meses, Renata Berzoini, 38 anos, descobriu que tinha um tumor na mama. O obstetra que também é mastologista notou algo estranho no seio e pediu exames. “Fui ver como estava o bebê e recebi uma notícia destas. Pânico total. Só pensava que precisava cuidar dos meus filhos e que não podia morrer”, disse Renata.

Ela fez quimioterapia durante a gravidez e não amamentou Gustavo, hoje com 1 ano e quatro meses. Durante os exames para a cirurgia, no entanto, ela teve uma notícia ainda mais assustadora: tinha um tumor da bacia e metástase óssea. “Descobri da pior maneira possível, numa sexta-feira, ao ler a palavra metástase no exame. Fiquei completamente desesperada”, disse.

A reação de Renata – que segue em tratamento – ilustra o resultado de um estudo que perguntou a 443 pessoas com câncer qual foi o primeiro pensamento ao serem  informados do diagnóstico da doença. Medo, desespero e morte são as palavras que vêm à cabeça de pacientes quando é dada a fatídica notícia de que há um câncer no corpo. Especialistas afirmam que em geral o paciente pouco consegue atentar às informações passadas, muito menos aos próximos procedimentos. O raciocínio fica apenas na palavra maldita que buzina sem parar.

No estudo realizado pela Oncoguia no ano passado, 70% relataram ter pensamentos negativos e apenas 30% pensaram na cura, fé e superação. Entre os pessimistas, 88 pessoas afirmaram pensar em desespero, 85 morte, 49 ficaram em choque, outros 49 sentiram medo, 21 pensaram em tristeza e 13 em dúvida.

“Infelizmente, a gente ainda tem este peso na palavra câncer. Vemos que em geral a pessoa desaba logo após a notícia e precisa de um segundo momento para se recuperar e para saber quais são os próximos passos”, diz a psico-oncologista e presidente do Instituto Oncoguia Luciana Holtz. Ela afirma que se o médico, ao contar o diagnóstico, disser tumor e não câncer, o paciente não se assusta porque não se dá conta do que é. Mas, quando o médico pronuncia câncer, a reação tende a ser de desespero.

A onco-psicóloga afirma que a falta de conhecimento e o fato de a maioria das pessoas relacionar o câncer a morte gera mais desespero que o necessário. “No ano passado fizemos uma pesquisa onde foram ouvidas mais de 2 mil pessoas. Sessenta por cento respondeu que câncer é a doença que mais mata e sabemos que isto não é verdade”, disse. No Brasil e em todo o mundo, doenças cardiovasculares são as que mais matam.

Renata lembra até hoje que a notícia do câncer de mama foi numa quarta  e a confirmação do diagnóstico num sábado, e que o diabnóstico da metástase foi lido numa sexta-feira. “Senti muito medo. Cheguei até a negar, mas encarei tudo muito rápido.Acho que se não estivesse grávida e não tivesse o meu filho mais velho talvez não tivesse segurado a barra tão rápido”, diz a gerente financeira que afirma que quer viver até os 90 anos.

Péssima notícia 

Em um estudo da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP, a enfermeira Talitha Bordini de Mello constatou que a escolha das palavras e o local onde é feita a comunicação influenciam muito sobre compreensão sobre a doença. “A comunicação influencia muito o jeito como a doença repercute na vida das pessoas”, explica.

Thalita entrevistou 24 mães do setor de oncologia pediátrica do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, mulheres que enfrentavam a pior notícia de suas vidas. De acordo com Thalita, uma mãe chegou a relatar que era como se tivessem dado a sentença de morte do filho.

“Elas recebem uma notícia muito difícil e vinculam isso logo à morte. Mas percebi que mesmo quando o tratamento é difícil, ou quando não tem cura, mesmo assim elas continuam com esperança”, disse.

Pensar no pior contraria os dados do sucesso do tratamento contra a doença. Em crianças, a curabilidade do câncer no Brasil chega a 70%. “Por isso é importante que a notícia seja dada por um médico próximo, com informações claras, que possa responder a todas as dúvidas e que dê um direcionamento. Não existe receita, mas algumas regras precisam ser cumpridas“, diz.
.
Matéria de Maria Fernanda Ziegler, publicada originalmente no Portal iG, em 18/03/2014. Para lê-la na íntegra, acesse: http://saude.ig.com.br/minhasaude/2014-03-18/qual-a-reacao-a-um-diagnostico-de-cancer.html

***

Quer saber mais sobre psico-oncologia? Conheça alguns livros do Grupo Summus sobre o assunto:

20536HISTÓRIAS QUE CURAM 
Conversas sábias ao pé do fogão
Esta é uma obra de reflexão e de histórias sobre pessoas, contadas em tom intimista, como as antigas conversas nas mesas de cozinha, ao pé do fogão. Rachel N. Remen é médica e terapeuta, especializada em psico-oncologia e tem outro livro publicado pela Summus, O paciente como ser humano.
Rachel Naomi Remen

10642PSICO-ONCOLOGIA
Caminhos e perspectivas
Nesta obra, a psico-oncologia é abordada por meio de três diferentes referenciais teóricos: psicanalítico, fenomenológico e sistêmico. Além disso, apresenta trabalhos realizados com crianças e adultos com câncer, familiares e profissionais de saúde. Destinado a psicooncologistas, estudantes, pesquisadores e profissionais de saúde.
Carmen M. Bueno Neme

 

10665RESGATANDO O VIVER 
Psico-oncologia no Brasil
Maria Margarida M. J. de Carvalho
Um livro que oferece alguns modelos de atendimento psicológico ao paciente de câncer, em serviços hospitalares de psico-oncologia e em grupos de apoio particulares. Os relatos, provenientes de diferentes partes do Brasil, são depoimentos ao mesmo tempo didáticos e emocionantes, facilitando a leitura e envolvendo fortemente o leitor. A organizadora, Maria Margarida M. J. de Carvalho, é conselheira do CORA (Centro Oncológico de Recuperação e Apoio).

 

10383TEMAS EM PSICO-ONCOLOGIA
Vicente A. de Carvalho, Rita de Cássia Macieira, Regina Paschoalucci Liberato, Maria Teresa Veit, Maria Julia Kovács, Maria Jacinta Benites Gomes, Maria Helena Pereira Franco, Luciana Holtz de C. Barros
Nesta obra de referência, endossada pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, diversos especialistas discutem a abrangência e as especificidades da psico-oncologia, bem como a transdisciplinaridade de sua abordagem. Falam também de seus aspectos psicossociais e dos diversos tipos de tratamento, bem como de bioética e pesquisa de ponta.

 

Para ver todos os livros do Grupo que abordam o tema, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/busca/c%C3%A2ncer/all/0

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*