HÁ 135 ANOS, NASCIA “O MESTRE SALA DOS MARES”

A Censura no governo militar

A abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888, ocorreu sem inclusão social, restando aos libertos a pobreza, o subemprego e o estigma de séculos de escravidão. Este quadro excludente, o historiador e jornalista gaúcho, Décio Freitas (1922-2004), que foi dirigente do Partido Comunista Brasileiro, conceituou de “Brasil inconcluso”, título de um de seus livros.

No mês de junho de 1880, há 135 anos, nasceu João Cândido e nada mais justo que nos lembremos do samba que evoca a sua figura e o exemplo de resistência contra a opressão. Essa composição, imortalizada na voz de Elis Regina (1945-1982), poderia, também, ser batizada com o título de “Mestre-Sala da Liberdade”, devido à sua luta contra a injustiça e o desrespeito à dignidade humana. Na escola de samba, o mestre-sala corteja e protege a porta-bandeira. No caso do Almirante Negro, ele defendeu a porta-bandeira da liberdade no bailar das águas.

“O Mestre-Sala dos Mares” nasceu em Encruzilhada, no Rio Grande do Sul, em 24/6/1880. Filho dos ex-escravos João Felisberto e Inácia Cândido Felisberto. João Cândido, com apenas 13 anos, lutou a serviço do governo na Revolução Federalista do Rio Grande do Sul (1893-1895). Aos 14 anos se alistou no Arsenal de Guerra do Exército e com 15 anos ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros de Porto Alegre. Passados cinco anos foi promovido a marinheiro de primeira classe. Ao completar 21 anos, em 1903, foi promovido a cabo-de-esquadra, embora tenha sido rebaixado a marinheiro de primeira classe, por introduzir no navio um baralho para jogar. Serviu na Marinha do Brasil por 15 anos, tempo em que viajou pelo Brasil e outros países.

A Revolta da Chibata /1910

À noite, em 22 de novembro de 1910, eclodiu, no Rio de Janeiro, a “Revolta da Chibata”, devido aos castigos corporais sofridos pelos marujos, que eram punidos com chibatadas como à época da escravidão. Após Marcelino Menezes ter recebido, como castigo, 250 chibatadas, no encouraçado Minas Gerais, a marujada, composta por 90% de negros pobres, rebelou-se. O movimento tramado por marinheiros, como Francisco Dias Martins, o “Mão Negra” e os cabos Gregório e Avelino, teve como porta-voz o timoneiro João Cândido.

O “Mestre Sala dos Mares” era prestigiado pelos colegas, sendo com frequên-

cia designado para exercer liderança a bordo, inclusive, em suas viagens por outros países da Europa. Na Marinha, João Cândido devido a seu bom comportamento nunca sofrera castigos físicos. Em 1910, foi enviado à Inglaterra, para conduzir o encouraçado Minas Gerais ao Brasil.

Durante a viagem inaugural do Minas Gerais, João Cândido e companheiros ficam sabendo do movimento em prol da melhoria das condições de trabalho que exerciam os marinheiros britânicos entre 1903 e 1906. Tomaram conhecimento, também, da insurreição dos russos embarcados no encouraçado Potemkin, em 1905, que se tornaria tema de filme em 1925.

No calor da luta, quando eclodiu a revolta, três oficiais e o comandante do encouraçado Minas Gerais, João Batista das Neves, foram mortos, o que trouxe consequências trágicas para os envolvidos. O motim se estendeu a outros navios, sendo seus comandantes destituídos. Além do Minas Gerais, os marujos tomaram os navios Bahia, São Paulo, Deodoro, Timbira e Tamoio, hasteando bandeiras vermelhas e um pavilhão: “Ordem e Liberdade”.

Cerca de 2.300 homens comandaram os navios de guerra, direcionando mais de 80 canhões para o Palácio do Catete (RJ). Além da anistia, os marujos exigiam o fim dos castigos, aumento do soldo e redução da carga horária. Em 25/11/1910, o presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) lhes deu anistia, porém, três dias depois, decretou as expulsões da Marinha e prisões. Os marujos, após devolverem os navios aos oficiais, foram surpreendidos: haviam sido traídos. Na imprensa, neste ínterim, alguns periódicos começaram a criticar a fragilidade do Governo e da Marinha ao concederem a Anistia aos revoltosos. Alguns membros da Marinha, inclusive, de alta patente faziam declarações públicas no mesmo sentido. Os jornais da época registram que a população local teve o reflexo de buscar abrigo fora do centro da cidade e das regiões litorâneas, temendo os canhões dos poderosos navios que estavam apontados para o Palácio do Catete. Embora o receio, uma parte da imprensa manifestou simpatia pelas reivindicações dos marujos.

Texto de Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite via Guest Post, publicado originalmente no Portal Geledés. Para ler a matéria completa, acesse: http://www.geledes.org.br/ha-135-anos-nascia-o-mestre-sala-dos-mares/#ixzz3e0FJdxH1

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Para saber mais sobre o Almirante Negro, conheça o livro:

40045JOÃO CÂNDIDO
Autor: Fernando Granato
SELO NEGRO EDIÇÕES

Conhecido como “Almirante negro”, João Cândido Felisberto foi o líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910. Figura importante na luta por melhores condições na Marinha, esse herói brasileiro só teve sua anistia concedida em 2008, 39 anos após sua morte. Fruto de ampla pesquisa, esta biografia mostra o lado humano de João Cândido, cuja vida foi marcada por tragédias, perseguições e miséria.
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Esta obra faz parte da coleção Retratos do Brasil Negro, coordenada por Vera Lúcia Benedito, mestre e doutora em Sociologia/Estudos Urbanos pela Michigan State University (EUA) e pesquisadora e consultora da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. O objetivo da Coleção é abordar a vida e a obra de figuras fundamentais da cultura, da política e da militância negra. Para conhecer a coleção completa, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/colecao/Retratos%20do%20Brasil%20Negro

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