‘VOCÊ FOI ENSINADA A ROMANTIZAR RELAÇÕES ABUSIVAS? SAIBA COMO PARAR COM ISSO’

…………………………….Matéria de Heloísa Noronha, publicada originalmente no Universa, do UOL, em 26/09/2018

 

Por maiores que sejam os avanços dos recentes movimentos feministas, existem certas crenças difíceis de abandonar. Afinal, muitas foram aprendidas na infância, transmitidas por nossa família, e têm raízes culturais. O problema é que algumas dessas convicções, principalmente as que dizem respeito a relacionamentos afetivos, nem sempre são conscientes.

E, por serem alimentadas pela indústria do lazer (cinema, novelas, livros), têm seu lado nocivo e até mesmo machista romantizado. Só que há uma linha muito tênue entre o que é amor e o que é controle e, consequentemente, abuso.

O ciúme, por exemplo, ainda é tido como uma prova de amor. “Acredita-se que se há crises de ciúme com direito a brigas, discussões e gritos, existe amor. O homem que age dessa forma estaria ‘cuidando’ da parceira. Por trás disso, porém, há toda uma manobra de silêncio e de prisão dessa mulher. Trata-se de um pensamento que precisa ser modificado”, fala a psicóloga Livia Marques, do Rio de Janeiro (RJ).

Certos filmes, novelas e livros contribuem para perpetuar ideias românticas enganosas, normalizando o comportamento abusivo. Alguns exemplos do que tais produtos ensinam, seja  nas entrelinhas ou de maneira explícita:

  1. quanto mais exagerada a declaração de amor de um homem, maior seu sentimento;
  2. amor bom é amor cheio de obstáculos e empecilhos;
  3. toda mulher precisa de um “salvador”;
  4. quem sente ciúme ama de verdade.

“O que nos é passado é que o amor bom faz sofrer e que é para ser assim, mesmo. Não, não é. Mas vejo no consultório que amores calmos, para certas pessoas, não têm a menor graça, não fazem vibrar. Muita gente precisa da briga, da endorfina… A graça está na relação estilo iô-iô, que vai e volta, que desmancha e faz as pazes”, conta Mônica Bayeh, psicóloga clínica e psicoterapeuta, do Rio de Janeiro (RJ). Acreditar nessas crenças configura um risco enorme: o de aliviar a barra de um parceiro agressivo, justificando a violência como um “excesso de amor”.

Menos valor às mulheres

É claro que o romantismo e uma certa dose de fantasia fazem parte da vida. “No entanto, não devem limitar a mulher. Ela tem voz própria e deve ser aceita”, afirma Livia. Na opinião da psicanalista Malvina Muszkat, autora do livro “O homem subjugado – O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo” (Ed. Summus), as ideias de origem romântica reproduzem um inconsciente coletivo que atribui menos valor às mulheres do que aos homens tanto social quanto profissionalmente. “Homens são criados para brilhar e mulheres para seduzir. Eles são criados para serem fortes, poderosos e rudes, enquanto elas aprendem a ser afetivamente dependentes e submissas”, diz.

Segundo Malvina, o sentimentalismo tóxico e abusivo é muitas vezes perpetuado – de modo nem sempre consciente – pelas próprias mulheres, que estimulam seus homens a se comportarem como heróis, como nos tempos do amor romântico. “Apesar de, inúmeras vezes, competentes e corajosas em vários campos da vida, algumas mulheres ainda são românticas a ponto de se sentirem  prestigiadas quando homens ‘fortes e poderosos’ demonstram sua fragilidade quando atingidos pelo ciúme”, explica.

De acordo com especialistas, uma das formas mais eficazes para romper definitivamente esse padrão é educando meninos e meninas de forma igualitária, ensinando-os a respeitar as mulheres sem reproduzir discursos ultrapassados e machistas. “A criação das meninas tende a ser mais restritiva do que a dos meninos. As pessoas dizem ‘menina não faz isso’, ‘menina não faz aquilo’. As garotas que são criadas para ser obedientes e submissas tendem a reproduzir esse tipo de aprendizado nas relações adultas”, comenta Mônica. Outro fator determinante de uma relação abusiva é a base das relações com os pais na infância. Crianças que vivenciaram relações abusivas costumam buscar parceiros abusivos.

Mulher não precisa de ninguém!

A ideia de que toda mulher precisa de um homem que a complete e que a proteja pode estar por trás da dificuldade que algumas têm de se desvencilhar de relacionamentos abusivos. “Elas suportam tudo, desde que não estejam sós”, observa Malvina, que salienta ainda que identificar crenças tóxicas não é difícil, pois elas agem como uma espécie de “droga”. “Difícil é abrir mão dos seus efeitos secundários, como a sensação de ter domínio sobre o homem e o falso incremento da autoestima”, conta.

Resgatar uma visão mais realista sobre a relação homem-mulher é algo bem-vindo. Antes de ser feliz com um par, a pessoa precisa encontrar felicidade e segurança Antes de ser feliz com um par, a pessoa precisa encontrar felicidade e segurança nela mesma. “Mulheres devem entender de uma vez por todas que não precisam de um salvador. E que ninguém é feliz o tempo todo, pois todo relacionamento tem seus altos e baixos”, exemplifica Mônica. Os homens, segundo Malvina, em qualquer fase da vida também devem ser orientados e ter a oportunidade de revelarem sua fragilidade e ternura. “A verdade é que homens são muito mais dependentes das mulheres do que o oposto. Homens são obrigados a se proteger com uma máscara social que, ao mesmo tempo, encobre suas dificuldades e estimula sua violência”, pondera.

Para acessar a matéria na íntegra: https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/09/26/voce-foi-ensinada-a-romantizar-relacoes-abusivas-saiba-como-parar-com-isso.htm

 

Conheça o livro da psicóloga Malvina Muszkat, mencionado na matéria:

O HOMEM SUBJUGADO
O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo
Autora: Malvina E. Muszkat
SUMMUS EDITORIAL

Neste livro, a autora Malvina Muszkat, propõe que se repense o fenômeno da violência sob a perspectiva da subjetividade masculina na dinâmica dos relacionamentos, de forma a buscar maneiras mais eficientes de se promover o dialogo e evitar o confronto. Transitando por áreas como antropologia, sociologia, mitologia e psicanálise, Malvina mostra como a imagem da masculinidade foi construída ao longo dos séculos e de que forma os homens foram proibidos de demonstrar seus medos e fraquezas.

Talvez seja possível criar homens com comportamentos diferentes dos usualmente atribuídos a eles em nossa sociedade. Se não há apenas uma forma de ser mulher, por que haveria apenas uma forma de ser homem?40

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