‘POR QUE USAR A AFETIVIDADE PARA MOBILIZAR ADOLESCENTES’

Estudantes nessa faixa etária precisam de adesão emocional e de acreditar que a escola se preocupa verdadeiramente com eles

Artigo de Jordana Balduino e Rosana Teixeira,
publicada na revista Nova Escola, em 22/08/2019

Quando pequenos, os estudantes, em geral, têm apreço à escola. Levam os pais pelos corredores mostrando a sala em que estudam, apontam para seus desenhos nas paredes e apresentam os coleguinhas. À medida em que vão crescendo, esses comportamentos muitas vezes dão lugar à apatia ou ao descaso. Às vezes, até à raiva do ambiente escolar. Por quê? O que se perde nesse processo?

Acreditamos que uma das explicações (não a única, claro) é que a escola muitas vezes deixa de prestar atenção no componente afetivo do processo educativo para focar somente nas experiências formais de aprendizagem. Para Vygotsky (1995), a aprendizagem, na verdade, se amplia à medida em que as redes de interações e vínculos também se ampliam, englobando aspectos não somente cognitivos, mas, também, afetivos.

Segundo o teórico do ensino, construir conhecimento é uma ação compartilhada, fundada nas trocas entre sujeitos – professores, alunos, família e equipe escolar. Isso porque não aprendemos somente dentro das quatro paredes da sala de aula, mas também trocando conhecimento com colegas, conversando sobre a matéria com os pais, contando algo para alguém da equipe escolar…. Quando falamos isso, não estamos pensando somente nos conteúdos didáticos, mas no desenvolvimento do (a) estudante como um todo. Ele ou ela é uma pessoa que, além de pensar, também sente, chora, se emociona, sonha. E quando entramos na escola, não deixamos as emoções do outro lado da porta – elas entram com a gente.

Dimensão afetiva da aprendizagem

Olhando especificamente para o Ensino Médio, temos um desafio gigantesco em termos de aprendizagem. O Ideb para a etapa, considerando apenas a rede pública, foi de apenas 3,5 pontos, em 2017. A meta para o país era de 4,7. O índice não tem evoluído como o esperado. Em 2009, 2011 e 2013, o Ideb do Ensino Médio da rede pública se manteve estável em 3,4. Em 2015, subiu para 3,5 e se manteve assim em 2017. Isso indica, entre outras coisas, que a escola não está se conectando com esse jovem, não está sabendo engajá-lo. Esse aspecto, muitas vezes, é negligenciado pelas escolas que não levam em consideração a dimensão afetiva da aprendizagem e do desenvolvimento.

Diferentes estudos vêm sendo desenvolvidos nas últimas décadas – por Fernandéz (1991), Dantas (1992), Snyders (1993), Pinheiro (1995), Almeida (1997), Pereira (1998) e Tassoni (2003) – defendendo que o afeto é indispensável na atividade de ensinar. De forma geral, todos entendem que as relações entre ensino e aprendizagem são movidas pela mediação do outro e que, portanto, é possível identificar as condições afetivas favoráveis que facilitam a construção do sujeito e do conhecimento.

Pensando na perspectiva de Vygotsky, se o desenvolvimento dos sujeitos é um processo construído pelos contextos histórico, cultural e social no qual estão inseridos, a escola exerce um papel fundante neste sentido. Tassoni (2000), em uma pesquisa com o objetivo de analisar os aspectos afetivos na interação em sala de aula, percebeu que estes influenciam diretamente no processo ensino-aprendizagem. Compreendendo que a Educação não se dá apenas na relação professor-aluno, mas é mediada por todos os integrantes da equipe escolar de maneira complementar, podemos pensar que é na rotina do colégio – e interação com todos – que os objetos do conhecimento ganham um contorno afetivo, gerando aproximação ou afastamento por parte do estudante.

Segundo Leite e cols. (2006, p. 17), a partir da notoriedade que o tema da afetividade vem alcançando no âmbito educacional nos últimos anos, o conceito de homem centrado apenas na sua dimensão racional, típico da visão cartesiana na escola, vem sendo revisto. A principal direção é de uma concepção de ser humano em que afetividade e cognição são interpretadas como dimensões indissociáveis do mesmo processo, não sendo mais aceitável analisá-las isoladamente.

Como usar a afetividade para engajar os alunos

É justamente pela afetividade que podemos trazer o jovem para mais perto da escola. Para convencê-lo a realizar alguma tarefa, precisamos não somente de uma aceitação e compreensão racional da situação por parte do estudante, mas também do componente afetivo, de uma adesão emocional à proposta. Para dar significado à experiência, precisamos de uma troca com nosso ambiente social – as conversas com professores, momentos compartilhados com os colegas, a convivência diária com a equipe escolar…. Todas essas pequenas interações, que muitas vezes são ignoradas ou até mesmo desencorajadas, são importantíssimas.

Para que os adolescentes se sintam acolhidos e dispostos a não só viverem as experiências proporcionadas pela escola, mas também a atuarem nela de forma ativa, eles precisam sentir que aquelas pessoas que compõem seu cenário escolar se importam verdadeiramente com eles. E mais: que suas ações fazem alguma diferença na escola, que eles não são mais um na multidão, e que são capazes de interagir e agir em seu meio e transformá-lo.

Isso é relativamente simples com estudantes que já são engajados, têm um “bom” desempenho acadêmico e constroem redes de relações com facilidade. Com os alunos considerados “problemáticos”, a criação do vínculo jovem-escola é um processo muito mais complexo. Estes já consideram o colégio um espaço de enfrentamento diário, de ataques à sua autoestima, de inúmeras possibilidades de falhar e de pouquíssima compreensão de seus esforços, que parecem inúteis frente ao grande caminho que parecem ter que percorrer para “chegar aos pés” de seus colegas de bom desempenho.

Assim, uma Educação que tem como objetivo romper os estigmas e como foco a formação integral, precisa possibilitar ao estudante seu reconhecimento como um sujeito autônomo, cujo futuro não está traçado e determinado, mas é possível de ser construído por ele ao longo do tempo. E construído de fato, com as próprias mãos. Falar é, claro, mais fácil do que executar, mas a escola precisa pensar em como dar protagonismo ao jovem. Esse protagonismo ou envolvimento pode ser feito de diferentes formas com estudantes adolescentes, por exemplo, contando com sua participação na organização e produção de eventos; estabelecendo espaços de expressão de suas individualidades e de diálogo entre eles, e entre eles e diferentes pessoas da equipe escolar.

Tais ações são fundamentais para dar voz e acolher cada jovem em sua singularidade, tornando a escola “para todos e para cada um” (Kupfer et al). Ao integrar o estudante no coletivo da escola e ao permitir que ele exerça seu protagonismo, a escola realiza sua função de construção de um verdadeiro sentimento de pertencimento que, por sua vez, deve implicar nos resultados de aprendizagem.

Jordana de Castro Balduino Paranahyba é psicóloga, com mestrado e doutorado em Educação e professora adjunta de Psicologia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (FE/UFG). Rosana Ferrari Pandim Lisboa Teixeira é psicóloga, com atuação escolar, e mestranda em psicologia na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (FE/UFG).

Para saber mais

ALMEIDA, A. R. S. (1997) A emoção e o professor: um estudo à luz da teoria de Henri Wallon. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 13, n º 2, p. 239-249, mai/ago.
DANTAS, H. (1992) Afetividade e a construção do sujeito na psicogenética de Wallon, em La Taille, Y., Dantas, H., Oliveira, M. K. Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
FERNANDÉZ, A. (1991) A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas.
LEITE, S. A. S. e cols. (2006). Afetividade e Práticas Pedagógicas. São Paulo: Casa do Psicólogo. 
OLIVEIRA, M. K. (1992) O problema da afetividade em Vygotsky, em La Taille, Y., Dantas, H., Oliveira, M. K. Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
PEREIRA, M. I. G. G. (1998) Emoções e conflitos: análise da dinâmica das interações numa classe de educação infantil. Tese de doutorado, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo.
PINHEIRO, M. M. (1995) Emoção e afetividade no contexto da sala de aula: concepções de professores e direções para o ensino. Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo.
REGO, T. C. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis: Vozes, 1995.
SAVIANI, D. Pedagogia Histórico-Crítica. Campinas: Autores Associados, 2013.
SNYDERS, G. (1993) Alunos felizes. São Paulo: Paz e terra.
KUPFER, M. C. et al. A escola protagonista. Propostas LV para práticas inclusivas e transformadoras. In: KUPFER, M.C.; PATTO, M. H. S.;
OLTOLINI, R. (Orgs.) Práticas inclusivas em escolas transformadoras: acolhendo o aluno-sujeito. São Paulo: Escuta: Fapesp, 2017, p. 9-16.
TASSONI, E. C. M. Afetividade e aprendizagem: a relação professor-aluno. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPEd, 23, 2000, Caxambu. Anais… Caxambu: ANPEd, 2000.
VYGOTSKY, L. S. A construção social do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Para ler na íntegra, acesse: https://novaescola.org.br/conteudo/18215/por-que-usar-a-afetividade-para-mobilizar-adolescentes

***

Conheça a nova edição, lançada em 2019, do livro Piaget, Vigostski, Wallon, da Summus Editorial:

PIAGET, VIGOTSKI, WALLON – EDIÇÃO REVISTA
Teorias psicogenéticas em discussão
Autores: Yves de La TailleMarta Kohl de OliveiraHeloysa Dantas


Jean Piaget, Lev S. Vigotski e Henri Wallon são os três maiores teóricos estudados no universo da educação e da psicologia. Nesta edição revista de uma obra consagrada por crítica e público, Yves de La Taille, Marta Kohl de Oliveira e Heloysa Dantas traduzem para o leitor o pensamento vivo desses autores.

Analisando as ideias de Piaget, Yves de La Taille aborda conceitos como ser social, ética, autonomia, coerção versus colaboração e obediência versus justiça. Ao esclarecer os principais construtos da teoria construtivista, ele ressalta a importância da afetividade na educação.

Debruçando-se sobre os contrutos de Vigotski, Marta Kohl de Oliveira destaca tópicos como linguagem, formação de conceitos e metacognição. Partindo de uma abordagem holística do ser humano, a autora analisa a fundo a abordagem sócio-histórica e as implicações da afetividade para a cognição.

Já Heloysa Dantas dedica-se ao pensamento de Henry Wallon, destacando a emoção como instrumento típico da espécie humana e mostrando a interligação entre afetividade e inteligência – concluindo, como seus colegas, que a comunicação afetiva é fundamental para uma educação efetiva.

Trata-se, definitivamente, de um livro fundamental na área da pedagogia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*