SEU FILHO É O CENTRO DO SEU RELACIONAMENTO? ENTENDA POR QUE ISSO É TÃO RUIM



Matéria de Heloísa Noronha, publicada originalmente 
no Universa│UOL , em 27/08/2019.

Em seu livro “Mulheres Querem Sexo, Homens Sempre têm Dor de cabeça: Destruindo os Mitos Sobre Sexo e Relacionamentos Amorosos” (Ed. Cultrix), o terapeuta de casal alemão Christian Thiel afirma que as relações chamadas de child-centered (em tradução livre, centradas no filho) são um dos principais motivos para o afastamento de vários casais. De tão concentrados no filho, não só na fase de bebê, muitos se transformam em “sócios” na administração da casa e da vida em família e acabam se distanciando emocional e sexualmente. Nem sempre o desfecho é a separação: em alguns casos, a situação fica no piloto automático e as pessoas passam anos a fio convivendo nessas circunstâncias cômodas, mas infelizes. A boa notícia é que dá, sim, para reverter essa condição, mas primeiro é preciso compreender como os dois chegaram a esse ponto.

Ter um filho é, obviamente, uma experiência transformadora. E é lógico que nos primeiros meses pós-nascimento, por causa da nova rotina e dos cuidados essenciais, como a amamentação, a atenção dos pais fique 100% voltada ao bebê. Depois de um tempo é natural que o casal volte a se concentrar também na relação, mas isso depende de vários fatores que vão desde a possibilidade de contar com uma rede de apoio até o fato de o modelo familiar ser mais ou menos ansioso.

Na opinião da terapeuta de relacionamentos Rosangela Matos, que atua com atendimento online, após os primeiros seis meses de vida da criança os pais podem começar a dar pequenas “fugidinhas” para namorar. “Os familiares são importantes para dar um suporte. Aceitar ajuda é bom para todos: para o casal, que precisa fortalecer o vínculo homem-mulher; para a família, que se sente fazendo parte desse momento tão especial, e para o filho, que vai ter pais felizes ao seu lado”, comenta. “Porém, é importante que, antes disso, o casal separe alguns minutos para estar junto para falar do seu dia, trocar um abraço, um chamego e um sentir que o outro está ali”, completa Rosangela.

Já Triana Portal, psicóloga clínica e terapeuta de casal, de São Paulo (SP), observa que o casal consegue voltar ao “normal” por volta dos 3 anos de idade do filho, idade na qual já houve o desfralde, os pais não sofrem tanto com a privação de sono e a criança apresenta uma certa autonomia. “É uma fase em que o par realmente consegue ter mais intimidade e liberdade para passear e fazer pequenas viagens. Isso pode variar muito dependendo das características de cada família, mas os três primeiros anos costumam ser os mais desafiadores para qualquer casal. É, inclusive, uma fase em são registrados muitos divórcios”, fala.

Para Rosangela, um filho pode tanto unir quanto afastar um casal e um fator é determinante para isso: o alinhamento. “Muitos pais, especialmente os de primeira viagem, se preparam para a chegada do pequeno, assistem a filmes e documentários, fazem cursos, compram livros… Poucos, no entanto, procuram ajuda para se prepararem emocionalmente para a mudança na relação amorosa. O foco passa a ser o pequeno, os assuntos mudam. Dormir até tarde no fim de semana, passar uma tarde vendo filme agarradinho no sofá ou sair para se divertir nem sempre são possíveis. As mudanças são muitas e pegam o mais unido dos casais”, afirma.

Problema também para a criança

À medida que a criança cresce, o excesso de trabalho, o cansaço e a culpa por não dar tudo o que o filho precisa – principalmente tempo – acaba levando o casal a concentrar todas as suas energias na criança e a se descuidar dos papéis de homem e mulher. Com filhos, praticamente qualquer decisão deve levá-los em conta: do cardápio do jantar até a forma de gastar o dinheiro e o que a família vai fazer no fim de semana. No entanto, alguns pais e mães acabam superestimando essas resoluções, atribuindo poder à criança e desequilibrando a relação. “É o que chamo de ‘filiarcado’, ou seja, permitir que a criança decida tudo”, diz Elizabeth Monteiro, psicóloga e psicopedagoga, autora dos livros “Criando Filhos em Tempos Difíceis” e “Criando Adolescentes em Tempos Difíceis” (Summus Editorial).

Para Elizabeth, às vezes as pessoas simplesmente se entregam ao tipo de relação child-centered por puro desânimo. “Está todo mundo cansado demais. É mais fácil abrir mão de autoridade e, por comodismo, deixar a situação como está. Porém, essa não é a solução ideal para ninguém”, afirma. Um dos riscos é a criança se transformar num adulto mimado, já que sempre teve suas vontades atendidas. Vai comer o pão que o diabo amassou, claro, porque dificilmente alguém vai atender suas demandas como papai e mamãe faziam. Para o casal, uma das consequências é, quando o filho crescer e for embora de casa, enfrentar a chamada “síndrome do ninho vazio”. Como o filho possivelmente era o único elo forte que os unia, o que restará? Isso sem contar que, após tantos anos de afastamento, é possível que um sequer reconheça o outro como pessoa.

Segundo a psicóloga Renata de Azevedo, especialista em terapia de casal pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), alguns casais já estavam afastados antes mesmo de terem filhos. “Alguns, inclusive, acreditavam que o bebê salvaria a relação. Com o nascimento, os casais que estavam mal ficam pior ainda, pois o afastamento, o stress e alguns atritos são comuns nessa fase de adaptação. Outros casais colocam todo o seu afeto e a carência em cima do filho e não sobra tempo, espaço e energia para mais ninguém, inclusive o seu cônjuge. Dessa forma, a distância aumenta e passam a ser apenas pais”, observa. O filho passa a ser o centro e o único elo entre o casal durante anos.

Separar os papéis é fundamental

Um filho toma toma tempo, espaço, energia, pesa no orçamento, limita a intimidade. Resgatar ou manter a mesma relação de amor anterior à sua chegada é bem difícil. Com alguns ajustes no dia a dia e na forma de configurar as tarefas domésticas e as atividades em família, dá para o casal encontrar um equilíbrio saudável para lidar com tudo. “É possível reverter, mas a mudança precisa fazer sentido. Ambos devem estar cientes que a reversão de um padrão de comportamento ou rotina é um processo, leva tempo e exige paciência para adaptação do novo formato”, avisa Triana.

Uma conversa franca sobre o que mudou para cada um depois da chegada do filho, o que mais faz falta e o que pode ser feito diferente é o primeiro e mais importante passo, segundo Rosangela. Se o casal está vivendo essa situação é importante sentar e conversar sobre isso para que possam ir mudando seus comportamentos aos poucos.

Uma criança precisa que suas necessidades emocionais e físicas sejam supridas, mas também necessita que os pais estimulem sua segurança e autonomia. “Grande parte dos problemas da vida adulta são resultado da primeira infância, na melhor das intenções os pais vão se anulando e não percebem o quanto isso impacta nos filhos. Os pequenos devem ter limites e também aprender a conviver com a família e outras pessoas além dos pais. E precisam saber que os pais são um casal e que eles priorizam também essa relação”, diz a terapeuta.

Para Triana, os casais child-centered precisam se conscientizar de várias verdades. A primeira é que construir um “reinado” para o filho não é a melhor forma de educar. “E, em seguida, devem entender que se não estiverem inteiros nem felizes não conseguirão cuidar bem do filho. A relação conjugal precisa de constante manutenção, algo que dá trabalho e demanda atenção. Valorizar a intimidade, o sexo e os momentos de lazer sem os filhos, não os torna pais negligentes ou maus”, declara. Para isso, também é fundamental que cada um cuide bem de sua autoestima, assim ficam menos inseguros, têm mais clareza de pensamento e objetivos e levam a vida de forma mais assertiva.

“As pessoas também precisam compreender que têm o direito de ser homem e mulher, não precisam ser apenas pai e mãe pelo resto da vida. Dá para vivenciar todos os papéis sem negligenciar nenhum. Além disso, os filhos gostam de saber que os pais namoram, se curtem, saem, apreciam ficar juntos. Isso é benéfico para o desenvolvimento da criança, que cresce aprendendo um modelo saudável de relacionamento”, pontua a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casal pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Para ler na íntegra o texto publicado no UOL Universa, acesse: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/08/27/relacionamento-child-centered-voce-esta-vivendo-um.htm

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Conheça abaixo alguns livros das autoras Elizabeth Monteiro e Marina Vasconcellos. Outros podem ser encontrados no site do Grupo Editorial Summus.

CRIANDO FILHOS EM TEMPOS DIFÍCEIS
Atitudes e brincadeiras para uma infância feliz
Autora: Elizabeth Monteiro
SUMMUS EDITORIAL

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.

 

CRIANDO ADOLESCENTES EM TEMPOS DIFÍCEIS
Autora: Elizabeth Monteiro
SUMMUS EDITORIAL

O amor parental não é estático: ele muda com o tempo e com os filhos. Por isso, os pais precisam atualizar seu modo de sentir e amar. Com uma linguagem direta e delicada, Elizabeth Monteiro fala sobre a necessidade de proteger os adolescentes de ameaças como as drogas e, ao mesmo tempo, de incentivar a autonomia deles. Sem fórmulas mágicas, a autora estabelece com pais e educadores um diálogo amplo e profícuo.

QUANDO A PSICOTERAPIA TRAVA
Como superar dificuldades
Organizadora: Marina da Costa Manso Vasconcellos
SUMMUS EDITORIAL

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.



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