‘CUIDADOS AO FINAL DA VIDA: ENTENDA A IMPORTÂNCIA DOS TRATAMENTOS PALIATIVOS’

Artigo de Dante Senra, originalmente em sua coluna no
UOL VivaBem, em 15/06/2019

Os cuidados ao final da vida, também chamados de paliativos, tornaram-se uma especialidade da medicina. A palavra paliar etimologicamente vem do latim palium, que significa proteção. O termo era usado para nomear o manto que os cavaleiros usavam na época das cruzadas para protegê-los do vento, frio e tempestades pelos caminhos que percorriam.

Os médicos que escolhem esta especialidade exercem a arte de cuidar com competência e humanidade dos pacientes e familiares diante da finitude da vida. Em outras palavras, promovem qualidade de vida diante das doenças diante das doenças que ameaçam sua continuidade, prevenindo e aliviando o sofrimento através do tratamento da dor e de outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual.

Ao contrário do que se imagina, nestas condições são acrescidos cuidados, e não retirados. Esses cuidados tem como princípios básicos a aceitação dos valores próprios e prioridades dos pacientes, afirmando a vida e encarando a morte como processo natural. Assim, centram-se no bem-estar do indivíduo doente, ajudando-o a viver intensamente quanto possível até o fim. Baseia-se na disponibilidade e compaixão e somente é prestado quando bem aceito pelo paciente e familiares.

Por que isso é importante?

Tamanha é a obviedade desta pergunta que parece até estranho explicar por que aliviar a dor, mas cabe aqui um reforço. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) cerca de 18 milhões de pessoas morrem com dor desnecessária todos os anos no mundo devido acesso inadequado ao tratamento. Na tentativa de amenizar este problema, em 2012, autoridades da saúde de mais de 200 países aprovaram a primeira resolução de Cuidados Paliativos na Assembleia Mundial de Saúde. A ideia era viabilizar o acesso e tornar os cuidados paliativos como tratamento de prioridade.

Talvez as únicas coisas que podem amenizar a dor da perda (se é que é possível isso) são a sensação de realização plena de nossas tarefas e obrigações como familiares e médicos, bem como a certeza que o sofrimento do paciente foi abortado ou pelo menos reduzido em grande parte.

Por isso os pilares do tratamento paliativo baseiam-se no controle dos sintomas nesta difícil fase da vida (dor, fadiga, falta de ar, insônia, falta de apetite, distúrbios gastrointestinais e alterações cognitivas) e no apoio a família. Para tal, uma equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiras, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e até fonoaudiólogas) com formação específica na área é fundamental.

No cuidado paliativo todo o esforço é feito para que o paciente permaneça autônomo, com preservação de seu autocuidado sempre que possível. Apesar do número de doenças cardiovasculares e doenças infectocontagiosas estarem aumentando em nosso país e os números da violência serem assustadores, ainda é bem maior, segundo o DATASUS, a possibilidade de se morrer de uma doença crônica. Portanto, a necessidade desse cuidado pode não estar tão distante de nós.

Principais dificuldades dos cuidados paliativos

Somente não é possível a aplicação de cuidados paliativos quando a morte se instala de maneira súbita por doença, violência ou acidente. Mas, mesmo assim, sua aplicabilidade na prática é reduzida em nosso país. Diversos são os fatores dificultadores da atuação dos paliativistas.

A inclusão destes cuidados na atenção básica não ocorre. Outro fator que dificulta demais a sua aplicabilidade é quando estes cuidados são indicados na residência pois o preço alto dos medicamentos e o armazenamento, distribuição e descarte de opiáceos (medicamentos para dor controlados) praticamente inviabilizam o tratamento.

Mas, sem dúvida o maior dos obstáculos é o preconceito. Os profissionais desta área precisam vencer não só o preconceito de falar de cuidados paliativos tanto dos pacientes quanto dos familiares, como também a frustração do paciente devido a falência do tratamento da doença de base.

Com o entendimento de que a vida é finita a aceitação de cuidados paliativos talvez seja mais fácil, mas até hoje, famílias e pacientes ouvem de médicos e profissionais de saúde a frase “não há mais nada a fazer”. A médica inglesa Cicely Saunders sempre refutava: “ainda há muito a fazer”. Em 1967, ela fundou o St. Christopher´s Hospice, o primeiro serviço a oferecer cuidado integral ao paciente, desde o controle de sintomas, alívio da dor e do sofrimento psicológico. Até hoje, o St. Christopher é reconhecido como um dos principais serviços no mundo em Cuidados Paliativos e Medicina Paliativa.

Ela faleceu em 2005, em paz, sendo cuidada no St. Christopher. É dela a expressão que norteia e inspira essa excepcional especialidade médica: “Eu me importo por você ser você, eu me importo até o ultimo momento da sua vida e faremos de tudo o que está ao nosso alcance, não só para ajudar você a morrer em paz, mas também para você viver até o dia da sua morte!”

Para ler na íntegra, acesse:
https://vivabem.uol.com.br/colunas/danta-senrra/2019/06/15/cuidados-ao-final-da-vida.htm

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Se você é profissional de saúde e quer saber mais sobre o assunto, conheça:

CUIDADOS PALIATIVOS
Diretrizes para melhores práticas
Organizadores: Ricardo CaponeroMarcella Tardeli Esteves Angioleti SantanaAna Lucia Coradazzi
MG EDITORES



O conhecimento do ser humano evolui continuamente em todas as áreas. Na medicina, porém, o avanço de uma ampla gama de tecnologias voltadas para o prolongamento da vida – desejo primitivo dos seres humanos – deu lugar à tecnocracia. Esse movimento iludiu leigos (e muitos profissionais) e criou mitos, sobretudo o de que a morte poderia ser vencida. O problema é que essa obstinação terapêutica é hoje, muitas vezes, fonte de sofrimento – e paradoxalmente pode resultar no abreviamento do tempo de vida.
Assim, é fundamental resgatar a qualidade do cuidar, não só do ponto de vista biológico, mas também mental e espiritual. Não se trata de abandonar o desenvolvimento tecnológico, mas de integrá-lo à visão plural de cuidado.
Partindo desse pressuposto, esta obra – escrita por uma equipe multidisciplinar – se baseia numa prática integrativa, na qual todas as áreas de conhecimento trabalham juntas na busca da melhor qualidade de vida e da dignidade humana. Dividida em 16 capítulos, ela oferece protocolos seguros e eficazes que aliviam os principais sintomas dos pacientes que demandam atenção paliativa e traz uma série de opções de tratamento. Também são abordados temas como plano avançado de cuidados e diretivas antecipadas de vontade, além dos cuidados de fim de vida. Trata-se de uma referência fundamental num campo que está em franco desenvolvimento.

“VIDA, MORTE E LUTO”, POR KARINA FUKUMITSU

Karina Okajima Fukumitsu fala sobre o livro Vida, morte e luto – Atualidades brasileiras, obra multidisciplinar organizada por ela e que conta com a autoria de diversos conceituados profissionais da saúde. Assista.

 

Para saber mais sobre o livro, acesse: https://www.gruposummus.com.br/gruposummus/livro/1497/Vida,+morte+e+luto

‘MENOS DE 10% DOS HOSPITAIS TÊM EQUIPES DE CUIDADOS PALIATIVOS NO BRASIL’

………………………………………….Matéria de Cláudia Collucci e Mariana Versolato, publicada na Folha de S. Paulo em 14/10/2018

Gargalo começa nas universidades; apenas 14% dos cursos de medicina têm formação específica

Menos de 10% dos hospitais brasileiros têm equipes de cuidados paliativos, serviço essencial para que doentes graves e sem chances de cura tenham qualidade de vida até o fim.

Levantamento inédito da Academia Nacional de Cuidados Paliativos mostra que são apenas 177 serviços registrados nos 2.500 hospitais brasileiros com mais de 50 leitos—a maioria (58%) no Sudeste.

“Não há coordenação, muitos cuidados são oferecidos de forma isolada e irregular”, diz Daniel Forte, presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, que apresentou os dados nesta quinta (11) em evento em Lima, no Peru.

Entre os países latino-americanos, o Brasil só está à frente da República Dominicana e da Venezuela em termos de disponibilidade de serviços de cuidados paliativos. Uruguai, Argentina, Costa Rica e Chile são os mais bem colocados.

No evento, representantes de governos, da academia e da sociedade civil criaram uma força tarefa com objetivo de incentivar países da região a adotarem políticas públicas de cuidados paliativos.

Segundo Emilio Herrera, presidente do New Health Foundation, entidade que desenvolve modelos de atenção em cuidados paliativos, os últimos meses de vida acumulam mais sofrimento e mais gastos aos sistemas de saúde.

“Com os cuidados paliativos, os custos podem cair de 30% a 50%. Evitando internações e terapias desnecessárias, pode-se usar recursos para serviços que realmente vão fazer a diferença ao doente.”

Uma comissão de especialistas da revista Lancet elaborou um pacote essencial do que deve nortear as políticas públicas, ancorado em três pilares: expansão dos cuidados paliativos a todos os níveis da assistência, medicamentos genéricos para controle da dor, como morfina oral e injetável, e a capacitação e treinamento de profissionais da saúde.

Segundo Felicia Marie Knaul, da Universidad de Miami e membro da comissão Lancet, o pacote essencial tem custo de US$ 3 (R$ 11) per capita, dependendo do país e do tipo de doença.

“Muitos países pagam caro por medicamentos para dor porque não negociam bem”, diz Knaul.

Para os especialistas, porém, o que mais emperra o acesso a drogas como a morfina não é o preço, mas mitos e preconceitos que atingem médicos e familiares dos doentes.

“Não medicam uma pessoa com dor aguda nos seus momentos finais por medo da dependência. É o que chamamos de opiofobia”, diz Knaul.

Para Nicolás Dawidowicz, coordenador do Programa Nacional de Cuidados Paliativos da Argentina, parte do mito remonta ao tempo em que a prescrição da morfina só ocorria no fim da vida.

“Quando o paciente já estava morrendo, davam morfina para que ele não sofresse. As pessoas passaram a associá-la à morte. É um analgésico seguro, não acelera a morte.”

A Argentina é um dos países da América Latina em que doentes graves mais têm acesso à morfina, com consumo per capita anual de 14 mg , contra 10,6 no Brasil. A média global é de 61,3 mg per capita.

Com fabricação própria, a Argentina está capacitando equipes de saúde da família a prescrever morfina em um programa de cuidados paliativos na atenção primária.

“Garantir o acesso a essas substâncias ao doente com dor é uma obrigação por parte dos Estados. Do contrário, o paciente está condenado a sofrer uma dor desnecessária, uma tortura”, diz Dawidowicz.

No Brasil, os gargalos já começam na formação médica. Só 14% dos cursos de medicina oferecem a disciplina de cuidados paliativos e em só 6% desses ela é obrigatória.

Para Tania Pastrana, presidente da Associação Latino Americana de Cuidados Paliativos, a falta de educação sobre o tema é uma das principais barreiras ao acesso.

“Se os médicos e familiares dos doentes conhecessem mais sobre os cuidados paliativos e o manejo da dor, passariam a exigir isso.”

Porém, o que se vê hoje, é muitas vezes uma disputa entre especialidades. Há oncologistas que resistem em encaminhar pacientes aos cuidados paliativos e insistem em tratamentos inúteis.

“Há estudos mostrando que os cuidados paliativos melhoram a qualidade de vida, os sintomas, a aderência ao tratamento e prolongam a vida. Eu pergunto aos oncologistas: se existisse um remédio que fizesse isso tudo, você não daria ao seu paciente?”

O caso do engenheiro aposentado Armando Colotto, 88, exemplifica o que são os cuidados paliativos na prática. Com um problema cardíaco muito grave e incurável, ele já foi internado 13 vezes desde novembro de 2016.

“O coração dele está parando, parando, menos de 30% funciona. Nós íamos à emergência e era um terror. Colocaram até sonda sem necessidade”, conta a mulher, Clara, 79.

Foi então que o cardiologista sugeriu que um médico de cuidados paliativos acompanhasse o caso. “Eu estranhei quando ele falou em cuidados paliativos, foi um choque. Mas confio nele e aceitei.”

A partir daí, segundo Clara, Colotto voltou à vida. “Pela primeira vez ele falou o que estava sentindo. Ninguém sabia o que estava passando pela cabeça dele.”

Na sua fala, apareceu o medo de sentir dor, de ficar dependente dos outros. “O doutor Daniel [Forte] falou: ‘Você não vai sentir dor’. E aí começaram a dar morfina. O fato de alguém assegurar isso foi essencial, o ponto de virada. E ele ficou tranquilo.”

Até as internações estão diferentes, segundo ela. “Agora não ficam mais colocando fios, não tem nada invasivo. Todas as intervenções são feitas para suprimir as torturas que ele sofria, para dar conforto.”

Clara diz que tem parentes nos EUA e na Europa, e que nesses locais os cuidados paliativos são uma realidade, inclusive com o envolvimento da comunidade.

“O marido de uma amiga tinha câncer avançado e voluntários iam na casa dela todos os dias, cuidavam dele, da casa, das atividades dos dois. Aqui temos que avançar muito ainda. Faz tanta diferença…”

A jornalista Cláudia Collucci viajou a convite da Associação Latino Americana de Cuidados Paliativos

 

Para ler a matéria na íntegra (para assinantes ou cadastrados), acesse: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/10/menos-de-10-dos-hospitais-tem-equipes-de-cuidados-paliativos-no-brasil.shtml

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O médico Daniel Forte é um dos coautores do livro Vida, morte e luto, recém-lançado pela Summus.  Conheça a obra:

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Ana Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresLeo Pessini, Karina Okajima FukumitsuMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja HeishinNely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da LuzTeresa Vera Gouvea
SUMMUS EDITORIAL

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

COBERTURA DO LANÇAMENTO DE “VIDA, MORTE E LUTO”

Saiba mais sobre o livro Vida, morte e luto – Atualidades brasileiras com a cobertura da noite de autógrafos feita pelo YouTuber Anderson Mendes. Na ocasião, Anderson conversou com a organizadora da obra, Karina Okajima Fukumtisu, e com vários dos autores presentes. O evento aconteceu no final de agosto na Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis.
Assista ao vídeo abaixo.
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Créditos: Anderson Mendes, Júnior Sanchez e Karina Mendes.