‘DORMIMOS CADA VEZ MENOS, E ISSO TRAZ IMPLICAÇÕES PARA A SAÚDE’

Publicado no Blog de Luiz Sperry, no UOL Viva Bem, em 01/04/2019.

O sono é o primeiro a ser sacrificado. Entre os estímulos vertiginosos que se apresentam na contemporaneidade, cada vez mais no virtual e menos no real, é bem verdade, o sono vai sendo encurtado por ambas as bordas. Nunca se dormiu tão tarde, embora já se tenha madrugado mais. De fato não vivemos numa época propícia para se dormir.

Não deixa de ser curioso que isso ocorra justamente numa época em que as pessoas saem tão pouco de casa. As supostas comodidades, como os serviços de streaming, tornaram hábitos como o cinema deveras obsoletos. E mesmo um passado próximo, como as locadoras que abundavam até o final do século passado, parece há anos-luz de distância da nossa realidade atual. A cena em que a Capitã Marvel despenca dentro de uma loja da Blockbuster me trouxe uma nostalgia assustadora.

E mesmo a noite, que era uma criança, envelheceu. Os mais novos, que sempre tiveram mais energia e menos compromissos, já não saem tanto como antes. Alguns dizem que a balada está morrendo e a culpa, claro, é dos millenials. Mas estas questões envolvem uma série de fatores sociológicos que as rixas geracionais sempre simplificam de maneira porca. A começar pelo modo que as pessoas se conhecem e interagem entre si. Há pouco mais de 10 anos era muito improvável que as pessoas se conhecessem através da internet ou por aplicativos de celular. Nem havia propriamente aplicativos. Se você queria conhecer alguém tinha que ser na raça. E isso demandava um monte de tempo, dinheiro e álcool. Hoje em dia é impensável sair, beber e dirigir como minha geração fazia. A civilização sempre cobra um preço.

As cidades se tornaram grandes e o transporte não acompanhou. Tudo é um pouco mais longe e mais difícil do que era antes. Mais cheio, mais caro. Não é de se estranhar que as pessoas fiquem cada vez mais tempo dentro de casa. Mas também estão quase sempre conectadas. O fato de passarmos a maior parte do tempo olhando para uma tela bem de pertinho acabou por afetar nosso funcionamento biológico e comportamental. Quase todas as pessoas desenvolveram algum grau de miopia funcional em decorrência do uso prolongado (excessivo?) de dispositivos eletrônicos que fazem com que nossos olhos passem o tempo todo fixando pontos muito próximos a eles.

O nosso sono também se prejudica por isso. Sabemos que a luminosidade no período noturno inibe a nossa produção de melatonina, que é o principal hormônio regulador do sono e do ritmo circadiano. A melatonina é importante não apenas no adormecer, mas também no despertar. De modo que o uso desses aparelhos muito frequentemente leva a uma desorganização da estrutura do sono. Porque não basta dormir. O sono deve ter todas suas fases, incluída ai a fase REM, onde ocorrem os sonhos. Além de dormir, é preciso sonhar.

Sabemos que a produção de melatonina diminui com a idade. Não é de se estranhar pois, que os idosos durmam menos. Não é de se estranhar pois, que com o envelhecimento da população, a qualidade do sono em geral venha piorando. Uma evidência a esse respeito é o consumo brutal de medicações para dormir. E inclusive, suprema graça, da própria melatonina que já não produzimos de forma suficiente. Estamos nos tornando velhinhos insones, ligadaços na tela do celular. E isso não é culpa dos millenials.

Para ler na íntegra, acesse:
https://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/01/dormimos-cada-vez-menos-e-isso-traz-implicacoes-para-a-saude/

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‘PESQUISA DEMONSTRA COMO A FALTA DE SONO AFETA A TOMADA DE DECISÕES NA CRISE’

Estudo é pioneiro em mostrar impacto do cansaço em situações de risco nas quais as circunstâncias mudam constantemente e é preciso decidir o melhor caminho a seguir

A diferença entre a vida e a morte na sala de cirurgia, no campo de batalha ou durante um tiroteio policial muitas vezes se resume à capacidade de adaptação ao inesperado. A privação do sono – um dos grandes males da vida moderna – pode prejudicar isso, aponta um estudo da Washington State University publicado este mês na revista científica Sleep.

Pela primeira vez, os pesquisadores conseguiram reproduzir, em laboratório, uma simulação de como a falta de sono afeta aspectos críticos da tomada de decisão em situações-limítrofes do mundo real. Os resultados fornecem pistas de como ficar sem dormir por longos períodos pode levar médicos, socorristas, soldados e outros profissionais que lidam com crises a tomarem decisões catastróficas.

A história recente está cheia de exemplos das consequências, por vezes devastadoras, de pessoas “funcionando” sem dormir o suficiente. Investigações sobre o colapso na usina nuclear de Chernobyl e a explosão do ônibus espacial Challenger, por exemplo, mostraram que operadores privados de sono tiveram papéis cruciais nesses acidentes.

Criar uma situação controlada, em laboratório, que simula suficientemente bem as circunstâncias que levaram a lapsos graves de julgamento do mundo real sempre foi um desafio para os cientistas. Estudos já publicados anteriormente conseguiram mostrar como o sono compromete a atenção, mas os efeitos disso em testes de cognição e na tomada de decisões ainda são raros nesse campo de estudo.

Normalmente, a tomada de decisão é um processo dinâmico que exige de cada indivíduo se inteirar do que está ocorrendo em volta dela, como resultado de suas ações e de mudanças nas circunstâncias. Um cirurgião, por exemplo, pode notar uma mudança nos sinais vitais de um paciente no meio de um procedimento. Ele usa essa informação, também chamada de feedback, para decidir qual o melhor caminho a seguir.

“Um aspecto inovador deste estudo foi o uso de uma tarefa simples de laboratório que capta o aspecto essencial da tomada de decisões no mundo real, de se adaptar a novas informações em uma situação de mudança”, disse John Hinson, professor de psicologia e um dos autores da pesquisa.

“Estudos anteriores sobre perda de sono e tomada de decisões não levaram em conta a importância da adaptação de cada indivíduo à evolução das circunstâncias na hora de determinar se a perda de sono pode ou não levar a falhas em tomadas de decisão.”

Para o experimento, foram usados 26 voluntários saudáveis, dos quais, 13 foram selecionados aleatoriamente para passar 62 horas sem dormir, enquanto a outra metade do grupo pôde descansar. Durante seis dias e noites, os participantes viviam em um laboratório que lembrava um hotel, onde realizaram uma tarefa de aprendizagem reversa concebida para testar a capacidade deles de usar feedback para orientar decisões futuras.

Na tarefa, os indivíduos foram apresentados a uma série de números que, desconhecidos para eles, foram pré-definidos como “vá” (resposta) e “não vá” (não-resposta). Eles tinham menos de um segundo para decidir se respondiam ou não a cada número mostrado. Toda vez que eles identificaram corretamente um número com um valor de “vá”, recebiam uma recompensa monetária fictícia. Erros resultavam em perda.

Depois de algum tempo, tanto o grupo privado de sono quanto os que puderam descansar começaram a entender a tarefa e a selecionar os números certos. Em seguida veio a parte difícil. Os pesquisadores inverteram as contingências, de modo que os participantes tiveram que recusar uma resposta aos números que significavam “vá” e responder aos números que indicavam “não vá”.

Isso mostra, defendem os pesquisadores, que não importa o quanto uma pessoa quer fazer a escolha certa, a perda de sono faz algo com o cérebro que simplesmente impede o uso do feedback de forma eficaz. Para eles, a pesquisa fornece uma nova ferramenta para investigar como a privação do sono produz erros de decisão em situações da vida real onde a informação muda ao longo do tempo.

“Nossos resultados nos dizem que colocar as pessoas privadas de sono em ambientes de potencialmente perigosos é um negócio inerentemente arriscado e levanta uma série de implicações médicas, jurídicas e financeiras”, disse Hans Van Dongen, diretor do Centro de Pesquisas do Sono e da Washington State University, outro autor do estudo.

Texto publicado originalmente no iG, em 12/05/2015. Para lê-lo na integra, acesse:
http://saude.ig.com.br/minhasaude/2015-05-12/pesquisa-demonstra-como-a-falta-de-sono-afeta-a-tomada-de-decisoes-na-crise.html

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