‘DA SARJETA AO ESTRELATO: A HISTÓRIA DO PRÍNCIPE DAS MADAMES’

Leia a seção desta semana de “Saiu no NP” :

No dia anterior, a equipe do jornal foi surpreendida com a história de um mendigo que, aguardando tranquilamente por uma quentinha da prefeitura, foi caçado pela bela psicóloga D.M.Z, 28, para uma breve aventura sexual em seu Fiat branco, estacionado a poucos metros da fila. “A mulher caiu em cima de mim feito uma gata no cio”, contou Paulo, de 52 anos, apelidado de Pelezão pela moça.

A brincadeira terminou com o flagra da polícia, que tirou o casal do banco traseiro do carro e o levou para a cela do 6º DP, no Cambuci. Ambos se apresentaram ao delegado nus da cintura para baixo. A mulher, segundo depoimento dos policiais, disse que a vontade surgiu no momento em que passava pelo local e alegou ter “uma filha e muitos problemas com o marido”.

D.M.Z. deixou seus brincos e um anel como garantia do pagamento da fiança de 60 mil cruzeiros. Já no caso de Pelezão, sua liberdade foi adquirida graças à piedade dos policiais, que fizeram uma vaquinha. No dia seguinte, Paulo já deixava de ser um indigente para se tornar o “ídolo das madames”, alçado à fama pelas manchetes do “NP”.

As mulheres distintas da sociedade paulistana passaram a frequentar a fila do Cetren em busca de Pelezão, que, por sua vez, arranjou um paletó azul e tratou de fazer a barba. Mas o astro não voltou à fila dos indigentes –ao contrário, foi hospedado em um hotel na alameda Barão de Limeira, às custas do jornal– e passou a receber todo tipo de regalia.

A atitude de D.M.Z. gerou especulações de todo tipo. Os repórteres do “NP” recorreram aos especialistas da USP e publicaram a seguinte explicação: “Uma série de pesquisas recentes de psicólogos e antropólogos franceses, reunidas por Georges Bataille, tem mostrado que a essência do erotismo está justamente nos contrastes: o claro e o escuro, o preto e o branco, a pureza e a impureza (…)”. A princesa e o mendigo, portanto.

Mas a solução intelectualoide não convenceu e, em 1º de setembro, o jornal decretou: “Pomba-gira encosta e psicóloga ataca”. Antes de ir verificar a fila do Cetren, D.M.Z., conforme constava de seu depoimento à polícia, participou de uma sessão num centro espírita e poderia ter sido possuída pela pomba-gira, que é “uma entidade que no passado foi mulher da vida e, uma vez incorporada por uma pessoa do sexo feminino, faz com que ela passe a agir, inconscientemente, como uma prostituta”.

A confusão entre espiritismo e candomblé vingou, ao passo que Pelezão passou a desfrutar de uma fama com a qual nunca sonhara: era assediado na rua, participou de programas na TV e no rádio e ganhou até um rock em sua homenagem, o “Melô do Pelezão”. A música, composta por um fã, contava a saga do ídolo e começava assim:

Vejam só a história que vou contar
De um mendigão que ficou famoso
Certo dia numa fila da Cetren
De repente aparece um alguém
Que lhe escolhe para ser
Seu Superman, daí 

Cenas de sexo explícito
Livre (refrão)

Era uma psicóloga
Que queria analisar
A potência do negrão
Fazendo do seu carro
Um consultório…

Paulo Gonçalves vivia agora uma vida de astro, com direito a fim de semana no Guarujá com os novos amigos da “high society”, passeio de jatinho e até um famoso advogado encarregado de cuidar do seu caso no 6º DP. Mas o que o ídolo das madames queria mesmo era um emprego. E foi assim que, em 9 de setembro, o “NP” anunciava que Pelezão era o novo rei das noites no Bixiga (região central).

Por meio de um amigo, o astro arranjara um bico como porteiro na cantina C… Que Sabe!, na rua Rui Barbosa. E, como ele mesmo disse que “macaco velho não mete a mão em cumbuca”, decidiu aproveitar a chance e garantir um futuro para si e para sua recém-conquistada noiva, Maria Aparecida Pontes, 50 anos. Segundo a reportagem, a sortuda era “copeira conceituadíssima numa agência de viagens internacionais”.

“Sei cozinhar muito bem. Assim, além do coração, vou prendê-lo também pelo estômago. Sem essa de sopinha rala na fila da Cetren.” Esse era o plano de Maria Aparecida para seu futuro com Pelezão, por quem caíra de amores logo que viu a primeira foto no “Notícias Populares”. Ela leu no jornal que ele estava hospedado na alameda Barão de Limeira e foi atrás do seu galã.

Estava assim tudo arranjado para que o astro voltasse ao anonimato tranquilamente, e a série de manchetes sobre Pelezão se encerrou em 24 de setembro de 1984. Menos de seis meses depois, porém, na edição de 12 de janeiro do ano seguinte, os fãs se decepcionaram ao saber que Pelezão estava de volta às ruas, sem emprego nem mulher.

O proprietário da cantina no Bixiga revelou que, durante o mês em que trabalhou ali, Pelezão pegou no batente mesmo apenas quatro ou cinco noites e criou alguns constrangimentos para as clientes. Indagado sobre o comportamento do ex-ídolo das madames, o empresário se esquivou: “Basta que eu diga que ele estava sempre embriagado”.

Para piorar, em julho daquele ano Paulo foi preso por tentar roubar o rádio de pilha de uma enfermeira na Santa Casa de Misericórdia. Àquela altura, o galã não tinha mais nada além de um par de sapatos, duas camisas e um paletó surrado. Na cadeia, porém, teve um breve momento de alegria quando um taxista levou para ele um bilhete de amor, que dizia:

“Meu pretão querido: nessas noites de inverno eu me recordo de você. E sinto falta do seu corpo ardente, quase fervendo. Ah, meu pretão, eu não vou te esquecer nunca. Vai fazer um ano. Você sabe muito bem quem sou. Não vejo a hora de você sair, meu Pelezão.”

Tudo indicava que era uma carta da psicóloga D.M.Z., mas o assunto morreu aí. E as madames ouviram falar de Pelezão pela última vez em 1986, quando o jornal descobriu que o ex-astro optara novamente pelo crime e fora preso roubando a casa de um professor no Ipiranga. Em 7 de outubro, lia-se numa página do “Notícias Populares”: “Pelezão é um novo hóspede do presídio do Hipódromo”. Daí em diante, nem seus colegas na fila da Cetren souberam mais do paradeiro do ídolo.

 

A seção “Saiu no NP”, da Folha de São Paulo, foi criada para marcar os 50 anos do lançamento do “Notícias Populares” – que circulou pela primeira vez em 15 de outubro de 1963. Para ler na íntegra, acesse: http://f5.folha.uol.com.br/saiunonp/2013/09/1345299-da-sarjeta-ao-estrelato-a-historia-do-principe-das-madames.shtml

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Conheça a história do jornal com o livro “Nada mais que a verdade”, da Summus Editorial:

NADA MAIS QUE A VERDADE
A extraordinária história do jornal Notícias Populares

Maik Rene Lima , Giancarlo Lepiani , Denis Moreira, Celso de Campos Jr.

Dez anos depois do último suspiro do mais polêmico dos periódicos brasileiros, Nada mais que a verdade retorna em edição revista e ampliada, conduzindo o leitor por quatro décadas de uma ciranda de crimes, sexo, devaneios e, sim, bom jornalismo. Mais que uma biografia do jornal, este livro é um romance fantástico – que, se não fosse real, poderia bem ter recheado as páginas de algumas edições do Notícias Populares.