‘BRASIL NÃO TEM PLANO NACIONAL DE PREVENÇÃO AO SUICÍDIO, CRITICA ESPECIALISTA’

Matéria de Yasmim Araujo Rodrigues, publicada originalmente pela
Agência de Notícias UniCEUB, em 25/03/2019

A psicóloga paulista Karina Okajima Fukumitsu sofria de uma inflamação cerebral. Ela prometeu que, se fosse curada, dedicaria a vida à causa de ajudar outras pessoas em situações de dor profunda, e transtornos mentais. Ela conseguiu e, em homenagem a esse destino, ministra palestras de pés descalços para manter sintonia com a terra. Pós-doutora e pesquisadora sobre prevenção ao suicídio, além de autora de livros e artigos sobre o tema, a psicóloga entende que é necessário trabalhar “as possibilidades e o propósito da vida de cada indivíduo”.

A especialista criticou que o Brasil não tem um plano nacional de prevenção de suicídio, documento previsto apenas para 2020, quando o país deverá comprovar redução de 10% na taxa de mortes por essa causa, conforme compromisso firmado com a OMS. No Distrito Federal, a taxa de suicídio até maio de 2018 foram 41 casos, em comparação com o ano de 2017 que foram 167 e em 2016 151.

A psicoterapeuta relata que a busca por evitar o suicídio deve vir do próprio indivíduo em tratamento. Ela explica que, entre o nascimento e a morte por suicídio, “restam fragmentos, histórias contadas e vividas. O processo de luto abarca vivências que ficam sem sentido, confusas, picotadas, estilhaçadas (…). Você precisa se aproximar de você, da sua vida, a gente não é treinado a se resgatar para pensar no seu próprio sofrimento”, disse a especialista em palestra no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

Os dados são alarmantes. No Brasil, a cada 45 minutos um indivíduo comete suicídio. No mundo, a cada 40 segundos há uma tentativa de acabar com a própria vida. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 800 mil pessoas morrem por esse motivo todos os anos. O suicídio não ocorre apenas em países de alta renda, sendo um fenômeno em todas as regiões do mundo. De fato, 80% dos suicídios ocorreram em países de baixa e média renda em 2016, no Brasil já foram registrados 11.433 mortes por suicídio em 2016.

Esses acontecimentos são , na maior parte deles, entre pessoas de 15 a 29 anos de idade e  o suicídio é agora a terceira maior causa de óbito nesse segmento. Tirar a própria vida é já a quarta causa de mortes em adolescentes, inclusive na Coreia do Sul e no Japão é a principal causa de mortes entre garotos e garotas no país.

Problemas psiquiátricos,  uso de drogas e álcool são fatores principais para analisarmos o real motivo do suicídio. Entretanto nem toda pessoa com problemas psiquiátricos têm essa pretensão. Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) mostrou que mais de 30% das vítimas de apresentava teor alcoólico no sangue. Um esforço para mudar o alto índice  foi a decisão da Organização das Nações Unidas (OMS) de definir o dia 10 de setembro o dia Mundial de Prevenção ao Suicídio e promove a campanha nacional de Setembro Amarelo.

Além do uso de drogas e álcool estão também entre as causas que levam a uma pessoa abster de sua vida são problemas como depressão, ansiedade, bullying e situações temporais que despertam forte carga emocional, como o fim de um relacionamento amoroso ou a perda de algo muito importante na vida desse indivíduo. Em casos de uso de arma de fogo Estados Unidos grande parte de quem morre por arma de fogo comete suicídio logo depois e apenas em dez estados americanos, por exemplo, é obrigatório que os profissionais de saúde recebem treinamento sobre prevenção do suicídio. “O Brasil merece uma atenção para esses sofrimento,pois vemos dados alarmantes de suicídios acontecendo e não fazemos nada para parar”.

.
Para ler na íntegra, acesse: http://www.agenciadenoticias.uniceub.br/suicidio/

***
.

Conheça Vida, morte e luto, da Summus Editorial, do qual Karina Okajima Fukumitsu é organizadora e coautora:
.

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Ana Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresLeo PessiniKarina Okajima FukumitsuMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja Heishin Nely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da Luz, Teresa Vera Gouvea

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘APÓS EXPERIÊNCIAS FAMILIARES, PSICÓLOGA VIRA ‘SUICIDOLOGISTA’ PARA PREVENIR CASOS’

…………………………………..Matéria de Marcella Franco, publicada na Folha de S. Paulo (versão online em 29/09/2018 e versão impressa em 30/09/2018)

Karina Fukumitsu, 47, atende familiares e alunos de escolas onde ocorreram suicídios

A primeira providência que Karina Fukumitsu, 47, toma antes de começar um atendimento é tirar os sapatos. Seja em consultas particulares ou em palestras, a psicóloga está sempre descalça e trajando roupas claras, como uma maneira, ela explica, de celebrar sua conexão com a vida. Fukumitsu é especialista em suicídios, e, atualmente, presta serviço a cinco colégios paulistanos com programas de prevenção e posvenção, em uma espécie de gestão de crise após a morte de um aluno.

Sua relação com o tema vai além da teoria. Quando criança, presenciou diversas tentativas de suicídio da mãe, a quem acudia com visitas desesperadas ao pronto-socorro. Nelas, chegou a ouvir médicos plantonistas sugerirem que a família colocasse mais afinco nas investidas, para que finalmente alguma resultasse exitosa.

Da constatação de que era preciso que a sociedade conversasse melhor sobre o tema, Fukumitsu tornou-se “suicidologista”. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP), ela coordena o Programa R.A.I.S.E (Ressignificações e Acolhimento Integrativo do Sofrimento Existencial), no qual dedica-se a amparar parentes e amigos de pessoas que tiraram a própria vida. Ela conversou com a Folha em seu consultório, em São Paulo.

Por que as pessoas se interessam muito mais em esmiuçar detalhes de um suicídio do que, por exemplo, de um homicídio? De onde vem essa curiosidade?

Entre homicídio e suicídio há uma grande diferença. No homicídio, é o outro que agride e aniquila, enquanto no suicídio há o controle e a escolha da pessoa. Por isso temos algumas normas ditadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) que recomendam, por exemplo, não mostrar o método letal, não fazer a notificação de forma sensacionalista nem publicar fotos e notas de suicídio.

Quais são as consequências quando se desrespeita essas regras?

Você alimenta a elucubração. O suicídio já é uma morte que já vai causar uma necessidade intensa de explicações. E, quando a gente oferece apenas uma para um suicídio, a gente está se tornando reducionista, sendo que o suicídio precisa ser compreendido por um viés multifatorial. Apresentar explicações de causa e efeito é uma invasão à pessoa que se matou. Não se pode confundir o ato com uma história de vida. Se a gente não explica a nossa vida de uma maneira única, por que vai explicar a morte?

O suicídio tem culpados?

De jeito nenhum. Culpa é um arrependimento das ações que você não fez, uma utopia de que seria possível mudar o desfecho da situação. Se você soubesse que alguém ia se matar, você não faria tudo diferente? O suicídio é uma morte que causa muita culpa, e o que o sobrevivente enlutado menos precisa é ser acusado pela morte de alguém.

O que você recomenda quando um chega ao seu consultório, por exemplo, a mãe de uma pessoa que cometeu suicídio e que sente culpa?

A primeira coisa é que não adianta eu falar “não sinta culpa”, porque isso é não legitimar a dor e o sofrimento. A primeira conduta é legitimar essa dor, perguntando inclusive do que você se culpa. Digo que é como estar em uma montanha russa, na qual em alguns momentos você vai pensar direto nessa pessoa, e, em outros, você vai lembrar que ainda continua vivo apesar desse sofrimento.

Qual é o aspecto mais doloroso do suicídio?

O “nunca mais”.

Como funciona na prática o trabalho quando é chamada por uma escola?

Quem me contata geralmente é o diretor, contando que houve uma morte por suicídio. É preciso, então, alinhar com a família se vamos poder dizer que foi uma morte por suicídio. A primeira coisa é preservar a imagem da pessoa e dos familiares.

E caso a família diga não?

Daí tento que se permita ao menos contar para as pessoas da escola. O que não podemos é omitir nem mentir que a situação aconteceu. Publicamente, não falamos nem o nome nem o ano escolar do aluno, mas é importante falar com os colegas dessa pessoa porque a notícia já está correndo. Sugiro também que parem as acusações, porque isso é o que mais rola em conversas de WhatsApp. Alinho que, quando perguntarem como foi, não vamos falar nada além de “foi por suicídio”. As pessoas têm a morbidade de perguntar se a pessoa se enforcou, se tomou remédios, se se atirou, e isso é só alimentar sensacionalismo.

Seu trabalho tem uma duração específica ou depende de cada caso?

Depois de uma palestra inicial para os gestores e professores, falo com os pais dos outros alunos, e depois com os alunos. No meu trabalho, eu preciso ser prescindível. Sou aquela que ninguém quer ver de novo. A morte de alguém faz lembrar a nossa própria finitude, então ela vai provocar uma percepção de que você também é finito. E, toda vez que um suicídio assim acontece, nós, pais, começamos a pensar que pode acontecer com o nosso filho.

​A demanda pelo seu trabalho aumentou recentemente?

Sim, a partir do posicionamento de um colégio neste ano. Isso porque antes ninguém conhecia o trabalho de prevenção e posvenção, e porque entendemos a necessidade de se pensar sobre o suicídio.

A senhora fala que não há uma única razão para um suicídio, mas o uso de redes sociais, o cyberbullying e jogos como Baleia Azul, aplicativos como Momo e séries como “13 Reasons Why” podem influenciar os jovens? Como os pais podem lidar com isso?

Estes jogos que dão tarefas como a de cometer suicídio vêm sendo investigados há tempos. Qualquer um que apareça deve ser conversado na família. Devemos recomendar que nossos filhos não entrem nos aplicativos, porque sabemos que há dificuldade para sair. Se um pai descobre que um filho já instalou algo assim, deve sugerir estratégias em conjunto com o filho, e mencionar a gravidade dessa última tarefa do suicídio.

Como se faz prevenção em uma escola sem assustar os pais?

Juntamos os funcionários e os pais para a palestra, e apresento programas de enfrentamento de adversidades, acolhimento de sentimentos, valorização da vida. Na posvenção eu olho para a dor, e na prevenção eu acolho o que provoca a dor.

E qual a receptividade?

Muito grande, porque ela não acontece na dor, diferentemente da posvenção, quando estou lidando com pessoas assustadas e impactadas. Ali é caos, é lidar com a crise e minimizar o impacto do tsunami.

Qual o protocolo que a senhora sugere às escolas na posvenção?

Se o suicídio aconteceu no mesmo dia, recomendo luto de um dia. As atividades são suspensas naquele momento, e, no dia seguinte, acontece o luto. E recomendo que este um dia de luto aconteça não só em casos de suicídio, que isso seja mantido quando morrer algum outro aluno, por outra causa. Assim reforçamos que não há privilégio à pessoa que se mata, para que o jovem não pense que “vale mais a pena” morrer por suicídio. Depois, no segundo dia, não há conteúdo programático, mas, sim, uma conversa. Sugiro que os professores levem lenços de papel e deixem estrategicamente colocados na sala de aula.

O suicídio é a segunda causa de morte no mundo entre jovens de 15 a 29 anos de acordo com a OMS. O que estamos fazendo de errado?

O suicídio sempre aconteceu, mas, atualmente, estamos vivendo uma época em que precisamos prestar mais atenção aos nossos jovens, dar nosso tempo a eles. E não é qualquer tipo de tempo, é tempo de qualidade. Se possível, procure se aproximar de quem você ama, porque aí, sim, você consegue fazer alguma coisa.

SINAIS DE ALERTA GERAIS

  • Falar sobre querer morrer, não ter propósito, ser um peso para os outros ou estar se sentindo preso ou sob dor insuportável
  • Procurar formas de se matar
  • Usar mais álcool ou drogas
  • Agir de modo ansioso, agitado ou irresponsável
  • Dormir muito ou pouco
  • Se sentir isolado
  • Demonstrar raiva ou falar sobre vingança
  • Ter alterações de humor extremas

PARA DEPRESSÃO EM ADOLESCENTES

  • Mudanças marcantes na personalidade ou nos hábitos
  • Piora do desempenho na escola ou em outras atividades
  • Afastamento da família e de amigos
  • Perda de interesse em atividades de que gostava
  • Descuido com a aparência
  • Perda ou ganho inusitado de peso
  • Comentários autodepreciativos persistentes
  • Pessimismo em relação ao futuro, desesperança
  • Comentários sobre morte, sobre pessoas falecidas e interesse por essa temática
  • Doação de pertences que valorizava

ALGUNS MITOS SOBRE O SUICÍDIO

“Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir uma pessoa a isso”

Questionar de modo sensato e franco fortalece o vínculo com a pessoa, que se sente acolhida e respeitada

“Ele está ameaçando o suicídio apenas para manipular os outros”

Muitas pessoas que se matam dão sinais verbais ou não verbais de sua intenção para amigos, familiares ou médicos. Não se pode deixar de considerar a existência desse risco

“Quem quer se matar se mata mesmo”

Essa ideia pode conduzir ao imobilismo. As pessoas que pensam em suicídio frequentemente estão ambivalentes entre viver ou morrer. Prevenção é impedir os casos que são evitáveis

“Uma vez suicida, sempre suicida”

A elevação do risco de suicídio costuma ser passageira e relacionada a algumas condições de vida. A ideação suicida não é permanente. Pessoas que já tentaram suicídio podem viver, e bem, uma longa vida

O QUE FAZER

  • Não deixe a pessoa sozinha
  • Tire de perto armas de fogo, álcool, drogas ou objetos cortantes
  • Leve a pessoa para uma assistência especializada
  • Ligue para canais de ajuda

188 ou 141
são os telefones do Centro de Valorização da Vida (CVV). Também é possível receber apoio emocional via internet (www.cvv.org.br), email, chat e Skype 24 horas por dia

90%
das pessoas que se suicidam possuíam transtornos mentais; elas poderiam ter sido tratadas

Para ler a matéria na íntegra, acesse:
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/10/apos-experiencias-familiares-psicologa-vira-suicidologista-para-prevenir-casos.shtml

***

Karina O. Fukumtisu é organizadora e coautora do livro “Vida, morte e luto”, recém-lançado pela Summus. Conheça-o:

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Ana Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresLeo Pessini, Karina Okajima FukumitsuMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja HeishinNely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da LuzTeresa Vera Gouvea
SUMMUS EDITORIAL

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

COBERTURA DO LANÇAMENTO DE “VIDA, MORTE E LUTO”

Saiba mais sobre o livro Vida, morte e luto – Atualidades brasileiras com a cobertura da noite de autógrafos feita pelo YouTuber Anderson Mendes. Na ocasião, Anderson conversou com a organizadora da obra, Karina Okajima Fukumtisu, e com vários dos autores presentes. O evento aconteceu no final de agosto na Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis.
Assista ao vídeo abaixo.
…………………………..

Créditos: Anderson Mendes, Júnior Sanchez e Karina Mendes.

‘SUICÍDIOS DE ESTUDANTES ACENDEM ALERTA EM ESCOLAS’

…………………………………..Matéria de Paula Ferreira e Clarissa Pains, publicada no jornal O Globo, em 19/08/2018

Especialistas afirmam que instituições de ensino devem se preparar para auxiliar alunos 
………………

RIO – No dia 14 de junho do ano passado, a rotina de uma família americana do estado de Nova Jersey foi interrompida bruscamente por uma tragédia. Aos 12 anos, a adolescente Mallory Grossman pôs fim à própria vida após ser vítima de bullying. Cerca de um ano depois do suicídio da jovem, seus pais decidiram mover uma ação judicial contra a Escola de Ensino Fundamental Copeland, por ter negligenciado seus alertas e não ter evitado a prática de bullying por parte dos colegas. A medida abriu uma discussão a respeito da responsabilidade das escolas no zelo pelo bem estar emocional e mental de seus alunos.

— Os sistemas escolares são 100% responsáveis pelo aprendizado emocional e acadêmico. Nós, pais, somos obrigados a mandar nossos filhos para a escola, temos direito a um ambiente de aprendizagem seguro e protegido. Eles precisam ser responsabilizados financeiramente pelo papel que desempenharam na morte de Mallory. Quando as escolas aprenderem que estão sob risco de serem processadas, começarão a implementar sistemas para proteger nossos filhos — disse Dianne Grossman, mãe de Mallory, em entrevista ao GLOBO.

A pressão por resultados exercida por muitas escolas acaba depositando uma carga de estresse nos estudantes, o que também pode ser prejudicial. No Brasil, a discussão ganhou força com relatos de casos trágicos desde o final de 2017, quando um estudante de 14 anos que seria vítima de bullying abriu fogo contra seus colegas em uma escola em Goiânia. Em abril deste ano, o suicídio de dois estudantes do Colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais de São Paulo, rendeu novos questionamentos sobre o papel das instituições de ensino nesses casos.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, entre 2011 e 2015 — últimos dados disponíveis —, a taxa de mortalidade de pessoas de 5 a 19 anos por suicídio foi de 1,7 a cada 100 mil habitantes. Em relação às tentativas de suicídio, o Sistema de Informação de Agravos e Notificação (Sinan) registrou 10.583 casos entre 2011 e 2016 cometidos por pessoas de 10 a 19 anos.

O pai de um estudante brasileiro de 16 anos que cometeu suicídio e pediu para não ser identificado defende maior atenção das escolas, mas diz que é errado eleger um “culpado”.

— A escola tem um papel fundamental, essas crianças passam até seis horas por dia lá dentro. É preciso ter um olhar cuidadoso. Meu filho reclamava de a escola ser puxada, de não olhar para o ser humano e dar sentido às provas que são feitas. Eu acho que isso fez parte do caldeirão de emoções que ele estava sentindo, mas não sei se foi algo definitivo. É um somatório de fatores. Eu tenho a dizer para os pais que prestem mais atenção, mas não tentem imputar isso à escola ou a outro ator. O problema é com o indivíduo .

A gravidade da questão entra aos poucos no radar das instituições de ensino. Pesquisadora da Unesp e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), que trabalha na prevenção ao bullying e no acolhimento de jovens, Luciene Tognetta afirma que quem mais recorre ao grupo não são as escolas, mas sim os pais de crianças e adolescentes. Criado em 2005, o Gepem treinou 15 instituições no estado de São Paulo, incluindo o Colégio Bandeirantes, para lidar com o apoio a jovens em situação emocional vulnerável.

— Existem casos em que o colégio assume para si uma responsabilidade, que não lhe cabe sozinho, mas que lhe cabe também. Ainda há no Brasil, no entanto, muitas escolas que não sabem o que fazer e optam por negligenciar esse tipo de problema ou silenciá-lo — diz ela.

A voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV) Patrícia Fanteza conta que, desde que os casos de suicídio de estudantes começaram a chamar mais atenção, ao longo do último ano, a procura de escolas por palestras aumentou.

— Muitos colégios perceberam que não podem mais fingir que isso não acontece — comenta. — O que eu mais ouço dos educadores é que eles conseguem ver quando existe algo errado com o aluno, mas não sabem como agir. Em muitos casos, acham a situação pode piorar se tocarem no assunto, então fingem que nada está acontecendo e torcem para que o jovem melhore sozinho. Para cada suicídio que ocorre, estima-se que haja pelo menos 20 tentativas. Não é pouca coisa.

HABILIDADES EMOCIONAIS

Especialista em suicídios e membro da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), Carlos Aragão Neto destaca que, no caso de jovens em idade escolar, os maiores fatores de risco para o suicídio são bullying, ciberbullying e ambiente de extrema pressão acadêmica. Aragão ressalta, porém, que nenhum suicídio é causado por apenas um aspecto.

— A grande característica do suicídio é ser multifatorial. Sem dúvida, o excesso de rigor em um colégio pode ser um fator de risco, e pode até ser um fator que chamamos de precipitante, que é a gota d’água. Mas, quando investigamos a fundo, vemos que houve uma longa história por trás daquele ato final (o suicídio). Nunca é um fator isolado, por isso acho grave apontar o dedo para uma instituição de ensino quando um suicídio acontece.

Mas, afinal, o que as escolas podem fazer? Para ele, é urgente inserir na matriz escolar métodos que desenvolvam habilidades sociais e emocionais, para que as crianças cresçam com mais resiliência para lidar com frustrações.

No Colégio Bandeirantes, após os dois suicídios do primeiro semestre, um grupo de alunos do ensino médio criou espontaneamente um grupo para acolher alunos com dificuldades. Eles participaram de treinamentos oferecidos pelo Gepem e se intitulam Comissão de Apoio Racional e Emocional (Care).

— Com o que aconteceu em abril, tivemos que contratar uma profissional em suicídio para que ela fizesse um trabalho que chama de posvenção, acolhendo os pais. Quanto à prevenção, já havíamos inserido aspectos de desenvolvimento emocional no colégio— conta Estela Zanini, coordenadora do programa do convivência do Colégio Bandeirantes.

Responsável pelo trabalho de posvenção no Bandeirantes, a psicóloga e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP, Karina Okajima Fukumitsu, diz que é preciso estabelecer uma relação de confiança entre escola e família:

— Cabe à escola orientar e informar aos pais quando houver uma mudança abrupta de comportamento. É necessário um pacto entre a escola e a família. A família, por sua vez, deve informar a escola caso o jovem tenha transtorno mental ou histórico de tentativas prévias de suicídio. É uma parceria.

Para ler a matéria na íntegra, acesse (restrito a assinantes e cadastrados):: https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/suicidios-de-estudantes-acendem-alerta-em-escolas-22990397

***

 

A psicóloga Karina Okajima Fukumitsu é organizadora e uma das coautoras do livro recém-lançado pela Summus, Vida morte e luto – Atualidades brasileiras. Conheça a obra:

 

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Leo PessiniAna Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresKarina Okajima FukumitsuTeresa Vera GouveaMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja Heishin Nely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da Luz

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

AUTORES DO LIVRO “VIDA, MORTE E LUTO” AUTOGRAFAM EM SÃO PAULO

A Summus Editorial e a Livraria da Vila (Shopping Pátio Higienópolis-SP) promovem no dia 7 de agosto (terça-feira), das 18h30 às 21h30, a noite de autógrafos do livro Vida, morte e luto – Atualidades brasileiras. A organizadora da obra, Karina Okajima Fukumitsu, e os autores recebem amigos e convidados na livraria, que fica no Shopping Pátio Higienópolis, piso Pacaembu (Av. Higienópolis, 618 – São Paulo).

Na sociedade moderna, tão identificada com a ciência e a tecnologia, a ideia da morte tornou-se incômoda a ponto de pessoas em situação terminal sentirem-se culpadas por seu adoecimento e pela iminente possibilidade de morrer. O tema da morte desapareceu da cultura do cotidiano, e a incapacidade de lidar com essa situação-limite reflete as dificuldades dos indivíduos que não contam com repertórios simbólicos para enfrentar a morte, o luto e a dor.

O livro contribui para a reinserção da questão da morte na cultura e acena com a possibilidade de ampliarmos nosso repertório simbólico para lidar com ela de forma serena, ajudando profissionais e leigos a compreender em profundidade um tema tão urgente no trato das questões fundamentais da existência humana.

Organizado por Karina, ela mesma confrontada com a proximidade da própria morte, e reunindo textos de diversos autores, a obra é multidisciplinar e apresenta os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida.

Para saber mais sobre o livro, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/livro//Vida,+morte+e+luto

‘A DOR DE QUEM CARREGA A LEMBRANÇA DO SUICÍDIO DE UM ENTE QUERIDO’

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), no mundo, a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida. Ainda assim, quase não se fala sobre o tema. “É um tabu. Tanto a sociedade quanto os sobreviventes do suicídio têm dificuldade em falar do assunto. Tirar a própria vida é um contrassenso em relação a tudo o que normalmente buscamos em nossa existência”, explica a psicóloga Valéria Tinoco, do Instituto Quatro Estações, especializado em luto, em São Paulo.

Quem enfrenta a perda costuma ter culpa, vergonha, fracasso e até raiva. “É importante que o enlutado entenda que o suicida estava adoecido emocionalmente e que procure encontrar um significado para o que aconteceu”, diz a especialista. Veja, a seguir, três depoimentos de pessoas que perderam entes queridos para o suicídio:

Kátia Maria de Fátima Arantes, 58, aposentada, Rio de Janeiro (RJ)

“Meu filho Daniel tinha 25 anos quando se matou, em casa, com um tiro, no dia 23 de agosto de 2001. Morávamos eu, meu marido (hoje ex), minha filha de 15 anos e minha avó de 88 anos. O Daniel era fruto de um casamento anterior, mas foi criado pelo meu segundo marido, pois o pai biológico dele sempre foi ausente. Éramos uma família feliz. Daniel, no entanto, já havia tentado o suicídio antes, ingerindo remédios. Apesar de ser deprimido desde a infância, estava passando por acompanhamento com uma psicóloga e uma psiquiatra. Além disso, era recém-formado em Psicologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Isso nos dava uma falsa tranquilidade. Na hora em que meu marido ligou para avisar o que tinha acontecido, tive forças para tomar um calmante e consegui chegar em casa. Meu corpo ficou sem coordenação, como se eu tivesse tido um AVC. Do meu emocional, não sobrou nada. Nessa situação, você não encontra saída, pois a morte é a única coisa que não tem volta. Nos primeiros meses, às vezes, eu dava com a cabeça na parede de tanto desespero. Tive muito apoio dos meus irmãos, do meu cunhado, dos professores e dos colegas do curso de Direito que eu fazia. Eles não deixaram que eu trancasse a faculdade e me formei no final de 2001. Minha filha amadureceu dez anos em um com a perda e o trauma. Foi ela que encontrou o irmão após o acontecido. Hoje, depois de mais de 14 anos, tenho momentos de alegria, mas a angústia da falta nunca passou. Perder um filho é perder a continuidade da sua família, perder todos os descendentes que poderiam vir, é perder o futuro, os netos e os bisnetos. Acho que o tabu a respeito do suicídio começa quando se fala em doença mental. No entanto, são problemas que acontecem em quase todas as famílias.”

Júlio César de Moura Nunes, 25, motoboy, Extremoz (RN)

“Meu irmão Paulo Vitor se matou quando tinha 25 anos. Era casado e trabalhava como técnico em informática. Foi no dia 1º de julho de 2009. Sabíamos que ele tinha depressão, mas já havia sido tratado. Um dia, ele saiu de moto como se fosse trabalhar. No meio do caminho, ligou para minha mãe e meu pai chorando, avisando que ia pular da ponte Milton Navarro (atração turística de Natal, sobre o rio Potengi). Ligou também para a polícia, avisando onde deixaria a moto e o capacete. Soube pela minha cunhada, que era mulher dele na época. Fiquei desnorteado, sem saber o que fazer. Andava pela casa e ficava pensando nos meus pais. Acho que todo mundo se sentiu um pouco culpado. Por que deixamos ele sair? Ele era estudioso e trabalhador. Cursou Filosofia na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Vivia me dando conselhos: não beba demais, não use drogas, estude, tenha um trabalho. Hoje, não sou muito de falar sobre isso, pois é doloroso. Lembro dele e tenho muita saudade, pois ele cuidava de mim. Na virada do ano, minha mãe estava aqui em casa e, quando me abraçou para desejar feliz Ano-Novo, falou: ‘Tenho tanta saudade do seu irmão’. Disse para ela ter um pouco de paciência, pois, um dia, todos vamos nos encontrar de novo.”

Patricia Fanteza, 44, empresária, Rio de Janeiro (RJ)

“Perdi meu pai, Jorge, há 20 anos, quando ele tinha 52 e eu, 24. Ele foi até a casa da mãe dele, que havia falecido uns seis meses antes, ligou o gás do forno e fechou a cozinha. Ele era uma pessoa amorosa, presente, benquista por todos. Não era aparentemente depressivo, mas não falava muito sobre as próprias emoções, era reservado. Em 1995, me casei e fui morar em Santa Catarina. Três dias depois, recebi por telefone a informação de que ele tinha falecido. Por algum motivo, pude sentir isso. Meu ex-marido atendeu e perguntei para ele: ‘Meu pai morreu, não?’. Depois, soube pela minha mãe que, três dias antes do suicídio, ele estava mais recolhido, deitado e sem vontade de sair do quarto. Na noite em que tirou a própria vida, chegou a ligar para dois tios meus. Um deles era mais próximo, mas não pôde atendê-lo naquele momento. Jamais saberemos se a ligação era um pedido de ajuda. Eu me lembro de que, no início, tinha vergonha de falar a verdade na cidade pequena onde morava. Dizia que meu pai teve um infarto fulminante. Chorava dia e noite, foi muito difícil aceitar. Um dia, meu ex-marido falou: ‘O que posso fazer para não te ver triste desse jeito?’. E eu respondi: ‘Só queria dez minutos com meu pai, para dar um beijo nele e abraçá-lo’. Nesse dia, fui dormir chorando e sonhei com ele. Cerca de um ano depois, em uma noite de tristeza profunda, vi na TV uma propaganda do CVV (Centro de Valorização da Vida), entidade que oferece serviço gratuito de apoio emocional, feito por voluntários. Liguei e foi um alívio. Finalmente, falava com alguém que me ouvia de maneira neutra, carinhosa e respeitosa, sem me vitimizar, nem julgar. Alguns dias depois, voltei para o Rio e acabei me tornando voluntária também.”
Matéria do UOL, publicada em  02.08.2016. Para acessá-la na íntegra: http://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2016/08/02/a-dor-de-quem-carrega-a-lembranca-do-suicidio-de-um-ente-querido.htm

***

Conheça o livro que tem a psicóloga Valéria Tinoco entre os coautores:

11008O RESGATE DA EMPATIA
Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Valéria Tinoco, Cristiane Ferraz Prade, Daniela Reis e Silva, Déria de Oliveira, Gabriela Casellato, Maria Helena Pereira Franco, Plínio de Almeida Maciel Jr, Regina Szylit Bousso, Rosane Mantilla de Souza, Sandra Rodrigues de Oliveira, Ana Cristina Costa Figueiredo
SUMMUS EDITORIAL

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como prematuridade, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e, o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.