Texto parcial de matéria publicada no UOL Viva Bem, em 19/02/2020.

“Ela é tão boazinha…”, “Nossa, que menino mais chorão!”, “Como é possível alguém tão pequena já ser teimosa desse jeito?”, “Que garoto inteligente, assim vai longe!”… A maioria dos pais dirige comentários como esses aos filhos. Num primeiro momento, essas observações parecem inofensivas —algumas, inclusive, até soam carinhosas. Aos ouvidos infantis, no entanto, têm o poder de uma sentença, pois trata-se de rótulos – e, em geral, são repetidos à exaustão. Segundo especialistas, rotular uma criança —mesmo que em tom de elogio — é o caminho mais curto para podar seus potenciais futuros.

Segundo a psicóloga e psicopedagoga Elizabeth Monteiro, autora de “Criando Filhos em Tempos Difíceis” (Summus Editorial), a criança e o adolescente ainda não sabem quem eles são, pois sua personalidade passa por um processo de desenvolvimento. “É o adulto quem diz a eles quem são e lhes dão o conceito de identidade”, comenta. Para Monteiro, a mania de rotular é um hábito geracional inconsciente: os bisavós agiam assim, os avós também e os pais acabam entendendo que “classificar” os filhos conforme certas características é algo natural.

No entanto, de acordo com Deborah Moss, neuropsicóloga especialista em comportamento infantil e mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela USP (Universidade de São Paulo), um determinado comportamento da criança —não guardar os brinquedos ou gostar de dormir até tarde — não pode estabelecer quem ela é. “Um comportamento é um estado, um momento, é algo pontual. Não é, de modo algum, a definição da própria criança”, explica.

O que ocorre é que, como são seres em construção, os pequenos acabam ficando “reféns” dos rótulos, mesmo daqueles tidos como positivos. “As crianças entendem que precisam corresponder ao que dizem dela e passam a não se reconhecer além desse estigma. Ou seja, se dedicam a corresponder ao que dizem dela através das atitudes”, fala Moss.

Profecia autorrealizadora

Isso é perigoso, pois a criança se acomoda no rótulo e se sente inadequada ao tentar mostrar outras facetas. Rotular engessa as possibilidades. Para Carla Guth, psicóloga e psicopedagoga, de São Paulo (SP), quando rotulamos as crianças também reduzimos seu potencial de experimentações. “Rotular é muito fácil, porque é como se as coisas ficassem na sua caixinha certa, mas a criança não é só isso. As crianças precisam ser o que elas são, por inteiro”, reforça Ângela de Leão Bley, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR).

Essa ação desencadeia a chamada profecia autorrealizadora, um prognóstico que, ao se transformar em crença, acaba se confirmando e se cumprindo. Um bom exemplo é a famosa pesquisa pioneira realizada em 1968 pelos psicólogos norte-americanos Robert Rosenthal e Lenore Jacobson.

A dupla selecionou crianças da mesma idade e com o mesmo nível intelectual e as separou em duas turmas, que seriam orientadas por duas professoras. Uma delas foi informada de que os alunos tinham um QI (Quociente de Inteligência) altíssimo e que, portanto, deveriam ser estimulados e desafiados. A outra, por sua vez, recebeu a instrução de que as crianças tinham dificuldade de aprendizagem e inteligência abaixo da média. Então, não podiam ser pressionadas nem cobradas demais. Alguns meses depois, eis o resultado: a classe estimulada atingiu níveis acima da expectativa; a outra, nem chegou onde deveria chegar.

De acordo com Cristiane Borsari, psicóloga da BP (Hospital A Beneficência Portuguesa de São Paulo), toda interferência na constituição da personalidade vai refletir primeiro na adolescência e depois na idade adulta. “Se a pessoa cresceu valorizada por um amplo aspecto do comportamento, certamente terá uma boa autoestima e saberá lidar melhor com as frustrações. Porém, se foi algo negativo que sempre foi ressaltado, como uma dificuldade de prestar atenção ou a mania de desorganização, a pessoa acaba assumindo o rótulo e até se escondendo nele”, pondera.

“Há o risco de o adulto ficar preso naquilo que o definiu ao longo da vida e não conseguir encontrar outras formas particulares de se reconhecer e se expressar”, completa Deborah.

Para ver os rótulos mais comuns e suas consequências, acesse a íntegra da reportagem: https://bit.ly/2PQUJLS

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Conheça o livro da psicóloga Elizabeth Monteiro, citada na materia:

CRIANDO FILHOS EM TEMPOS DIFÍCEIS
Atitudes e brincadeiras para uma infância feliz
Autora: Elizabeth Monteiro

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.

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