‘POR QUE A TRAGÉDIA ATRAI TANTO?’

As notícias de tragédias prendem a atenção das pessoas mais facilmente do que fatos de outras naturezas. Isso acontece pela combinação de dois fatores: o cérebro e a informação.

O cérebro: Aprendemos mais rapidamente comportamentos relacionados a emoções negativas, a exemplo de medo, do que aqueles relacionados a emoções positivas como prazer, alegria ou amor. Basta levar um choque uma única vez ao enfiar um arame na tomada para nunca mais repetir tal comportamento. Isso ocorre porque a consolidação da memória para eventos aversivos tem uma estrutura especial no cérebro, a amígdala (não confundir com as amídalas linfoides situadas na faringe), tamanha a importância para a sobrevivência de se aprender a evitar situações perigosas.

Absolutamente todas as vias sensoriais têm conexões com essas duas amígdalas nos lobos temporais do cérebro. Assim, quando entramos em contato com uma situação de tragédia, gerando emoções negativas, a ativação da amígdala nos coloca em estado de alerta e recruta todas as áreas cerebrais necessárias para a aprendizagem. Ou seja, é natural interessar-se pela tragédia do outro porque ela desperta medo e ansiedade, duas emoções essenciais para garantir a sobrevivência, ou seja, é impossível para o cérebro ignorar uma situação de tragédia com a qual entre em contato.

A informação: O desenvolvimento dos meios de comunicação permite que a informação circule com muita facilidade. Quando um fato novo acontece, ele pode alcançar potencialmente boa parte da população mundial quase que instantaneamente. Este é o poder combinado da internet e do satélite. Só para exemplificar, no último domingo (19), uma quase-tragédia correu o mundo em poucas horas pela TV e, principalmente, pelas redes sociais. As imagens do surfista australiano Mick Fanning quase sendo atacado por um tubarão chamaram a atenção no mundo todo. Nosso interesse imediato dependeu exatamente do funcionamento das amígdalas cerebrais. O perigo da situação impacta por nos imaginarmos no mesmo cenário, mesmo não sendo surfistas.

É raro testemunhar pessoalmente tragédias como essas. Portanto, é a combinação desses dois fatores (cérebro e informação em massa) que faz com que cultivemos socialmente e de forma massiva o interesse pela tragédia alheia.

Obviamente há um desdobramento mais complexo dessa conjunção, que é o uso dessa constatação pela mídia, que está interessada em audiência. Para tal, muitas vezes ela lança mão desse interesse natural pela tragédia na hora de selecionar sua pauta. Já mencionei aqui como telejornais sensacionalistas fazem mal à saúde.

Lembro de estar certa vez assistindo ao programa Datena na sala de espera do dermatologista. Um corpo havia sido encontrado no Rio Tietê. Um helicóptero do telejornal ficou mostrando o resgate ao vivo por “longos” minutos sob uma enérgica narração do apresentador. Aos poucos, pessoas começaram a se aglomerar na ponte próxima para acompanhar o trabalho dos bombeiros. Datena disparou: “O que eu não entendo é a curiosidade dessas pessoas em cima de um corpo!”.

Embora esta dúvida tenha partido do jornalista que manteve uma aeronave por mais de dez minutos sobre o mesmo defunto, eu espero que este texto tenha esclarecido a dúvida. Não podemos modificar o que a evolução determinou mas, conscientes de como ela funciona, podemos voluntariamente evitar nos expor tanto assim às tragédias pois essa superexposição, além de não ajudar a evitá-las ou compreendê-las, ainda é prejudicial à saúde.

Texto de publicado originalmente no blog Em Terapia, de Arnaldo Cheixas Dias, em 21/07/2015. Para lê-lo na íntegra, acesse:
http://vejasp.abril.com.br/blogs/terapia/2015/07/21/por-que-tragedia-atrai-tanto/?utm_source=redesabril_vejasp&utm_medium=facebook&utm_campaign=vejasp

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One thought on “‘POR QUE A TRAGÉDIA ATRAI TANTO?’

  1. Bom, Datena, jornalista, manteve a aeronave em foco na tragédia, pelo padrão de jornalismo dele. Noticiar um fato, em todos os seus ângulos e sensacionalizá-lo. Confesso que já me perguntei inúmeras vezes porque uma tragédia atrai nós seres humanos. Acredito que acabei de ler uma nova ótica a psíquica, da qual desconhecia, pois obtenho um outro olhar, no qual quanto mais próxima de “nosso mundo” uma ocorrência extraordinária acontece, mais trágica ela se torna. Um exemplo: no caso da menina Isabella Nardoni, os supostos assassinos, o pai e a madrasta, ambos de classe média, pude observar que quem pertencia e pertence a este status, patamar, ficou mais em choque. Há outras “Isabellas Nardoni” que a cada minuto são espancadas e assassinadas, e entretanto não ganham uma capa de uma revista ou de um jornal, infelizmente estão entre os índices de violência contra a criança no Brasil. Todo os dias morrem refugiados na África, na guerra na Síria, e não me parece gerar tal comoção como o caso do surfista, citado a cima. Bem, este é meu ponto de vista! Ótimo texto.

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