‘AMIGAS CRIAM PROJETO PARA FALAR SOBRE O LUTO E LIDAR COM A DOR DA PERDA’

Em um período de um ano, entre 2008 e 2009, a publicitária Mariane Maciel, 38, perdeu a mãe e o namorado. Foi quando percebeu que falar sobre luto ainda é um tabu. Em 2014, reuniu-se com seis amigas que também conviviam com a dor da perda para compartilhar a ideia de criar o projeto “Vamos Falar sobre o Luto?”.

Todas tinham a sensação de que a sociedade ainda não está preparada para lidar com o tema. “Há muito espaço para ser feliz, as redes sociais são prova disso. Quando você fica grávida ou vai comprar um apartamento novo, pode ir atrás de várias revistas e sites sobre o tema. Mas e quando morre alguém, o que você faz?”, questiona Mariane.

As sete amigas passaram a realizar pesquisas e a conversar com especialistas e ainda receberam mais de 170 histórias de pessoas que responderam a seus formulários. Em uma campanha de “crowfunding” (financiamento coletivo) –encerrada em 21 de agosto–, o projeto arrecadou R$ 43.504 para construir uma plataforma de conteúdo, lançada em 12 de janeiro. A iniciativa também tem uma página no Facebook.

“É um espaço para divulgação de textos, cursos, livros, para discutir sobre o tema e mostrar que todos passam pelas mesmas coisas”, diz Mariane.

A psicóloga e publicitária Fernanda Figueiredo, 42, outra integrante do grupo, conta que, quando enfrentou a doença e a morte do pai, em 2010, vítima de câncer, também percebeu que havia muita dificuldade para lidar com a morte. “O objetivo do projeto é confortar quem teve a experiência de perda e, ao mesmo tempo, abrir os olhos de quem ainda não passou por isso, para que essa pessoa consiga amparar quem está no processo.”

A importância de falar sobre o luto

Para a publicitária Amanda Thomaz, 33, que enfrenta a perda do pai, a experiência do luto é muito solitária. “É o momento mais delicado e difícil da vida e, ao mesmo tempo em que existe um intenso barulho interno e um turbilhão de pensamentos e sentimentos, há um grande silêncio externo e a ausência de troca e de referências.”

Para a administradora de empresas Gisela Adissi, 40, que perdeu um primo no acidente aéreo da Air France, em 2009, ouvir as histórias de outras pessoas a ajudou a compreender que a perda faz parte da vida. “Entendi também que não se trata de superar o luto, mas, sim, de aprender a viver essa nova etapa.”

Para Rita, participar do projeto permitiu que ela ampliasse sua compreensão sobre a experiência da morte do filho. “Hoje falo sobre isso com tranquilidade e sem desconforto. Consigo encontrar um sentido para tudo que vivi e ainda vivo, que é a possibilidade de ajudar outras pessoas que passam pela mesma coisa. Tudo isso me conecta ainda mais ao meu filho e a tantos outros queridos que tenho lá em cima.”

O que ajuda e o que piora

Para Rita, tudo depende da fase do luto. Em um primeiro momento, o de maior fragilidade, ela diz acreditar que o ideal é ouvir –de verdade– e ter paciência. “Muitas vezes, a pessoa pergunta, mas não quer escutar a resposta. Não precisa perguntar, mas, se fizer isso, esteja preparado para ouvir.”

Mariane conta que é comum que as pessoas se afastem do enlutado por conta do constrangimento de não saber o que dizer. “Por favor, não desapareça depois dos primeiros 15 dias. Quem sofre o luto corre o risco de ficar muito sozinho, muito fechado.”

Para a jornalista Cynthia de Almeida, 59, que perdeu o filho Gabriel há 14 anos, quando ele tinha 20, estar presente, pronto para acolher e ajudar no que a pessoa enlutada precisar, é muito mais confortador do que qualquer palavra ou tentativa de injeção de ânimo.

“Não diga que o tempo vai curar –porque não é verdade–, não diga como a pessoa deve reagir. Não banalize ou subestime a dor do luto. Não importa se o outro perdeu um avô ou um filho. O luto não tem hierarquia e quem sofre precisa dessa compreensão”, diz Cynthia.

Falar sobre quem morreu não é necessariamente triste e pode ajudar quem está sofrendo com a perda. “Amo quando alguém fala do meu pai, de algo que ele gostava ou fazia. Uma vez li um texto que dizia: ‘estarei vivo até a última pessoa pronunciar o meu nome’. É isso o que sinto quando alguém fala dele.”

Texto de Andrezza Czech, publicado originalmente no UOL, em 14/01/2016. Para ler a matéria na íntegra, acesse: http://mulher.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2016/01/14/amigas-criam-projeto-para-falar-sobre-o-luto-e-lidar-com-a-dor-da-perda.htm

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Se você quer saber mais sobre o tema, conheça os livros do Grupo Summus a seguir:

20116
CONVERSANDO SOBRE O LUTO

Autoras: Maria Aparecida Mautoni, Edirrah Gorett Bucar Soares
EDITORA ÁGORA

 

20712


LUTO – Esclarecendo suas dúvidas
Autora:
Ursula Markham
EDITORA ÁGORA

 

10499


AMOR E PERDA – As raízes do luto e suas complicações
Autor: Colin Murray Parkes
SUMMUS EDITORIAL

 

10639
LUTO – Estudos sobre a perda na vida adulta

Autor: Colin Murray Parkes
SUMMUS EDITORIAL

 

10750


LUTO MATERNO E PSICOTERAPIA BREVE
Autora:
Neli Klix Freitas
SUMMUS EDITORIAL

 

20060
MATERNIDADE INTERROMPIDA – O drama da perda gestacional

Autora: Maria Manuela Pontes
EDITORA ÁGORA

 

 

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