NOVOS XAMÃS ENSINAM EM SP A GINÁSTICA DOS BRUXOS MEXICANOS

Está bem enganado quem ainda associa o xamanismo a rituais indígenas no deserto, em volta do fogo, envolvendo encantamentos e conjuros a forças sobrenaturais.

O xamanismo no século 21 é uma filosofia aplicada que inclui exercícios para combater estresse, fadiga e tensão, entre outros dramas urbanos.

Esse conhecimento chega às grandes cidades por meio de workshops como o que ocorrerá em São Paulo nos dias 24 e 25.

O curso será ministrado por dois discípulos diretos de Carlos Castaneda (1925-1998), o controverso antropólogo e autor de “A Erva do Diabo”, um mito do século 20.

Os professores-xamãs são os norte-americanos Miles Reid, médico formado em Buenos Aires e especialista em plantas, e Aerin Alexander, terapeuta corporal formada na Califórnia. Eles criaram a “Being Energy” (ser energia), clínica que dissemina técnicas aprendidas por ambos diretamente com o mestre Castaneda, com quem conviveram um pouco há 20 anos.

“Esses movimentos restauram, redistribuem energia e causam bem-estar”, disse Reid, em entrevista à Folha. Para quem olha de fora, tais exercícios ou “passes energéticos”, como agora são chamados (Castaneda os chamava de “passes mágicos”), lembram artes marciais. São feitos em séries de oito, nove, 12 ou mais movimentos.

Um exemplo de exercício: a pessoa posiciona as duas mãos a dez centímetros do lado esquerdo do abdome, na altura do baço, e simula estar segurando um cilindro de 30 centímetros de comprimento; roda o “cilindro” para baixo até onde o pulso aguentar por seis vezes; vai para o lado direito do abdome e faz o mesmo gesto seis vezes, agora sobre o fígado.

TOURO BRAVO

Há outro exercício em que o praticante leva os dois braços ao lado do corpo em posição de 90 graus (as mãos ficam abertas a 20 centímetros diante do estômago) e raspa os pés alternadamente no chão, como se limpasse a sola do sapato ou fosse um touro bravo. Uma sequência completa leva 20 minutos.

Segundo a brasileira Patrícia Aguirre, psicóloga, qualquer pessoa pode praticar.

O empresário mineiro Jarbas Martins, 50, diz seguir esse ramo do xamanismo há oito anos. “Como efeito principal, os passes me trouxeram bem-estar físico. Quando pratico alcanço harmonia corporal, emocional e mental.”

Eduardo Silva Neto, 45, médico, faz os exercícios há dois anos. “Proporcionam um bem-estar inegável. E são uma pausa na vida atribulada, resultando em autoconhecimento e saúde mental.”

A psicóloga Heloísa Antonia Franco diz fazer os passes com frequência há dois anos e meio. “O ‘caminho do guerreiro’ [outro nome dado ao xamanismo] amplia nosso arsenal de ferramentas para enfrentar o campo de batalha.”

Segundo ela, a prática mudou seu corpo e sua mente. “O corpo se torna mais atento, uma antena de captação de forças que nos atravessam. Os exercícios nos preparam para usar todos os nossos recursos corporais e mentais.”

Os verdadeiros seguidores do xamanismo moderno, porém, não fazem só esses passes. Há exercícios mais complexos envolvendo respiração, recuperação de lembranças da própria vida (“recapitulação”) e uma técnica intitulada “parar o diálogo interno” -quando a pessoa força a mente a silenciar enquanto faz longas caminhadas.

Os xamãs modernos dizem ser possível a qualquer pessoa disciplinada parar o fluxo confuso de pensamentos.

A revelação de que os feiticeiros faziam ginástica para redistribuir a energia do corpo e elevar seu poder chegou ao público em 1995, quando Castaneda ressurgiu após um retiro de quase 20 anos. Foi então que ele passou a ensinar os movimentos em seminários no México. Reid, 48, e Alexander, 44, estavam lá.

Em 1998, pouco antes de morrer, o escritor estendeu esse conhecimento ao mundo no livro “Passes Mágicos” (esgotado no Brasil). Uma versão do livro saiu quase ao mesmo tempo em vídeo -e ambos causaram mais polêmica em torno do escritor.

A obra trazia um novo paradigma em relação aos livros já publicados: agora já não era preciso ser um eleito para virar xamã; qualquer pessoa disposta a praticar diariamente e a ter uma vida disciplinada também poderia se tornar um adepto dessa arte.

Apesar disso, Castaneda havia sido iniciado no xamanismo “clássico”, envolvendo rituais longos, uso de plantas alucinógenas, disciplina rígida e vida solitária.

SONHANDO ACORDADO

O escritor já havia sido acusado de mistificador quando escreveu que também por meio de disciplina era possível a qualquer um vivenciar os sonhos com consciência parecida com a que temos quando acordados.

“Isso é absurdo”, atacaram psicólogos e outros especialistas na psique humana. O mesmo disseram alguns sobre a afirmação de que é possível interromper o fluxo de pensamentos.

Grosso modo, a técnica de “parar o diálogo interno” também é praticada por outras linhas filosóficas aplicadas, como a “Quarto Caminho”, escola criada pelo armênio George Ivanovitch Gurdjieff (1866-1949).

Assim como o hinduísmo, o budismo e a medicina chinesa, os xamãs acreditam que o corpo é controlado por centros energéticos invisíveis aos olhos. Esses centros seriam manipuláveis, por agulhas ou movimentos coordenados.

Até 2010, Reid e Alexander (que são casados e pais de Axl, 5) integraram a Cleargreen, uma instituição criada pelo próprio escritor nos anos 1990. Após deixar o grupo, eles renomearam os “passes mágicos” e passaram a divulgar o conhecimento em seus próprios workshops.

“Não sentimos que houve uma ruptura ou um rompimento [com a Cleargreen]. O que há é a ampliação dos veículos e das formas de divulgar o conhecimento do mestre”, afirmou Reid.

Texto de Ricardo Feltrin, publicado originalmente na Folha de S.Paulo, em 6/11/2012. Para ler a matéria na íntegra, acesse: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1178394-novos-xamas-ensinam-em-sp-a-ginastica-dos-bruxos-mexicanos.shtml

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Se você se interessa por xamanismo, conheça algumas obras do Grupo Summus que falam sobre o assunto:

O caminho quádruplo
Trilhando os caminhos do guerreiro, do mestre, do curador e do visionário
Angeles Arrien
A principal característica do trabalho dessa antropóloga americana é estabelecer uma ponte cultural entre a antropologia, a psicologia e a religião através das tradições xamânicas. Com estilo e linguagem de um prático manual, ela mostra como a sabedoria dos povos indígenas continua sendo importante para nossa vida em família, em nosso trabalho e em nosso contato com a Terra. Com ilustrações.

Os quatro ventos
Odisséia de um Xamã na Floresta Amazônica
Erik Jendresen, Alberto Villoldo
Esta narrativa da vivência espiritual de um psicólogo e antropólogo americano no Peru. Recorrendo à ayahuasca, planta consumida pelos xamãs, e ritos e cerimônias da região, Villoldo penetra no reino do sobrenatural, desvendando os segredos milenares dos quíchuas e o poder da psique humana. O livro foi redigido pelo escritor Erik Jendresen, o que torna sua leitura muito agradável e emocionante.

A imaginação na cura
Xamanismo e medicina moderna
Jeanne Achterberg
Combinando as práticas dos antigos curadores com as últimas aquisições da medicina moderna, este livro mostra como o uso sistemático de imagens pode auxiliar os pacientes durante eventos dolorosos como o parto, tratamento de queimaduras ou até mesmo exercendo uma influência positiva no tratamento do câncer.


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