Entrevista com Karina Okajima Fukumitsu, autora da Summus,
feita por Constança Tatsch e publicada no Jornal O Globo em 1º e outubro de 2020.

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A pandemia do novo coronavírus pode agravar quadros de transtorno mental e favorecer o “contexto suicidogênico”, alerta a especialista Karina Okajima Fukumitsu. Psicóloga, ela optou por estudar o assunto depois de enfrentar as tentativas de suicídio de sua mãe, na adolescência.

Com o fim do Setembro Amarelo, mês de combate e prevenção ao suicídio, Fukumitsu ressalta a importância de “ampliar a maneira de compreender” o tema: “Não tem uma causa só”. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.

A senhora acredita que a pandemia pode provocar aumento nos casos de suicídio?

A pandemia pode favorecer um contexto suicidogênico, sobretudo pelo agravamento dos transtornos mentais. Mas a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) traz na cartilha os quatro ‘Ds’: desesperança, desamparo, desespero e depressão. Essa última eu suspendo, não porque eu não acredite, mas porque não é somente por depressão que acontecem os suicídios, existem outros transtornos atrelados, como transtorno bipolar, esquizofrenia, borderline, dependência de álcool e drogas e outros que envolvem sofrimentos existenciais, que denominei como “processo de morrência”.

A principal causa dos suicídios é mesmo a depressão?

É equivocado dizer que suicídio é depressão. Como se fala muito disso, é mais fácil dizer que o suicídio está vinculado diretamente à depressão. Está, mas não só. Não isento a depressão como um dos transtornos mentais vinculados ao suicídio, mas existem outros, e há esse processo de morrência que mostra um sofrimento que pode ou não estar atrelado aos transtornos mentais. É preciso ampliar a maneira de compreender o suicídio, não tem uma causa só.

Como acontece esse processo de morrência?

É um encadeamento de situações que mostram um definhar existencial, a pessoa vai perdendo a credibilidade de que ela é importante na vida. O suicídio se configura como ápice desse processo. Ele vai acontecendo por fragmentações. Começa com a falta de prazer, depois tem as frustrações afetivas. Pessoas que nos machucam e despertam raiva e desejo de vingança, é preciso a colocar distantes. Na impossibilidade de matar quem nos feriu, colocamos a energia contra a gente e isso é, muitas vezes, o suicídio.

Há um perfil para o suicida?

A OMS dá três características do comportamento suicida: fragmentação da tolerância existencial, pensamentos enrijecidos e a ambivalência. A falta de tolerância existencial é a não aceitação do diferente, da flexibilidade e da efemeridade da vida. A pessoa espera que a vida seja como ela quer. O pensamento suicida é enrijecido, tudo é muito polarizado: sempre ou nunca, tudo ou nada, 8 ou 80, vida ou morte. Aí, o suicídio começa a aparecer como uma alternativa para a pessoa solucionar o problema dela. Muitas vezes as pessoas falam que querem se matar porque querem matar o problema delas. Por isso, após a tentativa muitos chegam ao hospital e pedem ‘por favor, me salva’. Isso é explicado pela ambivalência. Ela não quer se matar por inteiro, mas quer matar aquela parte que está em sofrimento. É uma dupla mensagem que se passa.

Quais sentimentos levam a isso?

O suicídio é o ato de comunicação de uma dor sentida e não consentida, nem pelos outros, nem por si mesmo. Tem a ver com sentimentos que acham que não são nobres como tristeza, raiva, frustração, inveja, vergonha, desejo de vingança, ódio, ciúmes, tudo que a gente acha que é errado sentir e sente. Meu trabalho de prevenção vai em direção a um trabalho psicológico educativo das emoções. Quando a gente fica bravo, com raiva ou triste e não comunica, entra no “quem não explode, implode”. A gente não fala achando que não vai adiantar comunicar para o outro, e às vezes não adianta mesmo, mas comunicar faz com que a gente se posicione. Se nós estamos dançando valsa, e você segue pisando no meu pé, você não é obrigada a saber que está pisando no meu pé, eu que sou obrigada a avisar e dizer que dói. É o direcionamento da agressividade, é colocar para fora o que está nos machucando porque colocar para dentro vira processo autodestrutivo. A gente tem que assumir o protagonismo para se defender, colocar cerquinhas emocionais e, quando isso não acontece, vejo as pessoas entrando nesse processo de morrência.

É preciso ajudar as pessoas a se fortalecerem e filtrar as críticas porque tem hora que vem com uma potência que acaba com a pessoa. Quando alguém está em carne viva, o que não quer ouvir é crítica e julgamento. Antes disso, o organismo precisa de tempo para formar casquinhas, porque a pessoa não se sente fortalecida emocionalmente. Aí pensa que só morrendo mesmo.

Quais os principais sinais de que a pessoa está pensando em suicídio?

Há sinais de alerta verbais diretos ou indiretos, assim como sinais comportamentais, diretos e indiretos. Quem fala diretamente que quer morrer, “quero sumir, não aguento mais, só morrendo mesmo”. Ou indiretas, que os adolescentes falam muito: “em breve vocês não vão precisar ter trabalho comigo”, você sentiria saudades de mim?”.

No comportamento há ações diretas como mudança abrupta em diversas áreas, a pessoa extrovertida começa a se isolar, ou quem nunca acreditou em Deus começa a procurar religiões a torto e a direito. Sinais indiretos: começar a se desfazer de coisas importantes, uma espécie de testamento, fechar conta de banco, arrumar pendências, seguro de vida. Uma coisa importante é começar a ligar para os outros para dizer o quanto essas pessoas são importantes, que é um jeito de despedida. É um sinal de alerta.

O que as pessoas do entorno podem fazer para tentar ajudar essa pessoa?

Quando essa pessoa fala que não aguenta mais, você diz “me conta mais sobre sua dor”. Se ela abrir, ela vai ter o escoamento, vai dar vazão aos sentimentos. Por isso o CVV é muito útil. O que o amigo precisa fazer é a escuta empática, sem julgamentos, sem dar conselhos e cair na ‘fazeção’, querer agir pela pessoa. Tem que se segurar.

Depois, buscar uma rede de proteção. Quem são as pessoas que validam essa pessoa para poderem ajudar, estar mais próximas. Não são, necessariamente, da família. Tem alguns momentos em que a família é fator de risco, tem que entender o contexto, e a pessoa pode se sentir exposta e agredida. Outro passo é ajudar essa pessoa a procurar profissionais de saúde, psicólogo, psiquiatra ou psicopedagogo, isso é imprescindível.

As pessoas que perdem alguém em um suicídio são muito impactadas.

O termo que se usa é sobrevivente enlutado por suicídio. Meu trabalho hoje é voltado para acolher esses enlutados, porque o luto por suicídio é diferente de outros tipos de morte. Quem morre por câncer a culpa é do câncer, se morre por acidente, o responsável é o carro. Como mexe muito com nossa impotência, a gente não aceita que o ato suicida é responsabilidade única da pessoa que se matou. O enlutado por suicídio é impactado pela impotência e vergonha, porque há todo estigma e preconceito, além da dificuldade de buscar uma explicação para uma morte inexplicável. O enlutado é lançado no processo de morrência. Muitas vezes dá raiva também: “como essa pessoa se foi e me deixou em frangalhos?” Como sentir raiva por quem morreu? Isso gera culpa. Por isso é tão necessário falar sobre pósvenção, a prevenção de futuras gerações. Acolho o enlutado por suicídi porque ele vira grupo de vulnerabilidade. Os grupos de acolhimento são muito importantes para continuar vivo após a morte de quem você ama. Há raiva, tristeza, vontade de ir junto, mas a gente está aqui, se apoiando.

Grupo de ajuda para pessoas enlutadas por suicídio: Nas@sedes.org.br

Para quem pensa em suicídio: CVV (www.cvv.org.br) e Programa Raise Somos Mudanças (www.facebook.com/raisesomosmudancas)

Para ler na íntegra (apenas assinantes do jornal O Globo), acesse:
https://oglobo.globo.com/sociedade/naoesomente-por-depressao-que-acontecem-ossuicidios-diz-especialista-1-24669710

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Conheça os livros da psicóloga Karina Okajima Fukumitsu sobre o tema, publicados pela Summus Editorial:

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SOBREVIVENTES ENLUTADOS POR SUICÍDIO
Cuidados e intervenções
Autora: Karina Okajima Fukumitsu

Segundo a Organização das Nações Unidas, a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no planeta. São quase 800 mil casos de morte autoinfligida por ano. Esses dados alarmantes têm chamado a atenção de profissionais de saúde, educadores e responsáveis pela elaboração de políticas públicas. Porém, além de prevenir esse tipo de ocorrência, é preciso cuidar daqueles que enfrentam o suicídio de um ente querido: os sobreviventes.Maior especialista brasileira no tema, Karina Okajima Fukumitsu reúne neste livro anos de pesquisa e de trabalho de campo com mães, pais, irmãos e amigos de pessoas que se suicidaram, desvendando o processo de choque, dor, agonia e tristeza pelo qual passam. Denominando posvenção o cuidado específico com esse público, a autora aborda os impactos do suicídio, detalha as dificuldades emocionais enfrentadas pelos sobreviventes, aponta caminhos para ressignificar a dor, apresenta propostas de prevenção e propõe políticas públicas para transformar a impotência individual em potência coletiva.

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VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Ana Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresKarina Okajima FukumitsuLeo PessiniMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen RoshiMonja HeishinNely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da LuzTeresa Vera Gouvea

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

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