Para especialista, crianças devem estar prontas para resolver os problemas com certa autonomia.


Texto parcial de reportagem de Alex Bessas, publicada no jornal O Tempo, em 27/10/2020.

Era para ser apenas o registro convencional do aniversário de uma criança, até que, motivado por ciúme, um desentendimento entre duas irmãs roubou a cena bem na hora de soprar as velinhas. Compartilhada nas redes sociais, a história de Maria Eduarda, que celebrava seu terceiro aniversário, e de Maria Antônia, de 6 anos, logo alcançou inesperada repercussão e alçou a família a uma fama tão repentina que os pais delas, Antônio e Marinês Fernandes, se viram obrigados a procurar uma assessoria de comunicação para dar conta da demanda por entrevistas depois de maratonar pela programação das principais emissoras de televisão do país.

No vídeo, que tem duração de 25 segundos, a irmã mais nova fica indignada e reage agarrando a mais velha pelos cabelos depois de esta se antecipar e soprar as velinhas antes que a aniversariante pudesse fazê-lo. Em nenhum momento Maria Antônia revida os ataques, se limitando a fazer caras e bocas que foram interpretadas na web como uma autêntica personificação do deboche. “Eu não pensei em nada na hora, sempre participei desse momento e estava com um pouquinho de ciúme, eu queria que o aniversário fosse meu também”, admitiu a menina ao portal G1 posteriormente. “A gente se desentende, mas se acerta. Eu ganhei o primeiro pedaço do bolo e brincamos muito depois”, complementou na mesma entrevista.

Flagrantes no viral, as expressões de ciúme são comuns e até mesmo esperadas nas relações entre irmãos, como avalia a psicóloga Adri Dayan. “É algo absolutamente normal”, diz. Tanto que, ao descobrir uma nova gestação, pessoas que têm filhos começam, de imediato, a refletir sobre como a chegada de um irmão pode desencadear esse comportamento nas demais crianças. “O problema é como nós, adultos, lidamos com isso”, garante Adri.

A profissional alerta que, normalmente, os tutores tendem a tentar silenciar nos pequenos as emoções que julgam ser negativas. “Quando ouvimos um menino dizer que odeia o irmão, respondemos que eles simplesmente não podem falar isso”, comenta, ponderando que esta não é a melhor estratégia para a construção de relações fraternas mais saudáveis. “Precisamos aceitar as manifestações de quaisquer sentimentos, sabendo ouvir suas queixas e buscando trabalhar nas crianças a capacidade de lidar inclusive com sensações difíceis, como a raiva e a frustração”, aconselha a tradutora do livro “Irmãos sem Rivalidade: O que Fazer quando os Filhos Brigam”, de Adele Faber e Elaine Mazlish.

Adri defende que os genitores estimulem nos rebentos a habilidade de resolução de problemas. “Eles devem estar prontas para resolverem sozinhos o que podem fazê-lo”, pontua. “Portanto, se estão brigando muito, os pais podem, por exemplo, propor uma conversa entre as partes – e é importante que isso aconteça não apenas depois de uma briga, mas também em um momento de trégua”, assinala. Ao mesmo tempo, a psicóloga alerta que os tutores devem saber escutar ativamente o que os filhos têm a dizer, permitindo que expressem seus afetos sem censurá-los o tempo todo. Assim, as crianças conseguirão desenvolver as ferramentas necessárias para resolver seus problemas com alguma autonomia, e sem ter que recorrer sempre à figura do pai ou da mãe, sugere. Além disso, à medida que puderem exteriorizar aquilo que estão sentindo, menores serão as chances de manifestar suas emoções por meio de comportamentos violentos.

No caso de Maria Eduarda e Maria Antônia, a família garante que estimula a conversa entre as meninas rotineiramente e diz que a briga foi apenas momentânea. Aliás, sem ressentimentos, a relação entre as meninas está longe de se parecer com a de Paola Bracho e Paulina, irmãs e arqui-inimigas que protagonizaram a novela mexicana “A Usurpadora”, de 1998 – personagens que foram rapidamente lembradas nas redes sociais quando o vídeo do entrevero se popularizou. “Acho que a relação de ciúme existe desde que a Maria Eduarda nasceu, mas isso porque antes o colo era só dela (de Maria Antônia), os brinquedos eram dela, a casa era dela. Depois, ela teve que dividir tudo isso, mesmo querendo muito a irmã. Elas só representaram o que acontece nas casas de todo mundo”, afirmou a mãe ao G1.

Pais devem evitar comparação, mas também valorizar diferenças

O ciúme e a rivalidade estão presentes nas dinâmicas familiares “desde Caim e Abel”, diz Adri Dayan. Mas o fato de esses sentimentos existirem, independentemente dos desejos dos tutores, não tira deles a responsabilidade de auxiliar suas crianças a manejar da melhor forma possível tais estímulos, respondendo de maneira emocionalmente equilibrada a eles. Para que estejam aptas a isso, os genitores devem permanecer em alerta, pois, mesmo que de maneira inconsciente, a postura deles pode incitar animosidade entre os rebentos, avalia a psicóloga.

“Se eu tiver que dar uma dica, sugiro que os pais evitem comparações, positivas ou negativas”, diz. Ela aponta que esse comportamento vai provocar nos pequenos uma ideia de competição, tornando-se um fator estressor no relacionamento fraterno. Para vencer esse “duelo” imaginário de quem é o melhor, as crianças podem adotar uma postura conflituosa, em que passam a se atacar – inclusive fisicamente.

Por outro lado, as tentativas de pavimentar as diferenças e de ignorar as individualidades são também potencialmente prejudiciais e também podem refletir-se no estabelecimento de vínculos disfuncionais no futuro. Adri lembra relatos contidos nos livros de Adele Faber e Elaine Mazlish – entre eles “Irmãos sem Rivalidade: O que Fazer quando os Filhos Brigam” e “Como Falar para Seu Filho Ouvir e como Ouvir para Seu Filho Falar”, lançados no Brasil pela editora Summus – que demonstram como essa atitude pode ser danosa.

As autoras detalham, por exemplo, como a atitude da mãe de duas meninas – que tentava eliminar as diferenças entre elas de forma a evitar que comparações gerassem frustração – acabou contribuindo para que se comportassem como inimigas por anos a fio. “Uma das crianças sempre recebia elogio por causa dos seus cabelos, e, para que esses comentários de outras pessoas não mobilizassem um sentimento de ciúme entre elas, essa mãe decidiu cortar o cabelo da garota”, cita, salientando que a rivalidade se manteve mesmo quando chegaram à fase adulta. “Não é este o caminho. É preciso dar lugar às diferenças. Só assim cada um vai encontrar suas qualidades e entender que elas independem das do outro”, comenta.

Viralização é problemática. A psicóloga e tradutora Ari Dayan faz críticas à repercussão do vídeo em que Maria Eduarda, de 3 anos, e Maria Antônia, de 6, aparecem brigando. Para ela, quando episódios assim viralizam e adultos agem como se a situação fosse meramente divertida, crianças podem se sentir estimuladas a agir de forma parecida. “Fica parecendo que as pessoas aprovam esse tipo de postura, e, por isso, a meninada tende a entender aquilo como um exemplo positivo”, diz.

Para ler na íntegra, acesse: https://www.otempo.com.br/interessa/pais-precisam-trabalhar-a-capacidade-dos-filhos-de-lidar-com-ciume-e-rivalidade-1.2404340

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Saiba mais sobre os livros da Summus mencionados na matéria:

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IRMÃOS SEM RIVALIDADE
O que fazer quando os filhos brigam
Autoras: Adele FaberElaine Mazlish

Das mesmas autoras de Como falar para o seu filho ouvir e como ouvir para o seu filho falar, este livro aborda, entre outros, os seguintes tópicos: como ajudar os irmãos a conviverem bem, como tratar os filhos de forma diferente mas com justiça, como libertar as crianças de rótulos e como agir positivamente no momento das brigas. E, o que é mais importante, os pais aprenderão a resolver conflitos de forma pacífica.

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COMO FALAR PARA SEU FILHO OUVIR E COMO OUVIR PARA SEU FILHO FALAR
Autoras: Adele FaberElaine Mazlish

Um best seller nos Estados Unidos, com mais de três milhões de exemplares vendidos. As autoras desenvolvem um método efetivo e respeitoso para o diálogo com as crianças. O livro é ilustrado com divertidos quadrinhos que demonstram situações concretas e oferecem soluções inovadoras para problemas comuns em famílias, como lidar com sentimentos negativos, expressar emoções, conseguir a cooperação das crianças e resolver conflitos.

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