‘ABORTO ESPONTÂNEO: A DOR DE PERDER UM BEBÊ E ESTAR ENTRE MÃES FELIZES’

Matéria de Jacqueline Elise, publicada originalmente no UOL Universa,
em 23/01/2019.

A designer gráfico Carolina Schmitz, de 39 anos, ainda chora ao lembrar de sua primeira gravidez. Em 2013, com quase três meses de gestação, ela foi realizar o primeiro ultrassom, mas encontrou só silêncio: o saco gestacional era muito pequeno e não havia batimentos cardíacos. Por conta do pouco tempo, pediram para que ela aguardasse mais dez dias para refazer o exame e ver se o feto teria batimentos da próxima vez.

Uma semana depois, Carolina teve um sangramento e voltou ao hospital. Lá, ela descobriu que tinha sofrido um aborto espontâneo. Não bastasse a notícia, ela foi atendida na ala da maternidade, dividindo espaço com outras mulheres que estavam lá para, enfim, ter seus bebês. “Passei o dia todo naquele lugar me sentindo sozinha, como se ninguém pudesse me ver”, relata.

O caso de Carolina é muito comum. Por se tratar de um procedimento obstétrico, o atendimento a mulheres em processo de abortamento é feito em hospitais que dispõem de maternidade, para que os especialistas cuidem dos casos. Mas pode acontecer de parturientes e gestantes sofrendo um aborto espontâneo serem atendidas na mesma área, sem separação de ambientes.

D. F.*, de 42 anos, também passou por isso, e mais de uma vez. O primeiro caso aconteceu aos 35 anos: ela perdeu seu filho, recomendaram que ela aguardasse o processo se concluir naturalmente, mas, no fim, precisou realizar a sucção dos restos embrionários, a curetagem — e na mesma ala em que também eram feitos os partos.

Na segunda vez, a situação se repetiu. “Das coisas mais doloridas na experiência da curetagem, me lembro do choro das crianças nascendo no centro cirúrgico ao lado, de passar pelos bebês recém-nascidos, de ser chamada de ‘cureta’ pela enfermagem”, diz.

Frieza no atendimento também afeta as mulheres

D. relata que, na primeira vez que sofreu um aborto espontâneo, o tratamento distante dos médicos não ajudou. “Eu sei que eles trabalham com um número grande de pessoas, mas não precisa desumanizar tanto”.

A artista plástica Ana Pires, 29 anos, de São Paulo (SP), estava em uma viagem à Bahia quando descobriu que estava grávida. Logo que voltou ao seu estado para iniciar o pré-natal, ela teve um sangramento. Ana estava em processo de abortamento espontâneo, mas foi aconselhada a esperar o feto “sair sozinho” em casa. Demorou uma semana até expelir tudo, e ela alega que o tratamento no hospital foi muito “frio”.

Hoje, as três mulheres tiveram filhos após as experiências de abortamento, mas todas acreditam que poderia ter sido menos traumático se tivessem acompanhamento humanizado e atendimento psicológico, especialmente porque foram aconselhadas a aguardar o abortamento acontecer naturalmente, em casa, e receberam conselhos que pouco ajudaram a apaziguar a dor. “Não ajuda ficar dizendo ‘é normal perder filho, a fulana perdeu oito vezes antes de vingar um'”, diz Carolina.

Atender na maternidade é necessário, mas pode haver alas divididas no hospital

Janaína Motta, ginecologista, obstetra e colposcopista de São Paulo (SP), explica que existem um caso é classificado como aborto espontâneo quando ele ocorre até a 20ª semana de gestação. Existem dois tipos de aborto: o ativo, no qual a mulher tem um sangramento indicando que o processo já está acontecendo; e o retido, no qual ela não tem sintomas explícitos e é necessário fazer a curetagem. Em ambos os casos, as pacientes precisam ser tratadas na ala obstétrica dos hospitais.

“Quando a mulher em abortamento é atendida numa área obstétrica, é necessário uma equipe médica multidisciplinar composta por ginecologistas e obstetras, enfermeiros, assistente social e psicólogos, para que ela possa ter um apoio”, explica a especialista. Ela afirma que, em geral, os hospitais separam as parturientes das pacientes tendo um aborto, mas reconhece que “em hospitais com estruturas menos adequadas, infelizmente elas estarão misturadas com outras mulheres que acabaram de ter seus bebês”.

Maria Eugênia de Santi, especialista em reprodução assistida e responsável pelo departamento de planejamento familiar do Hospital Pérola Byington, em São Paulo (SP), afirma que a separação de alas “não é sempre prioridade dentro da administração do hospital”. “Um hospital que só funciona como maternidade recebe também pessoas que estão fazendo cirurgias. Ele poderia privilegiar uma área não relacionada ao parto, onde mulheres que farão cirurgias ginecológicas, como retirada de miomas e histerectomia, e mulheres em abortamento poderiam ficar”, pensa.

Preciso de apoio: o que fazer?

Ambas as médicas já sofreram, também, um aborto espontâneo. Santi diz: “Quando você perde o bebê, mesmo que seja no comecinho, na sua imaginação, ele já é grande, tem um quarto, roupinhas. E quando você vai para o corredor onde todas as portas têm as plaquinhas com enfeites, e a sua porta indica uma situação de insucesso, é traumatizante”, relata.

Ela afirma que, no seu caso, foi aconselhada e ir para casa e esperar o aborto acontecer, mas se recusou. “A curetagem tem seus riscos, ela pode machucar o colo do útero, por isso recomendam que aguardem. Mas eu pedi para minha médica fazer a curetagem, porque eu não ia aguentar passar pela espera. Isso é uma opção, a paciente pode solicitar que o procedimento seja feito, sim”.

Motta também salienta que a mulher em abortamento pode solicitar atendimento psicológico para lidar com a situação e minimizar a dor. “O atendimento médico tem que ser o mais humanizado possível para que ela se sinta confortável e segura neste momento. O fundamental é este apoio psicológico e emocional por parte dos médicos e da assistência social, ou ala de Psicologia do hospital”. Caso a paciente sinta que foi prejudicada durante o atendimento, é recomendado que ela procure a ouvidoria.

Por fim, Santi afirma que compartilhar histórias e encontrar grupos de apoio é o melhor remédio para a dor emocional. “Tem a questão do luto gestacional, mas também há muito medo de engravidar e perder de novo, de descobrir algum problema de saúde. Por isso é importante conversar com quem passou por isso”, pensa.

Para ler na íntegra, acesse:
https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/01/23/aborto-espontaneo-a-tristeza-de-perder-um-filho-e-ficar-na-maternidade.htm

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Se você tem interesse pelo tema do luto gestacional, conheça os livros do Grupo Summus que falam sobre o assunto:

ABORTO ESPONTÂNEO
Guias Ágora – Esclarecendo suas dúvidas
Autora: Ursula Markham
EDITORA ÁGORA

A perda de um bebê em formação é uma experiência devastadora para a mulher. Ela não só terá de lidar com a dor e a frustração, mas também com a ansiedade em relação a uma futura gravidez. Este simpático guia oferece conforto, conselhos práticos, segurança nos próximos passos.

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MATERNIDADE INTERROMPIDA
O drama da perda gestacional
Autora: Maria Manuela Pontes
EDITORA ÁGORA

Por vezes o ciclo da vida inverte-se: morre-se antes de nascer. Estará a sociedade civil consciente da fragilidade da maternidade e do vigor desse sono eterno que nos desvincula da existência? Este livro denuncia os processos da dor e do luto em mulheres que enfrentaram o drama da perda gestacional. São testemunhos reais de uma dura realidade que, silenciosa, clama por ser ouvida.
Prefácio de Maria Helena Pereira Franco.

‘ QUANDO A DOR DE PERDER UM BEBÊ NÃO É RESPEITADA: “VAI INCINERAR COM O LIXO” ’

Perder um filho é dilacerante para pais e mães. Mas famílias que perderam seus bebês –antes mesmo do nascimento ou logo após– relatam dificuldade de encontrar espaço físico e acolhimento para viver o seu luto, ainda no hospital. Há mulheres que são colocadas no mesmo ambiente com mães que estão recebendo seus filhos saudáveis ou em quartos vizinhos, tendo de ouvir o choro de recém-nascidos e a alegria das famílias.

A psicóloga Larissa Rocha, uma das fundadoras do projeto Do Luto à Luta: Apoio à Perda Gestacional e Neonatal, perdeu um filho aos cinco meses de gestação, em função de um problema chamado gestação molar (na qual um tumor, geralmente benigno, desenvolve-se no útero), e viveu situações desrespeitosas em uma maternidade privada no Rio de Janeiro.

“Do meu quarto, logo após a curetagem, ouvia bebês chorarem. Funcionários entravam e me perguntavam do meu filho. Ganhei kit maternidade, um brinde distribuído em algumas maternidades particulares”, conta Larissa, que perdeu um bebê entre as gestações dos filhos Tomás, 4 anos, e Mila, 1.

Na falta de um protocolo oficial que oriente hospitais e profissionais da saúde a lidarem com a perda gestacional e neonatal, o Do Luto à Luta reivindica um tratamento mais humanizado com base em algumas orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde).

“O uso de uma pulseira diferente pela mãe que perdeu o filho já evitaria que ela fosse alvo de perguntas indelicadas. Se não é viável ter uma ala só para o atendimento delas na maternidade, elas poderiam, pelo menos, serem colocadas afastadas das mães com seus filhos nos braços”, diz Larissa.

“Se pesar menos de 500 g, vai incinerar com o lixo hospitalar”

“Era noite e cismei que o Felipe não estava mexendo. Estava com cinco para seis meses de gestação. Na manhã seguinte, eu e meu marido fomos para o hospital público mais perto da minha casa. Estava fazendo o pré-natal pelo SUS [Sistema Único de Saúde]. O médico tentou ouvir o coração do bebê, e nada. Fiz um ultrassom, que constatou que o Felipe estava morto. O médico virou para mim e falou: ‘Você fez alguma coisa para isso acontecer?’. Insinuando que eu tinha provocado um aborto! Fui até o lado de fora do hospital dar a notícia para o meu marido, porque não tinham deixado ele ficar lá dentro comigo. Sentamos os dois na calçada e choramos. Quando entrei, tive de tomar remédio para expulsar o bebê. Fiquei 24 horas em trabalho de parto, vendo outras mães tendo seus filhos saudáveis. Morrendo de dor, a cada vez que ia ser examinada para conferir a dilatação, ouvia das enfermeiras: ‘Foi você que perdeu o bebê, não é?’. Na hora em que finalmente ele nasceu, a que estava comigo falou sem rodeios: ‘Se pesar mais de 500 g tem de fazer funeral, se não, vai incinerar com o lixo hospitalar’. Disse isso e colocou ele e a placenta em uma bacia de alumínio e levou. Sei que o luto era meu, mas não teve respeito.” Kátia Gonçalves Moreira, 38 anos, é mãe também de Fernanda, 17, e Mariana, 10.

 

Texto parcial de matéria de Adriana Nogueira, publicada no UOL em 22/09/2017. Para acessar na íntegra e ver outras histórias, clique em https://estilo.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/redacao/2017/09/22/maes-que-perderam-seus-bebes-vivem-o-luto-no-meio-da-alegria-da-maternidade.htm

 

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MATERNIDADE INTERROMPIDA
O drama da perda gestacional
Autora: Maria Manuela Pontes
EDITORA ÁGORA

Por vezes o ciclo da vida inverte-se: morre-se antes de nascer. Estará a sociedade civil consciente da fragilidade da maternidade e do vigor desse sono eterno que nos desvincula da existência? Este livro denuncia os processos da dor e do luto em mulheres que enfrentaram o drama da perda gestacional. São testemunhos reais de uma dura realidade que, silenciosa, clama por ser ouvida.
Prefácio de Maria Helena Pereira Franco.

‘APÓS PERDER BEBÊ, MÃE CRIA LOGO PARA SINALIZAR LUTO NA MATERNIDADE’

Símbolo em hospital avisa que bebê era parte de uma gestação múltipla em que nem todos sobreviveram

Símbolo em hospital avisa que bebê era parte de uma gestação múltipla em que nem todos sobreviveram

Símbolo em hospital avisa que bebê era parte de uma gestação múltipla em que nem todos sobreviveram

Na maternidade, uma mãe cansada tentando acalmar seus gêmeos recém-nascidos olha para a outra, na cama ao lado, e diz: “Você tem sorte de ter apenas um”. A intenção era fazer uma brincadeira, mas a afirmação ganhou ares de tragédia, pois a vizinha de leito também tinha tido uma gravidez múltipla e somente uma das duas bebês sobreviveu. As informações são do site americano “Babble”.

Embora prematura, Callie nasceu normal, mas Skye teve anencefalia (má formação caracterizada pela ausência total ou parcial do encéfalo e da calota craniana) e viveu apenas três horas. Mesmo sabendo da condição da bebê desde a 12ª semana de gestação, os pais, Milli Smith e Lewis Cann, ficaram arrasados com sua morte.

Contrariando as previsões médicas, que diziam que Skye não seria capaz de fazer sons, ela chorou quando nasceu e mexeu os braços, o que emocionou o casal.

O Kingston Hospital, no Reino Unido, onde o parto aconteceu, dispõe de uma sala especial, chamada Daisy, onde os pais de um bebê em estado terminal podem permanecer ao seu lado até o fim. E foi isso que eles fizeram.

Fazia pouco tempo que Skye tinha morrido quando a outra paciente fez o comentário infeliz, mas não intencional, deixando Milli devastada.

Para evitar que outras famílias passem por constrangimentos como esse, ela criou um símbolo (uma borboleta roxa) que indica que o bebê presente em determinado leito ou incubadora é parte de uma gestação múltipla em que nem todos os fetos sobreviveram. Assim, a família pode ser tratada, tanto pela equipe do hospital quanto pelos visitantes e pacientes, de maneira mais gentil e respeitosa.

Para viabilizar o projeto, Milli criou uma campanha para arrecadar fundos e espera que, no futuro, a iniciativa se transforme em uma fundação para homenagear a filha e apoiar outras famílias que passarem por perdas como a dela.

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Texto publicado originalmente no UOL, em 29/06/2016. Para lêlo na íntegra, acesse:
http://estilo.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/redacao/2016/06/29/apos-perder-bebe-mae-cria-logo-para-sinalizar-luto-na-maternidade.htm

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Para entender melhor  os processos de dor e luto da perda gestacional, conheça:
20060MATERNIDADE INTERROMPIDA
O drama da perda gestacional
Autora: Maria Manuela Pontes
EDITORA ÁGORA

Por vezes o ciclo da vida inverte-se: morre-se antes de nascer. Estará a sociedade civil consciente da fragilidade da maternidade e do vigor desse sono eterno que nos desvincula da existência? Este livro denuncia os processos da dor e do luto em mulheres que enfrentaram o drama da perda gestacional. São testemunhos reais de uma dura realidade que, silenciosa, clama por ser ouvida. Prefácio de Maria Helena Pereira Franco.

‘MÃES RELATAM O DRAMA DA PERDA GESTACIONAL TARDIA’

Chamada de perda gestacional tardia, o aborto espontâneo a partir da 23ª semana de gravidez é um tema delicado. Quem passa por ele encontra pouco espaço na sociedade para vivenciar o luto.

Para abrir espaço para a reflexão sobre o tema, o UOL reuniu oito depoimentos de mulheres que passaram pela experiência.

Patricia Aparecida Formigoni Avamileno, 49, advogada

“Quando perdemos os pais, somos órfãos. Quando perdemos o marido, somos viúvas, mas, quando perdemos um filho, isso sequer tem nome. Receber essa notícia é como um coice no estômago. Um pesadelo sem fim. Perdi o meu segundo filho no nono mês de gestação. A causa foi anoxia intrauterina (falta de oxigenação no cérebro). Desde sua morte, não existe Natal que seja alegre, pois ele morreu em 19 de dezembro de 1997. Como tiveram de me dopar após o parto, minha mãe e meu marido não permitiram que eu visse o bebê. Também não pude acompanhar o velório nem o enterro. Sinto até hoje saudade de alguém que sequer conheci. Lembro que, na sala de pré-parto, senti a placenta mexer e gritei chamando o médico, acreditando que meu filho se movia. Anos depois, eu me tornei mãe novamente.”

Fabiana Pacheco, 30, técnica de radiologia

“Perdi minha filha Clara no sexto mês de gestação. Descobri que ela estava morta em um ultrassom de rotina. Era uma quinta-feira. O coração dela simplesmente parou. Foi difícil acreditar que estava passando por aquilo. Já havia comprado todo o enxoval, que, por sinal, continua comigo. No dia seguinte à descoberta, fui internada na maternidade, onde começaram a induzir o parto normal. Em um sábado, às 9h, ela nasceu. Já faz mais de dois anos, mas não superei o luto. Nunca mais consegui engravidar novamente, mesmo sem me prevenir.”
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Matéria de Bruno Santos, publicada no UOL em 03/03/2016. Para ler todos os depoimentos, acesse:  http://mulher.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/redacao/2016/03/03/maes-relatam-o-drama-da-perda-gestacional-tardia.htm

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Para se aprofundar no assunto, conheça algumas obras da Editora Ágora que abordam o tema:

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O drama da perda gestacional
Autora: Maria Manuela Pontes

Por vezes o ciclo da vida inverte-se: morre-se antes de nascer. Estará a sociedade civil consciente da fragilidade da maternidade e do vigor desse sono eterno que nos desvincula da existência? Este livro denuncia os processos da dor e do luto em mulheres que enfrentaram o drama da perda gestacional. São testemunhos reais de uma dura realidade que, silenciosa, clama por ser ouvida. Prefácio de Maria Helena Pereira Franco.

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ABORTO ESPONTÂNEO
Esclarecendo suas dúvidas
Autora: Ursula Markham

A perda de um bebê em formação é uma experiência devastadora para a mulher. Ela não só terá de lidar com a dor e a frustração, mas também com a ansiedade em relação a uma futura gravidez. Este simpático guia oferece conforto, conselhos práticos, segurança nos próximos passos.

 

‘O QUE ESTÁ POR TRÁS DO ABORTO ESPONTÂNEO?’

Um estudo divulgado esse ano pelo IBGE confirmou que 15% das brasileiras em idade fértil, entre 18 e 49 anos, já sofreram aborto espontâneo (os dados são baseados em amostras de 2013). O problema costuma afetar mulheres nos extremos de idade, isto é, mais novas e mais velhas. O mesmo se aplica ao peso: as gordinhas podem sofrer mais por terem maior propensão a doenças como diabetes. Já nas magrinhas, o problema é a desnutrição.

Caracterizado pela perda fetal não provocada antes da 22ª semana de gravidez ou quando o feto pesa menos de 500g, o aborto espontâneo é mais comum nas primeiras gestações e tem diversas origens, até mesmo sem causa aparente. Pode ocorrer por problemas na anatomia do útero, mioma, malformações, deficiência de progesterona, incompetência cervical, trombofilia e doenças autoimunes, entre outros motivos. O estresse e as quedas também são fatores desencadeantes, pois podem liberar hormônios que causam contração.

Se a mulher perceber sinais como sangramento vaginal e cólica na região do útero, é essencial procurar o médico o quanto antes, pois estes são os principais sintomas. Segundo as estatísticas, um aborto espontâneo é considerado normal. Dois ou mais já entram na classificação de aborto por repetição e as causas devem ser investigadas.

O suporte da família é fundamental para a recuperação física, emocional e psicológica da grávida. Mas não é preciso esperar que o episódio se repita, o apoio total precisa ser dado desde o primeiro caso. É necessário que a mulher tenha o acompanhamento de um especialista, por exemplo, para que se prevenir o problema em futuras gestações.

Desde que sem complicações,  o aborto espontâneo não impede a mulher de ter filhos. A ajuda médica para a identificação dos motivos é capaz de fazer com que a experiência de uma nova gravidez seja completa, sem medos.

Artigo do Dr. Domingos Mantelli, publicado originalmente no portal itmãe, em 18.11.2015. Para lê-lo na íntegra, acesse: http://itmae.uol.com.br/look-it-mae-menu/saude-de-mae/aborto-espontaneo

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Para saber mais sobre o assunto, conheça:

20822ABORTO ESPONTÂNEO
Esclarecendo suas dúvidas
Autora: Ursula Markham
COLEÇÃO GUIAS ÁGORA

A perda de um bebê em formação é uma experiência devastadora para a mulher. Ela não só terá de lidar com a dor e a frustração, mas também com a ansiedade em relação a uma futura gravidez. Este simpático guia oferece conforto, conselhos práticos, segurança nos próximos passos.

 

‘MITOS E VERDADES SOBRE O ABORTO ESPONTÂNEO’

No meio de sua palestra sobre mudanças climáticas durante um congresso em Costa Rica, ela, grávida de quase dois meses, começou a sentir uma cólica insuportável. Lembrou das palavras da ginecologista, dizendo que era bem provável essa gravidez “não ir para frente”. Não foi.

Essa mulher é uma em dez que sofre aborto espontâneo. Um “processo”, se assim posso chamá-lo, pouco falado em público e por isso talvez rodeado de más informações e mitos. Abaixo, seguem alguns deles, respondidos com a consulta à ginecologista e obstetra, Dra. Albertina Duarte.

O aborto espontâneo acontece com mais frequência do que se imagina: verdade. Dra. Albertina diz que a cada dez mulheres que engravida, uma poderá ter sua gravidez interrompida. É mais frequente na primeira gestação. E ainda existem aqueles que são chamados de “silenciosos”, podem ser interpretados pela mulher como atraso menstrual e não abortamento espontâneo. Alguns ginecologistas mencionam a taxa de 15% a 20% de abortamento espontâneo após o atraso menstrual e de 30 a 40% antes dele (entre a fecundação e o atraso menstrual).

Não se fala muito a respeito por ser considerado natural: mito. As mulheres não saem por aí contando porque sentem dor ao compartilhar essa história e pode haver vergonha em ter perdido um bebê, como se de alguma forma estivesse conectado a um fracasso pessoal. Arrisco dizer que há certo machismo na ideia de existirem mulheres boas parideiras e as más e assim, perder um bebê faria com que a mulher diminuísse seu valor.

“A natureza é sábia” é um bom conforto: parcialmente verdade. Eu mesma já usei essa frase com uma amiga e me arrependi ao ver a expressão no rosto dela. Não parece servir de consolo algum. Mas tem um fundo de verdade, porque quanto mais precoce a gravidez, antes das 12 semanas, maior a possibilidade de haver uma malformação do feto que leve ao aborto. Fisicamente, o útero tende a espontaneamente eliminar a gravidez que não está indo bem.

O aborto espontâneo é culpa da mãe, por não estar em boas condições de saúde: mito. Ele ocorre por uma infinidade de fatores, nem sempre ligado ao estado de saúde da mãe. Por exemplo, o espermatozoide pode carregar alguma infecção, ou doenças sexualmente transmissíveis, como clamídia e gonorreia. Os espermatozoides também podem ser contaminados por doenças não sexualmente transmissíveis, como o estreptococos.

Aborto espontâneo é castigo de Deus: mito. Existem explicações clínicas para ele e a mulher deve investigar suas causas a fim de evitar futuras ocorrências.

O aborto espontâneo pode acontecer por desejo mental da mulher: mito. Não é possível abortar com o poder da mente. Mas com a coincidência do desejo de ter a gravidez interrompida e a ocorrência do fato, pode surgir culpa.

Por ser natural, não dói: mito. Ele pode ser bem dolorido e amenizado com analgésicos. Mas há uma forma de aborto espontâneo “silencioso”, que não é muito dolorido e normalmente confundido com a menstruação.

Ele pode estar relacionado a alterações hormonais e à falta de vitaminas: verdade. A falta de vitamina D e de ferro pode contribuir para o aborto espontâneo. Alterações hormonais, como baixa progesterona, também.

A mulher fica enlutada após o aborto espontâneo: verdade. O luto se intensifica por ser um luto solitário, porque é mais difícil compartilhá-lo. Ele é menosprezado pela sociedade com frases como: “ah, logo mais você faz outro”, ou: “vocês já tem dois filhos, não precisa de um terceiro”. Há relativamente pouco tempo para lidar com esse luto porque, por lei, a mulher deve voltar a trabalhar após 15 dias da licença médica. E ele aparenta ser maior quando é necessário enterrar o feto – exigido se pesar mais de 500g, equivalente a aproximadamente 4 meses de gestação. Após a 20ª semana de gestação, não é mais considerado abortamento espontâneo, e sim parto prematuro.

No próximo mês, já deve-se tentar engravidar de novo: mito. Aconselha-se esperar 90 dias para tentar uma próxima gravidez.

Há medicamentos que podem induzir o aborto, como efeito colateral: verdade. Principalmente alguns medicamentos para emagrecer e contra acne.

Stress e depressão podem contribuir para o aborto espontâneo: verdade. Não se sabe o nível da participação desses itens, mas precisam ser considerados. Um stress muito intenso pode alterar a prolactina, facilitando o aborto espontâneo.

O aborto espontâneo pode ser considerado uma morte: não se sabe, porque nunca tivemos essa discussão publicamente. A definição clínica seria – é um embrião que não viveu. “Para muitas pacientes é considerado uma morte”, Dra. Albertina diz.

Texto de Camila Appel, publicado originalmente no blog Morte sem Tabu, d Folha de S. Paulo, em 04/03/2015:
http://mortesemtabu.blogfolha.uol.com.br/2015/03/04/mitos-e-verdades-sobre-o-aborto-espontaneo/

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Se você tem interesse pelo assunto, conheça o livro da Ágora:

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O drama da perda gestacional
Autora: Maria Manuela Pontes 

Por vezes o ciclo da vida inverte-se: morre-se antes de nascer. Estará a sociedade civil consciente da fragilidade da maternidade e do vigor desse sono eterno que nos desvincula da existência? Este livro denuncia os processos da dor e do luto em mulheres que enfrentaram o drama da perda gestacional. São testemunhos reais de uma dura realidade que, silenciosa, clama por ser ouvida.
Prefácio de Maria Helena Pereira Franco.