‘COMO A DITADURA DA BELEZA INFLUENCIA SUA SEXUALIDADE?’

Para desfrutar do prazer na cama, é preciso aceitar e se sentir confortável com seu corpo, sem se importar com os padrões impostos pela mídia

Se você pudesse mudar alguma coisa no seu corpo, o que seria? Perderia uns quilinhos, aumentaria os seios, ganharia alguns centímetros de altura? Todas as opções anteriores? Seja qual for seu desejo, é compreensível que você queira mudar alguma coisa, afinal, sempre achamos que algo poderia ser melhor. Contudo, segundo a terapeuta de casal e família Tatiana Leite, não é recomendável se tornar escrava de uma ditadura da beleza, “pois isso pode afetar diretamente sua autoestima e, consequentemente, sua sexualidade”.

Não é de hoje que os meios de comunicação e as redes sociais nos mostram os chamados corpos “perfeitos” associados com a ideia de sucesso e felicidade. “Mas, vamos combinar, quantas mulheres conseguem realmente atingir esses padrões? E a que custo? Com certeza, a imensa minoria da população. Por isso, encontramos tantas mulheres insatisfeitas com sua aparência física”, explica a especialista.
De acordo com Tatiana, essa percepção afeta o desenvolvimento da sexualidade da mulher: “A indústria do consumo incorporou em nossa cultura padrões que prejudicam a construção de uma autoimagem positiva, fazendo com que a liberdade sexual ficasse aprisionada por uma necessidade estética”.

A terapeuta ensina o caminho das pedras: “Para que você desfrute plenamente da sua sexualidade é muito importante se aceitar e se sentir confortável com seu corpo. Afinal, como você terá intimidade com outra pessoa se não tem consigo mesma? Nosso corpo é uma ferramenta essencial para desfrutar o prazer e a intimidade que está associada à sexualidade. Portanto, para compartilhar momentos íntimos com outra pessoa você deve estar à vontade com você e, automaticamente, com sua nudez”.

Texto de Renato Bianchi publicado na revista Sou mais Eu. Para lê-lo na íntegra, acesse:
http://bit.ly/1Xh8rqA

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Saiba mais sobre a ditadura da beleza com o livro:

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Mulher, mídia e consumo}
Autora: Rachel Moreno

A quem interessa vender uma beleza inalcançável? De que maneira a mídia manipula nossa consciência em nome dos interesses do mercado? Quais são as conseqüências para as adolescentes de hoje? Onde entram as “diferentes” – gordinhas, velhas, negras – nesse sistema? Rachel Moreno responde a estas e outras perguntas neste livro vigoroso e crítico, apontando caminhos para que possamos nos defender dessas armadilhas.

‘PRESSÃO SOCIAL CONTRIBUI PARA OBSESSÃO POR CORPO PERFEITO, DIZ PSIQUIATRA’

Os casos de pessoas que arriscam a própria vida na busca por um corpo perfeito têm sido cada vez mais comuns. Em entrevista ao UOL, a psiquiatra Ana Gabriela Hounie afirma que um dos motivos para isso é a pressão da sociedade ao estimular um padrão de beleza ilusório.

“O que você vê sempre são modelos lindas, maravilhosas, perfeitas e que não têm nenhum defeito. Não tem ninguém com defeito porque sai tudo no Photoshop. Isso cria uma ilusão da realidade”, afirma a médica, que é membro da Associação Brasileira de Psiquiatria. “As pessoas começam a ter um ideal, um objetivo, que não existe na realidade.”

Um dos temas pesquisados por Hounie é o transtorno dismórfico corporal, ou dismorfofobia, que ocorre quando uma pessoa tem uma preocupação obsessiva com um defeito pequeno, ou que sequer existe, em sua aparência física.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com a psiquiatra Ana Gabriela Hounie sobre os casos em que a busca por um ideal de beleza se torna um problema de saúde.

UOL – Em que circunstâncias a insatisfação com o próprio corpo pode ser considerada um transtorno de imagem?
Ana Gabriela Hounie –
Existe o que a gente chama de distúrbio do esquema corporal, que é maneira como a pessoa se percebe. Uma pessoa que tem anorexia nervosa, apesar de estar extremamente magra, até esquelética, se acha e se vê gorda. Se você pede pra ela fazer o desenho dela própria, ela é capaz de fazer o desenho de uma baleia. É uma modificação na percepção que a pessoa tem do próprio corpo.

Quando isso se refere a um defeito no corpo, é um transtorno dismórfico corporal. A pessoa acha que tem uma deformidade. Há os casos em que a pessoa é perfeita, não tem nenhum problema, e aí ela se vê deformada. E há aqueles casos em que às vezes ela tem um defeito pequeno, real, mas exagera e sofre enormemente com aquilo e acaba procurando cirurgias plásticas, tratamento etc.

UOL – Este tipo de distúrbio está se tornando mais comum?
Hounie – Ele é mais comum atualmente por conta das exigências da sociedade, que estimula esse consumo do perfeito, do melhor. O que você vê sempre são modelos lindas, maravilhosas, perfeitas e não têm nenhum defeito. Não tem ninguém com defeito porque sai tudo no Photoshop. Isso cria uma ilusão da realidade. As pessoas começam a ter um ideal, um objetivo que não existe na realidade. E isso é uma pressão da cultura. Isso favorece que as pessoas predispostas a ter problemas psiquiátricos, como a depressão ou a ansiedade, adoeçam neste sentido.

UOL – A incidência é maior entre mulheres? Está crescendo entre homens?
Hounie – Em geral, são as mulheres que têm mais este tipo de problema. Mas, mais recentemente, tem aumentado entre os homens. Com a popularização do fisiculturismo e do uso de anabolizantes, até criaram um termo novo, que é a vigorexia, quando o cara é todo fortão, saradão, mas se olha no espelho e se acha esquálido.

UOL – Como se dá esse processo de insatisfação permanente com o próprio corpo?
Hounie – A pessoa tem uma obsessão por ficar com aquele corpo perfeito ou por ter determinado atributo. É uma coisa que toma a vida da pessoa, que só pensa naquilo, vive em função daquilo. Em geral, começa com uma cirurgia mais simples, no nariz, por exemplo. Depois, começa a achar que o queixo também não é perfeito, aí vai e faz uma operação no queixo. São pessoas que ficam sempre insatisfeitas, mesmo se o resultado da cirurgia ficar bom, elas continuam achando que precisam mudar mais. A pessoa começa aos pouquinhos, mas daqui a pouco está deformada. O Michael Jackson, por exemplo, era um e morreu outro.

Se o cirurgião plástico não for uma pessoa ética e operar tudo o que as pessoas pedem, então a quantidade de cirurgias vai ser infinitamente alta. O que acontece é que, muitas vezes, os cirurgiões percebem quando o paciente tem um problema (psiquiátrico). Quando desconfiam que tem alguma coisa neste sentido, os cirurgiões pedem avaliação psiquiátrica e psicológica.

UOL – Como diferenciar o que é apenas um traço de comportamento de um distúrbio psiquiátrico?
Hounie – Depende da importância que a pessoa dá àquilo na vida. Se a pessoa vive em função daquilo, só se preocupa com aquilo, deixa de ter relacionamentos normais por conta de um defeito, é o caso. Sempre que há um prejuízo na vida da pessoa, seja social, profissional ou familiar, se tem um sofrimento ou algum impacto na vida, isso já é considerado patológico.

UOL – Quais as consequências mais graves dos transtornos de imagem?
Hounie – As cirurgias podem dar errado, podem acontecer infecções. Ela vai acabar deformada. No caso de pessoas que usam anabolizantes, elas podem ter problemas por conta do uso de substâncias: desenvolver câncer, hepatite tóxica – porque essas substâncias são tóxicas para o fígado. Depende do tipo de sintoma que a pessoa tem.

UOL – Quem sofre de um transtorno de imagem tem consciência dos riscos dos procedimentos estéticos a que se submete?
Hounie – Algumas pessoas têm noção do risco, mas elas se sentem tão angustiadas com esse ‘defeito’ que encaram o risco e dizem que vale a pena. E tem outros que não têm a menor noção. Por isso que elas vão para vários cirurgiões. Se ela vai para um cirurgião, e ele se recusa a fazer a operação, vai para outro e acaba conseguindo ser operada.

UOL – Quais são os tipos mais comuns de transtornos de imagem?
Hounie – Tem a anorexia nervosa, em que a pessoa está magra e acha que está gorda. Na bulimia, são pessoas que não estão satisfeitas com o próprio corpo e comem porque têm compulsão por comida, depois se sentem culpadas, ficam com medo de engordar e provocam o vômito. Enquanto a anoréxica é magra, a bulímica, em geral, é gordinha, tem o peso normal ou está acima do peso.

Tem também a compulsão alimentar periódica: são pessoas que não chegam à gravidade de vomitar ou de usar diurético, laxante, esse tipo de coisa, mas têm uma compulsão por comida. Quando estão angustiadas, elas atacam a geladeira, tomam dois litros de sorvete e, depois, ficam arrasadas porque comeram demais, acabam passando mal porque comeram muito.

Nos homens, você pode ter também a anorexia nervosa. É raro, mas pode acontecer. E agora tem essa variante, a vigorexia, em que ele se acha fraco, mas, na verdade, está forte. Então ele não precisaria fazer nada, mas mesmo assim acha que está fraco e aí toma mais bomba, tem uns que injetam silicone para parecer que o músculo é maior.

E tem o transtorno dismórfico corporal, em que as pessoas acham que têm algum defeito — defeitos no rosto ou cabelo, por exemplo. Agora há pessoas que fazem muito implante de cabelo porque não aceitam a calvície.

UOL – É correto falar em vício em exercícios físicos? Quando o excesso de atividade física pode configurar um problema psiquiátrico?
Hounie – O exercício físico pode viciar porque a liberação de adrenalina e endorfina é prazerosa. O problema é quando isso foge do normal, e a pessoa prefere fazer exercícios em vez de sair para namorar ou ir ao cinema, por exemplo. Ela limita toda a outra parte da vida dela porque o exercício físico toma um lugar preponderante. E um exercício físico que não seria necessário porque ela está bem. Mas fica obcecado por exercício.

Texto publicado originalmente no UOL, em 11/12/2014. Papa lê-lo na íntegra, acesse: http://bit.ly/1zC4XkI

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Se você tem interesse pelo assunto, conheça:

20048A BELEZA IMPOSSÍVEL
Mulher, mídia e consumo
Autora: Rachel Moreno

A quem interessa vender uma beleza inalcançável? De que maneira a mídia manipula nossa consciência em nome dos interesses do mercado? Quais são as conseqüências para as adolescentes de hoje? Onde entram as “diferentes” – gordinhas, velhas, negras – nesse sistema? Rachel Moreno responde a estas e outras perguntas neste livro vigoroso e crítico, apontando caminhos para que possamos nos defender dessas armadilhas.

 

O PADRÃO DE BELEZA DITADO POR FAMOSOS: “CORPO SE TORNA MERCADORIA PARA CONSUMO”


Psicanalista dá sua opinião sobre a influência que a busca pela perfeição das celebridades gera nos anônimos

“Agora não tenho mais defeito”. Foi com essa frase que Anitta definiu sua nova aparência durante entrevista para o “Fantástico”, da Globo, após uma recauchutagem geral. A cantora de funk corrigiu uma cirurgia mal-sucedida no nariz e aproveitou para diminuí-lo. Reduziu também o tamanho dos seios, que continuaram crescendo após a colocação de prótese de silicone aos 18 anos, e aproveitou que já estava lá para tirar alguns pneuzinhos. A três dias de completar 20 anos (em 30 de março), ela teve a ousadia de prometer que não vai mais se submeter a nenhuma intervenção cirúrgica. Não seria uma promessa prematura?

De qualquer maneira, se não cumprir, não será a única. Em busca da perfeição, muitos famosos entram na faca e recorrem a tratamentos estéticos sem limite. Na maioria das vezes, perseguem um modelo idealizado que não existe. “A busca pela perfeição física tem se transformado em exigência social para o sucesso. A obrigatoriedade da beleza é um mecanismo mórbido para tentar superar as naturais frustrações humanas”, afirma o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg.

Ele diz acreditar que, independentemente dos desejos das celebridades em corrigir o que consideram defeitos (e sempre surge um novo), existe uma pressão da sociedade para que elas estejam sempre perfeitas.

“Cada vez mais as celebridades têm sido organizadas de acordo com o aplauso fácil das tietes. O indivíduo não é mais célebre por mérito e conteúdos, mas por aparência e por espetáculo. O que vale não é mais o desempenho. É o show. E neste show, o corpo se transforma em uma mercadoria a ser vendida para o consumo”, afirma o psicanalista, que completa: “Existe uma pressão interiorizada, que em geral vem de carências íntimas, e uma pressão externa, que vem da mediocridade dos tietes. A tietagem hoje é um flagelo na sociedade brasileira.”

Banalização

O cirurgião plástico Douglas Jorge, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, aponta para a banalização das intervenções exclusivamente estéticas. “Quando a pessoa deseja alguma mudança, não importa a região do corpo, geralmente é por influência externa. O padrão europeu do nariz fino, ou o padrão americano da mama volumosa, por exemplo, são induzidos pelas revistas, pelas celebridades e por tudo o que nos cerca”, diz Jorge, que já se recusou a operar dezenas de pacientes.

“As intervenções estéticas podem ser úteis e benéficas para muitas pessoas que entendem a verdadeira necessidade. Mas o que vemos é que a cirurgia plástica está vulgarizada e banalizada”, continua Jorge.

Das TVs para as ruas

Além de movimentar o mercado da beleza, as celebridades também se tornam inspiração para anônimos. Jamie Sherrill, co-fundadora da Beauty Park Medical Spa, em Santa Mônica, na Califórnia, explicou em entrevista ao jornal britânico “Daily Mail”, que as cirurgias plásticas inspiradas em celebridades são cada vez mais comuns.

Por isso ela diz ter o costume de deixar claro aos pacientes que eles não ficarão iguais às celebridades depois que entrarem na faca. “É óbvio que não posso fazer sósias de celebridades. Se alguém vem aqui e quer os lábios de Angelina Jolie, posso fazer com que eles se pareçam mais com aquele estilo, mas não reproduzir o mesmo.”

A eterna busca dos famosos pela utópica perfeição mexe com a cabeça de fãs e, segundo Goldberg, “costuma desencadear nos anônimos mais influenciáveis um complexo de inferioridade. Um sentimento de autoestima prejudicado. E uma tentativa de imitação dessa celebridade.”

Na contramão do padrão de beleza, Jorge gosta de citar o caso do ator Joaquim Phoenix. “Ele tem lábio leporino mas preferiu conviver com isso a operar. Operar ou não operar compreende riscos, até porque não há precisão matemática do resultado. Uma cirurgia pode ser bem-sucedida para o médico e não agradar o paciente quando ele espera um resultado se comparando a outra pessoa”, alerta o cirurgião.

Às vezes, as inspirações não são caso de cirurgia. Um exemplo é o cantor sertanejo Luciano Camargo que – apesar de admitir ter se submetido a lipoaspiração duas vezes – acaba de perder 20 quilos apenas com dieta e aulas de muay thai. E, como uma exceção, Luciano diz não sentir pressão de fãs, do showbiz ou da mídia para se manter em forma.

“Não ligo quando falam do meu peso. Acho que os fãs não reparam tanto em mim a ponto de quererem que eu fique assim ou assado. Mas posto muitas fotos enquanto estou treinando e muita gente diz que se sente influenciada quando me vê”, diz o cantor.

Além de Luciano, Giovanna Antonelli, Fernanda Paes Leme e Giovanna Ewbank, entre outros famosos, aproveitam o Instagram para mostrar seus treinos físicos diários e acabam mesmo inspirando seguidores.

Qual o limite na busca para a perfeição? 

Goldberg diz acreditar que existe um limite para que a busca de famosos ou anônimos pela perfeição não se torne prejudicial à saúde. “O limite é o contato com a realidade. Existem pessoas que navegam na fantasia acreditando que podem modelar seu corpo e aparência de acordo com estereótipos da televisão ou de revistas. Muitas vezes em cima de ilusão porque a própria celebridade que aparece na tela não é assim quando sai de cena e vive na realidade. Uma coisa é o artista na TV, outra coisa é esse mesmo artista no banheiro da sua casa.”

Fernanda Lima, considerada símbolo de beleza, concorda com o psicanalista. “Capa de revista é uma coisa, realidade é outra. Quando faço capa de revista, no próprio computador do fotógrafo ele já vai mexendo, mudando. Quando você vê, vira uma coisa que não é aquilo. É impressionante”, afirmou ela em seu programa na Globo, “Amor e Sexo”.

Texto de Marília Neves, publicado originalmente no iG Gente em 27/03/2014. Para lê-lo na íntegra, acesse: http://gente.ig.com.br/2014-03-27/o-padrao-de-beleza-ditado-por-famosos-corpo-se-torna-mercadoria-para-consumo.html

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Se interessa pelo assunto? Conheça o livro A beleza impossível – Mulher, mídia e consumo, da psicóloga Rachel Moreno20048

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