‘SAIBA COMO IDENTIFICAR A DISLEXIA E CONHEÇA A HISTÓRIA DE QUEM VIVE COM ELA’

O transtorno afeta leitura, escrita e soletração, mas é possível conviver com isso: “Sei que tenho um problema e tenho que lidar com ele. Para falar a verdade, na maioria das vezes nem me lembro de que sou disléxico”

No processo de aprendizagem, ela começa a dar sinais, porém é difícil chegar ao diagnóstico, já que muitas vezes é confundida com preguiça. A dislexia se caracteriza como uma dificuldade de leitura, escrita e soletração e tem origem neurobiológica. Conheça a história de quem convive com o transtorno e descubra maneiras simples de detectá-la.

A fonoaudióloga Ana Lúcia Duran conta que, ao longo do tempo, a forma de classificar a dislexia foi sofrendo alterações. Atualmente vários autores dividem o transtorno em grau leve e severo, e categorizam o tipo de acordo com a dificuldade mais evidente, que pode ser:

– Auditiva: dificuldade de percepção sonora e associação fonema/ grafema;
– Visual: dificuldade de percepção espacial (inversão de letras);
– Mista: ocorrem sintomas auditivos e visuais.

Identificando o problema

É no período de alfabetização e nos primeiros anos do ensino fundamental que os sinais mais notáveis costumam aparecer. Queixas ligadas ao histórico escolar, por exemplo, pode ser um alerta. “Trocas de sons na fala não esperados para idade, dificuldades em tarefas metafonológicas, como na identificação de rimas, e incompetência nas habilidades de noção espacial e temporal são sinais que merecem atenção”, alerta Ana Lúcia.

A especialista ressalta que esse transtorno ocorre em indivíduos com inteligência normal ou acima da média. “Não há comprometimento cognitivo, mas a dificuldade leva à desmotivação em relação ao aprendizado. O diagnóstico deve ser realizado sempre por uma equipe multidisciplinar composta por médico neurologista, fonoaudiólogo e psicólogo”, explica.

Lidando com o transtorno

A comerciante Adriana Oraggio conta que sempre achou que alguma coisa não estava certa com o filho, Bruno Oraggio, mas o laudo de dislexia só veio quando o garoto tinha 11 anos, depois de passar por duas avaliações multidisciplinares. “A fase de alfabetização foi muito complicada. As coisas não fluíam igual estava acontecendo com as crianças da mesma idade. Ele tinha muita dificuldade, entendia perfeitamente tudo, mas na hora de passar para o papel era quase impossível”, lembra.

Adriana diz que Bruno fazia acompanhamento com fonoaudióloga e psicóloga desde os 5 anos e, depois que foi diagnosticado, passou a fazer acompanhamento com uma psicopedagoga, um neurologista e precisou permanecer na fonoaudióloga.

Falta de foco ou motivação?

Segundo Ana Lúcia, é comum ouvir reclamações de que os indivíduos disléxicos são desatentos. A fonoaudióloga fala que é preciso verificar se realmente é uma dificuldade manter o foco ou se é uma falta de motivação.

“Para que a criança desenvolva seus talentos é necessário um olhar cuidadoso e sensível do educador, buscando seus centros de interesse e desenvolvendo, a partir daí, estratégias facilitadoras para a leitura e escrita”, acrescenta a especialista.

Tratamento

Quando não há outras comorbidades (duplo diagnóstico) não é necessário o uso de medicamentos, mas é fundamental passar por uma terapia com fonoaudiólogo especialista em linguagem. A intervenção de um psicólogo só é preciso quando o disléxico sofre prejuízos emocionais.

“Com o tratamento, as melhoras foram muitas. Principalmente na autoestima, porque ele começou a acompanhar os outros amigos da classe e isso fez com que tudo melhorasse. Hoje o Bruno tem uma vida escolar normal. E as cobranças também são iguais as de qualquer garoto da mesma idade”, diz Adriana.

Aos 15 anos, Bruno fala que já se acostumou com o transtorno que possui. “Sempre achei que o meu problema era mais falta de atenção mesmo e que eu era o culpado. Hoje sei que tenho um problema e tenho que lidar com ele. Para falar a verdade, na maioria das vezes nem me lembro de que sou disléxico”, conta o jovem.

Postura dos pais e escola

Para Ana Lúcia, é fundamental que as pessoas que estão ao redor de quem possui o transtorno tenham compreensão das dificuldades que ela enfrenta. “Preguiça não é diagnóstico e rótulos deste gênero são muito prejudiciais”, afirma.

Ela completa dizendo que a escola também deve estar preparada para atender às necessidades do indivíduo com dislexia. “Deve haver adaptação de atividades e avaliações, de acordo com as necessidades individuais de cada aluno, em respeito a legislação vigente (Lei 13.146 capitulo IV art. 27 a 30), tomando sempre todos os cuidados para não expor o aluno”, completa a especialista.

Matéria de Beatriz Bradley e William Amorim, publicada originalmente no iG Delas, em 19/09/2016. Para acessar na íntegra: http://delas.ig.com.br/filhos/2016-09-19/dislexia.html

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Para saber mais sobre dislexia conheça a obra:


60081
A DISLEXIA EM QUESTÃO
Autora: 
Giselle Massi
PLEXUS EDITORIAL

A obra problematiza o reconhecimento da dislexia como distúrbio ou dificuldade de aprendizagem da escrita. Discutindo a inconsistência etiológica e sintomatológica desse suposto distúrbio, bem como a fragilidade das formas de diagnosticá-lo, a autora analisa casos de sujeitos rotulados como portadores de dislexia e mostra que eles – ao contrário dos rótulos que carregam – estão em pleno processo de construção da escrita.

‘DISLEXIA: PAIS DEVEM FICAR ATENTOS AOS SINAIS E CONTROLAR A ANSIEDADE’

Profissional explica que de 4 a 6% da população pode ter o distúrbio e que o diagnóstico precoce ajuda no tratamento

Você já ouviu falar em dislexia? O distúrbio genético afeta apenas de 4 a 6% da população, mas é de extrema importância que os pais fiquem atentos desde a infância dos filhos, já que descobrir o problema cedo é essencial para seu tratamento.

Em entrevista ao iG Delas, a psicopedagoga Sheila Leal explica que a dislexia é um distúrbio específico da leitura e escrita, que também pode ser agravado nas questões matemáticas.

“O maior desafio é fazer com que a letra seja reconhecida e seja transformada em som. A criança vê a letra mas não reconhece o som que ela produz”. Isso quer dizer que a pessoa tem dificuldades na rota fonoaudióloga.

Para entendermos um pouco melhor, ela explica que o momento em que um dislexico vai ler é como nós lemos algo em um língua que não dominamos. “A criança lê bem devagar”, explica Sheila.

Segundo a profissional existem três tipos diferentes do distúrbio genético:

Visual: as crianças trocam as letras de lugar na hora da leitura.
Auditiva: elas não conseguem processar o som.
Mista: as duas coisas acontecem.

Além disso, o grau também pode variar entre leve, moderada e severa. Nesta última, são crianças que, com 13 anos, ainda não conseguiram ser alfabetizadas. Segundo a psicopedagoga, o problema nunca vem sozinho. “A pessoa que tem dislexia, tem outros problemas, a não ser que consiga detectar a doença muito cedo”.

Disgrafia

Muito comum nas crianças que têm esse distúrbio, a disgrafia é um problema específico de coordenação motora no momento da escrita.

Discalculia

Também pode estar presente na pessoa dislexica. “É uma dificuldade em reconhecer números, tempo, espaço, cores, meses, ano e dia da semana”, diz a psicopedagoga.

Disortografia

A criança que tem disortografia, segundo Sheila, escreve uma mesma palavra de maneiras diferentes.

A dislexia não tem cura, mas existe tratamentos. É nessa hora que os pais da criança têm que estar atentos, já que o diagnóstico deve ser feito o quanto antes. “Só vai ser detectado antes, com um pai e uma mãe extremamente presentes na vida da criança”.

Veja alguns sinais que podem detectá-la:

Uma criança que não consegue detectar cores depois dos 5 anos
Atraso de linguagem
Criança com 7 anos que ainda fala errado

“Existem muitos pré-requisitos, mas a criança já começa a dar os sinais a partir dos 4 anos”, explica ela, que o diagnóstico preciso acontece por volta dos 7 ou 8 anos da pessoa.

Relação dos pais

A profissional ressalta a importância dos pais da criança nessa fase e fala sobre a ansiedade. “Eles querem ver o filho alfabetizado com 6 anos e dificilmente isso vai acontecer. A gente precisa gerenciar a ansiedade”, conta.

Sheila ainda conta que uma simples brincadeira pode fazer com que os pais percebam que tem algo errado e devem saber que se tem um filho com esse tipo de problema, tem um filho com uma “mente brilhante”, que essas crianças têm um QI acima da média e habilidades diferenciadas.

Matéria publicada originalmente no portal iG Delas em 14/06/2016. Para acessá-la na íntegra:
http://delas.ig.com.br/filhos/2016-06-14/dislexia-pais-devem-ficar-atentos-sinais-controlar-ansiedade.html

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Saiba mais sobre o assunto com o livro:

60081A DISLEXIA EM QUESTÃO
Autora: Giselle Massi
PLEXUS EDITORA

A obra problematiza o reconhecimento da dislexia como distúrbio ou dificuldade de aprendizagem da escrita. Discutindo a inconsistência etiológica e sintomatológica desse suposto distúrbio, bem como a fragilidade das formas de diagnosticá-lo, a autora analisa casos de sujeitos rotulados como portadores de dislexia e mostra que eles – ao contrário dos rótulos que carregam – estão em pleno processo de construção da escrita.

 

CRIANÇA COM MUITA DIFICULDADE DE APRENDER A LER PODE TER DISLEXIA; CONHEÇA O TRANSTORNO.

Se o estudante tem dificuldade em aprender a ler e está muito atrasado em relação à turma, apesar de ter um bom professor, ele pode ter um problema de aprendizagem chamado dislexia. Não é uma doença — ou seja, não existe um remédio que elimine os sintomas — ou sinal de burrice — a dislexia acontece em pessoas com diversos níveis de inteligência.

Um em cada dez indivíduos apresenta sinais de dislexia, como ler muito devagar ou ler mal, não saber reconhecer as letras ou, ainda, trocar as letras nas palavras.

A dislexia é um transtorno no cérebro, em que o processamento das letras e dos sons acontece de maneira diferente. Por isso, o disléxico tem dificuldade para aprender a ler e escrever pelos métodos tradicionais. E, como o conhecimento na escola depende muito da leitura, os disléxicos têm uma dificuldade imensa em acompanhar a classe nas matérias.

Segundo a Associação Internacional de Dislexia, um em cada dez indivíduos apresenta sinais de dislexia, como ler muito devagar ou ler mal, não saber reconhecer as letras ou, ainda, trocar as letras nas palavras.

Sinais na infância

Quanto mais cedo esse transtorno for identificado, melhor para a criança. “O diagnóstico precoce, preferencialmente durante a infância, é fundamental para minimizar o impacto na vida acadêmica e na profissional”, diz a educadora Mônica Weinstein, que é presidente do Instituto ABCD, uma ONG que ajuda pais e educadores a enfrentarem o problema.

Há muitos casos de disléxicos que abandonam a escola por receber o estigma de burros ou preguiçosos. “Muitas das crianças possuem inteligência acima da média, apenas não recebem orientação e estímulos adequados” explica Thalita Peres, psicopedagoga especializada em neurociências, linguagens e educação, em Uberlândia, Minas Gerais.

Muitos pais passam de consultório em consultório sem que os profissionais encontrem qualquer problema físico com a criança ou o adolescente. Para chegar ao veredicto de dislexia, o estudante precisa ter um atendimento de uma equipe que trabalhe em conjunto. Esse time pode ser formado por um médico neurologista, um fonoaudiólogo e um psicopedagogo.

Pedido de socorro

Por desconhecimento do transtorno, o aluno pode ser taxado como preguiçoso ou burro – e, com isso, a criança ou o adolescente desiste de continuar se esforçando. A partir daí, ou ele passa a enfrentar as autoridades e dá razão à sua fama de indisciplinado ou fica com a autoestima tão baixa que acredita nos rótulos que recebeu.

Como a criança não consegue entender direito por que ela não aprende como os colegas nem sabe dizer o que está acontecendo, ela pode “pedir socorro” de outras formas. Pode começar a fazer palhaçadas que procuram desviar a atenção do problema, pode começar a apresentar sentimento de inferioridade, de tristeza e até de revolta.

Um último aviso

É importante lembrar que nem toda criança que tem dificuldade para aprender a ler e escrever é disléxica. A avaliação multidisciplinar pode identificar outras causas que estejam atrapalhando o aprendizado da criança, como problemas de audição, de visão ou de relacionamento com a família ou com os colegas.

Texto de Tatiane Cotrim, publicado originalmente no UOL no dia 11/10/2012. Para ler na íntegra, acesse: http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/10/11/crianca-com-muita-dificuldade-de-aprender-a-ler-pode-ter-dislexia-conheca-o-transtorno.htm

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Se você se interessa pelo assunto, conheça A dislexia em questão (Plexus). Da fonoaudióloga, mestre e doutora em Lingüística, Giselle Massi, a obra problematiza o reconhecimento da dislexia como distúrbio ou dificuldade de aprendizagem da escrita e analisa casos de sujeitos rotulados como portadores de dislexia e mostra que eles – ao contrário dos rótulos que carregam – estão em pleno processo de construção da escrita.