“CRIANÇA NEGRA SOFRE RACISMO TODO DIA NA ESCOLA”, DIZ MC SOFFIA, 11

Desde pequena, a menina de nome extenso e pernas compridas vai a passeatas, palestras e eventos contra o racismo. Criada em uma família formada por mulheres negras e militantes, ela aprendeu a ter orgulho da cabeleira “que não é dura, é crespa”. Prestes a completar 12 anos, Soffia Gomes da Rocha Gregório Corrêa, a MC Soffia, declama sobre a beleza da negritude, as brincadeiras da infância, e, sobretudo, se aceitar do jeito que se é.

Ao UOL, na casa da avó materna no centro de São Paulo, no começo de fevereiro, a revelação do hip hop paulistano afirma que sofre e fica indignada quando lê sobre casos de pessoas famosas agredidas por comentários racistas na internet, a exemplo da jornalista Maria Júlia Coutinho e da atriz Taís Araújo. Porém ela lembra que o racismo é uma presença persistente no cotidiano das pessoas comuns:

“Tem criança negra que sofre racismo todo dia na escola, e isso a televisão não mostra. Tem criança que fica com trauma, trancada em casa, não quer sair na rua”, afirma.

As situações vividas por ela mesma é um norte para MC Soffia, ao escrever as letras de suas músicas, em parceria com a mãe, a produtora de eventos Kamilah Pimentel, 29, e a avó, a pedagoga e bonequeira, Lúcia da Rocha, 54. A consciência racial da garota é resultado da educação proporcionada pelas duas mulheres.

Quando eu era menor já falaram do meu cabelo, já falaram da minha cor. Eu não gosto de ficar lembrando. Eu sempre digo que meu cabelo não é duro, e sim o preconceito das pessoas.”

MC Soffia diz cantar para que as crianças negras não se tranquem mais em casa. E conta a história de uma nova amiga, que conheceu após uma de suas apresentações. A menina foi alvo de brincadeiras racistas dos colegas e depois obrigada pela professora a pedir desculpas aos agressores porque quis denunciá-los. “A gente nem sabia o que conversar, mas ela ficou muito feliz quando ouviu minhas músicas”.

“A primeira coisa que falam para uma criança negra é sobre o cabelo dela. Existe uma pressão muito grande na sociedade que valoriza apenas uma estética, a do cabelo liso, e isso se mexe muito com psicológico das crianças e, principalmente, das mulheres”, afirma Kamilah, que foi mãe aos 18. Dois anos depois, ela mesma deixou de alisar o cabelo para servir de referência à filha. “Os pais precisam criar filhos fortes para que saibam enfrentar o preconceito. Não adianta esconder a realidade”.

Pedagoga aposentada, a avó materna Lúcia da Rocha diz que a família “sempre teve consciência racial”, mas ela própria só passou a exercer a militância, nos últimos 15 anos. “O racismo está impregnado na sociedade e algumas atitudes são naturalizadas, por isso muita gente acha normal esta ‘obrigação’ de se alisar o cabelo crespo, por exemplo”.

Bonecas Negras

Além do laço no cabelo black power, outra marca registrada de MC Soffia em seus shows é a presença das bonecas Makena, uma criação de sua avó. Um dia, Lúcia tomou um “choque” ao ver a capa de uma revista que ensinava a fazer bonecas. A que ilustrava a capa era negra. “Eu só tive bonecas brancas na minha infância”, diz. Comprou a revista e resolveu confeccionar a Makena, que significa “A Feliz”, na língua kikuyu, falada pelo maior grupo étnico do Quênia.

MC Soffia estuda no Projeto Âncora, uma ONG que se transformou em escola na cidade de Cotia. O local fica a dois quilômetros da casa da mãe, na Cohab Raposo Tavares, zona oeste de São Paulo. “Lá a gente discute racismo, tem aula de música, pintura, horta. Eu passo o dia todo lá”, explica MC Soffia.

Em seus dois quartos, um na casa do pai e outro na da mãe, MC Soffia coleciona mais de 100 bonecas, quase todas negras. É capaz de citar numa mesma frase, em andamento acelerado ídolos como a figura histórica Dandara dos Palmares, o militante Malcom X, a cantora Beyoncé e criticar o personagem “bobo” Cirilo, da novela Carrossel.

MC Soffia é considerada uma revelação no cenário musical paulistano, desde sua primeira apresentação solo, na Viradinha Cultural em 2015, e já ganhou elogios de músicos como Criolo e Karol Conka. Ela começou a cantar quando participou do coletivo Hip Hop do Futuro. Suas letras mostram um trabalho consciente, de estilo simples e tom positivo. A exemplos dos versos de “Flortaleza”: Somos mulheres, sim/Com certeza/Somos lindas e fortes/Flortaleza.

“A gente sempre mantém um controle. Chegam muitos convites, mas ela só se apresenta nos finais de semana, em eventos culturais. As prioridades dela são os estudos e viver a infância como uma criança normal”, diz a mãe Kamilah.

MC Soffia começou a gravar o primeiro disco, mas também tem outros planos para o futuro. “Eu quero ser médica cardiologista, e eu também vou ser jogadora de futebol, jogadora de basquete, jogadora de vôlei, atriz, modelo, cineasta…” E a lista não para.

Reportagem de Flávio Costa, publicada originalmente no UOL, em 12/02/2016. Acesse a matéria na íntegra e assista aos vídeos em http://bit.ly/20szM5B

***

Se você tem interesse pelo assunto, conheça algumas obras da Selo Negro Edições que abordam o tema:

 

40014RACISMO E ANTI-RACISMO NA EDUCAÇÃO
Repensando nossa escola
Autora: Eliane Cavalleiro

Diversos olhares sobre o ambiente da sala de aula procuram captar os racismos presentes nesse cotidiano. Alguns dos assuntos que nos alertam para uma educação anti-racista são a revista especializada em educação, o livro infantil, o tratamento dado à África e outros.

………….

40027TRAMAS DA COR
Enfrentando o preconceito no dia-a-dia escolar
Autora: Rachel de Oliveira

Com sensibilidade e singeleza, a autora utiliza um relato ficcional dos problemas enfrentados por uma menina negra em sua escola para abordar as questões básicas do racismo por parte de crianças e adultos em nossos estabelecimentos de ensino. Sugere posturas saudáveis para enfrentar os problemas mediante o incremento da auto-estima e o conhecimento de figuras ilustres da história negra.

………….
………….
40023O SORTILÉGIO DA COR
Identidade, raça e gênero no Brasil
Autora: Elisa Larkin Nascimento

Livro que se insere na nova corrente de reflexões sobre o negro brasileiro. Colocando o problema da identidade no centro de sua análise, a autora mostra que a identidade não é apenas um conceito teórico, mas se manifesta concretamente na realidade social. O livro descreve a recusa dos afrodescendentes em ver sua identidade diluída em uma homogeneidade cultural ditada pela branquitude e pelo universalismo europeu.