‘LIVRO NÃO VALE NADA’

Em artigo no Publish News (acesse na íntegra aqui), Julio Silveira fala do caso Cosac e conclui: ‘se não mudarmos, bibliocídios como a da Cosac vão se repetir, e se intensificar. E os livros no Brasil continuarão não valendo nada.

Tenho vergonha do título deste artigo. Por dois motivos. O primeiro é que ele soa como um daqueles textões que os trolls postam somente para chamar a atenção, e que muita gente compartilha com emojis vomitivos, sem ler sequer o lead.

O segundo motivo de eu ter vergonha é… bem… é que é verdade. Livro não vale nada. Pelo menos no Brasil.

Quando o PublishNews revelou que os livros da Cosac Naify vão virar aparas (ou papel higiênico) instalou-se o escândalo. “Fariseus!” “Biblioclastas!” e outros adjetivos mais diretos espocaram nas timelines, que acusavam alternadamente o governo, o capitalismo, os comunistas, o funk ou a internet pelo crime de sacrificar esse bem tão raro e precioso… o livro.

Não sei se livro é “precioso”, mas definitivamente não é “raro”. Para demonstrar isso não vou usar os cálculos de Gabriel Zaid em Livros demais (leiam e chorem). No lugar dos números, fiquem com duas cenas que testemunhei em duas décadas nesse mercado das ideias.

Em 2010, estava jantando em Barcelona, depois de ter enfrentado um vulcão islandês e agentes literárias catalãs. Recebi o alerta por SMS: um jornal iria acusar a editora — na qual eu acabara de entrar — de bibliocídio. Aquela editora havia mandado uma carta a todas as livrarias pedindo a quitação dos livros que estavam, há anos, em consignação. Ela oferecia descontos de 75% para acertos. Para os exemplares que, mesmo com esse desconto, não interessassem às livrarias, pedia-se que fossem enviadas as capas rasgadas (ou “cortadas diagonalmente com um estilete”, especificava), jogando fora os livros desencapados. A história já havia inflamado alguns jornalistas mas conseguimos, com franqueza e penitência, diminuir o tom da matéria. Felizmente para nós, o Facebook ainda não tinha tantos grupos de linchadores. Os livros? Viraram aparas.

E porque a editora não pediu simplesmente que fossem devolvidos os exemplares consignados e não vendidos? Porque alguém fez as contas e viu que o valor desses livros não cobriria o frete… ou a estocagem. Outro grande grupo editorial chegou a um impasse parecido. O proprietário do galpão subiu o preço do aluguel e a equipe foi procurar um outro lugar, mais longe e mais barato, para abrigar os encalhes. E aí alguém, insistindo na realidade dos fatos, veio de novo fazer as contas e viu que a liquidez desse estoque não compensava nem uma viagem do caminhão… e os livros viraram aparas.

Há muitas histórias assim, todas podem ser resumidas na piada das pilhas de encalhe como método de suicídio de editores. Mas nem todas essas pilhas são de livros que os leitores não quiseram. Muitas são de livros que sequer chegaram perto do leitor.

Em 2004, estava na Barra Funda, visitando a sede de uma grande rede de livrarias (que já não está entre nós). Fomos para lá tentar convencê-los a aceitar mais livros. Acabamos nos deparando com caixas de nossos títulos, que mandáramos em consignação (frete por nossa conta) havia um ou dois anos. Esses livros jamais tinham saído das caixas; estavam “esgotados”, embora a gente não tivesse vendido nem um quinto da tiragem. Como centenas e centenas de caixas de livros, de várias editoras, naquele labirinto de papelão.

São duas histórias de livros desvalorizados, desgarrados, aparados. Todo mundo que trabalha com isso tem uma penca de histórias dessas para contar, bem como uma penca de “explicações”.

Pode ser “histórico-cultural”: “o Brasil foi o último país a abolir a escravidão e instalar a imprensa. Livro nunca foi ‘útil’ em uma nação voltada para a exploração de matérias primas e de pessoas”. Tem a “Keynesiana”, que diz que “o governo deveria gastar para que os brasileiros melhorassem nossos vergonhosos índices de leitura”; tem a neoliberal que prega que “o governo provoca um excesso de demanda que desequilibra o mercado”…

Blá…
Blá…
Blá.

Eu não sei explicar e nem me arrisco a apontar uma solução. Mas tenho uma forte impressão de que as poucas iniciativas para combater esse quadro vão acabar agravando a situação. Fala-se até em aumentar o preço dos livros. Seguimos esperando um bom resultado de uma equação ruim, na qual todas as variáveis — editoras, livrarias, autores e leitores — estão no limite.

(O digital — onde não há encalhes nem gargalos de distribuição — seria uma saída, se não fosse encarado com desconfiança ou condescendência. Sem contar que, como lembrou o André Palme, no digital o conteúdo — histórias, ideias — são “impicotáveis”)

Se não mudarmos, bibliocídios como a da Cosac vão se repetir, e se intensificar.

E os livros no Brasil continuarão não valendo nada… enquanto não puderem ser lidos.

Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital. Sua coluna no postal Publish News aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes,

‘UMA EM CADA CINCO CRIANÇAS NO BRASIL NÃO SABE LER AOS OITO ANOS’

Uma em cada cinco crianças matriculadas no 3º ano do ensino fundamental de escolas públicas do país não tem desempenho adequado em leitura. No quesito escrita, são 34,46% dos alunos abaixo do nível esperado.

Esses estudantes estão classificados no nível 1 da ANA (Avaliação Nacional da Alfabetização). Isso significa que não conseguem ler um texto básico. “Os [estudantes] do nível 2 leem texto simples e têm habilidades mais simples, como recuperar uma informação. Uma habilidade que demanda mais: inferir o fim da história. No nível 2 e 3, os alunos estão lendo. E no nível 4 estão lendo além do esperado hoje”, explicou Chico Soares, presidente do Inep (instituto do MEC responsável pelo exame).

Em escrita, esses alunos podem apresentar desempenho com troca ou omissão de letras e produzem textos ilegíveis ou com grande quantidade de erros ortográficos. “A situação de escrita é pior do que a de leitura”, afirmou Soares. Em ambas as áreas, as regiões Norte e Nordeste têm desempenho inferior à média nacional.

O diagnóstico foi feito a partir da ANA, aplicada no ano passado para cerca de 2,3 milhões de alunos do 3º ano do fundamental, em 49 mil escolas públicas do país. Os resultados foram divulgados nesta quinta-feira (17) pelo Ministério da Educação.

“Esse é o ponto que mais inspira preocupação”, afirmou o ministro Renato Janine (Educação), sobre o grande número de alunos com baixo desempenho em leitura e escrita. “A gente não deve fugir da realidade de que temos crianças que, aos 8 anos, não estão onde deveriam estar”, afirmou Chico Soares, presidente do Inep (instituto do MEC responsável pelo exame).

O teste é uma das ações do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, lançado pela presidente Dilma Rousseff em 2012. O objetivo é garantir que, ao final dessa etapa escolar, todas as crianças brasileiras estejam plenamente alfabetizadas. Além de uma prova nacional, a iniciativa prevê a formação de alfabetizadores e distribuição de material didático para os docentes.

‘INACEITÁVEIS’

O secretário-executivo do MEC, Luiz Cláudio Costa, reconheceu que alguns números são “inaceitáveis”, mas a pasta pondera que o objetivo da ANA, a partir de agora, é contribuir para melhorias em sala de aula.

“Esses dados vão indicar muito bem ao responsável onde deve ser a intervenção pedagógica principal. Se seu aluno nem palavras escreve é uma coisa. Se ele está no nível 3, é outra coisa. Não é uma questão de ranking, de punição, é de orientação”, concluiu Janine.

Texto de Flávia Foreque, publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 17/09/2015. Para ler a matéria na íntegra, acesse: http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/09/1682956-57-dos-alunos-de-oito-anos-tem-baixo-aprendizado-em-matematica.shtml

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Se você tem interesse pelo assunto, não deixe de conhecer o livro:

10246A ESCOLA QUE (NÃO) ENSINA A ESCREVER
Autora: Silvia M. Gasparian Colello
SUMMUS EDITORIAL

A fim de repensar as concepções acerca da língua, do ensino, da aprendizagem e das práticas pedagógicas, este livro levanta diversos questionamentos sobre a alfabetização como é praticada hoje nas escolas. Depois de analisar diversas falhas didáticas e tendências pedagógicas viciadas, a autora oferece alternativas que subsidiem a construção de uma escola que efetivamente ensine a escrever.

 

“LER NÃO É OBRIGAÇÃO”: ENTREVISTA DE FELIPE LINDOSO PARA O JORNAL GAZETA DO POVO

O jornalista, tradutor e consultor Felipe Lindoso, autor do livro O Brasil pode ser um país de leitores? (Summus Editorial), deu ampla entrevista para a série Leitura na Prática, do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. Na matéria, intitulada “Ler não é obrigação”, Lindoso afirma que a leitura é uma atividade lúdica e necessária, mas também é algo tão concreto quanto o mercado da soja. “Parece exagero, mas ao costurar leitura e desenvolvimento, o especialista em políticas públicas criou uma estratégia para fazer do negócio dos livros e da leitura um assunto tão sério quanto os demais”, diz a reportagem. Clique para ler a entrevista na íntegra: http://goo.gl/SVlAL

Com 224 páginas divididas em didáticos 29 capítulos, O Brasil pode ser um país de leitores? é dedicado a autores, editores, livreiros, distribuidores, educadores, profissionais e estudantes de comunicação e leitores. A obra traça um retrato dos caminhos do livro – e seus desafios – até o encontro (ou desencontro) com o leitor e procura desvendar os mistérios e dificuldades do intrincado mundo editorial, em cada uma de suas etapas.

Lindoso utiliza toda a sua história e experiência no mundo editorial para desenhar um mapa fiel da história do livro no Brasil e as principais dificuldades que enfrenta desde a chegada de Dom João VI à então colônia. Com severas críticas à política cultural, ele aponta problemas históricos como a falta de foco das leis de incentivo no acesso aos bens culturais e vaticina uma nova era para os livros e para os próprios brasileiros se a universalização do ensino for acompanhada de implantação de bibliotecas e ações dirigidas à formação de público.

Para saber mais sobre o livro, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/livro/866/Brasil+pode+ser+um+pa%C3%ADs+de+leitores%C2%A7,+O