‘ELE MATOU A MULHER PORQUE QUERIA VER O CELULAR DELA. CIÚME É LEGAL?’

Texto de Nina Lemos, publicado em sua coluna no UOL Universa,
em 07/08/2019.

“O que você está escrevendo nesse celular?”, “Está falando com quem?”, “Me dá essa senha aí, libera, me deixa ver o que você está escrevendo.”

 Talvez você já tenha passado por isso. Quem sabe o seu namorado ou marido seja do tipo “controlador” e ciumento. Talvez você até ache que isso é “bonitinho”, uma fofura. Pois eu tenho uma história triste e apavorante para contar.

A dona de casa Sandra Nobre dos Santos foi assassinada no interior do Paraná na segunda-feira e o principal suspeito é seu marido (mais uma vez um marido que mata a mulher). Motivo: ele estava com “ciúmes” de uma conversa no celular. Ele chegou em casa e pegou o celular da esposa para ver com quem ela falava e pediu a senha.

Sandra, que carregava o filho mais novo do casal no colo (um bebê de um ano), errou o número. O marido empunhou uma arma. Atirou duas vezes e a matou. Quem contou a história foi uma irmã de Sandra, que ouviu o relato do filho de 11 anos do casal, que viu tudo e está em estado de choque.

Sandra tinha 35 anos e quatro filhos. O suspeito, até a tarde de terça-feira, ainda estava foragido. Ela é mais uma vítima de uma epidemia que cresce no Brasil, a do feminicídio (em alguns estados, como São Paulo, o crime cresceu 76% no primeiro trimestre do ano). Sandra se encaixa em algumas tristes estatísticas:

  • Os parceiros são suspeitos de 71% dos casos de feminicídio no Brasil.
  • O lugar onde uma mulher mais corre perigo é em casa.
  • 30% dos crimes são motivados, segundo pesquisadores, por “ciúme.” “Ciúme”.

Bem, que ciúme é esse, que faz com que alguém mate uma mulher friamente na frente dos filhos?

Não, eu não sou daquelas que acham que todo homem é um assassino ou estuprador em potencial. Agora, vamos encarar a realidade: um cara possessivo, que controla seus passos, que briga por ciúme, que tenta te controlar, saber com que você anda, que reclama das roupas que você veste pode, sim, ser perigoso. Se ele não te matar com um tiro, pode, no mínimo, te deixar infeliz por anos.

Então homens possessivos são, sim, uma ameaça à integridade física e mental das mulheres. Se seu namorado ou marido tiver reações exageradas de ciúme, ligue o alerta. Se ele ficar agressivo quando ciumento, pense que você provavelmente não está em uma relação boa e pode se machucar. Procure ajuda. Fale com uma amiga. Tente escapar. É sério. Nossas vidas estão em jogo. 

Ciúme é saudável?

Há muito tempo, desde que me lembro por gente, ouço as frases: “ah, mas um pouco de ciúme é saudável”; “ah, ciúme apimenta a relação”; “ah, quem ama tem ciúme.”

O que acho, depois de muita experiência na vida e de ler sobre casos como o da Sandra (prestem atenção, eles acontecem todos os dias!) é que ciúme não é bom, não é saudável e muito menos prova de amor. Esse sentimento, assim como controle e posse, são apenas provas de insegurança e babaquice mesmo.

Se um cara a trata como propriedade dele, desculpe: não faz isso porque te ama, mas porque acha que você é propriedade dele. Se alguém te controla, isso não é prova de amor, mas de necessidade de controle, de medir seus passos. Não é romântico. Em doses leves, ciúme é chato. Em doses violentas, é perigoso.

Se não dá a senha do celular

E não, ninguém tem obrigação de contar para quem telefonou, ou tem o direito de invadir o celular de outra pessoa. “Ah, mas quem não deve não teme”, dizem muitos. Discordo fortemente. Celulares e computadores são aparelhos pessoais. As suas conversas com amigas e amigos são só suas. Ninguém tem o direito de invadir a sua privacidade. E, claro, você também não pode invadir a privacidade de ninguém. Deixe o celular do seu namorado em paz!

Nem todos concordam. Em 2015, a dupla sertaneja Henrique e Diego lançou a música “Senha do Celular”, que faz sucesso até hoje. Eles cantam: “Se não deixa pegar o celular/É porque tá traindo/E tá mentindo/Alguma coisa tem/Se não deixa pegar o celular/É porque tá devendo/Me enganando de papo com outro alguém.”

Bem, que imagem é essa que esses homens têm das mulheres? Que estamos por aí, “aprontando”. Bem, mesmo se fosse o caso, não seria motivo para agressão, muito menos morte (é óbvio). Mas não, queridos, existe uma coisa simples chamada individualidade, independência, direito de falar com quem quiser. Acordem!

Ah, mas as mulheres também não são ciumentas? Claro que são. E também são chatas quando enciumadas e também precisam aprender a se controlar. Agora, os dados mostram, por “ciúmes”, alguns homens MATAM. E não, não é por amor.  

Como dizia um slogan antigo de quando eu era criança: “quem ama não mata”. Vou além. Quem ama até sente ciúme. Mas se controla. Por sinal, a capacidade de se controlar, de não sair fazendo tudo o que passa pela cabeça é o que nos difere de crianças e de assassinos. Por isso, se seu parceiro “ficar louco de ciúme”, se assuste. Como diria a dupla sertaneja, se um cara age assim, é porque “alguma coisa tem.”

Para ler na íntegra, cesse:
https://ninalemos.blogosfera.uol.com.br/2019/08/07/ele-matou-a-mulher-porque-queria-ver-o-celular-dela-ciume-e-legal/

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Tem interesse no assunto? Conheça o livro:

CIÚME
O lado amargo do amor
Autor: Eduardo Ferreira-Santos
EDITORA ÁGORA

O autor, psiquiatra, mergulha no tema do ciúme, mostrando as causas de seu surgimento e suas conseqüências para as relações afetivas – como dependência, perda de auto-estima e até distúrbios psicológicos graves. Ele também aponta saídas para situações neuróticas. Afinal, o ciúme acaba transformando o amor, sentimento altruísta por natureza, no mais exacerbado egoísmo.

‘MACHISMO É DOENÇA, DIZ ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSICOLOGIA’

O assunto foi um dos temas de ontem do Em Pauta, da GloboNews. Assista em http://g1.globo.com/globo-news/globo-news-em-pauta/videos/t/todos-os-videos/v/machismo-e-doenca-diz-associacao-americana-de-psicologia/7299352/

Conheça o livro da psicanalista Malvina Muszkat, mencionado no programa:


O HOMEM SUBJUGADO

O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo
Autora: Malvina E. Muszkat
SUMMUS EDITORIAL

Neste livro, a autora Malvina Muszkat, propõe que se repense o fenômeno da violência sob a perspectiva da subjetividade masculina na dinâmica dos relacionamentos, de forma a buscar maneiras mais eficientes de se promover o dialogo e evitar o confronto. Transitando por áreas como antropologia, sociologia, mitologia e psicanálise, Malvina mostra como a imagem da masculinidade foi construída ao longo dos séculos e de que forma os homens foram proibidos de demonstrar seus medos e fraquezas.

‘MACHISMO, SEXISMO E MISOGINIA: QUAIS SÃO AS DIFERENÇAS?’

Matéria de Heloísa Noronha, publicada no Universa, do UOL, em 03/12/2018 .

Esses três conceitos podem estar relacionados, mas cada um deles tem especificidades importantes e, normalmente, são combatidos por quem defende as mulheres. É válido ressaltar que machismo, sexismo e até mesmo misoginia não são cultuados apenas pelo sexo masculino. Há muitas mulheres que acreditam que são inferiores aos homens em certos aspectos e que não devem ter os mesmos direitos que eles. Esses valores costumam ser perpetuados, principalmente, na família, e aprendidos logo na primeira infância.

Machismo

Tem como raiz uma palavra latina (macho) e trata-se, principalmente, do enaltecimento do sexo masculino sobre o feminino, expresso por comportamentos, opiniões e sentimentos que declaram a desigualdade de direitos entre os dois. Sendo assim, machista é toda pessoa que julga a mulher como inferior ao homem em aspectos físicos, culturais e intelectuais. Sabe aquelas piadinhas que dizem “lugar de mulher é na cozinha” ou “mulher só sabe pilotar fogão”? Pois é. O machismo desqualifica a mulher perante o homem e é a principal causa do feminicídio por perpetuar a crença de que, numa relação, o parceiro é o “dono” da parceira.

Misoginia

A origem da palavra misoginia vem do idioma grego e significa ódio à mulher. É diferente do machismo por envolver um forte conteúdo emocional à base de repulsa e aversão. Geralmente é decorrente da fase de construção da identidade masculina e costuma ser um resquício da dificuldade de elaboração dos sentimentos ambíguos de amor e ódio em relação às figuras parentais. Pode, ainda, indicar insegurança em relação à própria masculinidade, o que propicia o desejo de ser cruel com a mulher. Alguns estudiosos destacam que a misoginia só se aplica àquelas que não correspondem a um certo “ideal” do que significa ser mulher – por exemplo, ser uma boa mãe ou uma boa esposa. Quando a repulsa é destinada aos homens é chamada de misandria.

Sexismo

O sexismo, em princípio, se baseia na ideia de que o homem é melhor e mais competente do que a mulher, uma concepção que se assemelha ao machismo, mas vai além. Trata-se de uma atitude discriminatória que define quais usos e costumes devem ser respeitados por cada sexo, desde o modo de vestir até o comportamento social adequado. Ser sexista não é privilégio do grupo masculino, pois mulheres ou gays também podem adotar seu discurso. A sociedade, de maneira geral, é sexista e educa as crianças de forma a reproduzir modelos binários em que a tendência é de que um sexo deva ser complementar ao outro. Ter medo de que um menino “vire gay” por brincar com boneca é um pensamento sexista. Já a expressão “mulheres são de Marte e homens são de Vênus” é sexista por constranger os sexos a serem de uma determinada forma, tanto em relação ao seu comportamento quanto em relação ao seu caráter. Outro exemplo é colocar as mulheres sempre na condição de vítima, ideia que sinaliza uma condição de eterna submissão. Uma das consequências da cultura sexista é a homofobia e a desigualdade de poder, oportunidades e salários que homens e mulheres vivem no mundo profissional.

FONTES:
Ana Maria Fonseca Zampieri, sexóloga e autora do livro “Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade (Ed. Ágora), e Malvina Muszkat, psicanalista e autora do livro “O Homem Subjugado – O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo” (Ed. Summus)

Para ler a matéria na íntegra, acesse: https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/12/03/machismo-sexismo-e-misoginia-quais-sao-as-diferencas.htm

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Conheça os livros mencionados acima:

EROTISMO, SEXUALIDADE, CASAMENTO E INFIDELIDADE
Sexualidade Conjugal e Prevenção do HIV e da AIDS
Autora: Ana Maria Fonseca Zampieri
EDITORA ÁGORA

Este livro aborda temas tabus no cenário do casamento brasileiro heterossexual, colocando em evidência a questão da AIDS. Ele contém vários aspectos da visão do mundo, da ciência e das relações de gênero. É obra imprescindível aos profissionais que trabalham com seres humanos tanto do ponto de vista psicológico e clínico, como social. A vasta bibliografia é, em si, muito valiosa.

 

O HOMEM SUBJUGADO
O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo
Autora: Malvina E. Muszkat
SUMMUS EDITORIAL

Neste livro, a autora Malvina Muszkat propõe que se repense o fenômeno da violência sob a perspectiva da subjetividade masculina na dinâmica dos relacionamentos, de forma a buscar maneiras mais eficientes de se promover o dialogo e evitar o confronto. Transitando por áreas como antropologia, sociologia, mitologia e psicanálise, Malvina mostra como a imagem da masculinidade foi construída ao longo dos séculos e de que forma os homens foram proibidos de demonstrar seus medos e fraquezas.
Talvez seja possível criar homens com comportamentos diferentes dos usualmente atribuídos a eles em nossa sociedade. Se não há apenas uma forma de ser mulher, por que haveria apenas uma forma de ser homem?