SURGIMENTO DO “NOTÍCIAS POPULARES” COMPLETA 50 ANOS

No dia 15 de outubro de 2013, completam-se 50 anos do lançamento do jornal “Notícias Populares” – que circulou pela primeira vez em 15 de outubro de 1963. Eternizado como o “espreme que sai sangue”, o popular jornal do trabalhador colecionou fãs e inimigos na mesma proporção. No dia 20 de janeiro de 2001, chegou às bancas a última edição de um dos mais polêmicos periódicos brasileiros. Nasceu de maneira improvável, viveu intensamente e morreu à míngua.

Doze anos se passaram e o velho NP segue sem substitutos na imprensa brasileira – bem como a principal obra sobre o jornal. Em 2012, a Summus Editorial lançou uma edição revista e atualizada do livro Nada mais que a verdade – A extraordinária história do jornal Notícias Populares, dos jornalistas Celso de Campos Jr., Giancarlo Lepiani, Denis Moreira e Maik Rene Lima. A obra resgata os detalhes dessa rica história, lembrando fatos importantes e pitorescos – desde a fundação do jornal até a circulação da última edição, com 50 reproduções das primeiras páginas do jornal. A nova edição tem prefácio do jornalista Marcelo Coelho e uma apresentação inédita de ninguém menos que Ebrahim Ramadan, editor-chefe do NP entre 1972 e 1990.

A extraordinária história do NP começa em 1959. Depois de ser confinado por Stálin, durante dez anos, nas minas de carvão da Sibéria, o jornalista romeno Jean Mellé desembarca em São Paulo para fugir dos fantasmas da perseguição comunista. Menos de cinco anos depois, acuado pelas próprias lembranças, o ex-preso político alia-se a Herbert Levy, conservador parlamentar paulista, e cria uma arma para contra-atacar o Última Hora, jornal que ambos consideravam o grande veículo de propaganda esquerdista no Brasil, criado por Samuel Wainer e historicamente ligado a Getúlio Vargas.

Assim nasceu o NP, em 1963. Era a esperança da União Democrática Nacional (UDN), de Levy e Carlos Lacerda, para conter a influência popular do rival Última Hora. A vocação política do NP, porém, teria curta duração. Após a tomada do poder pelos militares e o fim da ameaça comunista, o NP foi vendido, em 1965, para Octávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, da empresa Folha da Manhã S.A., que hoje edita a Folha de S.Paulo. Mellé permaneceu como editor do NP. Com o fim do Última Hora, que também havia sido adquirido por Frias e Caldeira Filho – e acabou sendo preterido em relação ao NP –, Mellé pôde, enfim, imprimir mudanças no jornal e o NP começou a ganhar as feições de um jornal popular: com ênfase na parte policial e esportiva, as preferências do povo.

E Mellé não poupou esforços para ampliar as vendas do jornal. Com um faro indiscutível para manchetes explosivas, ele usou e abusou de clichês e dos inúmeros fenômenos jornalísticos. Certa vez, pelos idos de 1968, o jornal estava sem manchete, e Mellé pediu a um repórter que telefonasse para Roberto Carlos para produzir alguma reportagem. Tentando localizar o cantor, o repórter ouviu do diretor da TV Record que o cantor estava em Nova York, mas não era possível localizá-lo. Certo de que o assunto estava encerrado, o repórter levou a notícia a Mellé. Ele por sua vez decidiu “esquentar” a notícia e soltou a seguinte manchete: “Desapareceu Roberto Carlos”. No dia seguinte, centenas de fãs cercaram a redação em busca de notícias sobre o ídolo. Revoltado, o diretor da Record exigia um desmentido, mas Mellé, no dia seguinte, apenas manchetou: “Acharam Roberto Carlos”. Nos dois dias, o jornal vendeu 20 mil exemplares a mais.

A intensidade era a tônica do NP. O jornal viveu um período difícil depois da morte de Mellé, em 1971. Com a troca de comando, as vendas despencaram de 100 mil para 25 mil exemplares. Mas Ebrahim Ramadan, contratado como o novo editor, mudou novamente os rumos da história. Para alavancar as vendas, ele investiu em uma overdose de crime e sexo nas páginas do jornal. Para o bem e para o mal, figuras folclóricas como a mula sem cabeça, as almas penadas, os monstros e os demônios tornaram-se personagens importantes no universo do Notícias Populares, ao lado de alienígenas e outras aberrações.

Em maio de 1975, o Notícias Populares publicou a história do bebê-diabo, que se tornaria um marco no jornalismo brasileiro. O jornal investiu na história bizarra, levando a população a acreditar no nascimento de um menino com chifres e rabo em São Bernardo do Campo. A credulidade popular era tamanha que o NP começou a inventar uma saga para o bebê-diabo. O caso permaneceu na primeira página do jornal por 27 dias, nos quais pessoas ligavam para a redação jurando que viam o bebê-diabo e informando seu paradeiro. A cobertura de Carnaval do NP era outro caso à parte: até os leitores de outras publicações não resistiam às toneladas de fotos picantes tiradas pelos salões de São Paulo, com suas hilárias legendas.

Com o lançamento do jornal Agora, em 1999, pela mesma empresa que o editava, o NP foi desprestigiado. Sem dinheiro para melhorar sua estrutura ou grandes campanhas, a redação começou a fazer milagre com a minguada verba que era reservada ao jornal. O anúncio do fechamento do NP, em 20 de janeiro de 2001, pegou de surpresa até os jornaleiros.

Para saber mais sobre o livro, acesse:
http://www.gruposummus.com.br/gruposummus/livro/1243/Nada+mais+que+a+verdade

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Durante esta semana, de 14 a 22 de outubro, você pode adquirir o livro “Nada mais que a verdade” com 50% de desconto no site da Livraria da Folha. Acesse: 
http://livraria.folha.com.br/livros/jornalismo-e-midia/nada-verdade-celso-campos-jr-denis-moreira-1161099.html
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‘DA SARJETA AO ESTRELATO: A HISTÓRIA DO PRÍNCIPE DAS MADAMES’

Leia a seção desta semana de “Saiu no NP” :

No dia anterior, a equipe do jornal foi surpreendida com a história de um mendigo que, aguardando tranquilamente por uma quentinha da prefeitura, foi caçado pela bela psicóloga D.M.Z, 28, para uma breve aventura sexual em seu Fiat branco, estacionado a poucos metros da fila. “A mulher caiu em cima de mim feito uma gata no cio”, contou Paulo, de 52 anos, apelidado de Pelezão pela moça.

A brincadeira terminou com o flagra da polícia, que tirou o casal do banco traseiro do carro e o levou para a cela do 6º DP, no Cambuci. Ambos se apresentaram ao delegado nus da cintura para baixo. A mulher, segundo depoimento dos policiais, disse que a vontade surgiu no momento em que passava pelo local e alegou ter “uma filha e muitos problemas com o marido”.

D.M.Z. deixou seus brincos e um anel como garantia do pagamento da fiança de 60 mil cruzeiros. Já no caso de Pelezão, sua liberdade foi adquirida graças à piedade dos policiais, que fizeram uma vaquinha. No dia seguinte, Paulo já deixava de ser um indigente para se tornar o “ídolo das madames”, alçado à fama pelas manchetes do “NP”.

As mulheres distintas da sociedade paulistana passaram a frequentar a fila do Cetren em busca de Pelezão, que, por sua vez, arranjou um paletó azul e tratou de fazer a barba. Mas o astro não voltou à fila dos indigentes –ao contrário, foi hospedado em um hotel na alameda Barão de Limeira, às custas do jornal– e passou a receber todo tipo de regalia.

A atitude de D.M.Z. gerou especulações de todo tipo. Os repórteres do “NP” recorreram aos especialistas da USP e publicaram a seguinte explicação: “Uma série de pesquisas recentes de psicólogos e antropólogos franceses, reunidas por Georges Bataille, tem mostrado que a essência do erotismo está justamente nos contrastes: o claro e o escuro, o preto e o branco, a pureza e a impureza (…)”. A princesa e o mendigo, portanto.

Mas a solução intelectualoide não convenceu e, em 1º de setembro, o jornal decretou: “Pomba-gira encosta e psicóloga ataca”. Antes de ir verificar a fila do Cetren, D.M.Z., conforme constava de seu depoimento à polícia, participou de uma sessão num centro espírita e poderia ter sido possuída pela pomba-gira, que é “uma entidade que no passado foi mulher da vida e, uma vez incorporada por uma pessoa do sexo feminino, faz com que ela passe a agir, inconscientemente, como uma prostituta”.

A confusão entre espiritismo e candomblé vingou, ao passo que Pelezão passou a desfrutar de uma fama com a qual nunca sonhara: era assediado na rua, participou de programas na TV e no rádio e ganhou até um rock em sua homenagem, o “Melô do Pelezão”. A música, composta por um fã, contava a saga do ídolo e começava assim:

Vejam só a história que vou contar
De um mendigão que ficou famoso
Certo dia numa fila da Cetren
De repente aparece um alguém
Que lhe escolhe para ser
Seu Superman, daí 

Cenas de sexo explícito
Livre (refrão)

Era uma psicóloga
Que queria analisar
A potência do negrão
Fazendo do seu carro
Um consultório…

Paulo Gonçalves vivia agora uma vida de astro, com direito a fim de semana no Guarujá com os novos amigos da “high society”, passeio de jatinho e até um famoso advogado encarregado de cuidar do seu caso no 6º DP. Mas o que o ídolo das madames queria mesmo era um emprego. E foi assim que, em 9 de setembro, o “NP” anunciava que Pelezão era o novo rei das noites no Bixiga (região central).

Por meio de um amigo, o astro arranjara um bico como porteiro na cantina C… Que Sabe!, na rua Rui Barbosa. E, como ele mesmo disse que “macaco velho não mete a mão em cumbuca”, decidiu aproveitar a chance e garantir um futuro para si e para sua recém-conquistada noiva, Maria Aparecida Pontes, 50 anos. Segundo a reportagem, a sortuda era “copeira conceituadíssima numa agência de viagens internacionais”.

“Sei cozinhar muito bem. Assim, além do coração, vou prendê-lo também pelo estômago. Sem essa de sopinha rala na fila da Cetren.” Esse era o plano de Maria Aparecida para seu futuro com Pelezão, por quem caíra de amores logo que viu a primeira foto no “Notícias Populares”. Ela leu no jornal que ele estava hospedado na alameda Barão de Limeira e foi atrás do seu galã.

Estava assim tudo arranjado para que o astro voltasse ao anonimato tranquilamente, e a série de manchetes sobre Pelezão se encerrou em 24 de setembro de 1984. Menos de seis meses depois, porém, na edição de 12 de janeiro do ano seguinte, os fãs se decepcionaram ao saber que Pelezão estava de volta às ruas, sem emprego nem mulher.

O proprietário da cantina no Bixiga revelou que, durante o mês em que trabalhou ali, Pelezão pegou no batente mesmo apenas quatro ou cinco noites e criou alguns constrangimentos para as clientes. Indagado sobre o comportamento do ex-ídolo das madames, o empresário se esquivou: “Basta que eu diga que ele estava sempre embriagado”.

Para piorar, em julho daquele ano Paulo foi preso por tentar roubar o rádio de pilha de uma enfermeira na Santa Casa de Misericórdia. Àquela altura, o galã não tinha mais nada além de um par de sapatos, duas camisas e um paletó surrado. Na cadeia, porém, teve um breve momento de alegria quando um taxista levou para ele um bilhete de amor, que dizia:

“Meu pretão querido: nessas noites de inverno eu me recordo de você. E sinto falta do seu corpo ardente, quase fervendo. Ah, meu pretão, eu não vou te esquecer nunca. Vai fazer um ano. Você sabe muito bem quem sou. Não vejo a hora de você sair, meu Pelezão.”

Tudo indicava que era uma carta da psicóloga D.M.Z., mas o assunto morreu aí. E as madames ouviram falar de Pelezão pela última vez em 1986, quando o jornal descobriu que o ex-astro optara novamente pelo crime e fora preso roubando a casa de um professor no Ipiranga. Em 7 de outubro, lia-se numa página do “Notícias Populares”: “Pelezão é um novo hóspede do presídio do Hipódromo”. Daí em diante, nem seus colegas na fila da Cetren souberam mais do paradeiro do ídolo.

 

A seção “Saiu no NP”, da Folha de São Paulo, foi criada para marcar os 50 anos do lançamento do “Notícias Populares” – que circulou pela primeira vez em 15 de outubro de 1963. Para ler na íntegra, acesse: http://f5.folha.uol.com.br/saiunonp/2013/09/1345299-da-sarjeta-ao-estrelato-a-historia-do-principe-das-madames.shtml

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Conheça a história do jornal com o livro “Nada mais que a verdade”, da Summus Editorial:

NADA MAIS QUE A VERDADE
A extraordinária história do jornal Notícias Populares

Maik Rene Lima , Giancarlo Lepiani , Denis Moreira, Celso de Campos Jr.

Dez anos depois do último suspiro do mais polêmico dos periódicos brasileiros, Nada mais que a verdade retorna em edição revista e ampliada, conduzindo o leitor por quatro décadas de uma ciranda de crimes, sexo, devaneios e, sim, bom jornalismo. Mais que uma biografia do jornal, este livro é um romance fantástico – que, se não fosse real, poderia bem ter recheado as páginas de algumas edições do Notícias Populares.

 

JORNAL ‘NOTÍCIAS POPULARES’ É RECRIADO EM DIVULGAÇÃO DE ‘FAROESTE CABOCLO’

Informe publicitário de 8 páginas tem ‘notícias’ sobre o enredo do filme. Conhecido como ‘NP’, jornal circulou em São Paulo de 1963 a 2001.

Para divulgar o filme “Faroeste caboclo”, que estreia no dia 30 de maio nos cinemas brasileiros, a Europa Filmes escolheu uma forma diferente de divulgação e recriou uma edição do extinto jornal “Notícias Populares”. O roteiro do longa é baseado na música homônima, composta por Renato Russo.

Em circulação nesta sexta-feira (24) junto com o jornal “Folha de São Paulo” (somente dentro do estado de SP) o informe publicitário de 8 páginas tem “notícias” sobre o enredo do filme.  A publicidade tem também uma edição online, no endereço www.ultimonp.com.br. A criação é da agência Click Isobar.

Sensacionalismo

Com a manchete “Treta por rabo de saia termina em tiros”, o encarte relembra as manchetes sensacionalistas do antigo período.

O jornal “Notícias Populares”, que ficou conhecido como NP, circulou em São Paulo de 1963 e 2001. Editado pelo Grupo Folha, ficou conhecido por manchetes sensacionalistas, muitas vezes violentas ou com conotação sexual.

Texto publicado no G1 em 24/05/2013. Para ler na íntegra, acesse: http://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/2013/05/jornal-noticias-populares-e-recriado-para-divulgar-filme-faroeste-caboclo.html

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Conheça a história do NP com o livro
Nada mais que a verdade – A extraordinária história do jornal Notícias Populares”,
de Maik Rene Lima, Giancarlo Lepiani ,
Celso de Campos Jr. e Denis Moreira.
Mais que uma biografia do jornal, este livro é um romance fantástico que conduz o leitor por quatro décadas de uma ciranda de crimes, sexo, devaneios e, sim, bom jornalismo.