‘O DIA INTERNACIONAL DA MULHER E O MACHISMO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA’

Embora estudem mais e sejam maioria nas comunidades escolares e educacionais, as mulheres estão sub-representadas nos postos de comando da educação nacional, além de serem vítimas de diversas formas de violências. Em parte isso se deve ao machismo (re)produzido nas escolas e não enfrentado pelas gestões públicas. O Dia Internacional da Mulher é um bom momento para refletir sobre isso.

Hoje é o Dia Internacional da Mulher, um momento de luta, reflexão, reconhecimento e comemoração pelas conquistas obtidas contra as absurdas disparidades entre homens e mulheres.

Poucas áreas são tão majoritariamente femininas quanto a educação. Há muito mais professoras do que professores, funcionárias do que funcionários. E as alunas são mais escolarizadas do que os alunos – o que, obviamente, não deixa de ser um grave problema. Além disso, como mais um dado do machismo, mães participam muito mais do que os pais nas comunidades escolares.

Porém, em que pese esses fatos, o Brasil teve apenas uma Ministra da Educação. Foi a advogada Esther de Figueiredo Ferraz, que ocupou a pasta no governo do general João Figueiredo, de 24 de agosto de 1982 a 15 de março de 1985. Na época, no então Ministério da Educação e Cultura (MEC), ela regulamentou a emenda que estabeleceu percentuais mínimos obrigatórios para a aplicação na educação dos recursos arrecadados em impostos.

Apenas em 2008, uma mulher assumiu a presidência do Conselho Nacional de Educação. Foi a educadora goiana Clélia de Alvarenga Brandão, uma das responsáveis por liderar a elaboração do parecer CNE/CEB 8/2010, que normatiza o Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi), criado pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação. O CAQi é um mecanismo fundamental para mudar a história de subfinanciamento das políticas públicas educacionais no Brasil e deve ser implementado até junho de 2016, segundo o Plano Nacional de Educação.

A grave sub-representação das mulheres nos postos de comando da educação nacional pode ser explicada por um fator estrutural: embora sejam ampla maioria nas comunidades escolares e educacionais, as escolas brasileiras são absurdamente machistas.

Quem acompanhou as discussões sobre a suposta “ideologia de gênero” na formulação dos planos nacional, estaduais, distrital e municipais de educação viu o quanto é difícil enfrentar o sexismo no país. Setores cristãos retrógrados não aceitam medidas para combater, pela educação, o machismo reinante no país. Aliás, além de não considerarem o Brasil um país machista, também creem que a sociedade brasileira não é racista, nem sexista – desconsiderando todas as tristes evidências do cotidiano nacional.

Em relação à questão da paridade de gênero, a Unesco, no relatório sobre o programa “Educação Para Todos 2000-2015”, que estabeleceu metas globais para as políticas educacionais ao redor do mundo, concluiu sobre o Brasil:

“As conquistas obtidas não significam que a situação de opressão das mulheres tenha sido eliminada da vida pública ou privada [brasileira], por isso mesmo são ainda imprescindíveis políticas públicas para mulheres e meninas. Estas são necessárias tanto no sentido de estimular sua participação em áreas de conhecimento e atuação onde sua presença é menor, como de proteger sua integridade física em risco de violência e assédio moral.”

Para enfrentar essa situação, em 9 de setembro de 2015, o Ministério da Educação (MEC) editou portaria que instituiu o Comitê de Gênero. Contudo, dias após, em 21 de setembro, diante da pressão empreendida pela Frente Parlamentar Evangélica (FPE) e pela Frente Parlamentar Católica (FPC), o próprio MEC substituiu o órgão pelo genérico Comitê de Combate às Discriminações. O Comitê de Gênero contava com significativo apoio da comunidade educacional e buscava formular políticas educacionais direcionadas a combater o machismo e o sexismo reinantes.

No tocante às questões de gênero, o Governo Dilma tem cedido desde 2011, quando proibiu a distribuição do kit anti-homofobia para as escolas públicas. Diante do clima político do país, não há esperança de que algo mude nos próximos anos. A não ser que a sociedade brasileira compreenda de uma vez por todas que enfrentar todas as desigualdades que a caracterizam, entre as quais a desigualdade de gênero é uma das principais, é uma questão de justiça social e tarefa fundamental para a verdadeira consagração da cidadania.

Texto de Daniel Cara publicado em seu blog em 08/03/2016. Para lê-lo na íntegra, acesse: http://danielcara.blogosfera.uol.com.br/2016/03/08/o-dia-internacional-da-mulher-e-o-machismo-na-educacao-brasileira/

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Tem interesse pelo tema? Conheça:

40046RACISMO, SEXISMO E DESIGUALDADE NO BRASIL
Autora: Sueli Carneiro
Coleção Consciência em Debate
SELO NEGRO EDIÇÕES

Entre 2001 e 2010, a ativista e feminista negra Sueli Carneiro produziu inúmeros artigos publicados na imprensa brasileira. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil reúne, pela primeira vez, os melhores textos desse período. Neles, a autora nos convida a refletir criticamente a sociedade brasileira, explicitando de forma contundente como o racismo e o sexismo têm estruturado as relações sociais, políticas e de gênero.

 

“NÓS, MULHERES NEGRAS, SOMOS TRIPLAMENTE DISCRIMINADAS”, DIZ PROFESSORA

Há 23 anos, em 25 de julho de 1992, acontecia pela primeira vez um encontro de mulheres negras latino-americanas e caribenhas nas terras de Santo Domingo, na República Dominicana. Foi quando instituiu-se um dia em memória a todas elas e suas lutas.

Para a professora mineira Luana Tolentino, 25 de julho é um dia para comemorar as conquistas das mulheres negras, assim como também é um momento de reflexão, de luta por mais direitos e de denunciar a situação de opressão e de desvantagem em que vivem as mulheres negras, não só no Brasil, mas em toda a América Latina e no Caribe.

Na última década, é perceptível o aumento significativo de políticas públicas em benefício de jovens, mulheres e homens negros, como a criação da Secretaria da Igualdade Racial e o sistema de cotas. “Ainda temos um caminho longo e tortuoso para percorrer, mas os avanços e as mudanças ocorridas nos últimos anos me deixam bastante esperançosa de que podemos, sim, construir um país melhor para todos nós”, aponta ela.

Mesmo com a humildade e o otimismo de quem aguarda dias mais justos, Luana pensa que a sociedade brasileira ainda precisa passar por um processo de reeducação: “Uma educação antirracista e antissexista, ou como nas palavras da médica e feminista Fátima Oliveira ‘o nosso país precisa passar por uma faxina moral’”.

É necessário assumir que o Brasil é um país extremamente racista, o que ocasiona a exclusão e a marginalização de mais da metade da população. É inaceitável que ainda hoje as negras tenham menor escolaridade, recebam menores salários e apresentem índices maiores de mortalidade materna, quando comparadas a mulheres brancas.

Luana conta que é por meio das ações que ela e outras ativistas buscam educar e denunciar a situação de desigualdade em que se encontram, não somente as mulheres, mas toda a população negra.

Sua história se assemelha a de muitas outras mulheres negras do Brasil. Entre os 13 e 18 anos, ela trabalhou como babá, faxineira e doméstica, quando experimentou diversas formas de humilhações. “Essas profissões continuam sendo ocupadas majoritariamente pelas afrodescendentes, mas fico extremamente feliz que esse quadro esteja mudando”, compara.

Há sete anos ela é professora de História do ensino fundamental e médio e, apesar de todas as dificuldades que envolvem a profissão, dar aula, ensinar e aprender são as atividades que ela mais gosta na vida. Luana também é historiadora, bolsista do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) pela UFMG, pesquisa sobre a imprensa feminina e feminista, e também cronista.

“Nós, mulheres negras, somos triplamente discriminadas, em função do gênero, da raça e também de classe, já que a grande maioria das afro-brasileiras pertence às classes mais pobres. Mesmo que ascendamos socialmente, não ficamos imunes ao preconceito e às humilhações.”

Há cerca de dois anos, ao chegar numa escola particular para dar uma palestra, o porteiro perguntou se ela estava procurando vaga para o cargo de serviços gerais. A atitude reflete na concepção de boa parte da sociedade, que acredita que os negros devem estar sempre em ocupações de menor prestígio social e econômico. “Espera-se que não tenhamos voz, que estejamos prontas para servir os outros, numa eterna perpetuação do regime escravagista”, critica.

Matéria de Amanda Garcia , publicada originalmente no iG, em 25/07/2015. Para Lê-la na íntegra, acesse: http://delas.ig.com.br/comportamento/2015-07-25/nos-mulheres-negras-somos-triplamente-discriminadas-diz-professora.html

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Se você tem interesse pelo tema, conheça alguns livros da Selo Negro Edições:


40046RACISMO, SEXISMO E DESIGUALDADE NO BRASIL
Consciência em Debate
Autora: Sueli Carneiro

Entre 2001 e 2010, a ativista e feminista negra Sueli Carneiro produziu inúmeros artigos publicados na imprensa brasileira. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil reúne, pela primeira vez, os melhores textos desse período. Neles, a autora nos convida a refletir criticamente a sociedade brasileira, explicitando de forma contundente como o racismo e o sexismo têm estruturado as relações sociais, políticas e de gênero.

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40070MULHERES NEGRAS NO BRASIL ESCRAVISTA E DO PÓS-EMANCIPAÇÃO
Organizadores:
Juliana Barreto Farias, Giovana Xavier, Flávio Gomes

Como foi a participação das mulheres cativas na sociedade escravista e nas primeiras décadas da pós-emancipação? Como protestaram mirando a escravidão e contrariando a ideia de que aceitaram com passividade a opressão imposta? Os ensaios desta coletânea, que abrange os séculos 18 a 20, constituem um quadro amplo e fascinante das experiências das mulheres africanas, crioulas, cativas e forras.

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OUTROS TIPOS DE SONHOS

Organizações de mulheres negras e políticas de transformação
Autora: Julia Sudbury

Este livro busca repensar e transformar os conceitos do feminismo. Entrevistando uma série de ativistas, a autora traça um quadro histórico das organizações de mulheres negras. As entrevistadas descrevem e teorizam o próprio trabalho, recuperando a imagem da sua ação coletiva para o pensamento atual.