‘OS CUIDADOS PARA PROTEGER A SAÚDE MENTAL DE QUEM VIVE TRAUMAS’

Texto parcial de matéria de João Fellet, BBC News,
publicada no UOL em 15/03/2019

 Enlutados pelo massacre de quarta-feira na escola Professor Raul Brasil, em Suzano (SP), sobreviventes, amigos e parentes dos mortos devem ser acompanhados para que não desenvolvam transtornos mentais associados a traumas, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Nos EUA, onde massacres em escolas são frequentes, um estudo apontou que 29% das testemunhas desses ataques sofrem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) – um transtorno de ansiedade que pode gerar sintomas vários meses ou anos após o incidente.

Profissionais de saúde mental alertam que sintomas semelhantes podem acometer até mesmo quem não tem qualquer relação com as vítimas, mas se expôs a fotos e vídeos do ataque nas mídias sociais ou na imprensa. Eles dizem que as pessoas abaladas, assim como vizinhos da escola e outros moradores de Suzano, também devem ser acolhidas e ajudadas a superar o luto coletivo causado pela tragédia.

A Prefeitura de Suzano disse à BBC News Brasil que a Secretaria de Estado da Saúde enviou dois psiquiatras e um psicólogo a Suzano para atender sobreviventes e familiares das vítimas. Segundo a prefeitura, os profissionais estão trabalhando ao lado de uma equipe local do Caps (Centro de Atenção Psicossocial), unidade do SUS especializada em saúde mental.

Reações a eventos traumáticos

O psiquiatra Higor Caldato, especialista em Psicoterapias pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que, nos dias seguintes ao evento, sobreviventes e pessoas próximas das vítimas costumam vivenciar sentimentos de estresse agudo, choque, tristeza e lamentação.

Nesse período, diz Caldato, é essencial que eles sejam acompanhados por profissionais de saúde mental para que possam dar vazão às emoções em sessões de terapia e não se refugiem em comportamentos nocivos, como compulsões alimentares ou o consumo abusivo de álcool.

Ele afirma que pessoas que estejam sob ansiedade extrema e com dificuldade para se expressar podem precisar de medicação para atenuar os sintomas e tirar mais proveito da terapia.

Segundo o psiquiatra, se os sentimentos negativos persistirem por mais de um mês e estiverem associados a outros fatores, como pesadelos, medo e sintomas depressivos, é possível que o transtorno de estresse pós-traumático tenha se instalado.

A condição, que também costuma exigir tratamento medicamentoso, pode causar grandes impactos na vida do afetado por um longo período. Com frequência, o transtorno é acompanhado por problemas para dormir, dificuldade para se concentrar e sentimentos de isolamento, irritação e culpa.

‘Crescimento pós-traumático’

Para Caldato, o caminho para evitar o quadro é usar o episódio violento para reforçar relações e comportamentos positivos, estimulando o que ele chama de “crescimento pós-traumático”.

“O mais importante é dar apoio psicológico para que as pessoas possam enxergar a tragédia por outro ângulo – para que se sintam amparadas, protegidas, possam se cuidar, valorizar mais a vida e a família, ter urgência em buscar a felicidade.”

Segundo a psicóloga Maria Helena Franco, até quem não estava presente no massacre e não tem qualquer relação com as vítimas pode sofrer seus impactos quando exposto a imagens, notícias ou relatos sobre o evento. Essa reação é conhecida como trauma vicário ou estresse traumático secundário.

“Tem um fio que nos une que é a empatia, a questão humana. Todo mundo fica tocado, assustado. Não é um impacto menos importante e ele deve ser visto e considerado”, afirma Franco, que coordena o Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP, onde é professora titular de Psicologia.

Segundo Franco, o primeiro passo para superar o trauma vicário é aceitar o sofrimento provocado pelo massacre.

“Quando você está sofrendo mas entra num raciocínio de que não deveria sofrer pois não estava lá, não conhecia ninguém, você impossibilita que o sentimento seja elaborado. Só que não, ele continua ali, na mente.”

Luto coletivo

Ela diz que alguns grupos estão mais sujeitos a esse quadro, como bombeiros ou profissionais de saúde que lidam com pessoas traumatizadas. “É preciso que eles estejam preparados para trabalhar com crises, com sofrimento intenso, com luto. Porque eles também podem chegar a um limite e até adoecer.”

Franco afirma que também merecem atenção vizinhos da escola e outros moradores de Suzano.

“De repente Suzano, uma cidade pacata, ficou associada ao massacre – alguns passaram a se referir ‘ao drama de Suzano’. É uma marca, uma ferida, e isso é sério. O tecido social sofreu um rombo.”

Ela diz que, além dos atendimentos individuais, o trauma precisa ser trabalhado de maneira coletiva. “É importante pensar em formas de unir os alunos, as escolas, as várias comunidades envolvidas. É daí, do coletivo, que virá a força de reconstrução.”

Estresse Traumático Secundário

Em artigo publicado em 2018 pela Vanderbilt University (EUA), o pesquisador Chad Buck, PhD em Psicologia Clínica, diz que os sintomas do trauma vicário ou estresse traumático secundário são semelhantes aos do TEPT, mas menos intensos.

Segundo ele, a condição pode envolver fadiga crônica, tristeza, raiva, exaustão emocional, vergonha, medo e desconexão, entre outros sentimentos.

Segundo Buck, embora os estudos sobre esse distúrbio enfoquem profissionais de saúde mental, outras pessoas podem desenvolver os mesmos sintomas.

“Quem já vivenciou eventos semelhantes, tem TEPT pré-existente ou outras questões de saúde mental tem maior risco de sofrer uma acentuação dos sintomas e o desenvolvimento de estresse traumático secundário”, diz o psicólogo.

‘Divisor de águas’

Para Maria Helena Franco, o massacre será “um divisor de águas” para os alunos sobreviventes. “Há uma situação muito particular que agrava a situação: eles são ao mesmo tempo sobreviventes e testemunhas. São duas experiências muito fortes.”

Franco afirma que o acompanhamento dos jovens deve levar em conta os registros sensoriais vinculados a traumas, como barulhos, cheiros, cenas e movimentos.

“O cuidado precisa ser voltado para os registros que, se não forem tratados, vão ficar.” Segundo ela, o acompanhamento tem de durar vários anos. “É um trabalho de longuíssimo prazo.”
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Para ler a matéria na íntegra, acesse: https://vivabem.uol.com.br/noticias/bbc/2019/03/15/os-cuidados-para-proteger-a-saude-mental-de-quem-vive-traumas.htm

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A psicóloga Maria Helena Pereira Franco é autora de vários livros que abordam o luto, todos publicados pela Summus Editorial. Conheça abaixo alguns::

 

FORMAÇÃO E ROMPIMENTO DE VÍNCULOS
O dilema das perdas na atualidade
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas, Airle Miranda de Souza, Danielle do Socorro Castro Moura, Durval Luiz de Faria, Elizabeth Queiroz, Gabriela Golin, Geórgia Sibele Nogueira da Silva, Janari da Silva Pedroso, José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres, Maíra R. de Oliveira Negromonte, Vera Regina R. Ramires, Maria Helena Pereira Franco, Maria Julia Kovács, Maria Lucia C. de Mello e Silva, Maria Thereza de Alencar Lima, Roberta Albuquerque Ferreira, Rosane Mantilla de Souza, Silvia Pereira da Cruz Benetti, Soraia Schwan, Tereza Cristina C. Ferreira de Araújo

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.

 

A INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA EM EMERGÊNCIAS
Fundamentos para a prática
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Cristina Foloni Delduque da Costa, Karina Kunieda Polido, Julia Schmidt Maso, José Paulo da Fonseca, Isabela Garcia Rosa Hispagnol, Iara Boccato Alves, Gabriela Casellato, Ester Passos Affini, Eleonora Jabur, Lilian Godau dos Anjos Pereira Biasoto, Cristiane Corsini Prizanteli, Claudia Gregio Cukierman, Cibele Martins de Oliveira Marras, Ariana Oliveira, Ana Lucia Toledo, Adriana Silveira Cogo, Adriana Vilela Leite César, Viviane Cristina Torlai, Luciana Mazorra, Luiz Antonio Manzochi, Marcelo M. S. Gianini, Maria Angélica Ferreira Dias, Maria Helena Pereira Franco, Maria Inês Fernandez Rodriguez, Mariangela de Almeida, Priscila Diodato Torolho, Rachel Roso Righini, Reginandréa Gomes Vicente, Régis Siqueira Ramos, Samara Klug, Sandra Regina Borges dos Santos, Sandra Rodrigues de Oliveira, Suzana Padovan

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.

‘COMO LIDAR COM OS TRAUMAS NA INFÂNCIA’

Acidentes, perdas, quedas e até sustos podem abalar as crianças, mas enfrentar o problema com respeito, cuidado e amor ajuda a superá-lo

Trauma, de acordo com os especialistas em comportamento humano, é uma experiência emocional desagradável de muita intensidade, que deixa uma marca duradoura na mente da pessoa. Quando acontece na infância e não é tratado de maneira adequada, pode prejudicar a adolescência e até a maturidade.

“Crianças traumatizadas podem se tornar adultos que percebem o mundo como um lugar hostil e perigoso. O sentimento de medo e desamparo cria uma predisposição para quadros depressivos, ansiedade, fobias e pânico, entre outros problemas”, informa a neuropsicóloga Deborah Moss, mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade de São Paulo (USP).

De forma geral, os traumas infantis ocorrem devido a diversos fatores, alguns inevitáveis, como perda repentina de uma pessoa querida, necessidade de uma intervenção médica de emergência, quedas, acidentes, desastres, assaltos etc.

“Qualquer tipo de violação no desenvolvimento normal da criança pode causar trauma. Quando ela é incapaz de superar algum acontecimento em sua vida, está traumatizada. Isso acontece quando a carga emocional é mais intensa do que pode suportar”, diz Cynthia Wood, psicóloga na clínica Crescendo e Acontecendo, de São Paulo (SP).

Mais exemplos? Brigas entre os pais, xingamentos, chantagem emocional, adultos alcoolizados ou drogados na frente da criança, surras, depreciação constante, abandono, sustos com cachorro ou outros animais, achar que a esqueceram na escola, separação prolongada dos pais, divórcio e presenciar cenas de sexo, entre outros.

Respeitar o medo é fundamental

Para a terapeuta familiar e psicopedagoga Quezia Bombonatto, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), também é preciso levar em conta a personalidade do pequeno e os seus medos.

“Algumas são mais medrosas ou ansiosas por natureza, o que é biológico. É frequente ver crianças com medo do escuro, de monstro. Trata-se de algo normal que acaba passando com a idade, mas depende muito de como os pais lidam com a questão”, diz.

Como ela exemplifica, se chamam uma criança constantemente de medrosa, isso acaba marcando e ela se torna uma adulta com medo de tudo. Quezia ainda alerta contra os riscos de obrigá-la a enfrentar seus receios de maneira muito drástica. É o caso de quem força o filho para tirar foto no colo do Papai Noel no shopping, desprezando seus gritos de desespero.

Foi algo do tipo que aconteceu com Eloisa, de 3 anos, filha da dona de casa Amanda Soares Pinheiro, 35. “A Elô sempre gostou de piscina, mas tem medo de molhar a cabecinha. No fim do ano passado, o tio a pegou no colo e entrou numa piscina maior. Ele quis vencer o medo dela na marra e afundou com tudo. Resultado: ela nunca mais quis saber de entrar na água”, revela.

A mãe está tentando fazer a menina superar o trauma com brinquedinhos na banheira e na piscininha inflável montada em casa. “Mas ainda está difícil”, admite. Para Quezia, os adultos devem ter muito cuidado e saber não só identificar, mas respeitar se a criança está pronta (ou não) para lidar com o medo.

Atenção aos sinais

Os pais ainda têm que estar atentos a qualquer mudança de comportamento da criança que possa indicar um trauma: se ela está mais triste, quieta, introvertida ou, ao contrário, mais agressiva, se não interage.

De acordo com Ana Paula Magosso Cavaggioni, psicóloga da Clia Psicologia e Educação, na capital paulista, outros indícios são pesadelos ou gritos e falas durante o sono, acordar excessivamente durante a noite, xixi na cama, dificuldade para dormir, culpa, comportamentos infantilizados e necessidade de atenção constante. “Caso esses sintomas perdurem por mais de quatro semanas, é necessário procurar ajuda profissional”, orienta.

O que os pais podem fazer

Aproximar-se e tentar conversar com a criança, incentivando-a a falar sobre o que sente e pensa. É importante para dar um novo significado ao evento traumático.

Também é uma boa ideia oferecer exemplos próprios ou de outras pessoas que vivenciaram traumas semelhantes e contar como fizeram para superar. “Isso leva a criança a perceber que é possível se livrar do sentimento ruim e lhe dá esperança e motivação para cuidar do que sente”, esclarece Ana Paula.

Ofereça ajuda. Crianças expostas a tratamentos de saúde invasivos e dolorosos, por exemplo, precisam receber um suporte psicológico para passar por essa vivência, sem que ela traga consequências negativas no futuro.

Cuide da segurança dos filhos, sem superprotegê-los. Fique atenta para as situações em que se sentem inseguros, encorajando, mas sem desrespeitá-los. Também não exponha a situações de risco. No mais, oferecer amor e tempo de qualidade ajuda – e muito!

Por outro lado, o pior erro que os pais podem cometer é fazer de conta que nada aconteceu. Muitos imaginam que a lembrança e o sofrimento do que foi vivido vão desaparecer com o tempo se omitirem ou ignorarem a experiência. Ledo engano, pois o recomendado é enfrentar a situação o quanto antes.

E atenção: ceder a todos os desejos do filho e deixar de estabelecer rotinas, normas e regras não faz com que os pais não traumatizem seus filhos, mas sim, que os deixem desamparados em sua infância, desprotegidos e inseguros, por não terem referências que podem e devem ser dadas pelo adulto.

Artigo publicado originalmente no portal Disnay babble. Para acessá-lo na íntegra: http://disneybabble.uol.com.br/br/comportamento/como-lidar-com-os-traumas-na-infancia

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Saiba mais sobre o assunto com o livro:

20709TRAUMAS DE INFÂNCIA
Esclarecendo suas dúvidas
Autora: Ursula Markham
EDITORA ÁGORA

Um trauma de infância pode ter sido causado pela ação deliberada de uma pessoa ou pode ter ocorrido acidentalmente. A autora mostra como identificar esse trauma e como lidar com ele por meio de exercícios e estudos de caso. O número de pessoas que sofreu alguma situação traumática na infância é imenso e a leitura deste livro poderá ajudá-las a superar e a melhorar sua qualidade de vida.