Matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 04/02/2020.

Ministério da Educação (MEC) quer lançar uma avaliação ainda este ano para medir quantas palavras por minuto são lidas pelas crianças do 2º ano do ensino fundamental. O teste está sendo chamado de Avaliação Nacional de Fluência e faz parte de um programa de alfabetização, cujo texto o Estado teve acesso. O documento ainda fala em reformular o programa de livro didático e dar prêmios a professores por desempenho ao ensinar a ler e escrever.

Segundo o texto, a “fluência em leitura é um dos mais fortes indicadores de sucesso na alfabetização”. A prova deve medir se a criança lê com “bom ritmo, precisão e velocidade”. Testes de fluência são usados por redes de ensino ou educadores que acreditam que a leitura é uma decodificação e mais ligados ao método fônico de alfabetização, em que há ênfase para os sons das letras. Outros grupos criticam esse tipo de avaliação por considerarem uma pressão desnecessária à criança, no caso, de 8 anos. Também acreditam que a velocidade não demonstra que ela compreende o que lê.

A ideia é fazer a prova por meio de uma gravação da leitura da criança, no fim de 2020. Essa gravação seria enviada para uma entidade, ligada ao MEC, que faria a medição e daria o resultado. Ela acontecerá em redes estaduais e municipais que aderirem ao programa batizado de Tempo de Aprender. Segundo fontes, o MEC pretende lançar o programa antes do Carnaval.

Estudos internacionais falam de uma expectativa de 60 a 150 palavras por minuto para crianças do 1º ao 5º ano. A cidade de Sobral, no Ceará, faz testes do tipo com seus alunos desde o 1º ano e espera que leiam 60 palavras por minuto. Escolas particulares de elite de São Paulo, por exemplo, não aprovam e não usam avaliações de fluência.

“É muito discutível dizer que leitores fluentes compreendem melhor o que leem, especialmente quando se fala em crianças”, diz a especialista em alfabetização e professora da Universidade de São Paulo (USP), Silvia Colello. Segundo ela, a fluência pode ser importante para um adulto e, ainda, a própria situação de colocar a criança diante de um gravador para ler em voz alta, já prejudica o resultado, pela pressão causada. “Às vezes um leitor que hesita, que gagueja, que demora, que retoma a leitura, faz isso em função de procedimentos internos que podem ser muito mais inteligentes e eficientes para a construção do significado do que a criança que decodifica super bem”, complementa. Para ela, há processos cognitivos e afetivos que vão sendo construídos durante a leitura e que podem prejudica a fluência, mas ajudam na alfabetização.

O Instituto Alfa e Beto, que pesquisa o tema e produz material sobre alfabetização, no entanto, defende esse tipo de teste. Em seu site afirma-se que a fluência é a “ponte entre o reconhecimento de palavras e a compreensão de um texto”. Isso porque, segundo pesquisas citadas, o reconhecimento automático permite que o cérebro concentre sua atenção na compreensão.

Estado apurou que as entidades que reúnem secretários de educação tanto municipais quanto estaduais não foram consultadas na elaboração do programa Tempo de Aprender. Mesmo assim, os nomes da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais em Educação) e do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) fazem parte da versão a qual a reportagem teve acesso.

Segundo o presidente da Undime, Luiz Miguel Garcia, os secretários defendem uma política que leva em conta a diversidade do País e não apenas focada em um método de ensino. “Além disso, uma formação continuada de professores, com recursos para alfabetização.”

O documento fala em “formação prática” de professores, mas não detalha como ela seria feita para, de fato, contemplar a prática. O texto menciona que o material de “altíssima qualidade, baseado em evidências científicas” (…) “foi validado por um corpo de mais de vinte especialistas da Ciência Cognitiva da Leitura”. Também não cita quem são esses especialistas. A formação está prevista para começar já no primeiro semestre de 2020.

O texto não cita em nenhum momento a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aprovada em 2017 e que é a referência para currículos das escolas do País desde então. O documento considera que as crianças aprendem de diferentes maneiras e não indica apenas um método para alfabetizar. Ele considera tanto a perspectiva construtivista, em que a criança se apropria do texto, quanto a importância da consciência fonológica, com conhecimento das letras e sons.

O Tempo de Aprender também indica que dará prêmios a professores que melhor alfabetizarem, mas não fala em recursos e nem como isso seria implantado. E também em mudar o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) que hoje tem uma rígida avaliação de livros que são escolhidos pelas escolas. A ideia é escolher materiais alinhados a vertente que o MEC pretende seguir, excluindo outras, como a construtivista.

No fim de dezembro, o governo Bolsonaro também aprovou um decreto que permite que a Secretária de Alfabetização do MEC possa produzir seu próprio material, independentemente do PNLD, para ensinar a ler e escrever.

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Conheça os livros da educadora, especialista em alfabetização, Silvia Colello, que participa da reportagem:

A ESCOLA QUE (NÃO) ENSINA A ESCREVER
Autora: Silvia M. Gasparian Colello
SUMMUS EDITORIAL

A fim de repensar as concepções acerca da língua, do ensino, da aprendizagem e das práticas pedagógicas, este livro levanta diversos questionamentos sobre a alfabetização como é praticada hoje nas escolas. Depois de analisar diversas falhas didáticas e tendências pedagógicas viciadas, a autora oferece alternativas que subsidiem a construção de uma escola que efetivamente ensine a escrever.

 

 

TEXTOS EM CONTEXTOS
Reflexões sobre o ensino da língua escrita
Org.: Silvia M. Gasparian Colello
SUMMUS EDITORIAL

Com o objetivo de discutir a alfabetização em sua complexidade, esta obra usa o referencial socioconstrutivista para relacionar teoria e prática em diferentes abordagens: as concepções de ensino e de escrita, as trajetórias escolares na alfabetização de crianças e adultos, os processos cognitivos na aprendizagem da escrita, a produção textual na infância e adolescência, os desafios da transposição didática e a formação de professores alfabetizadores.

 

 

A ESCOLA E A PRODUÇÃO TEXTUAL
Práticas interativas e tecnológicas
Autora: Silvia M. Gasparian Colello
SUMMUS EDITORIAL

Como as crianças entendem o papel da escola? Como o vínculo que estabelecem com ela afeta a aprendizagem? Por que os alunos têm tanta dificuldade de se alfabetizar? Como compreender o ensino da escrita no mundo tecnológico? Em um momento de tantas inovações, de que forma lidar com os desafios do ensino e renovar as práticas pedagógicas?

Na busca de um projeto educativo compatível com as demandas de nosso tempo e o perfil de nossos alunos, Silvia Colello discute aqui como as condições de trabalho na escola podem interferir na produção textual, favorecendo a aprendizagem da língua. Para tanto, lança mão da escrita como resolução de problemas em práticas tecnológicas e interativas. Conhecer as muitas variáveis desse processo é, indiscutivelmente, um importante aval para a construção de uma escola renovada. Afinal, é possível transformar a leitura e a escrita em uma aventura intelectual?

 

ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: PONTOS E CONTRAPONTOS
Org.:
  Valéria Amorim Arantes
Autores: Silvia M. Gasparian Colello, Sérgio Antônio da Silva Leite
SUMMUS EDITORIAL

Neste livro, dois especialistas da Unicamp e da USP ampliam a compreensão do ensino da língua escrita. É possível alfabetizar sem retornar à cultura cartilhesca? Qual o papel da afetividade na alfabetização? Como sistematizar o trabalho pedagógico em sala de aula? Que paradigmas devem ser revistos no caso da aprendizagem escrita? Essas e outras perguntas são respondidas e debatidas nesta obra fundamental ao professor.


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