A psicóloga Elizabeth Monteiro diz que crianças exigem muita maturidade

Texto parcial de reportagem de Thais Lyra, publicada no jornal A Tribuna, em 17/08/2020.

Psicóloga, pedagoga, escritora e palestrante, Elizabeth Monteiro tem mais de 50 anos na área da Educação e saúde mental. Autora de vários livros, como A Culpa é da Mãe, Criando Filhos em Tempos Difíceis, Cadê o Pai Dessa Criança, acredita que a sociedade só vai mudar quando tiver pais melhores. “Precisamos de pessoas mais conscientes e investir na família para melhorar a sociedade. A gente fala muito em salvar o planeta, mas não se trata apenas disso. Precisamos salvar os futuros cidadãos que vão habitá-lo”. Na entrevista a seguir, Elizabeth, que nasceu em São Paulo, dá dicas preciosas para pais e mães na tarefa diária e contínua de educar os filhos para o mundo, principalmente em tempos de pandemia.

Um de seus livros, A Culpa é da Mãe, fez muito sucesso. É verdade isso?

Em geral, a mãe é responsável por tudo o que acontece com o filho, seja de bom ou de ruim. No entanto, esse conceito surgiu com mais força a partir da década de 1950. Antes disso, a maternidade era bem diferente e não tinha essa ideia de culpa. Mas, por uma questão cultural, tudo mudou. Ao pai, cabia o papel do provedor e, à mãe cuidar da casa e dos filhos. Com isso, as mulheres cresceram que eram responsáveis por tudo o que acontecesse de bom e de ruim aos filhos. E, mesmo com as famílias tendo mudado tanto, pois as mães trabalham foram, isso ainda continua. As mães se culpam quando percebem que não são perfeitas.

De que maneira essa culpa pode atrapalhar a criação dos filhos?

O peso dessa culpa impede essa mãe de educar. Além disso, maternidade fica muito pesada, né? Porque ela não quer falhar e tem que mostrar que dá conta de tudo. Além disso, a culpa causa um outro problema: a falta de limites. Pais acham que precisam fazer tudo o que os filhos querem.

A questão do excesso de liberdade, principalmente na adolescência é um dos grandes desafios?

Olha, eu digo que quem quer passar por uma adolescência tranquila com o filho, construir uma boa relação com o adolescente e ter menos conflitos com esse jovem, precisa trabalhar a infância, pois é nessa fase que se fortalece o vínculo afetivo entre pais e filhos. Mas os pais ficam tão preocupados em educar, em dar limites, que acabam transformando essa infância numa série de cobranças e castigos ao invés de limites.

Como assim?

Os pais falam não e brigam o tempo todo: anda direito, come direito, me escuta, não pula. E não adianta nada, pois até os 5 anos, a criança é egocêntrica, é oposicionista e quer mexer em tudo. Além disso, os primeiros anos da infância são fundamentais para o desenvolvimento da inteligência e da esfera psicomotora. Sabe o que acontece com o vínculo afetivo? Essa criança, que já ouviu tanto não, estabelece uma relação desgastada com os pais, que perdem a autoridade, pois já ameaçaram tanto, falaram tanto…

Mas como deve ser feito esse trabalho já que os pais devem dar limite e evitar que a criança se coloque em risco?

É ensaio e erro, ensaio e erro. Pais devem respeitar e entender cada fase do desenvolvimento infantil, criar vínculos e dar limites. Embora o não seja um primeiro organizador do psiquismo, até 6, 7 anos, é preferível educar pelo sim. Mas isso não significa deixar fazer tudo o que quiser. É preciso escolher as brigas que quer comprar.

Quais brigas são essas?

A primeira coisa é que os pais têm que se reeducar para criar o filho. Devemos lembrar que os problemas cotidianos que acontecem na sua casa acontecem na do vizinho. Todo pai e toda mãe mandam o filho tomar banho, estudar, arrumar o quarto… Tem certeza de que quer que isso vire motivo de briga e grito todo dia? Não tem jeito, os pais precisam ser criativos e não cair nas armadilhas e ficar gritando pela casa: fulano, eu já mandei tomar banho, vai tomar banho, não vou falar de novo. Pegue a criança, leve pro banheiro, sente para estudar… Claro que haverá dias que você simplesmente não vai ligar para nada disso mas o importante é não cair nas armadilhas e fazer dessas situações motivos para conflitos eternos e diários.

Existe uma faixa etária mais difícil?

Eu diria que é até 5 anos. Dos 6 até a pré-adolescência, mais ou menos os 12 anos, é mais fácil de lidar. Nesse período, a criança já tem entendimento sobre as coisas, sobre regras e saiu do mundo fantasia. Digamos que é um período de calmaria, mais tranquilo do que a primeira infância e a adolescência. Mas cada etapa tem seus mistérios e alegrias.

Os pais de hoje vivem competindo para ver quem tem o filho mais perfeito, seja nos grupos do WhatsApp da escola, nas festinhas, nas reuniões… Qual o perigo de passar isso para os filhos?

Infelizmente, a maternidade e a paternidade viraram uma competição, um campeonato pela busca do melhor status. Não há solidariedade, nem ajuda. Nessa competição quem sai perdendo é a criança. Às vezes, nem nasceu e já tem o futuro profissional definido. É bem complicado e até perigoso. Por exemplo, a criança gosta de tocar um instrumento. É o que basta para os pais colocaram o filho para se apresentar e achar que ele vai ser famoso. O que era um prazer vira uma cobrança e ela perde a vontade. E isso acontece na natação, no judô… Tem que deixar seu filho ter prazer naquilo o que está fazendo.

Como os pais devem controlar a própria expectativa?

Mães e pais devem elogiar os filhos quando eles merecerem elogios. Não é achar bonito ou bom por achar. Os elogios precisam vir na medida certa, assim como as críticas. É sempre apontar o comportamento e explicar. São formas de dar limite de educar também.

Pais reclamam que os filhos passam muito tempo na internet ou no videogame mas não saem do celular. Como dosar?

Quem dá o celular para os filhos? Não adianta, pais precisam ser coerentes e servirem de modelo. Há pais que colocam os filhos no colo e ligam o desenho no tablet e ficam no celular… Porque dá trabalho interagir, contar histórias, brincar… Se você acha que seu filho fica muito tempo na internet, não basta só desligar. É preciso oferecer algo em troca: vamos montar uma casa de papelão com essas caixas do mercado, jogar, conversar…

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Para ler na íntegra, acesse: https://www.atribuna.com.br/variedades/atrevista/pais-precisam-se-preparar-para-criar-os-filhos-1.114099

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Conheça abaixo alguns dos livros da psicóloga Elizabeth Monteiro, publicados pelo Grupo Summus:

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A CULPA É DA MÃE
Reflexões e confissões acerca da maternidade
SUMMUS EDITORIAL

Neste livro emocionante e catárquico, a psicoterapeuta Elizabeth Monteiro relata suas experiências – muitas vezes desastradas – como mãe de quatro filhos. Partindo das relações familiares na época de sua avó e passando pela própria infância, ela mostra que as mães, independentemente da geração, erram. Mas não devem se sentir culpadas por isso. Prefácio de Lya Luft.

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CRIANDO FILHOS EM TEMPOS DIFÍCEIS
Atitudes e brincadeiras para uma infância feliz
SUMMUS EDITORIAL

Buscando aprimorar a interação entre pais e filhos, Betty Monteiro aborda neste livro os benefícios do brincar e explica as brincadeiras preferidas pelas crianças em cada fase do desenvolvimento. Fala ainda sobre a “criança difícil”– a que não come, a medrosa, a do contra etc. – e dá dicas para lidar com conflitos. Em linguagem simples e fluida, ela nos convida a voltar à infância e a aproveitar melhor o tempo com os pequenos.

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CRIANDO ADOLESCENTES EM TEMPOS DIFÍCEIS
SUMMUS EDITORIAL

O amor parental não é estático: ele muda com o tempo e com os filhos. Por isso, os pais precisam atualizar seu modo de sentir e amar. Com uma linguagem direta e delicada, Elizabeth Monteiro fala sobre a necessidade de proteger os adolescentes de ameaças como as drogas e, ao mesmo tempo, de incentivar a autonomia deles. Sem fórmulas mágicas, a autora estabelece com pais e educadores um diálogo amplo e profícuo.

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VIVER MELHOR EM FAMÍLIA
Dicas e atitudes para relacionamentos saudáveis e filhos felizes
MESCLA EDITORIALhttps://www.gruposummus.com.br/livro/viver-melhor-em-familia/

Criar filhos e manter relações familiares harmônicas não é tarefa fácil. Neste livro, Betty reúne reflexões e comentários publicados em suas cinco obras anteriores. Além de se dirigir às mães, a coletânea também pode ser lida por avós, pais e cuidadores.

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