Texto originalmente publicado na coluna de Júlia Rocha, no ECOA UOL,
em 23/02/2021.

Era uma vez a sua filha, o seu pai, a sua esposa, o seu amigo. Este não é um texto para justificar comportamentos e reações, mas para informar e ser um ponto de partida para que você busque ajuda.

Historicamente subdiagnosticada e inadequadamente tratada, a bipolaridade ou transtorno bipolar acomete de forma arrebatadora pessoas e suas famílias, deteriorando relações, reduzindo a funcionalidade do indivíduo e aumentando substancialmente o risco de suicídio.

Diferente do que se espera para uma pessoa apenas deprimida, o sofrimento imposto pela bipolaridade transforma a vida de pacientes e famílias em uma montanha russa de emoções.

Os primeiros sinais aparecem cedo. Desde a adolescência ou no início da vida adulta, a pessoa vivencia uma alternância sofrida. Vai de períodos de profunda tristeza, falta de motivação e de prazer para tudo, incapacidade de realizar e produzir, alterações do sono, do apetite, da atenção, pensamentos de morte, culpa e desesperança a períodos de humor exaltado (ou irritado), elevada autoconfiança, diminuição da necessidade de sono e dificuldade do controle de impulsos. Isso faz com que a pessoa se exponha mais em comportamentos que colocam inclusive sua vida em risco. Desde manter relações sexuais desprotegidas com desconhecidos, comprar muito mais do que o necessário, gastando o que não poderia ou deveria, a apostar em jogos de azar até perder o que tem.

Na fase de mania, a pessoa com transtorno bipolar costuma dizer que o pensamento está acelerado e que muitas vezes lhe fogem as ideias.

É também nesta fase que o paciente experimenta sensação de grandiosidade e poder, como se pudesse fazer tudo e quase governar o mundo. Mesmo dormindo menos, se sente disposto como se conseguisse realizar mil coisas o dia todo. Podem estar presentes alucinações auditivas compatíveis com esta crença na própria grandiosidade. Algumas pessoas referem ter ouvido a voz de Deus, ou referem ser enviados Dele para uma missão, por exemplo.

Um dos muitos motivos para que a bipolaridade seja tão subdiagnosticada ou confundida com a depressão unipolar é que uma parte das pessoas nesse espectro não alternam os períodos de depressão com os períodos de mania de forma clara. Elas apresentam períodos que chamamos de hipomania. Neste contexto, o sujeito tem sintomas de uma mania mais abrandada, se é que posso assim dizer. Normalmente não há, na hipomania, aquelas alucinações. Neste período, é comum que a pessoa se torne mais produtiva que o normal, o que, em muitos contextos, é visto com bons olhos.

Há também aquelas pessoas que conjugam características dos dois polos em um único episódio. Chamamos isto de “depressão agitada”.

A cada novo ciclo de alternância desses polos, o paciente vai piorando sua capacidade intelectual e sua funcionalidade. Não há exames laboratoriais que confirmem o diagnóstico. É preciso conversa, escuta paciente e atenciosa.

Com frequência, esta pessoa e sua família só buscam ajuda nos períodos de depressão. Isso faz com que sejam tratados como pacientes com depressão unipolar, o que pode ser trágico.

Ao receber medicamento e abordagem para depressão unipolar, o paciente com transtorno bipolar pode estabelecer o que chamamos de virada maníaca e vivenciar o outro polo de forma muito intensa.

O tratamento para esta pessoa baseia-se em medicações estabilizadoras do humor e psicoterapia. Apoio familiar é fundamental. Quem sofre com a bipolaridade está sujeito a um maior risco de suicídio e isso deve ser motivo da atenção de todos ao redor.

Conviver com a bipolaridade e sua imprevisibilidade pode ser adoecedor. Toda a família merece e precisa de apoio e informação para lidar com a doença. E é importante dizer que há uma força da hereditariedade nesses casos. Em famílias com uma pessoa com transtorno bipolar é comum que se descubram outros familiares adoecidos.

Mais do que informação, pacientes e famílias precisam de acolhimento, escuta cuidadosa e tratamento adequado. Busque ajuda!

Para ler na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julia-rocha/2021/02/23/bipolaridade-nem-toda-tristeza-e-o-que-parece.htm

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