Pesquisa aponta que, para 71,58% das professoras entrevistadas, sala de aula na pandemia se reduz à tela de um celular com formação de turmas no WhatsApp

Matéria de  Victoria Netto, publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, em 26/06/2021.

A pesquisa “Alfabetização em Rede: Uma investigação sobre o ensino remoto na pandemia de Covid-19”, que reúne 29 universidades do Brasil e atingiu 14.730 docentes da educação básica em 18 Estados do País, detalha o cenário de exclusão de alunos e dificuldades no ensino remoto durante a pandemia.

As informações qualitativas da segunda fase da pesquisa, ainda em andamento, apontam que, para 71,58% das professoras entrevistadas (90% da amostra da pesquisa são mulheres), a sala de aula na pandemia se reduz à tela de um celular com formação de turmas no WhatsApp.

A medida foi adotada pelas escolas para que não se perdesse o vínculo com as famílias, já que a plataforma Google Classroom (Google Sala de Aula), instituída pelas secretarias de educação como padrão para o envio de atividades, não teve ampla adesão dos alunos por diferentes dificuldades.

Para a coordenadora nacional da pesquisa, Maria Socorro Nunes, professora na Universidade Federal de José del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais, o uso do WhatsApp é um indício da precariedade de condições de conectividade, tanto dos estudantes quanto das próprias professoras.

“Quando falamos de celular, nos referimos a todas as possibilidades, desde aquele que é dividido com vários filhos até um mais potente. Mas a maioria das famílias já indicou a dificuldade de ter um equipamento que possa ser utilizado pelas crianças”, afirma. “Isso altera de forma decisiva as relações de ensino e aprendizagem quando são feitas por um aplicativo de celular.”

Na turma de 2020 da professora Rosilene Cunha da Trindade, de 43 anos, só 3 dos 28 alunos conseguiram ser alfabetizados. A falta de contato com as crianças é um dos motivos apontados pela docente, que atende crianças das séries primárias no sul de Minas Gerais. “O que eu pude entender é que a interação acontece mais com a mãe, passando a atividade para ela. Contato direto com a criança eu não tenho mais”, diz.

Com o ensino remoto, a interação aluno-professor deixou de existir em tempo real e ficou por conta da mediação da família, cenário que a pesquisa sobre alfabetização confirma. Segundo a psicóloga Maria Alice Junqueira, coordenadora do Letra Viva Alfabetiza, programa do Cenpec Educação, é preciso reinventar a alfabetização.

“Há que trabalhar no ensino remoto de uma forma diferente da que trabalhamos no meio presencial. Vai haver perdas, mas dá para contornar. Com a videochamada, é possível criar vínculos e conduzir práticas a partir de uma série de ferramentas lúdicas”, avalia Junqueira.

O estudo Alfabetização em Rede ainda demonstrou que as professoras consideram que a educação remota não atinge os objetivos escolares (17%), que não é adequada para a etapa de ensino com a qual trabalham (15%) e que gerou sobrecarga para os docentes e para as famílias (22%). Apesar disso, reconhecem que foi a opção possível para a educação na pandemia (44%) e avaliam que tem sido importante para manter o vínculo das crianças com a escola (55%).

Embora ainda não haja índices oficiais sobre quão atrasadas essas crianças estão, alguns estudos preliminares já apontam que os prejuízos são graves. A projeção do Banco Mundial, divulgada em março, é de que 2 em cada 3 alunos no Brasil não consigam ler um texto simples aos 10 anos.

Outro estudo do governo de São Paulo, divulgado no final de abril, indica que serão necessários 11 anos para recuperar a aprendizagem perdida em Matemática. Hoje, um aluno de 10 anos tem desempenho pior do que ele mesmo tinha quando estava com 8 anos. Como as crianças passaram por exames amostrais semelhantes ao Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do governo federal, é possível fazer o comparativo com anos anteriores.

Para a psicóloga Maria Alice Junqueira, a criança que está no 2º ano em 2021 e passou pela alfabetização no 1º em 2020 já está com prejuízo. “Não é a mesma criança que chegou ao segundo ano em 2019. O déficit é muito grande. Vamos precisar de uma força-tarefa para recuperar e de parâmetros para medir isso”, avalia.

A professora Tâmila Carolini Tavares, de 32 anos, que leciona em uma escola municipal de Tartarugalzinho, no Amapá, sentiu a diferença na prática. “O objetivo do ano passado, vamos tentar atingir neste ano”, conta ela, que atende turmas de 1º e 2º anos. “As habilidades que eles deveriam ter adquirido no ano passado, estamos engatinhando para ver se eles vão recuperar neste ano.”

Silvia Colello, que pesquisa o processo de alfabetização e é professora da pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), avalia que, embora seja possível recuperar o aprendizado após criteriosa avaliação e trabalho insistente, o ritual de ingresso na escola já foi rompido de forma irreversível.

“A entrada na criança no ensino fundamental é um rito de passagem e é nesse momento que se renova a relação da criança com a escola e com a língua escrita”, afirma Sílvia. “Quando isso muda e a criança não está inserida nesse ambiente, tudo se fragiliza e acaba afastando a criança da disponibilidade de aprender.”

Para ler na íntegra (assinantes do Estadão), acesse: https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,alfabetizacao-pelo-celular-e-precariedade-na-conectividade,70003755719

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