Neste momento, interação é mais urgente que conteúdos acadêmicos perdidos

Artigo de André Trindade – psicoterapeuta,  educador e  autor da Summus -,
publicado originalmente na Folha de S. Paulo │ Opinião, em 4 de fevereiro de 2022.

Em meus 30 anos de observação de bebês e suas famílias, fui surpreendido pela pandemia de Covid-19. Inicialmente imaginei que essa população seria a menos atingida pelo confinamento. Que o ninho formado por mães e pais, mães e mães, pais e pais e seus bebês, somados a um espaço na sala repleto de brinquedos espalhados, fosse suficiente para o desenvolvimento nesse primeiro ano de vida. Engano meu!

Logo nas primeiras “aberturas” pós-vacinação, quando reiniciei o atendimento presencial no consultório, pude constatar o impacto que a vida social restrita teve nessas famílias. Encontrei bebês subestimulados, com alguns atrasos no desenvolvimento motor, menos interessados pelo mundo ao redor e mais passivos.

Entendi rapidamente o quanto esses pequenos sujeitos aprendem com a observação, com a comunicação com o motorista do ônibus, que os cumprimentam diariamente, com os mimos excessivos dos avós, com as brincadeiras da moça que vem trabalhar na casa, com os cuidadores e com as outras crianças da creche, do parque e mesmo com o cachorro do vizinho.

Esses pequenos seres de semanas, meses ou poucos anos de vida aprendem a partir de suas experiências corporais e da observação dos corpos e dos gestos dos outros.

Nas semanas recentes de volta às aulas, pude observar nas crianças maiores e nos adolescentes um entusiasmo que não havia jamais constatado. Talvez pela lembrança dos períodos iniciais de confinamento ou pela série de interrupções da atividade presencial no ano passado, o desejo de volta se apresente. Uma garotinha de seis anos, desde que recebeu seu uniforme, passou a usá-lo diariamente em casa nos últimos dias de suas férias. Quando indagados por que querem voltar, a resposta é: reencontrar os amigos e professores. Claro, há aqueles que estão assustados, com medo do contágio, e também outros que se adaptaram às telas e temem o convívio. Porém há uma motivação pulsante de reencontro presencial, de voltarem ao “corpo a corpo”, de estarem em contato direto.

A meu ver essa necessidade deveria ser privilegiada antes de pensarmos em correr atrás de conteúdos acadêmicos perdidos. A escola representa o convívio com os “outros”, a possibilidade de descobrirem novos papéis, além de filhos e irmãos, e ganharem identidade de alunos, estudantes, colegas.

Nesse sentido, as entradas, as saídas e os recreios representam espaços importantes da volta às aulas. É aí que as crianças aprendem a se deslocar com agilidade, umas entre as outras, a observar as crianças mais velhas, as mais novas, a estarem “atentas”, darem vida ao corpo, despertarem sua motricidade.

Infelizmente esses percursos livres são cada vez mais restritos nas escolas. Há até inspetores para impedi-las de correr ou falar alto nos corredores —e, assim que chegam, são rapidamente convocadas a sentarem-se por horas nas salas de aula.

Minha sugestão é que o início do dia deveria ser dedicado ao corpo. A criança chega, guarda seu material na sala de aula e vai ao pátio ao encontro das outras para uma atividade livre, para brincar, conversar e quem sabe para uma roda de movimento junto com seus professores. Cabem aí o canto, a dança, os jogos cooperativos —e assim o dia pode começar melhor!

O sedentarismo é uma importante questão de saúde pública, responsável por inúmeras doenças crônicas.

Estamos aprisionando nossos filhos —sentados cinco a seis horas por dia— por nove anos no ensino fundamental e mais três no ensino médio. Isso sem dizer que, nesse tempo todo, não ensinamos a eles a se sentarem saudavelmente. São jogados sobre cadeiras muitas vezes inadequadas para o tamanho de seus corpos, nas quais nem conseguem alcançar os pés no chão, ou apoiar as costas nos encostos dos assentos. Como manter a atenção e o interesse nos conteúdos diante de tamanho desconforto corporal?

Não demora muito até essa motivação inicial de volta às aulas se tornar suplício e aversão.

Para ler na íntegra (assinantes do jornal ou do UOL), acesse: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2022/02/o-corpo-na-volta-as-aulas.shtml

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Conheça os livros de André Trindade publicados pela Summus:

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MAPAS DO CORPO
Educação postural de crianças e adolescentes

Este livro resume a experiência de mais de 25 anos de André Trindade como psicomotrista e psicólogo. Profundamente ligado à área do movimento, o autor domina magistralmente a arte de orientar crianças e adolescentes a adquirir e manter uma boa postura. Dividida em sete partes, a obra trata, entre outros temas, da linguagem corporal, da pele, dos ossos, músculos e articulações e do que ele denomina “Mapas do corpo” – conjunto de referências capazes de determinar distâncias, direções e ligações entre as partes do corpo, a fim de facilitar o movimento coordenado. O objetivo de André é que professores – não apenas os de educação física – e pais auxiliem crianças e adolescentes a conhecer o próprio corpo e relacionar-se de modo saudável com o ambiente. Em cada uma das partes citadas o autor, generosamente, compartilha conosco dezenas de atividades para estimular a boa postura, a flexibilidade, a autoconfiança, o prazer da brincadeira. Com reflexões profundas, ele mostra que as novas tecnologias trouxeram muitos benefícios, mas também problemas, como o isolamento, a desestruturação postural e a entrada precoce no mundo adulto. Totalmente ilustrado com desenhos e belíssimas fotografias, o livro é um convite – sem broncas nem lições de moral – para que nós, adultos, repensemos a maneira como lidamos com crianças e adolescentes.Prefácio de Rosely Sayão.

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GESTOS DE CUIDADO, GESTOS DE AMOR
Orientações sobre o desenvolvimento do bebê

Cuidar de um bebê demanda mais que amor e instinto: exige precisão. Este livro encantador ensina pais, mães, professores e cuidadores em geral a lidar com bebês de maneira correta nas mais diversas situações: o banho, a amamentação, a massagem, o sono e muito mais. Belamente ilustrado e impresso em 4 cores, aborda ainda o desenvolvimento motor e cerebral das crianças desde o nascimento até os 3 anos.

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