Artigo de Ricardo Gandour, jornalista e autor de
“Jornalismo em retração, poder em expansão – A segunda morte da opinião pública” (Summus Editorial),
publicado na Folha de S.Paulo│Opinião, em 04/08/2021.

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Potenciais falibilidades devem ser tratadas dentro do paradigma digital vigente

Os fabricantes de fake news e os negacionistas têm conseguido impactar duas disciplinas caras à vida contemporânea e civilizada: a semântica e a tecnologia.

Frequentemente pertencentes a grupos ideológicos próximos, senão coincidentes, essas duas legiões de detratores da democracia elegeram a legitimidade do processo eleitoral como um dos seus alvos preferidos de destruição. Nesse assunto, sobram expressões maliciosamente invertidas e propostas de retrocessos tecnológicos —expostas despudoradamente pelo avesso, como se fossem assertivas cristalinas e avanços inegáveis.

A expressão “voto auditável” é a manifestação mais pura da primeira tentativa de confusão e solapamento da percepção da opinião pública. Ao acoplar o adjetivo produz-se uma expressão supostamente séria e clássica, como se o substantivo “voto” estivesse sempre ali colado —tal qual “água potável”. Ora, um voto impresso num pedacinho de papel que amassa, desbota, voa e está sujeito a rasuras e trapalhadas de toda espécie é tudo, menos “auditável” no nível de precisão que tentam fazer parecer. A intenção de desinformar tem dimensões gigantescas e provoca efeitos devastadores, a ponto de ouvirmos com frequência, em debates aqui e ali, com sobrancelhas levantadas, frases do tipo “qual sua opinião sobre o voto auditável?”. A expressão mais adequada para rotular essa volta ao passado seria, no mínimo, “voto fraudável”. Pelo menos muito mais fraudável.

Isso nos remete à segunda intentona, centro de gravidade da artilharia da desinformação. Carece totalmente de sentido considerar que um processo analógico (a impressão num pedaço de papel) tem o mínimo potencial de aprimorar a qualidade de um processo digital (o registro de uma informação em arquivos de computador). É descartar completamente o que o avanço tecnológico tem propiciado à humanidade em termos de eficiência e, sim, de segurança (avanço, aliás, do qual plenamente desfrutam os mesmos atores negacionistas e disseminadores de mentiras, ao espraiarem desinformação com seus algoritmos minuciosamente trabalhados; nisso, eles botam fé).

Nosso dia a dia está repleto de demonstrações do avanço irreversível da credibilidade propiciada pelos registros digitais: no e-commerce, nos meios de pagamento, nas transferências bancárias e até num assunto embasado em pura privacidade como o Imposto de Renda. Quem se lembra da última vez que guardou o comprovante do cartão de crédito, aquele que em questão de dias empalidece na carteira, hoje substituído por muito melhores controles nos aplicativos dos bancos? Alguém imprime em papel suas conversas nos sistemas de mensagens?

A reputação da área de tecnologia da informação brasileira é das melhores do mundo, legado, entre outros fatores, dos investimentos que o setor financeiro empreendeu desde a época da hiperinflação, em que era imperativo processar diariamente milhões de cheques, ordens de pagamento e atualizações de saldos afetados pela então “correção monetária”. Some-se a isso o nível de excelência do ensino e da pesquisa nesse campo, tanto em universidades públicas como privadas.

Não por acaso, as grandes empresas mundiais de tecnologia mantêm no Brasil laboratórios e centros de desenvolvimento em diversas regiões e capitais e aqui recrutam profissionais para atuarem mundo afora. Um exemplo é o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Google para a América Latina, localizado em Belo Horizonte (MG), e que surgiu a partir da aquisição, em 2005, de uma empresa criada dentro do departamento de computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Nesse ecossistema desenvolvido e no “estado da arte”, o sistema eleitoral brasileiro tem à disposição o mais avançado arsenal de checagem e consistência de dados —como programas que controlam programas, monitoram, cruzam dados, checam e rechecam.

Confiabilidade em sistemas digitais é um assunto profundamente estudado como ciência, disciplina e método nas universidades, nas empresas e na máquina pública brasileira —esta, aliás, com profissionais altamente preparados. Potenciais falibilidades devem ser tratadas dentro do paradigma digital vigente, jamais voltando atrás. Questões de tecnologia se aprimoram com mais tecnologia, nunca com menos, acoplando velhos e ultrapassados processos analógicos. Esse falso raciocínio só se presta às intenções dos disseminadores de desinformação e dos solapadores da democracia.

Para ler na íntegra (assinantes do jornal Folha de S.Paulo ou do UOL), acesse: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/08/voto-fraudavel-negacionismo-e-retrocesso.shtml

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Conheça o livro do jornalista Ricardo Gandour:

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JORNALISMO EM RETRAÇÃO, PODER EM EXPANSÃO
A segunda morte da opinião pública
Autor: Ricardo Gandour
SUMMUS EDITORIAL

Nos últimos anos, um fenômeno comunicacional tomou conta do mundo: o uso cada vez mais intenso das redes sociais por políticos de todas as instâncias. Ao mesmo tempo, o jornalismo aprofundou crises estruturais, provocadas pela queda das receitas publicitárias, pelas novas tecnologias e pelo consequente enxugamento das redações. Que riscos tudo isso pode trazer para as democracias? Numa época em que os efeitos devastadores das chamadas fake news são cada vez mais discutidos e que se tenta desacreditar o jornalismo profissional, Ricardo Gandour analisa o cenário de forma inédita. Na esteira de uma consolidada carreira como editor e dirigente de redações, ele radiografa o enxugamento das redações, compara com o crescimento vertiginoso – e por vezes perigoso – do uso das redes por políticos e indaga, baseando-se em Habermas: estaremos vivendo a segunda morte da opinião pública? Leitura indispensável a quem se interessa pelo campo do jornalismo e da comunicação e seus impactos na democracia, e obra de referência para os estudiosos das transformações por que passa o ecossistema da informação. Prefácio de Eugenio Bucci.

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