‘BRASIL NÃO TEM PLANO NACIONAL DE PREVENÇÃO AO SUICÍDIO, CRITICA ESPECIALISTA’

Matéria de Yasmim Araujo Rodrigues, publicada originalmente pela
Agência de Notícias UniCEUB, em 25/03/2019

A psicóloga paulista Karina Okajima Fukumitsu sofria de uma inflamação cerebral. Ela prometeu que, se fosse curada, dedicaria a vida à causa de ajudar outras pessoas em situações de dor profunda, e transtornos mentais. Ela conseguiu e, em homenagem a esse destino, ministra palestras de pés descalços para manter sintonia com a terra. Pós-doutora e pesquisadora sobre prevenção ao suicídio, além de autora de livros e artigos sobre o tema, a psicóloga entende que é necessário trabalhar “as possibilidades e o propósito da vida de cada indivíduo”.

A especialista criticou que o Brasil não tem um plano nacional de prevenção de suicídio, documento previsto apenas para 2020, quando o país deverá comprovar redução de 10% na taxa de mortes por essa causa, conforme compromisso firmado com a OMS. No Distrito Federal, a taxa de suicídio até maio de 2018 foram 41 casos, em comparação com o ano de 2017 que foram 167 e em 2016 151.

A psicoterapeuta relata que a busca por evitar o suicídio deve vir do próprio indivíduo em tratamento. Ela explica que, entre o nascimento e a morte por suicídio, “restam fragmentos, histórias contadas e vividas. O processo de luto abarca vivências que ficam sem sentido, confusas, picotadas, estilhaçadas (…). Você precisa se aproximar de você, da sua vida, a gente não é treinado a se resgatar para pensar no seu próprio sofrimento”, disse a especialista em palestra no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

Os dados são alarmantes. No Brasil, a cada 45 minutos um indivíduo comete suicídio. No mundo, a cada 40 segundos há uma tentativa de acabar com a própria vida. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 800 mil pessoas morrem por esse motivo todos os anos. O suicídio não ocorre apenas em países de alta renda, sendo um fenômeno em todas as regiões do mundo. De fato, 80% dos suicídios ocorreram em países de baixa e média renda em 2016, no Brasil já foram registrados 11.433 mortes por suicídio em 2016.

Esses acontecimentos são , na maior parte deles, entre pessoas de 15 a 29 anos de idade e  o suicídio é agora a terceira maior causa de óbito nesse segmento. Tirar a própria vida é já a quarta causa de mortes em adolescentes, inclusive na Coreia do Sul e no Japão é a principal causa de mortes entre garotos e garotas no país.

Problemas psiquiátricos,  uso de drogas e álcool são fatores principais para analisarmos o real motivo do suicídio. Entretanto nem toda pessoa com problemas psiquiátricos têm essa pretensão. Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) mostrou que mais de 30% das vítimas de apresentava teor alcoólico no sangue. Um esforço para mudar o alto índice  foi a decisão da Organização das Nações Unidas (OMS) de definir o dia 10 de setembro o dia Mundial de Prevenção ao Suicídio e promove a campanha nacional de Setembro Amarelo.

Além do uso de drogas e álcool estão também entre as causas que levam a uma pessoa abster de sua vida são problemas como depressão, ansiedade, bullying e situações temporais que despertam forte carga emocional, como o fim de um relacionamento amoroso ou a perda de algo muito importante na vida desse indivíduo. Em casos de uso de arma de fogo Estados Unidos grande parte de quem morre por arma de fogo comete suicídio logo depois e apenas em dez estados americanos, por exemplo, é obrigatório que os profissionais de saúde recebem treinamento sobre prevenção do suicídio. “O Brasil merece uma atenção para esses sofrimento,pois vemos dados alarmantes de suicídios acontecendo e não fazemos nada para parar”.

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Para ler na íntegra, acesse: http://www.agenciadenoticias.uniceub.br/suicidio/

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Conheça Vida, morte e luto, da Summus Editorial, do qual Karina Okajima Fukumitsu é organizadora e coautora:
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VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Ana Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresLeo PessiniKarina Okajima FukumitsuMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja Heishin Nely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da Luz, Teresa Vera Gouvea

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘OS CUIDADOS PARA PROTEGER A SAÚDE MENTAL DE QUEM VIVE TRAUMAS’

Texto parcial de matéria de João Fellet, BBC News,
publicada no UOL em 15/03/2019

 Enlutados pelo massacre de quarta-feira na escola Professor Raul Brasil, em Suzano (SP), sobreviventes, amigos e parentes dos mortos devem ser acompanhados para que não desenvolvam transtornos mentais associados a traumas, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Nos EUA, onde massacres em escolas são frequentes, um estudo apontou que 29% das testemunhas desses ataques sofrem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) – um transtorno de ansiedade que pode gerar sintomas vários meses ou anos após o incidente.

Profissionais de saúde mental alertam que sintomas semelhantes podem acometer até mesmo quem não tem qualquer relação com as vítimas, mas se expôs a fotos e vídeos do ataque nas mídias sociais ou na imprensa. Eles dizem que as pessoas abaladas, assim como vizinhos da escola e outros moradores de Suzano, também devem ser acolhidas e ajudadas a superar o luto coletivo causado pela tragédia.

A Prefeitura de Suzano disse à BBC News Brasil que a Secretaria de Estado da Saúde enviou dois psiquiatras e um psicólogo a Suzano para atender sobreviventes e familiares das vítimas. Segundo a prefeitura, os profissionais estão trabalhando ao lado de uma equipe local do Caps (Centro de Atenção Psicossocial), unidade do SUS especializada em saúde mental.

Reações a eventos traumáticos

O psiquiatra Higor Caldato, especialista em Psicoterapias pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que, nos dias seguintes ao evento, sobreviventes e pessoas próximas das vítimas costumam vivenciar sentimentos de estresse agudo, choque, tristeza e lamentação.

Nesse período, diz Caldato, é essencial que eles sejam acompanhados por profissionais de saúde mental para que possam dar vazão às emoções em sessões de terapia e não se refugiem em comportamentos nocivos, como compulsões alimentares ou o consumo abusivo de álcool.

Ele afirma que pessoas que estejam sob ansiedade extrema e com dificuldade para se expressar podem precisar de medicação para atenuar os sintomas e tirar mais proveito da terapia.

Segundo o psiquiatra, se os sentimentos negativos persistirem por mais de um mês e estiverem associados a outros fatores, como pesadelos, medo e sintomas depressivos, é possível que o transtorno de estresse pós-traumático tenha se instalado.

A condição, que também costuma exigir tratamento medicamentoso, pode causar grandes impactos na vida do afetado por um longo período. Com frequência, o transtorno é acompanhado por problemas para dormir, dificuldade para se concentrar e sentimentos de isolamento, irritação e culpa.

‘Crescimento pós-traumático’

Para Caldato, o caminho para evitar o quadro é usar o episódio violento para reforçar relações e comportamentos positivos, estimulando o que ele chama de “crescimento pós-traumático”.

“O mais importante é dar apoio psicológico para que as pessoas possam enxergar a tragédia por outro ângulo – para que se sintam amparadas, protegidas, possam se cuidar, valorizar mais a vida e a família, ter urgência em buscar a felicidade.”

Segundo a psicóloga Maria Helena Franco, até quem não estava presente no massacre e não tem qualquer relação com as vítimas pode sofrer seus impactos quando exposto a imagens, notícias ou relatos sobre o evento. Essa reação é conhecida como trauma vicário ou estresse traumático secundário.

“Tem um fio que nos une que é a empatia, a questão humana. Todo mundo fica tocado, assustado. Não é um impacto menos importante e ele deve ser visto e considerado”, afirma Franco, que coordena o Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP, onde é professora titular de Psicologia.

Segundo Franco, o primeiro passo para superar o trauma vicário é aceitar o sofrimento provocado pelo massacre.

“Quando você está sofrendo mas entra num raciocínio de que não deveria sofrer pois não estava lá, não conhecia ninguém, você impossibilita que o sentimento seja elaborado. Só que não, ele continua ali, na mente.”

Luto coletivo

Ela diz que alguns grupos estão mais sujeitos a esse quadro, como bombeiros ou profissionais de saúde que lidam com pessoas traumatizadas. “É preciso que eles estejam preparados para trabalhar com crises, com sofrimento intenso, com luto. Porque eles também podem chegar a um limite e até adoecer.”

Franco afirma que também merecem atenção vizinhos da escola e outros moradores de Suzano.

“De repente Suzano, uma cidade pacata, ficou associada ao massacre – alguns passaram a se referir ‘ao drama de Suzano’. É uma marca, uma ferida, e isso é sério. O tecido social sofreu um rombo.”

Ela diz que, além dos atendimentos individuais, o trauma precisa ser trabalhado de maneira coletiva. “É importante pensar em formas de unir os alunos, as escolas, as várias comunidades envolvidas. É daí, do coletivo, que virá a força de reconstrução.”

Estresse Traumático Secundário

Em artigo publicado em 2018 pela Vanderbilt University (EUA), o pesquisador Chad Buck, PhD em Psicologia Clínica, diz que os sintomas do trauma vicário ou estresse traumático secundário são semelhantes aos do TEPT, mas menos intensos.

Segundo ele, a condição pode envolver fadiga crônica, tristeza, raiva, exaustão emocional, vergonha, medo e desconexão, entre outros sentimentos.

Segundo Buck, embora os estudos sobre esse distúrbio enfoquem profissionais de saúde mental, outras pessoas podem desenvolver os mesmos sintomas.

“Quem já vivenciou eventos semelhantes, tem TEPT pré-existente ou outras questões de saúde mental tem maior risco de sofrer uma acentuação dos sintomas e o desenvolvimento de estresse traumático secundário”, diz o psicólogo.

‘Divisor de águas’

Para Maria Helena Franco, o massacre será “um divisor de águas” para os alunos sobreviventes. “Há uma situação muito particular que agrava a situação: eles são ao mesmo tempo sobreviventes e testemunhas. São duas experiências muito fortes.”

Franco afirma que o acompanhamento dos jovens deve levar em conta os registros sensoriais vinculados a traumas, como barulhos, cheiros, cenas e movimentos.

“O cuidado precisa ser voltado para os registros que, se não forem tratados, vão ficar.” Segundo ela, o acompanhamento tem de durar vários anos. “É um trabalho de longuíssimo prazo.”
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Para ler a matéria na íntegra, acesse: https://vivabem.uol.com.br/noticias/bbc/2019/03/15/os-cuidados-para-proteger-a-saude-mental-de-quem-vive-traumas.htm

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A psicóloga Maria Helena Pereira Franco é autora de vários livros que abordam o luto, todos publicados pela Summus Editorial. Conheça abaixo alguns::

 

FORMAÇÃO E ROMPIMENTO DE VÍNCULOS
O dilema das perdas na atualidade
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas, Airle Miranda de Souza, Danielle do Socorro Castro Moura, Durval Luiz de Faria, Elizabeth Queiroz, Gabriela Golin, Geórgia Sibele Nogueira da Silva, Janari da Silva Pedroso, José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres, Maíra R. de Oliveira Negromonte, Vera Regina R. Ramires, Maria Helena Pereira Franco, Maria Julia Kovács, Maria Lucia C. de Mello e Silva, Maria Thereza de Alencar Lima, Roberta Albuquerque Ferreira, Rosane Mantilla de Souza, Silvia Pereira da Cruz Benetti, Soraia Schwan, Tereza Cristina C. Ferreira de Araújo

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.

 

A INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA EM EMERGÊNCIAS
Fundamentos para a prática
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Cristina Foloni Delduque da Costa, Karina Kunieda Polido, Julia Schmidt Maso, José Paulo da Fonseca, Isabela Garcia Rosa Hispagnol, Iara Boccato Alves, Gabriela Casellato, Ester Passos Affini, Eleonora Jabur, Lilian Godau dos Anjos Pereira Biasoto, Cristiane Corsini Prizanteli, Claudia Gregio Cukierman, Cibele Martins de Oliveira Marras, Ariana Oliveira, Ana Lucia Toledo, Adriana Silveira Cogo, Adriana Vilela Leite César, Viviane Cristina Torlai, Luciana Mazorra, Luiz Antonio Manzochi, Marcelo M. S. Gianini, Maria Angélica Ferreira Dias, Maria Helena Pereira Franco, Maria Inês Fernandez Rodriguez, Mariangela de Almeida, Priscila Diodato Torolho, Rachel Roso Righini, Reginandréa Gomes Vicente, Régis Siqueira Ramos, Samara Klug, Sandra Regina Borges dos Santos, Sandra Rodrigues de Oliveira, Suzana Padovan

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.

‘LUTO AFETA NÃO SÓ FAMILIARES, MAS TAMBÉM A SOCIEDADE, QUE SOFRE JUNTO’

Artigo publicado originalmente na coluna de Claudia Collucci
na Folha de S. Paulo, em 28/02/2019.

Nesses momentos, é comum emprestarmos um pouco da dor do luto coletivo para chorar as nossas próprias

Um grande sentimento de luto coletivo permeia o país desde a última sexta (25), quando uma barragem da mineradora Vale se rompeu em Brumadinho (MG), deixando um rastro de destruição na vida de moradores da região.

Até a tarde desta segunda (28), 65 corpos haviam sido encontrados. Há ainda quase 300 desaparecidos. Essa é uma experiência na qual nos vemos juntos, próximos, identificados a partir dessas perdas.

“Mesmo não tendo relação direta com os afetados, estamos abalados. Outra vez a perda de vidas em massa? Por que temos de passar por isso novamente? Dá uma sensação de que não estamos sendo bem tratados”, diz a psicóloga Maria Helena Franco, especializada em luto.

Também há uma identificação com essas mortes porque tendemos a nos colocar naquela situação. Na internet, várias pessoas relataram passeios que fizeram na região de Brumadinho, especialmente ao Instituto Inhotim.

Alguns estiveram hospedados na Pousada Nova Estância Inn, destruída na tragédia. Hóspedes e funcionários do lugar não sobreviveram.

Nesses momentos, é comum emprestarmos um pouco da dor do luto coletivo para chorar as nossas próprias. Por que precisamos disso? Porque muitas vezes não nos permitimos sentir e viver nossas perdas quando elas acontecem.

Para quem viveu a tragédia na pele, o luto tem diferentes facetas. Há aquele pela perda de parentes, amigos e colegas, que pode ser intensificado pelo fato de muitos corpos ainda não terem sido encontrados. Fazer o funeral é uma etapa fundamental para começar a elaborar o luto.

“Na falta dos corpos, fica um luto não concretizado, que não se materializa na vida das pessoas. Abre lugar para uma expectativa, uma esperança de que a pessoa poderá ser encontrada viva. Fica um luto ambíguo, que não se configura como verdadeiro”, diz a psicóloga.

Segundo ela, uma forma de ajudar as famílias enlutadas seria a realização de cerimônias em que os nomes das vítimas sejam ditos. “Os familiares precisam ser chamados a participar para que tenham muito clara a realidade do que está acontecendo.”

Além disso, existe também a dor pela perda da segurança, da estabilidade, do chão que literalmente foi embora.

Ainda hoje, muitas das vítimas da tragédia de Mariana seguem enlutadas. No maior desastre ambiental do Brasil causado pela ruptura da barragem do Fundão, em 2015, 19 pessoas morreram e ecossistemas foram contaminados com o vazamento de rejeitos de minério.

Segundo estudo da UFMG, 82,9% das crianças e jovens que presenciaram o desastre têm sinais de transtorno de estresse pós-traumático. Nos adultos, 12% tiveram esse diagnóstico. Pesadelos recorrentes relacionados são relatados por 19,5% dos entrevistados. Um quarto apresenta insônia, 46,3%, irritabilidade ou crises de raiva. Foram ouvidas 276 vítimas.

Entre os jovens, 39,1% têm sinais de depressão e 26,1%  apresentaram comportamento suicida. Entre os adultos, o risco de suicídio foi identificado em 16,4% das pessoas.

Há um claro sofrimento social, um luto, como pano de fundo disso tudo. Os moradores perderam parentes e amigos, foram obrigados a deixar casas, objetos pessoais de forma abrupta. O pouco que sobrou foi saqueado.

Eles perderam a sensação de pertencimento, diz Franco. São pessoas que nasceram na zona rural e foram realocadas desde então para a cidade.

Cerca de 60% dos atingidos dizem sofrer preconceito de outros moradores, já que muitos perderam o emprego por causa da paralisação das atividades da mineradora Samarco desde a tragédia. Ficam revoltados ao verem as vítimas recebendo um valor mensal como forma de ressarcimento.

Nem as crianças são poupadas. Muitas sofrem bullying nas escolas, sendo chamadas, por exemplo, de pés-de-lama. Isso mostra que o potencial de destruição dessa lama toda é muito maior, vai além das mortes. Pode continuar matando, de forma figurada, também aqueles que sobreviveram a ela.

Para ler na íntegra, acesse (restrito a assinantes): https://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/2019/01/luto-afeta-nao-so-familiares-mas-tambem-a-sociedade-que-sofre-junto.shtml

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A psicóloga Maria Helena Pereira Franco é autora de vários livros que abordam o luto, todos publicados pela Summus Editorial. Conheça abaixo algumas de suas obras:

 

A INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA EM EMERGÊNCIAS
Fundamentos para a prática
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Cristina Foloni Delduque da Costa, Karina Kunieda Polido, Julia Schmidt Maso, José Paulo da Fonseca, Isabela Garcia Rosa Hispagnol, Iara Boccato Alves, Gabriela Casellato, Ester Passos Affini, Eleonora Jabur, Lilian Godau dos Anjos Pereira Biasoto, Cristiane Corsini Prizanteli, Claudia Gregio Cukierman, Cibele Martins de Oliveira Marras, Ariana Oliveira, Ana Lucia Toledo, Adriana Silveira Cogo, Adriana Vilela Leite César, Viviane Cristina Torlai, Luciana Mazorra, Luiz Antonio Manzochi, Marcelo M. S. Gianini, Maria Angélica Ferreira Dias, Maria Helena Pereira Franco, Maria Inês Fernandez Rodriguez, Mariangela de Almeida, Priscila Diodato Torolho, Rachel Roso Righini, Reginandréa Gomes Vicente, Régis Siqueira Ramos, Samara Klug, Sandra Regina Borges dos Santos, Sandra Rodrigues de Oliveira, Suzana Padovan

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.

 

FORMAÇÃO E ROMPIMENTO DE VÍNCULOS
O dilema das perdas na atualidade
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas, Airle Miranda de Souza, Danielle do Socorro Castro Moura, Durval Luiz de Faria, Elizabeth Queiroz, Gabriela Golin, Geórgia Sibele Nogueira da Silva, Janari da Silva Pedroso, José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres, Maíra R. de Oliveira Negromonte, Vera Regina R. Ramires, Maria Helena Pereira Franco, Maria Julia Kovács, Maria Lucia C. de Mello e Silva, Maria Thereza de Alencar Lima, Roberta Albuquerque Ferreira, Rosane Mantilla de Souza, Silvia Pereira da Cruz Benetti, Soraia Schwan, Tereza Cristina C. Ferreira de Araújo

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.

 

O RESGATE DA EMPATIA
Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Valéria Tinoco, Sandra Rodrigues de Oliveira, Rosane Mantilla de Souza, Regina Szylit Bousso, Plínio de Almeida Maciel Jr, Maria Helena Pereira Franco, Gabriela Casellato, Déria de Oliveira, Daniela Reis e Silva, Cristiane Ferraz Prade, Ana Cristina Costa Figueiredo

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como aborto espontâneo, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.

 

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Leo Pessini, Ana Catarina Tavares Loureiro, Avimar Ferreira Junior, Daniel Neves Forte, Daniela Achette, Elaine Gomes dos Reis Alves, Elaine Marques Hojaij, Elvira Maria Ventura Filipe, Emi Shimma, Fernanda Cristina Marquetti, Gabriela Casellato, Gilberto Safra, Gláucia Rezende Tavares, Karina Okajima Fukumitsu, Teresa Vera Gouvea, Marcello Ferretti Fanelli, Marcos Emanoel Pereira, Maria Carlota de Rezende Coelho, Maria Helena Pereira Franco, Maria Julia Kovács, Maria Luiza Faria Nassar de Oliveira, Mayra Luciana Gagliani, Monja Coen Roshi , Monja Heishin, Nely Aparecida Guernelli Nucci, Patrícia Carvalho Moreira, Pedro Morales Tolentino Leite, Protásio Lemos da Luz

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘LUTO: PRESSÃO PARA BUSCAR A FELICIDADE ATRAPALHA A SUPERAÇÃO DE UMA MORTE’

Matéria de Simone Cunha e Veridiana Mercatelli, publicada no Universa,
do UOL, em 02/12/2018.

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“Após o enterro do meu pai, senti uma dor inexplicável, chorei por semanas. Ele era tudo para mim”, conta Priscila Janaína Pereira, 40 anos, auxiliar administrativo, que perdeu o pai em decorrência de um câncer, há 11 anos. Ela conta que, durante esse período, teve muitos momentos de revolta, pois o pai era seu alicerce. Mas precisou amadurecer na marra: “Tive uma gestação de risco, meu filho nasceu com insuficiência respiratória, sopro e hipoglicemia. Tive hemorragia e depois depressão pós-parto. Há três anos, passei por um outro problema e fui percebendo que uma dor supera a outra. Não esqueci o meu pai, mas saí do luto”.

De acordo com a psicóloga Sarah Vieira Carneiro, que estuda o luto há mais de dez anos, a dificuldade em lidar com a perda está ligada à rejeição a situações adversas. A ideia de que é preciso buscar a felicidade o tempo todo, tão comum na cultura ocidental, contribui para isso. “O enlutado é aquele a quem devemos evitar, não só porque não sabemos o que dizer a ele, mas porque ele nos remete às nossas mais profundas fragilidades”, avalia a especialista. Segundo Sarah, vivemos em uma sociedade incapaz de digerir pequenas frustrações: “É por isso que ficamos pasmados diante da morte e do luto e realizamos todas as manobras para mantê-los à distância”.

Há várias formas de vivenciar

Apesar de ser doloroso, é importante lembrar que o luto não é um obstáculo a ser superado. Para Maria Helena Pereira Franco, coordenadora do Laboratório de Luto (LELu) da PUC-SP, essa é uma vivência muito importante. “O luto precisa ser vivido, é uma experiência dolorosa, mas que possibilita uma construção de identidade e de significados importante”, explica.

A intensidade do sofrimento que a situação provoca depende de vários fatores, como a qualidade da relação mantida com a pessoa que se foi. “Além da dor, da falta, pode haver outras questões que não ficaram bem resolvidas, como arrependimentos”, comenta.

Um ponto bastante relevante é a condição em que se deu a separação: se houve uma morte violenta ou súbita, por exemplo, a superação pode ser mais difícil.

Para Andréa Copcinksi, 46 anos, chef confeiteira, a morte repentina do pai, há 21 anos, foi um trauma terrível. “Se não fosse minha mãe, acho que estaríamos perdidos. Ela juntou nosso medo de viver sem meu pai e transformou em força”, conta. Na época, Andréa não pensou em buscar ajuda para superar a perda, mas acredita que o processo poderia ter sido menos doloroso se houvesse agido de forma diferente: “Creio que um profissional teria nos auxiliado a viver os anos seguintes com menos ansiedade. Mas descobri que a gente aprende a conviver com a saudade, com a ausência, mas guarda no coração esse monte de amor que não pode mais dar”.

É preciso cuidado para não adoecer

Um luto que ocasiona muito sofrimento ou se prolonga pode levar à depressão em pessoas com predisposição à doença. A literatura acerca do tema sugere que o luto pode durar até dois anos. Porém, Sarah defende que, em um mundo com experiências tão diversas, pode ser um desrespeito ao enlutado impor-lhe um prazo para voltar a sorrir: “Não podemos acreditar que pessoas reajam às perdas de modo universal. Cada perda é única, com características e tempo próprios”.

De qualquer forma, quando o luto se torna um peso, impedindo que aquele que fica retome a própria vida, é essencial buscar ajuda. “Em princípio, a pessoa deveria ser avaliada por quem entende de luto. Algumas manifestações do luto são semelhantes às da depressão e o diagnóstico pode ser equivocado. Nem sempre o luto precisa ser medicado. Precisa ser entendido, avaliado, para se pensar a melhor conduta”, alerta a especialista da PUC.

Sandra Paton, 48, secretária executiva, perdeu o marido subitamente, com um infarto fulminante, há dois anos. “Tudo ficou escuro, perdeu o brilho e o sabor. Fiquei alguns dias em estado de choque. Muitos amigos por perto, mas não via nem ouvia direito”, fala. Reviver o assunto ainda causa muita dor, mas, para enfrentar a perda, ela decidiu buscar ajuda em um grupo religioso: “Encontrei a paz e o entendimento da morte. Percebi que estava superando o luto quando consegui contar a minha história sem chorar”.

Segundo a psicóloga, cercar-se de pessoas que entendem seu sentimento e respeitem o seu tempo e as suas reações é essencial. Poder falar é importante para transgredir a perda: “Quando a morte vem, desestabiliza tudo: não sabemos mais em quem acreditar, questionamos nossas relações, nossa fé, nossas crenças”. Ela diz que, nesse processo de ver tudo de ponta cabeça, podemos descobrir coisas únicas sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre nós mesmos. “O crescimento não é uma regra, mas existe uma certa sabedoria no luto, aquele conhecimento que só tem quem colocou tudo em xeque, passou tudo a limpo e pode escolher ser diferente”, avalia Sarah.

Processo de aceitação também é singular

Falar sobre o luto com um pouco mais de naturalidade pode auxiliar no processo de aceitação. “Há coisas que não podemos controlar, estão fora da nossa linha de ação: a morte é a maior delas”, diz Sarah. Por isso, a ausência de sofrimento não significa falta de sentimento pela perda. “Perdi meu irmão em um assalto, com um tiro na cabeça. Não chorei, fiquei meio em choque. Sou de Manaus, mas estou em São Paulo há 15 anos e sempre imaginei que teria de fazer uma viagem para enterrar alguém, porém, jamais imaginei que pudesse ser meu irmão”, fala Adriana Chaves, 40 anos, editora de livros.

Ao retornar, ela mergulhou no trabalho. Como não convivia com o irmão há algum tempo, a ficha demorou a cair. Em São Paulo, a vida continuava na mesma rotina. “Certo dia, ouvi uma música que me lembrava muito ele, e me atentei que já fazia um ano que meu irmão havia partido. Fui para o banheiro e chorei sem parar. No dia seguinte, fiquei bem e acredito que foi o fim do meu luto”.

Maurício Serafim explica que o luto só termina, de fato, quando se aceita a perda. “No momento em que você volta a se amar, a cuidar de si, volta a viver”, garante. O cuidado com as outras pessoas que ficaram também é um sinal de superação. Mãe de gêmeas, a jornalista Marley Galvão, 47 anos, perdeu uma das filhas em 2011. “A Letícia apresentou uma grave infecção e não resistiu. A Isabela perdeu 80% do encéfalo e, hoje, faço de tudo para mantê-la bem. Creio que nunca me dei o direito ao luto pelo fato de a minha outra filha ter ficado com muitas sequelas. Tenho que seguir em frente, pois não consigo pensar em perdê-la também”, afirma.

Para ler na íntegra, acesse: https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/12/02/luto-e-processo-doloroso-mas-tambem-transformador.htm

 

Conheça os livros publicados pela Summus que têm a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, uma das fontes da matéria, entre os autores:

 

FORMAÇÃO E ROMPIMENTO DE VÍNCULOS
O dilema das perdas na atualidade
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Maria Cristina Lopes de Almeida AmazonasAirle Miranda de SouzaDanielle do Socorro Castro MouraDurval Luiz de FariaElizabeth QueirozGabriela GolinGeórgia Sibele Nogueira da SilvaJanari da Silva PedrosoJosé Ricardo de Carvalho Mesquita AyresMaíra R. de Oliveira NegromonteVera Regina R. RamiresMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Lucia C. de Mello e SilvaMaria Thereza de Alencar LimaRoberta Albuquerque FerreiraRosane Mantilla de SouzaSilvia Pereira da Cruz BenettiSoraia SchwanTereza Cristina C. Ferreira de Araújo

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.

A INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA EM EMERGÊNCIAS
Fundamentos para a prática
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Cristina Foloni Delduque da CostaKarina Kunieda PolidoJulia Schmidt MasoJosé Paulo da FonsecaIsabela Garcia Rosa HispagnolIara Boccato AlvesGabriela CasellatoEster Passos AffiniEleonora JaburLilian Godau dos Anjos Pereira BiasotoCristiane Corsini PrizanteliClaudia Gregio CukiermanCibele Martins de Oliveira MarrasAriana OliveiraAna Lucia ToledoAdriana Silveira CogoAdriana Vilela Leite CésarViviane Cristina TorlaiLuciana MazorraLuiz Antonio ManzochiMarcelo M. S. GianiniMaria Angélica Ferreira DiasMaria Helena Pereira FrancoMaria Inês Fernandez RodriguezMariangela de AlmeidaPriscila Diodato TorolhoRachel Roso RighiniReginandréa Gomes VicenteRégis Siqueira RamosSamara KlugSandra Regina Borges dos SantosSandra Rodrigues de OliveiraSuzana Padovan

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.

O RESGATE DA EMPATIA
Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Valéria TinocoSandra Rodrigues de OliveiraRosane Mantilla de SouzaRegina Szylit BoussoPlínio de Almeida Maciel JrMaria Helena Pereira FrancoGabriela CasellatoDéria de OliveiraDaniela Reis e SilvaCristiane Ferraz PradeAna Cristina Costa Figueiredo

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como aborto espontâneo, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.


VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Leo PessiniAna Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresKarina Okajima FukumitsuTeresa Vera GouveaMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja Heishin Nely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da Luz

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘EXISTE UM ‘PRAZO DE VALIDADE’ PARA O LUTO? ATÉ QUANDO ELE É NORMAL?’

Matéria de Gabriela Ingrid, publicada no Do UOL VivaBem, em 27/11/2018.

“Já se passaram oito anos da morte de um dos meus filhos. Sentir muito ainda e não poder falar no assunto sem chorar é normal?”

O luto é um processo que ocorre em todos os seres humanos quando há uma perda. Sofremos microlutos todos os dias, com expectativas, desejos que não se realizam, ideias que não dão certo. Mas existem os lutos maiores, como uma morte, a perda de emprego, de oportunidades. Em casos menores, nós vamos lidando com isso, superando e a vida continua. Quando se trata de perdas mais graves, como a morte de um filho, uma migração forçada ou até uma amputação, a sensação é mais intensa e demorada.

Um período de três meses a um ano é a media de duração do luto, mas pode chegar a até dois anos. Se a tristeza não diminui e o indivíduo não consegue retomar a vida, fica o tempo todo se sentindo culpado e infeliz, o problema se torna um luto patológico. Nesse caso, a depressão pode entrar em jogo e a busca por ajuda profissional, como tratamento psiquiátrico ou psicoterapêutico, pode ajudar.

É importante ressaltar que uma pessoa que sofre uma perda tão grande, como a de um filho, nunca vai esquecer essa situação. Ela vai se lembrar, principalmente em datas especiais, como aniversários. Mas isso tem que ser natural, sem tanta dor. Ela tem que trabalhar o luto até conseguir aceitar a realidade. E não pense que seguir em frente é algo controlável. É um processo inconsciente e pessoal que implica na necessidade de se adaptar ao mundo sem essa pessoa. Costuma-se dizer que a perda é para sempre e, neste sentido, sempre seremos afetados por ela. Mas o luto não é para sempre, ou seja, sempre é possível se organizar após uma perda.

Fontes: Valéria Ulbricht Tinoco, mestre e doutora pelo Programa de Psicologia Clínica da PUC-SP, cofundadora, professora e supervisora do instituto de psicologia Quatro Estações, especializado no atendimento a pessoas enlutadas; Roosevelt Cassorla, médico psiquiatra e psicanalista, analista didata da SBPSP (Sociedade Brasileira Psicanálise de São Paulo) e professor titular da Unicamp.

Para acessar na íntegra: https://vivabem.uol.com.br/noticias/redacao/2018/11/27/existe-um-prazo-de-validade-para-o-luto-ate-quando-ele-e-normal.htm

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Valéria Ulbricht Tinoco é uma das coautoras no livro Resgate da empatia, da Summus. Conheça-o:

O RESGATE DA EMPATIA
Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Valéria TinocoSandra Rodrigues de OliveiraRosane Mantilla de SouzaRegina Szylit BoussoPlínio de Almeida Maciel JrMaria Helena Pereira FrancoGabriela CasellatoDéria de OliveiraDaniela Reis e SilvaCristiane Ferraz PradeAna Cristina Costa Figueiredo
SUMMUS EDITORIAL

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como aborto espontâneo, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.

 

‘APÓS EXPERIÊNCIAS FAMILIARES, PSICÓLOGA VIRA ‘SUICIDOLOGISTA’ PARA PREVENIR CASOS’

…………………………………..Matéria de Marcella Franco, publicada na Folha de S. Paulo (versão online em 29/09/2018 e versão impressa em 30/09/2018)

Karina Fukumitsu, 47, atende familiares e alunos de escolas onde ocorreram suicídios

A primeira providência que Karina Fukumitsu, 47, toma antes de começar um atendimento é tirar os sapatos. Seja em consultas particulares ou em palestras, a psicóloga está sempre descalça e trajando roupas claras, como uma maneira, ela explica, de celebrar sua conexão com a vida. Fukumitsu é especialista em suicídios, e, atualmente, presta serviço a cinco colégios paulistanos com programas de prevenção e posvenção, em uma espécie de gestão de crise após a morte de um aluno.

Sua relação com o tema vai além da teoria. Quando criança, presenciou diversas tentativas de suicídio da mãe, a quem acudia com visitas desesperadas ao pronto-socorro. Nelas, chegou a ouvir médicos plantonistas sugerirem que a família colocasse mais afinco nas investidas, para que finalmente alguma resultasse exitosa.

Da constatação de que era preciso que a sociedade conversasse melhor sobre o tema, Fukumitsu tornou-se “suicidologista”. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP), ela coordena o Programa R.A.I.S.E (Ressignificações e Acolhimento Integrativo do Sofrimento Existencial), no qual dedica-se a amparar parentes e amigos de pessoas que tiraram a própria vida. Ela conversou com a Folha em seu consultório, em São Paulo.

Por que as pessoas se interessam muito mais em esmiuçar detalhes de um suicídio do que, por exemplo, de um homicídio? De onde vem essa curiosidade?

Entre homicídio e suicídio há uma grande diferença. No homicídio, é o outro que agride e aniquila, enquanto no suicídio há o controle e a escolha da pessoa. Por isso temos algumas normas ditadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) que recomendam, por exemplo, não mostrar o método letal, não fazer a notificação de forma sensacionalista nem publicar fotos e notas de suicídio.

Quais são as consequências quando se desrespeita essas regras?

Você alimenta a elucubração. O suicídio já é uma morte que já vai causar uma necessidade intensa de explicações. E, quando a gente oferece apenas uma para um suicídio, a gente está se tornando reducionista, sendo que o suicídio precisa ser compreendido por um viés multifatorial. Apresentar explicações de causa e efeito é uma invasão à pessoa que se matou. Não se pode confundir o ato com uma história de vida. Se a gente não explica a nossa vida de uma maneira única, por que vai explicar a morte?

O suicídio tem culpados?

De jeito nenhum. Culpa é um arrependimento das ações que você não fez, uma utopia de que seria possível mudar o desfecho da situação. Se você soubesse que alguém ia se matar, você não faria tudo diferente? O suicídio é uma morte que causa muita culpa, e o que o sobrevivente enlutado menos precisa é ser acusado pela morte de alguém.

O que você recomenda quando um chega ao seu consultório, por exemplo, a mãe de uma pessoa que cometeu suicídio e que sente culpa?

A primeira coisa é que não adianta eu falar “não sinta culpa”, porque isso é não legitimar a dor e o sofrimento. A primeira conduta é legitimar essa dor, perguntando inclusive do que você se culpa. Digo que é como estar em uma montanha russa, na qual em alguns momentos você vai pensar direto nessa pessoa, e, em outros, você vai lembrar que ainda continua vivo apesar desse sofrimento.

Qual é o aspecto mais doloroso do suicídio?

O “nunca mais”.

Como funciona na prática o trabalho quando é chamada por uma escola?

Quem me contata geralmente é o diretor, contando que houve uma morte por suicídio. É preciso, então, alinhar com a família se vamos poder dizer que foi uma morte por suicídio. A primeira coisa é preservar a imagem da pessoa e dos familiares.

E caso a família diga não?

Daí tento que se permita ao menos contar para as pessoas da escola. O que não podemos é omitir nem mentir que a situação aconteceu. Publicamente, não falamos nem o nome nem o ano escolar do aluno, mas é importante falar com os colegas dessa pessoa porque a notícia já está correndo. Sugiro também que parem as acusações, porque isso é o que mais rola em conversas de WhatsApp. Alinho que, quando perguntarem como foi, não vamos falar nada além de “foi por suicídio”. As pessoas têm a morbidade de perguntar se a pessoa se enforcou, se tomou remédios, se se atirou, e isso é só alimentar sensacionalismo.

Seu trabalho tem uma duração específica ou depende de cada caso?

Depois de uma palestra inicial para os gestores e professores, falo com os pais dos outros alunos, e depois com os alunos. No meu trabalho, eu preciso ser prescindível. Sou aquela que ninguém quer ver de novo. A morte de alguém faz lembrar a nossa própria finitude, então ela vai provocar uma percepção de que você também é finito. E, toda vez que um suicídio assim acontece, nós, pais, começamos a pensar que pode acontecer com o nosso filho.

​A demanda pelo seu trabalho aumentou recentemente?

Sim, a partir do posicionamento de um colégio neste ano. Isso porque antes ninguém conhecia o trabalho de prevenção e posvenção, e porque entendemos a necessidade de se pensar sobre o suicídio.

A senhora fala que não há uma única razão para um suicídio, mas o uso de redes sociais, o cyberbullying e jogos como Baleia Azul, aplicativos como Momo e séries como “13 Reasons Why” podem influenciar os jovens? Como os pais podem lidar com isso?

Estes jogos que dão tarefas como a de cometer suicídio vêm sendo investigados há tempos. Qualquer um que apareça deve ser conversado na família. Devemos recomendar que nossos filhos não entrem nos aplicativos, porque sabemos que há dificuldade para sair. Se um pai descobre que um filho já instalou algo assim, deve sugerir estratégias em conjunto com o filho, e mencionar a gravidade dessa última tarefa do suicídio.

Como se faz prevenção em uma escola sem assustar os pais?

Juntamos os funcionários e os pais para a palestra, e apresento programas de enfrentamento de adversidades, acolhimento de sentimentos, valorização da vida. Na posvenção eu olho para a dor, e na prevenção eu acolho o que provoca a dor.

E qual a receptividade?

Muito grande, porque ela não acontece na dor, diferentemente da posvenção, quando estou lidando com pessoas assustadas e impactadas. Ali é caos, é lidar com a crise e minimizar o impacto do tsunami.

Qual o protocolo que a senhora sugere às escolas na posvenção?

Se o suicídio aconteceu no mesmo dia, recomendo luto de um dia. As atividades são suspensas naquele momento, e, no dia seguinte, acontece o luto. E recomendo que este um dia de luto aconteça não só em casos de suicídio, que isso seja mantido quando morrer algum outro aluno, por outra causa. Assim reforçamos que não há privilégio à pessoa que se mata, para que o jovem não pense que “vale mais a pena” morrer por suicídio. Depois, no segundo dia, não há conteúdo programático, mas, sim, uma conversa. Sugiro que os professores levem lenços de papel e deixem estrategicamente colocados na sala de aula.

O suicídio é a segunda causa de morte no mundo entre jovens de 15 a 29 anos de acordo com a OMS. O que estamos fazendo de errado?

O suicídio sempre aconteceu, mas, atualmente, estamos vivendo uma época em que precisamos prestar mais atenção aos nossos jovens, dar nosso tempo a eles. E não é qualquer tipo de tempo, é tempo de qualidade. Se possível, procure se aproximar de quem você ama, porque aí, sim, você consegue fazer alguma coisa.

SINAIS DE ALERTA GERAIS

  • Falar sobre querer morrer, não ter propósito, ser um peso para os outros ou estar se sentindo preso ou sob dor insuportável
  • Procurar formas de se matar
  • Usar mais álcool ou drogas
  • Agir de modo ansioso, agitado ou irresponsável
  • Dormir muito ou pouco
  • Se sentir isolado
  • Demonstrar raiva ou falar sobre vingança
  • Ter alterações de humor extremas

PARA DEPRESSÃO EM ADOLESCENTES

  • Mudanças marcantes na personalidade ou nos hábitos
  • Piora do desempenho na escola ou em outras atividades
  • Afastamento da família e de amigos
  • Perda de interesse em atividades de que gostava
  • Descuido com a aparência
  • Perda ou ganho inusitado de peso
  • Comentários autodepreciativos persistentes
  • Pessimismo em relação ao futuro, desesperança
  • Comentários sobre morte, sobre pessoas falecidas e interesse por essa temática
  • Doação de pertences que valorizava

ALGUNS MITOS SOBRE O SUICÍDIO

“Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir uma pessoa a isso”

Questionar de modo sensato e franco fortalece o vínculo com a pessoa, que se sente acolhida e respeitada

“Ele está ameaçando o suicídio apenas para manipular os outros”

Muitas pessoas que se matam dão sinais verbais ou não verbais de sua intenção para amigos, familiares ou médicos. Não se pode deixar de considerar a existência desse risco

“Quem quer se matar se mata mesmo”

Essa ideia pode conduzir ao imobilismo. As pessoas que pensam em suicídio frequentemente estão ambivalentes entre viver ou morrer. Prevenção é impedir os casos que são evitáveis

“Uma vez suicida, sempre suicida”

A elevação do risco de suicídio costuma ser passageira e relacionada a algumas condições de vida. A ideação suicida não é permanente. Pessoas que já tentaram suicídio podem viver, e bem, uma longa vida

O QUE FAZER

  • Não deixe a pessoa sozinha
  • Tire de perto armas de fogo, álcool, drogas ou objetos cortantes
  • Leve a pessoa para uma assistência especializada
  • Ligue para canais de ajuda

188 ou 141
são os telefones do Centro de Valorização da Vida (CVV). Também é possível receber apoio emocional via internet (www.cvv.org.br), email, chat e Skype 24 horas por dia

90%
das pessoas que se suicidam possuíam transtornos mentais; elas poderiam ter sido tratadas

Para ler a matéria na íntegra, acesse:
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/10/apos-experiencias-familiares-psicologa-vira-suicidologista-para-prevenir-casos.shtml

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Karina O. Fukumtisu é organizadora e coautora do livro “Vida, morte e luto”, recém-lançado pela Summus. Conheça-o:

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Ana Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresLeo Pessini, Karina Okajima FukumitsuMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja HeishinNely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da LuzTeresa Vera Gouvea
SUMMUS EDITORIAL

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘MENOS DE 10% DOS HOSPITAIS TÊM EQUIPES DE CUIDADOS PALIATIVOS NO BRASIL’

………………………………………….Matéria de Cláudia Collucci e Mariana Versolato, publicada na Folha de S. Paulo em 14/10/2018

Gargalo começa nas universidades; apenas 14% dos cursos de medicina têm formação específica

Menos de 10% dos hospitais brasileiros têm equipes de cuidados paliativos, serviço essencial para que doentes graves e sem chances de cura tenham qualidade de vida até o fim.

Levantamento inédito da Academia Nacional de Cuidados Paliativos mostra que são apenas 177 serviços registrados nos 2.500 hospitais brasileiros com mais de 50 leitos—a maioria (58%) no Sudeste.

“Não há coordenação, muitos cuidados são oferecidos de forma isolada e irregular”, diz Daniel Forte, presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, que apresentou os dados nesta quinta (11) em evento em Lima, no Peru.

Entre os países latino-americanos, o Brasil só está à frente da República Dominicana e da Venezuela em termos de disponibilidade de serviços de cuidados paliativos. Uruguai, Argentina, Costa Rica e Chile são os mais bem colocados.

No evento, representantes de governos, da academia e da sociedade civil criaram uma força tarefa com objetivo de incentivar países da região a adotarem políticas públicas de cuidados paliativos.

Segundo Emilio Herrera, presidente do New Health Foundation, entidade que desenvolve modelos de atenção em cuidados paliativos, os últimos meses de vida acumulam mais sofrimento e mais gastos aos sistemas de saúde.

“Com os cuidados paliativos, os custos podem cair de 30% a 50%. Evitando internações e terapias desnecessárias, pode-se usar recursos para serviços que realmente vão fazer a diferença ao doente.”

Uma comissão de especialistas da revista Lancet elaborou um pacote essencial do que deve nortear as políticas públicas, ancorado em três pilares: expansão dos cuidados paliativos a todos os níveis da assistência, medicamentos genéricos para controle da dor, como morfina oral e injetável, e a capacitação e treinamento de profissionais da saúde.

Segundo Felicia Marie Knaul, da Universidad de Miami e membro da comissão Lancet, o pacote essencial tem custo de US$ 3 (R$ 11) per capita, dependendo do país e do tipo de doença.

“Muitos países pagam caro por medicamentos para dor porque não negociam bem”, diz Knaul.

Para os especialistas, porém, o que mais emperra o acesso a drogas como a morfina não é o preço, mas mitos e preconceitos que atingem médicos e familiares dos doentes.

“Não medicam uma pessoa com dor aguda nos seus momentos finais por medo da dependência. É o que chamamos de opiofobia”, diz Knaul.

Para Nicolás Dawidowicz, coordenador do Programa Nacional de Cuidados Paliativos da Argentina, parte do mito remonta ao tempo em que a prescrição da morfina só ocorria no fim da vida.

“Quando o paciente já estava morrendo, davam morfina para que ele não sofresse. As pessoas passaram a associá-la à morte. É um analgésico seguro, não acelera a morte.”

A Argentina é um dos países da América Latina em que doentes graves mais têm acesso à morfina, com consumo per capita anual de 14 mg , contra 10,6 no Brasil. A média global é de 61,3 mg per capita.

Com fabricação própria, a Argentina está capacitando equipes de saúde da família a prescrever morfina em um programa de cuidados paliativos na atenção primária.

“Garantir o acesso a essas substâncias ao doente com dor é uma obrigação por parte dos Estados. Do contrário, o paciente está condenado a sofrer uma dor desnecessária, uma tortura”, diz Dawidowicz.

No Brasil, os gargalos já começam na formação médica. Só 14% dos cursos de medicina oferecem a disciplina de cuidados paliativos e em só 6% desses ela é obrigatória.

Para Tania Pastrana, presidente da Associação Latino Americana de Cuidados Paliativos, a falta de educação sobre o tema é uma das principais barreiras ao acesso.

“Se os médicos e familiares dos doentes conhecessem mais sobre os cuidados paliativos e o manejo da dor, passariam a exigir isso.”

Porém, o que se vê hoje, é muitas vezes uma disputa entre especialidades. Há oncologistas que resistem em encaminhar pacientes aos cuidados paliativos e insistem em tratamentos inúteis.

“Há estudos mostrando que os cuidados paliativos melhoram a qualidade de vida, os sintomas, a aderência ao tratamento e prolongam a vida. Eu pergunto aos oncologistas: se existisse um remédio que fizesse isso tudo, você não daria ao seu paciente?”

O caso do engenheiro aposentado Armando Colotto, 88, exemplifica o que são os cuidados paliativos na prática. Com um problema cardíaco muito grave e incurável, ele já foi internado 13 vezes desde novembro de 2016.

“O coração dele está parando, parando, menos de 30% funciona. Nós íamos à emergência e era um terror. Colocaram até sonda sem necessidade”, conta a mulher, Clara, 79.

Foi então que o cardiologista sugeriu que um médico de cuidados paliativos acompanhasse o caso. “Eu estranhei quando ele falou em cuidados paliativos, foi um choque. Mas confio nele e aceitei.”

A partir daí, segundo Clara, Colotto voltou à vida. “Pela primeira vez ele falou o que estava sentindo. Ninguém sabia o que estava passando pela cabeça dele.”

Na sua fala, apareceu o medo de sentir dor, de ficar dependente dos outros. “O doutor Daniel [Forte] falou: ‘Você não vai sentir dor’. E aí começaram a dar morfina. O fato de alguém assegurar isso foi essencial, o ponto de virada. E ele ficou tranquilo.”

Até as internações estão diferentes, segundo ela. “Agora não ficam mais colocando fios, não tem nada invasivo. Todas as intervenções são feitas para suprimir as torturas que ele sofria, para dar conforto.”

Clara diz que tem parentes nos EUA e na Europa, e que nesses locais os cuidados paliativos são uma realidade, inclusive com o envolvimento da comunidade.

“O marido de uma amiga tinha câncer avançado e voluntários iam na casa dela todos os dias, cuidavam dele, da casa, das atividades dos dois. Aqui temos que avançar muito ainda. Faz tanta diferença…”

A jornalista Cláudia Collucci viajou a convite da Associação Latino Americana de Cuidados Paliativos

 

Para ler a matéria na íntegra (para assinantes ou cadastrados), acesse: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/10/menos-de-10-dos-hospitais-tem-equipes-de-cuidados-paliativos-no-brasil.shtml

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O médico Daniel Forte é um dos coautores do livro Vida, morte e luto, recém-lançado pela Summus.  Conheça a obra:

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Ana Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresLeo Pessini, Karina Okajima FukumitsuMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja HeishinNely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da LuzTeresa Vera Gouvea
SUMMUS EDITORIAL

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘ATRITOS EM TEMPO DE ELEIÇÃO ABREM ROMBOS NAS RELAÇÕES FAMILIARES’

……………………………………………Coluna de Cláudia Collucci, publicada em 09/10/2018, no jornal A Folha de S. Paulo.

………………..
Segundo psicóloga, está difícil entender que pensar diferente não é ser adversário

Essas eleições tóxicas continuam provocando efeitos adversos na saúde física e mental das pessoas. Não só pela insensatez de todas ordens e do clima de insegurança, mas também pelos conflitos familiares que têm surgido.

Nos últimos dias, vários amigos relataram profunda tristeza ao descobrir, por exemplo, que pais, irmãos ou parentes próximos são eleitores do candidato Jair Bolsonaro (PSL).

“Preciso de ajuda para enfrentar esse segundo turno. Meu pai fazendo campanha para o coiso já está demais”, disse uma amiga.

“Descobri que meus pais vão votar nele. E o pior: estão mentindo para mim. Meu pai disse que votaria no Álvaro Dias, e mamãe iria anular o voto. Minha sobrinha os desmascarou hoje. Estou arrasado”, comentou outro amigo.

“Estou me sentindo órfã”, desabafou outra.

Não faltam na trajetória do candidato à Presidência pelo PSL declarações machistas, racistas e de ódio às minorias. Em entrevista à TV Record, ele negou ter falado essas asneiras, ainda que exista farto material gravado e publicado a respeito disso.

A questão aqui não é o candidato, mas o endosso a essas ideias por meio do voto. Quando se trata de alguém não muito próximo, é mais fácil ignorar, excluir, bloquear ou colocar a pessoa no modo soneca. Mas e quando esse alguém é seu pai, sua mãe ou seu irmão?

Como um gay pode lidar com o sofrimento de ver o pai ou a mãe votando em alguém que já disse: “Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”?

Para falar sobre isso, entrevistei a psicóloga Maria Helena Franco, professora titular da PUC e uma das maiores especialistas brasileiras em situações de perdas e lutos. Veja o depoimento dela:

“Tenho ouvido muito de pessoas que estão vivendo um choque, uma decepção. Votar em Bolsonaro é muito mais do que escolher para um candidato à Presidência. É tudo o que vem nesse pacote e que está abrindo fissuras, rombos nas relações entre as pessoas.

A fala dele, o discurso contra gays, acabou virando porta-voz de algumas condições que já existiam nas famílias, mas que ficam meio camufladas, não autorizadas de serem expressas. Gosto de pensar no ventríloquo. A voz parece que sai do boneco, mas quem fala é o ventríloquo. Bolsonaro faz o papel desse boneco para sair a voz que as famílias não tinham coragem de trazer. E isso é uma ferida grande.

Existe todo um discurso de aceitação, de que somos bons, uma família que se ama, mas, de repente, aparece um boneco trazendo a voz da pessoa que não teve coragem de falar o que pensa.

Estou vendo muito tristeza nas famílias. Hoje [segunda, 8] foi um dia de consultório em que esse foi o tema principal. As pessoas estão tristes, preocupadas pela possibilidade de terem agido democraticamente e estarem num beco sem saída. A polarização fez muito mal, e isso se manifesta nas famílias.

Está muito difícil as pessoas conseguirem conversar e entender que pensar diferente não é ser adversário, que não se trata de enfrentamento. A intimidade da família permite que a gente converse com segurança. Mas, com os ânimos exaltados, isso está ameaçado. Ficou uma história de ‘nós contra eles’ —quem pensa diferente de mim é um adversário.

Acho isso grave. Família tem que nos dar uma base segura até para divergir, para falar “não dá mais para conversar, fui”. Mas tem que ter uma base segura, senão a gente se desarticula demais.

O Estado também é um representante de base segura para a gente se colocar de maneiras diversas, argumentar, divergir e ter liberdade para se expressar.

Luto significa rompimento de uma relação, de um vínculo significativo. Pode ser com uma pessoa, mas pode ser também com uma ideia. Essa abstração do luto é muito importante de pensar nesse momento.

Será que estamos falando de ideologias? De  projeto? O que se rompeu, o que não foi o desejado, o esperado? Espera-se que pessoas com mais de 16 anos já consigam lidar com frustração. Você tem um candidato de sua escolha, um partido, um projeto de governo que corresponde ao que você entenda como bom, certo, necessário, plausível. Mas se aquele fulano não é eleito, a gente se frusta. Será que a gente não consegue lidar com frustração? Será que a diferença ideológica precisa virar um cabo de guerra? Uma queda de braço?

O que acontece é que o nosso povo escavou trincheiras e ficou entrincheirado. Se a gente se coloca nessa posição de entrincheirado, é um luto que vai pedir que eu refaça significados. Significados de um projeto de país e de governo.

Esse luto por uma abstração fica difícil de se percebido, vem com cara de frustração. E as pessoas estão lidando muito mal com frustrações.” 

Para ler a coluna na íntegra (para assinantes ou cadastrados), acesse:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/2018/10/atritos-em-tempo-de-eleicao-abrem-rombos-nas-relacoes-familiares.shtml?loggedpaywall

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Maria Helena Pereira Franco é autora da Summus. Conheça seus livros sobre luto:

FORMAÇÃO E ROMPIMENTO DE VÍNCULOS
O dilema das perdas na atualidade
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Maria Cristina Lopes de Almeida AmazonasAirle Miranda de SouzaDanielle do Socorro Castro MouraDurval Luiz de FariaElizabeth QueirozGabriela GolinGeórgia Sibele Nogueira da SilvaJanari da Silva PedrosoJosé Ricardo de Carvalho Mesquita AyresMaíra R. de Oliveira NegromonteVera Regina R. RamiresMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Lucia C. de Mello e SilvaMaria Thereza de Alencar LimaRoberta Albuquerque FerreiraRosane Mantilla de SouzaSilvia Pereira da Cruz BenettiSoraia SchwanTereza Cristina C. Ferreira de Araújo

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.
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A INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA EM EMERGÊNCIAS
Fundamentos para a prática
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Cristina Foloni Delduque da CostaKarina Kunieda PolidoJulia Schmidt MasoJosé Paulo da FonsecaIsabela Garcia Rosa HispagnolIara Boccato AlvesGabriela CasellatoEster Passos AffiniEleonora JaburLilian Godau dos Anjos Pereira BiasotoCristiane Corsini PrizanteliClaudia Gregio CukiermanCibele Martins de Oliveira MarrasAriana OliveiraAna Lucia ToledoAdriana Silveira CogoAdriana Vilela Leite CésarViviane Cristina TorlaiLuciana MazorraLuiz Antonio ManzochiMarcelo M. S. GianiniMaria Angélica Ferreira DiasMaria Helena Pereira FrancoMaria Inês Fernandez RodriguezMariangela de AlmeidaPriscila Diodato TorolhoRachel Roso RighiniReginandréa Gomes VicenteRégis Siqueira RamosSamara KlugSandra Regina Borges dos SantosSandra Rodrigues de OliveiraSuzana Padovan

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.
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O RESGATE DA EMPATIA
Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Valéria TinocoSandra Rodrigues de OliveiraRosane Mantilla de SouzaRegina Szylit BoussoPlínio de Almeida Maciel JrMaria Helena Pereira FrancoGabriela CasellatoDéria de OliveiraDaniela Reis e SilvaCristiane Ferraz PradeAna Cristina Costa Figueiredo

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como aborto espontâneo, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.

 

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Leo PessiniAna Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresKarina Okajima FukumitsuTeresa Vera GouveaMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen RoshiMonja Heishin Nely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da Luz

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘SUICÍDIOS DE ESTUDANTES ACENDEM ALERTA EM ESCOLAS’

…………………………………..Matéria de Paula Ferreira e Clarissa Pains, publicada no jornal O Globo, em 19/08/2018

Especialistas afirmam que instituições de ensino devem se preparar para auxiliar alunos 
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RIO – No dia 14 de junho do ano passado, a rotina de uma família americana do estado de Nova Jersey foi interrompida bruscamente por uma tragédia. Aos 12 anos, a adolescente Mallory Grossman pôs fim à própria vida após ser vítima de bullying. Cerca de um ano depois do suicídio da jovem, seus pais decidiram mover uma ação judicial contra a Escola de Ensino Fundamental Copeland, por ter negligenciado seus alertas e não ter evitado a prática de bullying por parte dos colegas. A medida abriu uma discussão a respeito da responsabilidade das escolas no zelo pelo bem estar emocional e mental de seus alunos.

— Os sistemas escolares são 100% responsáveis pelo aprendizado emocional e acadêmico. Nós, pais, somos obrigados a mandar nossos filhos para a escola, temos direito a um ambiente de aprendizagem seguro e protegido. Eles precisam ser responsabilizados financeiramente pelo papel que desempenharam na morte de Mallory. Quando as escolas aprenderem que estão sob risco de serem processadas, começarão a implementar sistemas para proteger nossos filhos — disse Dianne Grossman, mãe de Mallory, em entrevista ao GLOBO.

A pressão por resultados exercida por muitas escolas acaba depositando uma carga de estresse nos estudantes, o que também pode ser prejudicial. No Brasil, a discussão ganhou força com relatos de casos trágicos desde o final de 2017, quando um estudante de 14 anos que seria vítima de bullying abriu fogo contra seus colegas em uma escola em Goiânia. Em abril deste ano, o suicídio de dois estudantes do Colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais de São Paulo, rendeu novos questionamentos sobre o papel das instituições de ensino nesses casos.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, entre 2011 e 2015 — últimos dados disponíveis —, a taxa de mortalidade de pessoas de 5 a 19 anos por suicídio foi de 1,7 a cada 100 mil habitantes. Em relação às tentativas de suicídio, o Sistema de Informação de Agravos e Notificação (Sinan) registrou 10.583 casos entre 2011 e 2016 cometidos por pessoas de 10 a 19 anos.

O pai de um estudante brasileiro de 16 anos que cometeu suicídio e pediu para não ser identificado defende maior atenção das escolas, mas diz que é errado eleger um “culpado”.

— A escola tem um papel fundamental, essas crianças passam até seis horas por dia lá dentro. É preciso ter um olhar cuidadoso. Meu filho reclamava de a escola ser puxada, de não olhar para o ser humano e dar sentido às provas que são feitas. Eu acho que isso fez parte do caldeirão de emoções que ele estava sentindo, mas não sei se foi algo definitivo. É um somatório de fatores. Eu tenho a dizer para os pais que prestem mais atenção, mas não tentem imputar isso à escola ou a outro ator. O problema é com o indivíduo .

A gravidade da questão entra aos poucos no radar das instituições de ensino. Pesquisadora da Unesp e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), que trabalha na prevenção ao bullying e no acolhimento de jovens, Luciene Tognetta afirma que quem mais recorre ao grupo não são as escolas, mas sim os pais de crianças e adolescentes. Criado em 2005, o Gepem treinou 15 instituições no estado de São Paulo, incluindo o Colégio Bandeirantes, para lidar com o apoio a jovens em situação emocional vulnerável.

— Existem casos em que o colégio assume para si uma responsabilidade, que não lhe cabe sozinho, mas que lhe cabe também. Ainda há no Brasil, no entanto, muitas escolas que não sabem o que fazer e optam por negligenciar esse tipo de problema ou silenciá-lo — diz ela.

A voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV) Patrícia Fanteza conta que, desde que os casos de suicídio de estudantes começaram a chamar mais atenção, ao longo do último ano, a procura de escolas por palestras aumentou.

— Muitos colégios perceberam que não podem mais fingir que isso não acontece — comenta. — O que eu mais ouço dos educadores é que eles conseguem ver quando existe algo errado com o aluno, mas não sabem como agir. Em muitos casos, acham a situação pode piorar se tocarem no assunto, então fingem que nada está acontecendo e torcem para que o jovem melhore sozinho. Para cada suicídio que ocorre, estima-se que haja pelo menos 20 tentativas. Não é pouca coisa.

HABILIDADES EMOCIONAIS

Especialista em suicídios e membro da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), Carlos Aragão Neto destaca que, no caso de jovens em idade escolar, os maiores fatores de risco para o suicídio são bullying, ciberbullying e ambiente de extrema pressão acadêmica. Aragão ressalta, porém, que nenhum suicídio é causado por apenas um aspecto.

— A grande característica do suicídio é ser multifatorial. Sem dúvida, o excesso de rigor em um colégio pode ser um fator de risco, e pode até ser um fator que chamamos de precipitante, que é a gota d’água. Mas, quando investigamos a fundo, vemos que houve uma longa história por trás daquele ato final (o suicídio). Nunca é um fator isolado, por isso acho grave apontar o dedo para uma instituição de ensino quando um suicídio acontece.

Mas, afinal, o que as escolas podem fazer? Para ele, é urgente inserir na matriz escolar métodos que desenvolvam habilidades sociais e emocionais, para que as crianças cresçam com mais resiliência para lidar com frustrações.

No Colégio Bandeirantes, após os dois suicídios do primeiro semestre, um grupo de alunos do ensino médio criou espontaneamente um grupo para acolher alunos com dificuldades. Eles participaram de treinamentos oferecidos pelo Gepem e se intitulam Comissão de Apoio Racional e Emocional (Care).

— Com o que aconteceu em abril, tivemos que contratar uma profissional em suicídio para que ela fizesse um trabalho que chama de posvenção, acolhendo os pais. Quanto à prevenção, já havíamos inserido aspectos de desenvolvimento emocional no colégio— conta Estela Zanini, coordenadora do programa do convivência do Colégio Bandeirantes.

Responsável pelo trabalho de posvenção no Bandeirantes, a psicóloga e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP, Karina Okajima Fukumitsu, diz que é preciso estabelecer uma relação de confiança entre escola e família:

— Cabe à escola orientar e informar aos pais quando houver uma mudança abrupta de comportamento. É necessário um pacto entre a escola e a família. A família, por sua vez, deve informar a escola caso o jovem tenha transtorno mental ou histórico de tentativas prévias de suicídio. É uma parceria.

Para ler a matéria na íntegra, acesse (restrito a assinantes e cadastrados):: https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/suicidios-de-estudantes-acendem-alerta-em-escolas-22990397

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A psicóloga Karina Okajima Fukumitsu é organizadora e uma das coautoras do livro recém-lançado pela Summus, Vida morte e luto – Atualidades brasileiras. Conheça a obra:

 

VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora: Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Leo PessiniAna Catarina Tavares LoureiroAvimar Ferreira JuniorDaniel Neves ForteDaniela AchetteElaine Gomes dos Reis AlvesElaine Marques HojaijElvira Maria Ventura FilipeEmi ShimmaFernanda Cristina MarquettiGabriela CasellatoGilberto SafraGláucia Rezende TavaresKarina Okajima FukumitsuTeresa Vera GouveaMarcello Ferretti FanelliMarcos Emanoel PereiraMaria Carlota de Rezende CoelhoMaria Helena Pereira FrancoMaria Julia KovácsMaria Luiza Faria Nassar de OliveiraMayra Luciana GaglianiMonja Coen Roshi Monja Heishin Nely Aparecida Guernelli NucciPatrícia Carvalho MoreiraPedro Morales Tolentino LeiteProtásio Lemos da Luz

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

‘A DOR DE QUEM CARREGA A LEMBRANÇA DO SUICÍDIO DE UM ENTE QUERIDO’

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), no mundo, a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida. Ainda assim, quase não se fala sobre o tema. “É um tabu. Tanto a sociedade quanto os sobreviventes do suicídio têm dificuldade em falar do assunto. Tirar a própria vida é um contrassenso em relação a tudo o que normalmente buscamos em nossa existência”, explica a psicóloga Valéria Tinoco, do Instituto Quatro Estações, especializado em luto, em São Paulo.

Quem enfrenta a perda costuma ter culpa, vergonha, fracasso e até raiva. “É importante que o enlutado entenda que o suicida estava adoecido emocionalmente e que procure encontrar um significado para o que aconteceu”, diz a especialista. Veja, a seguir, três depoimentos de pessoas que perderam entes queridos para o suicídio:

Kátia Maria de Fátima Arantes, 58, aposentada, Rio de Janeiro (RJ)

“Meu filho Daniel tinha 25 anos quando se matou, em casa, com um tiro, no dia 23 de agosto de 2001. Morávamos eu, meu marido (hoje ex), minha filha de 15 anos e minha avó de 88 anos. O Daniel era fruto de um casamento anterior, mas foi criado pelo meu segundo marido, pois o pai biológico dele sempre foi ausente. Éramos uma família feliz. Daniel, no entanto, já havia tentado o suicídio antes, ingerindo remédios. Apesar de ser deprimido desde a infância, estava passando por acompanhamento com uma psicóloga e uma psiquiatra. Além disso, era recém-formado em Psicologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Isso nos dava uma falsa tranquilidade. Na hora em que meu marido ligou para avisar o que tinha acontecido, tive forças para tomar um calmante e consegui chegar em casa. Meu corpo ficou sem coordenação, como se eu tivesse tido um AVC. Do meu emocional, não sobrou nada. Nessa situação, você não encontra saída, pois a morte é a única coisa que não tem volta. Nos primeiros meses, às vezes, eu dava com a cabeça na parede de tanto desespero. Tive muito apoio dos meus irmãos, do meu cunhado, dos professores e dos colegas do curso de Direito que eu fazia. Eles não deixaram que eu trancasse a faculdade e me formei no final de 2001. Minha filha amadureceu dez anos em um com a perda e o trauma. Foi ela que encontrou o irmão após o acontecido. Hoje, depois de mais de 14 anos, tenho momentos de alegria, mas a angústia da falta nunca passou. Perder um filho é perder a continuidade da sua família, perder todos os descendentes que poderiam vir, é perder o futuro, os netos e os bisnetos. Acho que o tabu a respeito do suicídio começa quando se fala em doença mental. No entanto, são problemas que acontecem em quase todas as famílias.”

Júlio César de Moura Nunes, 25, motoboy, Extremoz (RN)

“Meu irmão Paulo Vitor se matou quando tinha 25 anos. Era casado e trabalhava como técnico em informática. Foi no dia 1º de julho de 2009. Sabíamos que ele tinha depressão, mas já havia sido tratado. Um dia, ele saiu de moto como se fosse trabalhar. No meio do caminho, ligou para minha mãe e meu pai chorando, avisando que ia pular da ponte Milton Navarro (atração turística de Natal, sobre o rio Potengi). Ligou também para a polícia, avisando onde deixaria a moto e o capacete. Soube pela minha cunhada, que era mulher dele na época. Fiquei desnorteado, sem saber o que fazer. Andava pela casa e ficava pensando nos meus pais. Acho que todo mundo se sentiu um pouco culpado. Por que deixamos ele sair? Ele era estudioso e trabalhador. Cursou Filosofia na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Vivia me dando conselhos: não beba demais, não use drogas, estude, tenha um trabalho. Hoje, não sou muito de falar sobre isso, pois é doloroso. Lembro dele e tenho muita saudade, pois ele cuidava de mim. Na virada do ano, minha mãe estava aqui em casa e, quando me abraçou para desejar feliz Ano-Novo, falou: ‘Tenho tanta saudade do seu irmão’. Disse para ela ter um pouco de paciência, pois, um dia, todos vamos nos encontrar de novo.”

Patricia Fanteza, 44, empresária, Rio de Janeiro (RJ)

“Perdi meu pai, Jorge, há 20 anos, quando ele tinha 52 e eu, 24. Ele foi até a casa da mãe dele, que havia falecido uns seis meses antes, ligou o gás do forno e fechou a cozinha. Ele era uma pessoa amorosa, presente, benquista por todos. Não era aparentemente depressivo, mas não falava muito sobre as próprias emoções, era reservado. Em 1995, me casei e fui morar em Santa Catarina. Três dias depois, recebi por telefone a informação de que ele tinha falecido. Por algum motivo, pude sentir isso. Meu ex-marido atendeu e perguntei para ele: ‘Meu pai morreu, não?’. Depois, soube pela minha mãe que, três dias antes do suicídio, ele estava mais recolhido, deitado e sem vontade de sair do quarto. Na noite em que tirou a própria vida, chegou a ligar para dois tios meus. Um deles era mais próximo, mas não pôde atendê-lo naquele momento. Jamais saberemos se a ligação era um pedido de ajuda. Eu me lembro de que, no início, tinha vergonha de falar a verdade na cidade pequena onde morava. Dizia que meu pai teve um infarto fulminante. Chorava dia e noite, foi muito difícil aceitar. Um dia, meu ex-marido falou: ‘O que posso fazer para não te ver triste desse jeito?’. E eu respondi: ‘Só queria dez minutos com meu pai, para dar um beijo nele e abraçá-lo’. Nesse dia, fui dormir chorando e sonhei com ele. Cerca de um ano depois, em uma noite de tristeza profunda, vi na TV uma propaganda do CVV (Centro de Valorização da Vida), entidade que oferece serviço gratuito de apoio emocional, feito por voluntários. Liguei e foi um alívio. Finalmente, falava com alguém que me ouvia de maneira neutra, carinhosa e respeitosa, sem me vitimizar, nem julgar. Alguns dias depois, voltei para o Rio e acabei me tornando voluntária também.”
Matéria do UOL, publicada em  02.08.2016. Para acessá-la na íntegra: http://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2016/08/02/a-dor-de-quem-carrega-a-lembranca-do-suicidio-de-um-ente-querido.htm

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Conheça o livro que tem a psicóloga Valéria Tinoco entre os coautores:

11008O RESGATE DA EMPATIA
Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Valéria Tinoco, Cristiane Ferraz Prade, Daniela Reis e Silva, Déria de Oliveira, Gabriela Casellato, Maria Helena Pereira Franco, Plínio de Almeida Maciel Jr, Regina Szylit Bousso, Rosane Mantilla de Souza, Sandra Rodrigues de Oliveira, Ana Cristina Costa Figueiredo
SUMMUS EDITORIAL

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como prematuridade, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e, o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.