PACTO DE SILÊNCIO NÃO FAZ BEM A MULHERES QUE PERDERAM FILHO ANTES DE NASCER

Apoio e diálogo dos familiares são fundamentais para superar o luto, mas é preciso respeitar tempo de introspecção das mães. 

Angústia, solidão, descrença. É impossível descrever tudo o que uma mulher sente ao encarar o fim abrupto do sonho de ser mãe. O episódio, que deveria ser celebrado com alegria por pais e familiares, se transforma em um pesadelo, que todos querem esquecer.

O luto de uma mãe que teve um filho natimorto, ou “mãe de anjo” como se chamam, tem particularidades que tornam a perda fonte de questionamento intenso. O bebê já faz parte da rotina e dos planos futuros de toda a família e a expectativa do nascimento é mais forte do que tudo.

“É uma sensação horrível. Você entra com uma expectativa na maternidade e sai de lá sem o seu bebê nos braços. Não faz o menor sentido. Lembro que me senti humilhada e incapaz. Por que só comigo não deu certo, se todas as mulheres estavam lá com seus filhos?”, recorda Daniela Faria, 34. Ela também passou pelo trauma de perder o bebê pouco antes do parto, depois de 38 semanas de gestação.

De acordo com os médicos, natimorto é quando o bebê de 30 semanas ou mais não consegue resistir a tempo do parto, falecendo no útero da mãe.

Cesárea

Tudo ocorreu dentro dos conformes durante a gravidez de Daniela. Os exames rotineiros indicavam que o bebê estava saudável, sem nenhuma complicação. Um aumento no volume do líquido amniótico na placenta, porém, anteciparia o nascimento.

“Dando entrada na maternidade, no dia marcado para a cesárea, a enfermeira tentou escutar os batimentos do coração do bebê. Não ouviu nada. Fui levada à sala de ultrassom de emergência e vi no monitor que nada se mexia na minha barriga. Entendi o que aquilo significava imediatamente”, afirma Daniela.

Ela conta que alguns momentos daquele dia se apagaram de sua memória, por conta do choque sofrido ao receber a confirmação do óbito. Daniela optou pela cesárea, já que o parto por indução seria muito traumatizante. O momento mais marcante da triste experiência foi quando os médicos mostraram o bebê.

“É um choque tão grande que, muitas vezes, os pais não conseguem decidir o que querem fazer em relação a esse momento. Ninguém está pronto para a despedida. Por isso, é importante que algum profissional explique a importância do adeus. Conheço histórias de mães que se arrependem até hoje de não terem visto o rosto próprio filho”, pondera Márcia Rodrigues, psicóloga que estuda o processo de luto dessas mulheres há mais de dez anos. Ela vivenciou a dor da perda abrupta de duas crianças.

Ciclos

Uma atitude muito comum dos pais é o registro do bebê. Ele é vestido e fotografado nos braços da mãe e até dos irmãos mais velhos. Quem nunca teve contato com uma perda dessa magnitude pode encarar as fotografias como um ato que beira a morbidez. Recentemente, um casal americano fez um ensaio fotográfico com a filha que nasceu morta para homenageá-la. O ato, que causou estranhamento para algumas pessoas, teve o objetivo de trazer alento a outras famílias que passavam pela mesma situação.

Além de ser uma maneira de diminuir a saudade, tirar fotos pode também garantir que as feições daquele filho não caiam no esquecimento, algo natural por conta do trauma.

Embora a lembrança deva ser respeitada, é importante compreender que esse ciclo precisa ser encerrado. Não necessariamente de imediato, mas a vida deve continuar. Principalmente se existirem outras crianças dependentes do casal.

“A mulher deve seguir em frente e reorganizar a própria vida. Para isso, vale começar guardando todos os preparativos para a vinda do bebê, como roupinhas e o enxoval. Não há nenhum motivo para manter o quarto da criança montado. Ela precisa se desfazer da arrumação e os familiares podem ajudar nesse momento”, explica Ana Merzel Kernkraut, coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

Daniela quis viver essa fase por conta própria e não hesitou em mandar as roupinhas de bebê para a casa de um parente. “Eu quis respeitar o ciclo. As coisas precisam de um começo, meio e fim. Eu tive que aceitar o que estava acontecendo. Isso foi importante para a minha recuperação”, acredita ela.

Recomeço

O luto não precisa ser negado ou condenado. Sentir-se emocionalmente devastado em uma situação como essa é completamente normal, garantem as especialistas. Esse processo faz parte da reestruturação familiar e do recomeço que a mãe precisa enfrentar. É permitido sofrer e chorar, desde que a inércia não tome conta do dia a dia dos envolvidos com a tragédia.

Manter-se ocupada, de alguma maneira, é o primeiro passo para conseguir superar a tristeza. O sentimento de culpa também entra nessa fase. Muitas mulheres acreditam serem responsáveis pela perda. Assim, as consultas com especialistas e médicos acabam se transformando em um alívio, porque agitam a rotina das mães e as fazem deixar para trás esse sentimento equivocado.

O obstáculo mais difícil de ser superado, porém, é a solidão. Depois da morte do bebê, um pacto de silêncio impera nas famílias, como se o assunto fosse proibido. Todos têm muito receio de conversar com a mulher e acabar soltando algo que a faria sofrer ainda mais.

“Elas têm que chorar e falar sobre o assunto. A família também é responsável pelo fortalecimento emocional dessa mulher. Eles precisam escutá-la. Nesse ponto, a internet tem sido muito útil às mães que tiveram natimortos. Elas conseguem compreender a dor uma da outra porque viveram histórias semelhantes e se ajudam, de algum jeito”, observa Márcia Rodrigues. Mas ela ressalta que o tempo de cada mãe precisa ser respeitado. Se sentir segura para falar no assunto nem sempre acontece de imediato.

Se o casal já tem um ou mais filhos, o diálogo sincero deve acontecer. Mesmo que seja dolorido tocar no assunto. Para crianças mais novas, não é necessário dar tantas explicações sobre o que aconteceu. O fundamental é que os pequenos entendam que o bebê, irmãozinho ou irmãzinha, não chegará ao lar da família.

Tentar novamente

É possível reencontrar forças para acreditar em uma nova gestação. A tentativa não significa que o bebê natimorto será substituído. É apenas a possibilidade de refazer os planos relativos à maternidade. Nenhuma mulher precisa abandonar esse sonho.

Daniela é um exemplo. Logo que recebeu a notícia da perda do bebê, perguntou à médica quando estaria pronta para tentar novamente. Ela e o marido esperaram por volta de nove meses e, na primeira tentativa, o resultado foi positivo. Hoje, Daniela está grávida de cinco meses e acredita que tudo dará certo.

“A vida é algo muito delicado, ninguém tem poder sobre ela. Tragédias acontecem, mas milagres também, como crianças que sobrevivem a partos extremamente delicados. Quanto mais desapegada você for, mais fácil será a aceitação e a coragem para começar novamente”, opina a gestante.

 

Texto de  Giovanna Tavares, publicado originalmente no iG , em 12/08/2014. Para lê-lo na íntegra, acesse:
http://delas.ig.com.br/filhos/2014-08-12/pacto-de-silencio-nao-faz-bem-a-mulheres-que-perderam-filho-antes-de-nascer.html

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Se você que saber mais sobre assunto, conheça o livro:

20060MATERNIDADE INTERROMPIDA
O drama da perda gestacional
Autora: Maria Manuela Pontes
EDITORA ÁGORA
Por vezes o ciclo da vida inverte-se: morre-se antes de nascer. Estará a sociedade civil consciente da fragilidade da maternidade e do vigor desse sono eterno que nos desvincula da existência? Este livro denuncia os processos da dor e do luto em mulheres que enfrentaram o drama da perda gestacional. São testemunhos reais de uma dura realidade que, silenciosa, clama por ser ouvida. Prefácio de Maria Helena Pereira Franco.