Matéria de Luiza Pollo, publicada originalmente no TAB UOL,
em 25/04/2021.

A festa de casamento que ficou para o ano que vem, a mudança de carreira que não veio, o relacionamento que terminou em meio ao convívio extremo. Mesmo quem não perdeu um parente, um amigo ou um colega para o novo coronavírus sofreu alguma perda nesse último ano. No mínimo, perdeu a rotina, a vida como era antes.

Com quase 300 mil mortes no Brasil e ultrapassando as 2,5 milhões no mundo, quem não se infectou ou não lidou com a morte de alguém querido pode se considerar privilegiado. Mas isso não significa que essas pessoas não estejam lidando com lutos profundos.

Reconhecer esse processo pelo nome, luto, é essencial para validar e elaborar os sentimentos que vêm com ele, mesmo que isso não signifique se tornar apático diante da situação e nem mesmo aceitá-la como normal. É o que dizem duas psicólogas especialistas em luto, entrevistadas por TAB sobre a importância de nomear nossas perdas durante a pandemia e como conviver com elas de forma saudável.

Luto não é só quando morre alguém?

Luto não é só quando morre alguém? Não. “O processo de luto é uma possibilidade de elaboração de uma perda significativa. Pode ser perda por morte, pode ser perda de uma situação importante da vida, pode ser um adoecimento”, exemplifica Maria Julia Kovács, professora sênior do Instituto de Psicologia da USP. A psicóloga ressalta que o luto em si não é uma doença. Ele pode, sim, desencadear um processo de depressão, ansiedade ou outros quadros que exigem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, mas cada pessoa vai lidar com ele de uma maneira diferente, dependendo do contexto em que está inserida e de sua saúde mental no momento da perda, entre outros fatores.

Mas por que dar nome? Pode até parecer que o sentimento de perda vai ser o mesmo, independente de como a gente decidir chamá-lo, né? Mas especialistas defendem que reconhecer esse processo e nomeá-lo é importante. “Na medida em que nomeamos e falamos a respeito do que estamos sentindo, dizer ‘puxa, está tão difícil’, damos espaço para a construção de uma narrativa a respeito”, afirma a psicóloga Luciana Mazorra, cofundadora do 4 Estações Instituto de Psicologia, especializado em questões de formação e rompimento de vínculos. Isso ajuda, segundo a especialista, a lidar com a situação e, possivelmente, até levar algo de positivo dessas perdas.

Positivo? Como assim? Calma, a ideia não é romantizar a pandemia e nem dizer que ela vai nos fazer bem. Mas parte importante de lidar com perdas é perceber as ferramentas que temos para isso, e até mesmo criar novas formas de enfrentar momentos difíceis. “Toda situação de perda também nos dá a chance de descobrir recursos para enfrentá-la. Descobrir que damos conta poderia ser um ganho. Isso seria um enfrentamento resiliente dessa situação”, explica Mazorra. Neste momento, de nada adianta dizer ou pensar “calma, isso vai passar”, ressalta Kovács, já que por enquanto não há previsão de quando a pandemia estará sob controle. O que dá para fazer é encontrar a melhor forma de viver neste momento difícil, sem negá-lo. “É preciso saber o que é importante para cada pessoa conseguir tocar a vida com saúde física, com bem-estar, com objetivos, com metas, com alegrias, e também com tristezas. Temos que ver como cada pessoa pode estabelecer o seu modo de viver”, afirma a professora da USP.

Quais lutos estamos vivendo? Esses processos também são bastante individuais, mas, em geral, as especialistas citam alguns lutos comuns do último ano. Perda de emprego, de condição financeira, de relacionamentos, de planos concretos como viagens ou comemorações, da sensação de controle, da liberdade de ir e vir sem medo, da rotina… “As pessoas têm demandas diversas, coisas que são importantíssimas nas vidas delas e de que tiveram que abrir mão. Esse tipo de situação já era caracterizada como luto. A perda de uma situação de normalidade, do mundo presumido, daquilo que a gente conhece, daquilo que é habitual é luto. Sempre foi”, frisa Kovács. Isso tudo além, é claro, da perda de saúde para quem adoeceu, e da perda de pessoas queridas. Calcula-se que, para cada pessoa que morre, há de seis a 10 enlutados. São, portanto, em torno de dois milhões de brasileiros vivenciando esse processo no último ano. “Mesmo você não tendo perdido alguém próximo, essa quantidade incalculável de mortes que a nossa psique não aguenta suportar também leva a uma situação de luto. É uma sensação de mal-estar, uma sensação de vulnerabilidade”, completa.

Luto solitário. Seja qual for a dimensão da perda, os rituais para lidar com ela são essenciais. Neste momento em que o distanciamento físico se impõe, não dá para aparecer na casa do amigo para chorar o fim de um relacionamento, não dá para sair e tomar um cafezinho ou fazer networking depois de ser demitido, não dá para levar uma sopinha e passar um tempo com aquela pessoa querida que adoeceu. “Quem está de luto hoje está lidando com todas as outras perdas concomitantes e, em geral, relata mais solidão”, conta Mazorra. “Nosso papel, como membros de uma sociedade, é de tentar dar o apoio possível para aquele que está sofrendo a perda. Você pode ligar, se oferecer para ajudar em algo, levar um bolo, flores, ou mandar entregar”, sugere.

O quanto é “normal” ter saudade? Em meados de março, os Stories do Instagram ficaram repletos de lembranças das últimas coisas que fizemos antes de a vida virar de cabeça para baixo. Mas é saudável revisitar essas memórias? Será que não faz sentido deixá-las para trás e encarar a nova realidade? Sim, e sim, dizem as psicólogas. O processo de lidar com essas perdas vai ser diferente para cada um, e sentir saudade e compartilhá-la é natural. Mazorra ressalta, inclusive, que há algumas perdas que não devemos encarar como definitivas, e que sentir falta delas é necessário. “Eu acho bom que a gente não aceite tão facilmente isso”, diz ela, sobre o contato social, principalmente, “Que, de alguma forma, a gente ainda sinta saudade daquele momento em que podia simplesmente encontrar alguém na rua e dar um abraço.”

Para ler na íntegra, acesse: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2021/03/24/por-que-e-importante-reconhecer-o-luto-pelas-pequenas-perdas-na-pandemia.htm

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As psicólogas Maria Julia Kovács e Luciana Mazorra são coautoras em livros sobre o assunto publicados pela Summus Editorial. Conheça-os e a outros sobre o tema, que podem interessar:

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LUTO POR PERDAS NÃO LEGITIMADAS NA ATUALIDADE
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Alessandra Oliveira Ciccone, Aparecida Nazaré de Paula Jacobucci, Claudia Petlik Fischer, Cynthia de Almeida, Daniela Achette, Eliane Souza Ferreira da Silva, Elisa Costa Barros Silva, Elisa Maria Perina, Francisco de Assis Carvalho, Gabriela Casellato, Hélia Regina Caixeta, Ingrid Maria (Mia) Olsén de Almeida, Joelma Avrela de Oliveira, Juliana Sales Correia, Luciana Mazorra, Marcelo Roberto de Oliveira, Paula Abaurre Leverone de Carvalho, Paula da Silva Kioroglo Reine, Rafael Stein, Simone Maria de Santa Rita Soares, Tom Almeida, Valéria Tinoco, Vera Anita Bifulco, Vera Lúcia Cabral Costa, Vinicius Schumaher de Almeida, Viviane D’Andretta e Silva

A morte em si já constitui um grande tabu no mundo ocidental. O mesmo se pode dizer do luto, sobretudo quando ele não é visto como tal – são as chamadas perdas simbólicas e/ou ambíguas. Partindo dessa realidade, Gabriela Casellato reúne aqui textos de profissionais da psicologia e de pessoas enlutadas. Dividida em quatro partes – “Os lutos do ser”, “Os lutos do estar”, “Os lutos do cuidar” e “Engajamento social: do silêncio à ação”, a obra conta ainda com um texto especial sobre a pandemia de Covid-19 que varreu o mundo e continua assolando o Brasil.

Entre os temas abordados estão: o luto fraterno, a viuvez e o adoecimento por câncer; os lutos vividos por pais de portadores de autismo e síndrome de Down diante do diagnóstico; a dor enfrentada por aqueles que fogem à heteronormatividade; o luto de mulheres que não conseguem ter filhos; as perdas subjetivas e objetivas dos imigrantes; as dificuldades emocionais de cuidadores formais e informais e da equipe de cuidados paliativos; o luto de pacientes que perdem o terapeuta; a dor silenciada dos religiosos.

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FORMAÇÃO E ROMPIMENTO DE VÍNCULOS
O dilema das perdas na atualidade
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Airle Miranda de Souza, Danielle do Socorro Castro Moura, Durval Luiz de Faria, Elizabeth Queiroz, Gabriela Golin, Geórgia Sibele Nogueira da Silva, Janari da Silva Pedroso, José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres, Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas, Maria Helena Pereira Franco, Maria Julia Kovács, Maria Lucia C. de Mello e Silva, Maria Thereza de Alencar Lima, Maíra R. de Oliveira Negromonte, Roberta Albuquerque Ferreira, Rosane Mantilla de Souza, Silvia Pereira da Cruz Benetti, Soraia Schwan, Tereza Cristina C. Ferreira de Araújo, Vera Regina R. Ramires

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.

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VIDA, MORTE E LUTO
Atualidades brasileiras
Organizadora:  Karina Okajima Fukumitsu
Autores: Ana Catarina Tavares Loureiro, Avimar Ferreira Junior, Daniel Neves Forte, Daniela Achette, Elaine Gomes dos Reis Alves, Elaine Marques Hojaij, Elvira Maria Ventura Filipe, Emi Shimma, Fernanda Cristina Marquetti, Gabriela Casellato, Gilberto Safra, Gláucia Rezende Tavares, Karina Okajima Fukumitsu, Leo Pessini, Marcello Ferretti Fanelli, Marcos Emanoel Pereira, Maria Carlota de Rezende Coelho, Maria Helena Pereira Franco, Maria Julia Kovács, Maria Luiza Faria Nassar de Oliveira, Mayra Luciana Gagliani, Monja Coen Roshi, Monja Heishin, Nely Aparecida Guernelli Nucci, Patrícia Carvalho Moreira, Pedro Morales Tolentino Leite, Protásio Lemos da Luz, Teresa Vera Gouvea

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

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A INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA EM EMERGÊNCIAS
Fundamentos para a prática
Organizadora: Maria Helena Pereira Franco
Autores: Adriana Silveira Cogo, Adriana Vilela Leite César, Ana Lucia Toledo, Ariana Oliveira, Cibele Martins de Oliveira Marras, Claudia Gregio Cukierman, Cristiane Corsini Prizanteli, Cristina Foloni Delduque da Costa, Eleonora Jabur, Ester Passos Affini, Gabriela Casellato, Iara Boccato Alves, Isabela Garcia Rosa Hispagnol, José Paulo da Fonseca, Julia Schmidt Maso, Karina Kunieda Polido, Lilian Godau dos Anjos Pereira Biasoto, Luciana Mazorra, Luiz Antonio Manzochi, Marcelo M. S. Gianini, Maria Angélica Ferreira Dias, Maria Helena Pereira Franco, Maria Inês Fernandez Rodriguez, Mariangela de Almeida, Priscila Diodato Torolho, Rachel Roso Righini, Reginandréa Gomes Vicente, Régis Siqueira Ramos, Samara Klug, Sandra Regina Borges dos Santos, Sandra Rodrigues de Oliveira, Suzana Padovan, Viviane Cristina Torlai

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.

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O RESGATE DA EMPATIA
Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Organizadora: Gabriela Casellato
Autores: Ana Cristina Costa Figueiredo, Cristiane Ferraz Prade, Daniela Reis e Silva, Déria de Oliveira, Gabriela Casellato, Maria Helena Pereira Franco, Plínio de Almeida Maciel Jr, Regina Szylit Bousso, Rosane Mantilla de Souza, Sandra Rodrigues de Oliveira, Valéria Tinoco

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como aborto espontâneo, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.

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