Perdas sucessivas de várias pessoas próximas, por exemplo, criam situações atípicas

Texto parcial de matéria de Samuel Fernandes, publicada no jornal Folha de S. Paulo, em 08/10/2021.

Em 15 de março de 2018, ocorreu o velório da vereadora Marielle Franco, que foi assassinada ao lado de seu motorista, Anderson Gomes, no Rio de Janeiro. Na escadaria da Câmara Municipal, milhares de pessoas se concentraram em luto pela perda da socióloga.

Nessa multidão estava Carla Rodrigues, professora de filosofia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que já tinha vivenciado o luto de perto, quando seu marido morreu de câncer de pulmão em dezembro de 2015.

Esses dois acontecimentos foram importantes marcos na escrita do livro “O Luto entre Clínica e Política – Judith Butler para Além do Gênero”, assinado por Rodrigues e recém-lançado pela editora Autêntica. Na obra, a autora reflete sobre o pensamento da americana Judith Butler e aborda as peculiaridades do luto em contextos extremos, como o da pandemia de Covid-19.

Para Butler, as diferentes formas de viver o luto demonstram as desigualdades sociais —enquanto algumas pessoas têm amplo direito de serem enlutadas, outras não o têm e, por isso, as suas mortes seriam mais naturalizadas.

A partir daí, é possível pensar que a morte de uma pessoa não é somente um acontecimento clínico, mas também algo que diz respeito à política e à ética, já que o modo de tratar essas perdas varia a depender de quem morreu, diz Rodrigues.

Ela afirma que isso ficou muito evidente durante a pandemia, porque desde cedo o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou que o vírus iria se disseminar e que a morte seria algo natural. Isso, porém, não levou em consideração a desigualdade social no país, afirma. Assim, algumas pessoas ficaram mais suscetíveis a infecção e morte por Covid.

Para Rodrigues, “esse discurso só serviu para tentar esconder uma mistura de incompetência e política de descaso” pelas pessoas negras e pela população carcerária, entre outros setores da sociedade.

A razão para isso acontecer, segundo ela, é que essas parcelas da população brasileira já tinham suas vidas desprezadas antes mesmo da pandemia. No livro, a autora remete ao período colonial para mostrar que a violência praticada contra povos indígenas e a população escravizada naturalizou o desprezo por essas vidas e chegou até o Brasil contemporâneo.

O luto no contexto da Covid ainda traz uma peculiaridade que, para Rodrigues, se assemelha à de uma situação de guerra. A experiência de perder sucessivamente diversos entes queridos, como aconteceu com algumas famílias, gera situações muito específicas e diferentes do normal.

“Usando um exemplo [da morte do pai seguida rapidamente pela da mãe de alguém], eu me arriscaria a dizer que tem três experiências traumáticas: a perda do pai, a da mãe e a dos dois ao mesmo tempo. Essas perdas se sobrepõem, se misturam e, em muitos casos, dificultam que o sujeito consiga se refazer depois de situações como essas”, afirma.

Outra referência na área, Maria Helena Pereira Franco, professora de psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e autora do livro “O Luto no Século XXI: uma Compreensão Abrangente do Fenômeno” (Summus Editorial), afirma que, normalmente, a pessoa enlutada recorreria a redes de suporte pessoais, como família e amigos.

No entanto, na pandemia, essas próprias redes estão sendo esfaceladas por causa do alto índice de mortes que o Brasil enfrenta. “Algumas pessoas chegam e falam ‘olha, eu estou enlutado porque morreram minha mãe, meu tio, meu irmão e meu melhor amigo’”, afirma.

Em casos assim, o luto é maior porque, diante da perda de várias pessoas queridas, o sujeito fica sem ter a quem recorrer. Nesse cenário, o trabalho dos profissionais da área da saúde mental também é afetado, com demandas diferentes daquelas com as quais estão familiarizados.

“[A pandemia] requer mais do profissional, porque as pessoas têm apresentado um sofrimento muito grande. Não dá para a gente lidar da mesma maneira, porque as demandas são mais intensas”, diz Franco.

No livro, lançado há poucos meses, a autora explica que o luto é um processo longo —e isso não deve ser visto como algo patológico. “Um luto normal é doloroso, demanda tempo, a pessoa revisita as memórias, toma decisões sem certezas. É uma experiência multifacetada que afeta o indivíduo em muitos aspectos.”

As dificuldades do luto na pandemia também ficam evidentes quando se considera a suspensão de alguns rituais como velórios e enterros com participação de familiares e amigos. Para Franco, esses eventos organizam a experiência de perder uma pessoa amada diante de uma circunstância de grande desorganização, como é o caso da morte.

Ela explica que “usar o recurso da tecnologia [para substituir as cerimônias fúnebres presenciais] foi uma possibilidade […] que ajudou e foi benéfica para algumas pessoas”, mas ressalta que essas alternativas virtuais não têm o mesmo impacto que os encontros presenciais.

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Para ler a matéria na íntegra (apenas assinantes da Folha de S. Paulo ou do UOL), acesse: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/10/mortes-na-pandemia-de-covid-provocam-luto-anormal-dizem-pesquisadoras.shtml

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A psicóloga Maria Helena Pereira Franco, mencionada na matéria, é autora e coautora de várias obras publicadas pela Summus Editorial. Conheça todas abaixo.

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Proposta – RPensar

O luto no século 21

Uma compreensão abrangente do fenômeno
Maria Helena Pereira Franco
R$73,80

Maior especialista em luto do Brasil e pioneira no tema em nosso país, Maria Helena Pereira Franco reúne aqui décadas de experiência no atendimento a pessoas enlutadas e na formação de profissionais que atuam nesse campo. Mais que isso, oferece um amplo panorama a respeito das teorias e pesquisas sobre luto, sempre se valendo do rigor científico e de uma visão peculiar desse processo, que integra aspectos psíquicos, sociais, cognitivos, espirituais e físicos. Tomando por base a teoria do apego, de Bowlby, a autora aborda, entre outros temas, os diversos tipos de luto, seus fatores predisponentes, recursos para o diagnóstico e modos de intervenção terapêutica. Obra fundamental para estudantes e profissionais de Psicologia, Tanatologia, Medicina, Enfermagem e Serviço Social.

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Formação e rompimento de vínculos

O dilema das perdas na atualidade
Airle Miranda de Souza
Danielle do Socorro Castro Moura
Durval Luiz de Faria
e mais 17 autores
R$94,50

Este livro reúne grandes especialistas em formação e rompimento de vínculos. Entre os temas abordados estão os dilemas dos estudantes de medicina diante da morte, a questão das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao enlutado, a morte no contexto escolar, as consequências psicológicas do abrigamento precoce, as possibilidades de intervenção com crianças deprimidas pela perda e a preservação dos vínculos na separação conjugal.

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Intervenção psicológica em emergências, A

Fundamentos para a prática
Adriana Silveira Cogo
Adriana Vilela Leite César
Ana Lucia Toledo
e mais 30 autores
R$105,20

Este livro reúne experiências e reflexões sobre um campo de atuação novo no Brasil: o atendimento psicológico a pessoas em situações de emergência e desastre. Diversos especialistas abordam a importância de cuidar dessas pessoas e os procedimentos e técnicas mais indicados em cada caso. A saúde mental do psicólogo e os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático também são analisados.

; Proposta – RPensar

Resgate da empatia, O

Suporte psicológico ao luto não reconhecido
Ana Cristina Costa Figueiredo
Cristiane Ferraz Prade
Daniela Reis e Silva
e mais 8 autores
R$87,80

O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste volume, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como aborto espontâneo, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e o luto de cuidadores profissionais. Estratégias para lidar com a perda e os transtornos psiquiátricos decorrentes dela também fazem parte da obra.

; Proposta – RPensar

Vida, morte e luto

Atualidades brasileiras
Ana Catarina Tavares Loureiro
Avimar Ferreira Junior
Daniel Neves Forte
e mais 25 autores
R$92,10

Esta obra visa apresentar os principais cuidados e o manejo em situações-limite de adoecimento, suicídio e processo de luto, bem como reitera a visão de que, toda vez que falamos sobre a morte, precisamos também falar sobre a vida. Escrito por profissionais da saúde, este livro multidisciplinar atualiza os estudos sobre a morte, o morrer, a dor e o luto no Brasil. Destinado a psicólogos, médicos, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais etc., aborda temas como: espiritualidade, finitude humana, medicina e cuidados paliativos; cuidados e intervenções para pacientes cardíacos, oncológicos e portadores de doença renal crônica; intervenção na crise suicida; pesquisas e práticas sobre luto no Brasil e no exterior; luto não autorizado; as redes de apoio aos enlutados; a tanatologia na pós-graduação.

; Proposta – RPensar

Psico-oncologia: Caminhos de cuidado

Ângela Maria Diehl
Camila da Costa Parentoni
Carolina René Hoelzle
e mais 38 autores
R$129,50

Psico-Oncologia – Caminhos de cuidado reúne dezenas de especialistas nessa área que cresce a cada dia no Brasil e no mundo. Dividida em sete partes – Temas básicos da psico-oncologia; Psico-oncologia pediátrica; Sobrevivendo ao câncer; Cuidados paliativos, terminalidade e luto; Espiritualidade e câncer; Os múltiplos olhares da psico-oncologia; e Psico-oncologia: interprofissional por princípio –, trata-se de uma obra multidisciplinar. Com seriedade e sensibilidade, os autores tratam de assuntos como a boa comunicação na oncologia, o papel do pai e da mãe no tratamento das crianças, o manejo da dor em oncologia, a morte e o processo de morrer em pacientes oncológicos, a espiritualidade como estratégia de enfrentamento, câncer de mama e sexualidade e o estresse dos profissionais cuidadores. Livro fundamental na área da psicologia da saúde, destina-se a oncologistas, cirurgiões, radioterapeutas, psicólogos, psico-oncologistas, enfermeiros, assistentes sociais, nutricionistas e cuidadores.

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